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Crítica | Duna (2021)

Depois de Senhor dos Anéis e As Crônicas de Gelo e Fogo, o livro mais denso que li foi Duna de Frank Herbert. Seja por sua ampla e profunda trama politica, por seus detalhes instigantes, e por todas as camadas complexas que permeiam a história. E por isso é um livro tão épico, e ouso dizer que um dos melhores escritos durante o século XX. Do enxame de gambitos políticos bizantinos à propensão humana para a adoração do herói, Herbert usa um cenário futuro longínquo para examinar os melhores e os piores aspectos da natureza humana.

Existem dois temas principais que Herbert explora ao longo do romance: ecologia e religião. Ao utilizar o mesmo cenário para ambos os temas, ele evitou que um romance já longo se tornasse um tomo pesado. Não é surpreendente que o autor faça de Arrakis (o planeta deserto que serve como cenário principal) um organismo vivo que respira, completo com criaturas simples, como ratos do deserto, até as aterrorizantes mas inspiradoras representações dos grandes vermes. 

Mas a religião é usada como um aviso, em particular um aviso contra os humanos colocarem muito poder temporal nas mãos de um líder religioso carismático. Para quem leu o livro sabe que a questão deixada em aberto é exatamente a questão de Paul ser ou não realmente esse messias.

Duna é um livro sobre política maquiavélica. Sim, é um livro sobre um único recurso que gira as rodas da humanidade, que para nós pode ser o petróleo, mas para os nossos ancestrais pode ter sido sal ou ferro, ouro ou seda, e quem sabe o que será amanhã. É um livro sobre ambientalismo, ecologia, tecnologia e religião também.

Mas por trás de tudo está a verdade humana – fundamental, inevitável, gloriosa e trágica, talvez enraizada em nosso código genético. Nós a chamamos de ‘jornada do herói’, mas observe-a aqui como seu gêmeo do mal, ‘adoração do herói’. Em Duna, testemunhamos a criação do Muad’Dib. Vemos isso chegando, assim como Paul Atreides, mas, como ele, nos sentimos impotentes para impedi-lo. 

Minha maior preocupação com essa adaptação seria exatamente como eles trariam para a tela a profundidade e a densidade do livro. Como eles amarrariam e apresentariam as ideias que são desenvolvidas em muitos livros em forma cinematográfica. Isso porque Hollywood passou a considerar o livro como uma espécie de cálice envenenado. Duna já derrubou dois grandes visionários: a visão psicodélica de Alejandro Jodorowsky que desabou sobre si mesma, enquanto a visão tipicamente absurda de David Lynch foi insultada pelos críticos.

Então foi bastante audacioso quando a Warner decidiu reaver esse filme em duas partes, colocando nas mãos do franco-canadense Denis Villeneuve. Valeu completamente a pena, e eu fiquei realmente surpreendida em como ele não se preocupou em condensar nada. Com duas horas e meia de filme, Villeneuve realmente desenrola a história com calma e detalhadamente. Assim como A Sociedade do Anel, Duna é incrívelmente introdutório, longo e denso, e como o livro, épico a sua própria maneira.

Uma adaptação que pega a essência de Duna e transforma em algo épico

Duna de Villeneuve é o verme da areia explodindo da escuridão abaixo. É um filme de tal amplitude literal e emocional que oprime os sentidos. Se todos conseguirem compreender a magnitude desse longa, será então o novo épico, assim como o trabalho de Peter Jackson na adaptação de JRR Tolkien. Na verdade, assim como Jackson, Villeneuve tem uma certa flexibilidade em sua visão que, neste caso, foi sua graça salvadora.

E esqueça telefones ou tablets. O mantra de Villeneuve para Duna é: Vá grande. Faça com que as pessoas queiram saide de casa e que valha a pena ver uma imagem que é um verdadeiro épico, um empreendimento em grande escala digno de seu imenso material de origem multinível.

A história se estende por planetas e está repleta de intrigas intrincadas, promove uma mensagem ambiental (a água é tão escassa em Arrakis que as pessoas devem se vestir em trajes especiais para recuperar a umidade de seu corpo para sobreviver) e apresenta imensas cenas de batalha preparadas. Ele próprio um fã do romance, Villeneuve fez o filme para outros fãs. Mas não só para eles. Ele também fez isso para pessoas que nunca leram o livro. E agora eles não precisarão. O filme capturou o livro com incrível fidelidade.

Duna , então, está firmemente fundamentado no livro de Herbert. A história do autor de nobres feudais travando uma guerra por Arrakis, a única fonte de uma droga poderosa conhecida como especiaria, está repleta de ideias conflitantes que os acadêmicos ainda estão revelando hoje. Para Villeneuve, seus interesses parecem residir principalmente em onde o colonialismo e a religião colidem, especificamente no armamento da crença para controlar uma população.

Villeneuve teve sucesso não apenas graças ao seu domínio inspirado dos elementos visuais da história. Ele conseguiu escalar todo um elenco poderoso, que inclui rostos não apenas conhecidos, mas talentoso: Zendaya – vencedora do Emmy Awards, Timothée Chalamet, indicado ao Oscar de Melhor Ator, Oscar Isaac, vencedor do Globo de Ouro, Jason Momoa – que hoje é um dos ícones do cinema com Game Of Thrones e DCU no currículo, e Rebecca Ferguson que também venceu o Globo de Ouro. Com esses rostos Villeneuve não apenas conseguiu convergir os personagens do livro para a tela, mas alcançar um público que provavelmente não daria espaço para esse filme.

Thimothée Chalamet como Paul Atreides em Duna adaptação do livro homonimo de Frank Herbert dirigido por Denis Villeneuve
Timothée Chalamet como Paul Atreides em Duna // Créditos Warner Brós – Legendary Pcitures

Confesso que eu mesma não sou muito fã de Chalamet, mas dando o braço a torcer, em Duna ele entrega um trabalho incrível. Devo dizer que ele é exatamente o que eu pensava de Paul enquanto lia os livros. Paul é um personagem multifacetado, um jovem evoluindo para a idade adulta e, em seguida, algo além disso, uma figura divina reverenciada pelos guerreiros mas oprimidos Fremen tribais de Arrakis. Chalamet é incrívelmente entregue em seu papel, e de uma sutileza incrível, principalmente nos momentos de mais emoção e menos falas.

Séculos antes dos eventos descritos no romance de Herbert, houve uma revolta que destruiu todos os computadores. Isso fez com que o trabalho de produção de Patrice Vermette e os trajes de Jacqueline West, portanto, evitassem muitas das convenções do design futurista em favor de algo muito mais arqueológico e simbólico. A partitura de Hans Zimmer – que trabalhou em filmes como Interestrelar, Batman: O Cavalheiro das Trevas, e no recente 007 Sem Tempo para Morrer, é tão cheia de pavor que chega a ser assustadora, inclui canto gutural e gaita de foles escocesa.

Mas nem tudo é tão perfeito assim nesse filme, que inclui é claro, a falta de representatividade no elenco. Sim, tem grandes nomes, com muitos talentos, mas para quem conhece o trabalho do autor, sabe que os Fremen – cuja língua, vestimenta e cultura são tão diretamente inspiradas pelas tribos nômades e beduínas árabes – não apresentam nenhum ator do Oriente Médio e do Norte da África (Mena) em papéis falantes em vez de seu líder interpretado por Javier Bardem em um lenço de cabeça inspirado em shemagh. Isso pode ser um grande problema quando – e se for feita – a segunda parte. Espero isso seja revisitado na escolha do elenco Fremen para o segundo filme.

Duna é o mais novo filme de ficção científica e fantasia que promete ser o novo Senhor dos Anéis da nova geração
Da esquerda para a direita: Rebecca Ferguson, Zendaya, Javier Bardem e Timothée Chalamet em seus personagens para o filme Duna

Mas seja como for, Duna trás um novo épico para a geração atual, e que funciona incrívelmente. Uma adaptação que enxerga a alma do livro e consegue transmitir exatamente os sentimentos que temos ao ler o livro. Como adaptação para o cinema, ouso dizer que é a melhor feita desde Jogos Vorazes. As vezes ter um fã na direção faz toda a diferença. Mas não só isso, colocar à frente uma pessoa que compreende o alma do livro é o que fez com que esse filme seja tão épico como ele é.

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