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Primeiras Impressões | Dopesick

Se existe algo tão paralisante na vida, nada se compara a dor. Viver com a dor física constante é um enorme obstáculo para qualquer pessoa, que incapacita as atividades regulares diárias. Um caminho para aliviar a dor são os analgésicos, e como qualquer medicamento, o abuso do mesmo pode se tornar um quadro de vício e se tornar uma enfermidade pública. Mas a informação tem o poder de evitar condições epidêmicas de vício, e a falta dela – ou sua manipulação – pode causar ainda maior estrago, mesmo que a motivação seja positiva. Nesta linha chega Dopesick, nova série original Star+/Hulu que adapta um livro de não-ficção de Beth Macy, e chega a plataforma latina no Disney+ Day, e a convite da Star+, já conferimos os três primeiros episódios da minissérie.

Inspirado no livro de não-ficção de mesmo nome, Dopesick segue os principais protagonistas de um dos maiores casos de epidemias de vícios de opióides no final dos anos 1990. Ao longo de anos, acompanhamos médicos, pacientes, empresários, farmacêuticos e agentes da lei e advogados no epicentro de uma onda de crimes e mortes motivados pelo vício na Oxicodona (OxyCondin), analgésico opíaceo lançado em 1995 pela Persue Pharma. O que era para ser um revolucionário método de combate a dor crônica, se tornou um caso de saúde pública e fraude médica.

A minissérie conta com produção executiva de Michael Keaton, além de atuar como um dos principais protagonistas, o médico Finnix, que acabou ajudando a espalhar o medicamente e começar a onda de vício pela pacata cidade mineradora da região da Appalachia Central, de forma manipulativa. Apesar de seu protagonismo, a série divide bem os holofotes, e desenvolve todo o envolvimento, direto ou indireto, a favor, contra ou coagido com a distribuição e venda da Oxycodona, e como o mercado farmacêutico desviou de seu propósito ao focar no lucro, mascarado pela virtude de curar o mundo da dor.

Mas tirando a parte mais investigativa deste artigo, a série tem aquela qualidade narrativa e de produção que estamos acostumados a verem ser indicadas as premiações, e se aproxima do impacto que outra produção da casa – no caso da Hulu – The Handmaid’s Tale pode causa. Enquanto que está toma é uma ficção distópica do presente, que absorve elementos e arquétipos do passado e do gênero de distopia, aqui em Dopesick temos o agravante de ser uma história real, mesmo que tratada como um drama.

Todo a ambientação no final do século XX, bem naqueles anos onde a internet ainda não era tão acessível deixa o clima de acesso à informação tão presente, que acabamos esquecendo que estamos falando de um período até que próximo da nossa realidade atual. E esse é o ponto que a série gira: como a informação, naquela época, conseguiu ser manipulada para fins lucrativos. Temos na personificação do doutor Finnix, que mesmo seguindo recomendações de periódicos médicos, pesquisas e estudos, acabou sendo manipulado para utilizar o medicamento, que se tornou o estopim de uma doença social incalculável.

A série se constrói em diversos núcleos e períodos no tempo desde o início da distribuição da OxyCondin, até o início do julgamento de fraude e acuação de profissionais da saúde em comprarem o medicamento. Temos o núcleo das vítimas, encabeça dos pelo doutor Finnix, que foi manipulado para começar a receitar o medicamente, e temos na personagem Betsy (Kaitlyn Dever) uma personagem que converge os pacientes que são acometidos por dores crônicas, e o início de sua dependência e vício no medicamente.

Além disso, conhecemos os personagens antagonistas da história, a família Sackler, que promoveram, e arquitetaram meios para aprovação do medicamento, e seus planos ambiciosos e os vendedores, que foram os principais peões, e aqui são encabeça dos por Billy Cutler (Will Poulter) e Amber (Phillipa Soo); e do outro lado, a agente do DEA Bridget (Rosario Dawson) e em outro momento, os procuradores de justiça Rick (Peter Sarsgaard) e Randy (John Hoogenakker).

Todos esses personagens que tem papéis importantes dentre desta história, e um envolvimento direto ou indireto, seja ele consciente, inconsciente ou coagido para ser um facilitador para o início da epidemia de dependentes quimicos. Dentre esse grande elenco, devo ressaltar o destaque dele que fica para a atriz Kaitlyn Dever, que é a personificação das vítimas direta da OxyCondin, e que rouba a cena, seja em sua jornada desvinculada a sua dependência, ou os momentos que em sofre com a dor e/ou seu vício.

Mencionei acima “em outro momento” pois a série não tem uma narrativa linear, e isso pode ser complicado. Existe uma conexão entre as transições de um período de tempo para outro, e também de núcleos em períodos diferentes. Mas mesmo a genialidade em contar a história de forma não linear poder ser confuso para a maioria dos telespectadores. Sabemos que hoje em dia muita coisa precisa ser explicada em tela, literalmente mastigada, e uma série que deliberadamente se constrói em idas e vindas no tempo, e conecta nestas transições núcleos distintos, pode ser confuso nos lembrarmos em que ponto do tempo estamos, mesmo com a ajuda visual da data no início de cada novo núcleo, e a cada nova transição.

Fora isso, a história é aquela que você não deve assistir com distrações. Nada de celulares notificando uma foto novo no Instagram, ou uma mensagem num grupo de WhatsApp. A série conta com variadas linguagens técnicas que não ajudam a simplificar a história, mas elas mostram como a manipulação das palavras era um artifício para multinacionais burlarem o sistema, principalmente dos mais desavisados. Encontraremos termos técnicos médicos; termos técnicos de mineradores; termos técnicos de agências reguladora; termos técnicos de direito; termos técnicos de investigação e policial; e em alguns casos, esses termos se chocam, e acreditam, a menor distração, e todo o fio de raciocínio se perde, e você precisará retornar para o início da cena.

Em seus três episódios, Dopesick mostra uma complexidade narrativa e dramática louvável, e que pode ser interpretada erroneamente, caso os mais desavisados não percebam o intuito da série. Ela tem como objetivo mostrar a difícil luta da justiça contra aqueles que, para conseguirem viver sem dor, acabam sendo ludibriados por uma empresa negligente, que focava apenas no próprio lucro, e acabava promovendo uma epidemia de dependentes químicos deliberadamente, e por estarem em alto nível social, acabavam manipulando o sistema a seu favor, o que fica óbvio nas artimanhas dos departamentos de justiça, acobertarem ou calarem quem buscava a verdade e responsabilização da negligência. É uma produção impecável em níveis de atuação, mas que pode ser complicada de acompanhar pela complexidade de sua edição e montagem, e alternâncias entre períodos e núcleos distintos para abordar pontos cruciais na história.

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