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Amor, Sublime Amor - West Side Story - Remake 2021

Amor, Sublime Amor | Crítica

Quando se trata de adaptar qualquer coisa para a tela grande, há sempre um empurrar e puxar. O quanto da história você muda, que elementos ressoam em você, como você traz a história para qualquer época em que você está fazendo isso. Às vezes o filme vai subir, sem nenhuma reclamação, outras vezes o filme vai vacilar. O último é como eu me sinto sobre Amor, Sublime Amor (West Side Story, 2021), a nova adaptação do filme de Steven Spielberg e vencedor do Oscar de 10 vezes.

Sinceramente ando bem cansada de tantos remakes (mesmo os da Disney). Sinto falta dos tempos onde criar histórias era a coisa mais interessante do que apenas nos reter a nostalgias.

Devo dizer que não vi o primeiro filme da década e 1960. Então aqui não haverá comparativos ao original, apenas meus pontos sobre essa versão de 2021.

Não sei quem decidiu que colocar Romeu e Julieta como um exemplo de amor verdadeiro seria uma boa ideia, pois quem sabe e já leu a obra original, basicamente é a história de dois adolescente cheio de tesão que não sabiam nada da vida e que praticamente extinguiu as duas familias inteiras e ainda se mataram no meio do processo. Não é sobre amor, é sobre inconsequência. Não é atoa que o conto é conhecido como tragédia de Shakespeare.

Bem, então Amor, Sublime Amor é a história de uma paixão entre dois jovens Maria e Tony, sendo Maria uma portoriquenha, e Tony um Yankee, que faz parte da gangue dos Jets. A rivalidade entre os jets e os portoriquenhos vem tomando proporções grandes demais para que haja um acordo entre eles, então esse fato torna o súbito relacionamento de Tony e Maria ainda mais impossível. E com os rivais entrando em guerra, a tragédia entra em cena para atrapalhar ainda mais os dois pombinhos.

Primeiro que ao se falar de um rekame de um filme da década de 1960 para 2021 eu esperei muito mais algo atual. O filme ainda se passa na década de ’60. Pontos para os figurinos que são de arrasar! Mas, sinceramente, o apelo da história não me encantou em nada. Nunca fui uma pessoa que me encanto por estoneantes histórias súbitas de amor, então não, não gosto da obra de Shakespeare. Então os rápidos dois dias em que Maria e Tony se conhece “e se apaixonam perdidamente”, me parece ainda pior vendo pelos olhos atuais. Ninguém pode amar em dois dias. Amor vem de uma longa jornada de construção.

Se era pra ser romântico, para mim não deu certo.

Dá pra entender o interesse um no outro. Maria é uma garota bonita, inteligente e muito capaz, e Tony tem seu charme. Então vejo o apelo para um interesse, e não a paixão avassaladora que o filme quer te vencer. Mas tudo se torna ainda pior quando Maria ainda aceita Tony mesmo depois do irmão morrer, sabendo o que ele fez. Toda a construção de fazer a personagem ser minimamente inteligente é jogado no lixo nessa cena, e a faz parecer ainda mais ingênua e tola.

Porque não explorar e desenvolver de uma forma mais consistente o relacionamento dos dois? Eles saem uma única vez para um encontro, e lá eles basicamente se “auto-casam” (!!!) e eu fiquei sem entender nada! Como assim querem se casar? Vocês acabaram de se conhecer!!!

Spielberg e o roteirista Tony Kushner tiveram a oportunidade de criar uma história que pudesse ser olhada pelos olhos atuais, mas preferiram se estagnar na década de 1960. Isso para mim foi o ponto mais decepcionante.

Existe uma cena que certamente foi criada para ser impactante. Rita Moreno, que está presente nesse filme vivendo a Valentina, como dona do Doc’s, salva Anita dos Jets depois de uma cena de assédio, e os chama claramente de estupradores, além de ter as outras meninas também lutando para que os caras não a machucassem. Foi o mais perto de alguma emoção positiva que senti no filme. Foi uma cena muito bem construida e pelo que me informaram também uma resposta ao filme original onde a personagem de Rita sofre o mesmo.

Ansel Elgort é um cantor muito melhor do que eu pensava que ele seria, mesmo não sendo tão bom assim, mas sua versão de Tony está sobrecarregada com a história de não apenas ir para a cadeia por um ano, mas por quase matar alguém. Você precisa adicionar uma bandeira vermelha adicional a um personagem para torná-lo mais interessante ou para prenunciar que ele vai matar Bernardo?

Maria, interpretada de forma convincente e cantada com gosto por Rachel Zegler, e ela tem muito mais tempo de tela do que suas outras versões da mesma história. O seu solo na loja onde ela trabalha como faxineira, com certeza foi o que deu a ela o papel de Branca de Neve na Disney.

Mas mesmo que ambos sejam minimamente interessante em seus papeis, eles tem zero quimica em tela. Elgort não entrega a paixão que é tão exigido para te convencer de que eles estão realmente apaixonados. E mesmo Zegler sendo tão incrivel com sua voz não me convenceu de sua paixão. Eu não poderia me importar menos com eles, mesmo que a história seja sobre eles.

Eu fiquei muito mais interessada em saber mais sobre a vida desses jovens, que precisam lutar pra sobreviver em um mundo que não os apresenta oportunidade, em saber mais sobre Anita e seu sonho de virar uma grande estilista do que no romance tórrido entre Maria e Tony.

E aqui vale mais um ponto de observação: um diretor branco tratando de histórias de pessoas latinas – e o grande erro de eles acharem que vão saber como contar suas histórias de forma sincera e sem esteriótipos. Perderam a chance de colocar Lin Manuel-Miranda para brilhar nessse filme.

Apesar de todas as lutas que este filme tem, há algumas coisas que ele acerta de forma absoluta. Mike Faist é incontestável como Riff, o líder dos Jets. Do canto à atuação, Faist tem uma das melhores apresentações do ano. Ele é absolutamente magnético a qualquer momento que está na tela, sendo capaz de canalizar a aspereza externa e colocar a bravata de que precisa para vender esse personagem. 

Além disso, a encenação e o sequenciamento da música foram bem estelares. Ironicamente eu achei muito mais interessante as interpretações de dança muito melhores que todas as músicas cantadas. Em momentos em que os personagens apenas dançavam falava muito mais do que qualquer letra do filme.

É claro que não posso deixar de enaltecer o figurino desse filme e a escolha da paleta de cores que é excepcional, linda e de tirar o folego. Uma verdadeira obra de arte. A cena de Anita e as outras mulheres dançando ao som de “America” é um verdadeiro espetáculo aos olhos. E tudo isso somado a fotografia que é espetacular. O que falhou em história e quimica entre os atores principais, acertou em conceitos técnicos.

E talvez para os amantes do filme original, essa nova versão de Amor, Sublime Amor funcione, mas não consigo imaginar uma história como essa funcionando em um público novo, ainda mais nos dias atuais.

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