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A Pequena Sereia 1989 - Análise e contexto do filme e da Disney

A Era da Renascença da Disney | A Pequena Sereia (1989)

Como que alguém começa a falar sobre A Pequena Sereia? Um filme tão marcante, tão histórica e culturalmente importante, tão atrelado a memórias afetivas de tantas pessoas, que veio a definir o que era a Disney para toda uma geração e remodelou não apenas o estúdio, mas a indústria animada como um todo, trazendo ambos de volta para a sua glória, perdida a décadas, e elevando os filmes animados a um outro patamar de forma que seu impacto e sua significância pode ser sentida até os dias de hoje? Sim, A Pequena Sereia foi o filme que abriu a tão citada Era Renascença da Disney.

Esse foi o momento onde ele finalmente volta a sua forma depois de duas décadas na amargura, e abriu o precedente para que filmes mais ousados e ambiciosos pudessem sair da casa do Mickey por uma década inteira, fincando o estúdio no imaginário popular e trazendo muitos dos momentos mais icônicos e marcantes de toda a sua filmografia, o que, por sua vez, chamou a atenção novamente para o mercado das animações no geral, que a anos havia sido dado como morto, fazendo com que novos talentos e estúdios se interessassem pelo meio novamente.

Não há palavras que consigam fazer jus à relevância e ao papel de A Pequena Sereia em nossa cultura, simplesmente não há. É totalmente intimidador tentar formatar um texto sobre um evento tão marcante e transcendental quanto A Pequena Sereia — mas é para isso que eu estou aqui.

As primeiras ideias e arranjos

Bem, sendo este um filme da Disney, acho que não há outro lugar onde começar se não com o próprio homem por trás da máquina; Walt Disney. Com o gênero dos contos de fadas animados estando essencialmente morto há exatamente trinta anos antes da estreia de Ariel e seus amigos na tela grande, com o fracasso retumbante de A Bela Adormecida em 1959, faz sentido que, ao reviverem o gênero, os animadores da Disney tenham ido buscar inspiração no passado da companhia, quando esses contos românticos, mágicos e fantásticos ainda eram uma constante por entre as paredes do estúdio, para os momentos de ouro do mesmo, antes de ele se engessar no tempo, para Walt Disney e seus nove anciões.

Antes de Ron Clements, um dos diretores do surpreendente sucesso, ainda que modesto, de As Peripécias do Ratinho Detetive, tenha tido a inspiração para sua versão do conto de fadas dinamarquês de Hans Christian Andersen, o próprio Walt Disney já teria tido a ideia de adaptar o conto para a animação lá nos anos trinta — uma de suas primeiras ideias, aliás, tendo vindo logo após o seu primeiro filme, Branca de Neve e os Sete Anões. A ideia de Disney era fazer um filme de vinhetas, todas baseadas em alguma obra de Andersen, mas, como muitos dos projetos neste começo do estúdio, o filme acabou sendo engavetado.

Clements, por sua vez, se viu inspirado por fazer um filme baseado em A Pequena Sereia, enquanto dirigia O Ratinho Detetive, ao se deparar com o conto em uma livraria, e perceber nele o potencial para um épico animado tal qual os filmes das décadas de trinta, quarenta e cinquenta da Disney.

No já citado (em meu texto sobre Oliver e sua Turma) primeiro Gong Show de Jeffrey Katzenberg, que tomou corpo em 1985 (em suma, nessas reuniões cada animador ficava encarregado em sugerir cinco ideias para novos filmes animados, como uma forma de colocar o departamento de animação funcionando novamente, e caso a ideia fosse vetada, Katzenberg soaria gongo e passaria para a próxima), A Pequena Sereia foi uma das ideias sugeridas por Clements, mas para a surpresa de muitos, ela foi vetada sem cerimônias, com Michael Eisner e Katzenberg alegando que sua premissa era perigosamente similar demais a Splash — Uma Sereia em Minha Vida, live-action produzido pela Disney em 1984 e o primeiro sucesso da companhia durante a gestão de Eisner, sendo responsável pelo retorno da parte em live-action dos estúdios pós-Ron Miller. Ao invés disso, Katzenberg deu sinal verde para “Oliver Twist com cachorros” o que… foi uma escolha no mínimo duvidosa.

Felizmente, Katzenberg voltou atrás um dia depois, e deu sinal verde para que Ron Clements, junto com seu parceiro na direção de O Ratinho Detetive, John Musker, encabeçassem o projeto. Foi aí que, por acaso, a equipe de animadores da Disney encontrou os arquivos envolvendo a antiga versão de A Pequena Sereia, de Walt Disney, incluindo esboços visuais pelas mãos de Kay Nielsen, um ilustrador dinamarquês de grande relevância em seu período, e constante colaborador de Disney no início de sua carreira.

Lá, eles descobriram que muitas das ideias para adaptar o conto de Andersen que surgiram por parte dos animadores atuais da Disney, haviam sido ideias que o próprio Disney e sua equipe tinham corroborado para a versão deles — algo interessante, pois chama a atenção para como este corpo de animadores novo tinha muito em comum em espírito com os antigos, desde sua criatividade e sua vontade de ousar, e não é coincidência nenhuma que foram essas pessoas, com um enfoque especial para Musker e Clements, com sua filmografia notória por casar elementos antigos e clássicos da Disney com ideias e modelos novos, que reintroduzissem este formato para uma nova geração, que recriaram o senso de magia e o coração da companhia, assim como os animadores iniciais do estúdio o fizeram nos anos trinta e quarenta, resgatando todas as qualidades das animações encabeçadas por Disney e, mais uma vez, as introduzindo para toda uma nova geração de pessoas.

Mas mais do que Ron Clements e John Musker, talvez os principais responsáveis por fazer de A Pequena Sereia o que ele acabou se tornando foram Howard Ashman e Alan Menken, o letrista e o musicista, respectivamente, não apenas deste filme, mas de muitos dos maiores sucessos que viriam pelas mãos da Disney pelos próximos anos. A primeira colaboração de Menken e Ashman foi o primeiro sucesso de ambos, o musical de 1979, God Bless You, Mr. Rosewater, baseado no romance homônimo, que obteve críticas excelentes, mas retornos moderados de bilheteria, possuindo um total de quarenta e nove apresentações.

O seu segundo musical foi maior ainda; A Pequena Loja de Horrores, que abriu na off-off-Broadway, e logo encontrou caminho para a off, durando lá por cinco anos e se tornando o musical mais bem sucedido da off-Broadway, além de ter tido uma tour ao redor do mundo, ganhado diversos prêmios e uma adaptação para o cinema, em 1988, com o roteiro escrito por Ashman. Foi graças a este filme que a dupla recebeu sua primeira indicação ao Oscar, pela música “Mean Green Mother from Outer Space”. A primeira colaboração de Ashman para a Disney foi em Oliver e sua Turma, tendo composto a música de abertura da obra, “Once Upon a Time in New York City”, mas foi com A Pequena Sereia que ele e seu parceiro se consolidariam como uma das pessoas mais influentes a já passarem pelo estúdio.

Foi durante sua participação em Oliver e sua Turma que Ashman ficou sabendo sobre A Pequena Sereia, e em 1987 ficou envolvido no projeto, chamando Menken, que, junto com ele, comporia todas a trilha sonora da obra. Mal sabiam eles que o que saíra de seus talentos remodelaria o futuro de toda a companhia Disney para todo o sempre.

A Pequena Sereia como um musical Broadway

Acontece que A Pequena Sereia, por influência de Ashman e Menken, se tornou o primeiro filme da Disney a ser estruturado como um musical da Broadway, com a música sendo imprescindível para a narrativa, e contribuindo tanto para a história quanto qualquer outro elemento, com diversos momentos em si sendo ocupados por grandes e estrondosos números musicais, que não apenas ajudam a dar gás para a história, mas que a avançam de maneira lúdica e envolvente, com as músicas ajudando o espectador a entender melhor o universo do filme e a imergir nele, além de muitas delas serem usadas como veículo para os próprios personagens expressarem seus sentimentos através desta dita canção.

Apesar de a Disney sempre ter flertado com elementos musicais em suas animações, foi aqui onde elas se tornaram musicais propriamente ditos, e isso virou sinônimo de sua identidade, assim como o é até hoje. Ashman também foi o responsável por decidir a identidade musical de A Pequena Sereia, com a ideia saindo dele de transformar o caranguejo inglês, chamado de Clarence, em jamaicano, e mudar todo o estilo musical do filme para refletir esta identidade, com canções caribenhas, e assim nasceu Sebastião e “Aqui no Mar”.

Menken e Ashman se tornaram constantes para o estúdio, e participadores definitivos da Renascença, com sua identidade musical atrelada a mesma. Mais do que apenas responsáveis pela música, a dupla, principalmente Ashman, passou a ter grande poderio criativo em cima dos projetos da casa do Mickey. Howard iria até promover reuniões com os animadores, e muitos dos primeiros filmes da Renascença seriam fortemente influenciados, quando não totalmente construídos em volta de suas canções.

Ele até participaria da escolha do elenco, sempre optando por dubladores com fortes influências no teatro, e sobretudo no teatro musical, para dublar os personagens, e os treinava para que eles proferissem as falas, e, principalmente, as músicas, da maneira com que ele havia idealizado. Mesmo não vindo da animação, Howard Ashman foi a grande força criativa dos primeiros anos da Renascença, e era seu entusiasmo e sua paixão por estes projetos que moviam tudo — ele até chegou a ajudar no roteiro de A Pequena Sereia inclusive, sendo descrito por ninguém menos do que Roy E. Disney como um novo Walt Disney.

Assim, Ashman e Menken se tornaram tão imprescindíveis quanto os animadores e diretores destes respectivos filmes. Segundo Howard, o musical e a animação foram feitos um pro outro, e por isso ele defendia fortemente a continuação de musicais sendo produzidos pela casa do Mickey.

Haoward Ashman, um dos responsáveis não apenas pela parte musical de A Pequena Sereia, mas por toda a produção do filme
Howard Ashman

E, de fato, as músicas de Ashman e Menken são alguns dos principais atrativos para estes filmes da Renascença, e representam a principal inovação dos mesmos. Enquanto que Musker e Clements beberiam muito da fonte clássica da Disney em A Pequena Sereia, se guiando totalmente pela lógica dos contos de fadas vindas dos primeiros projetos de Walt, com seu romantismo latente e senso de inocência e simplicidade, Menken e Ashman foram os responsáveis por corroborar essa básica e simples narrativa, e deixá-la mais recauchutada e criativa com suas músicas, lotadas de personalidade. É como eu disse, a Renascença é marcada pelo casamento do antigo com o novo, e, no caso de A Pequena Sereia, pelo menos, nós podemos facilmente identificar que a parte tradicional foi trazida a mesa pelos diretores, e as novidades, pelos compositores.

Voltando as raizes da Era de Ouro

Logo, o entusiasmo cresceu com A Pequena Sereia dentro dos estúdios Disney, algo que não tinha acontecido com os dois últimos filmes do estúdio produzidos já na gestão de Eisner, As Peripécias do Ratinho Detetive e Oliver e sua Turma, que estrearam cercados de dúvidas e falta de entusiasmo por parte do corpo de animadores e dos grandes executivos do estúdio. Já A Pequena Sereia foi totalmente produzido com grande segurança, de forma que seu orçamento cresceu, sendo este o filme mais caro do estúdio em décadas.

Um estúdio auxiliador foi aberto na Flórida, próximo dos parques do Walt Disney World, de forma a empregar mais animadores para ajudar com a equipe principal na Califórnia. Uma tradição que retornou, após anos estando morta, foi o ato de fotografar atores de carne osso para servirem de modelo e inspiração para o design dos personagens, algo muito comum na época de Walt Disney, e mais um sintoma de que este filme, mesmo antes de sua estreia, já representava um retorno a sua glória para o estúdio.

Bastidores de A Pequena Sereia, com os artistas usando pessoas reais como base para criar os movimentos animados

Muito disso também foi auxiliado por um outro filme, que estreou um ano antes de A Pequena Sereia, Uma Cilada para Roger Rabbit, um híbrido entre o live-action e a animação, produzido por Steven Spielberg e sua companhia, a Amblin Entertainment, com a permissão não só da Disney, mas de outros estúdios como a Warner Bros. e a Universal Pictures para que seus personagens clássicos pudessem fazer participações.

Este filme, que se passa durante a década de quarenta, em um universo onde humanos e personagens de desenhos animados convivem juntos, foi um enorme sucesso, reascendendo o interesse das pessoas na animação, que já estava morta a muito tempo na mente de muitos, com muitos personagens clássicos, como Mickey Mouse, os Looney Tunes, Betty Boop, entre outras figuras da dita Era de Ouro da Animação Americana (que durou dos anos trinta aos anos cinquenta, mais ou menos) fazendo com que o público se lembrasse o que as animações poderiam ser, só faltava algo que de fato confirmasse essas lembranças.

Uma Cilada Para Roger Rabbit (1988)

Entra A Pequena Sereia, determinado a capitalizar em cima da deixa criada por Roger Rabbit, e reascender de uma vez por todas não apenas o interesse no departamento animado da Disney, mas no meio animado como um todo, estreando em dezessete de novembro de 1989 nos cinemas americanos.

A Pequena Sereia marca o retorno a fórmula clássica da Disney

A Pequena Sereia é um retorno a fórmula clássica da Disney, para quando ela adaptava histórias clássicas do imaginário popular, sempre as transformando em algo único e que remetesse à identidade lúdica, doce e inocente que a companhia carregava, sobretudo os contos de fadas, como Branca de Neve, Cinderela e A Bela Adormecida — este último que praticamente matou o gênero quando fracassou nas bilheterias em 1959, levando a Disney a trabalhar com materiais mais seguros e menos fantasiosos, que viriam a ditar toda a Era das Trevas.

Só o fato de os animadores estarem dispostos a retornar para as raízes da companhia, mesmo com toda a estigma que os contos de fadas carregavam consigo, já mostra uma maior determinação e um comprometimento artístico dos mesmos de realmente quererem resgatar a magia que os filmes da casa do Mickey haviam perdido com o tempo. Assim, como seus antecessores, A Pequena Sereia é uma clássica narrativa da Disney; uma princesa que se apaixona, um vilão maquiavélico que quer destruir seus sonhos, e o amor salvando tudo no final; o filme não renova muito nesse departamento, e, assim como os antigos clássicos da Disney, ele termina como uma simples história de amor.

Mas, muito como seus antecessores, também, o segredo de A Pequena Sereia não está tanto em sua história propriamente dita, e sim em sua execução. A graça de ver a versão da Disney destes contos de fadas clássicos nunca foi ver a história propriamente dita, porque a história já era conhecida do público. A graça era ver como os animadores brincavam com essa narrativa básica, o que eles adicionavam a ela, para deixá-la com mais personalidade, e mais única.

Porque a realidade era que não se precisava muito para fazer com que esses filmes dialogassem com o público, não apenas porque os contos de fada no geral são conhecidos da maioria das pessoas, e porque essas histórias fantásticas dialogam sobretudo com as crianças, mas também porque elas dão abertura para muito sentimentalismo e emotividade, que facilitam o diálogo com as emoções do público, e essa foi sempre meio que a prioridade da Disney com seus filmes, tocar o público com suas doces histórias de amor, onde não importa o que acontecesse, tudo ficaria bem no final, e o amor dos protagonistas salvaria o dia — esses filmes nada mais eram do que escapismo romântico para os seus espectadores, tocando tanto as crianças e os adultos com a sua prioridade pela simplicidade emocional e diálogo com os sentimentos.

Então, não havia muito porquê mexer na narrativa propriamente dita e, como eu disse, apenas corroborá-la, para deixá-la mais envolvente e capaz de preencher um filme de uma hora e meia. Foi isso o que Branca de Neve fez, com os sete anões, que aderiam alívio cômico a obra e faziam dela mais divertida, e o mesmo com Bela Adormecida e as três fadas boas daquele filme. A Pequena Sereia aprende essa lição como ninguém, e com um elenco estelar de personagens secundários, se fecha de maneira muito mais envolvente e com personalidade, incrementando a história de amor de Ariel e Eric.

Então, sim, o que funciona em A Pequena Sereia é o que já estava lá nos primeiros filmes da Disney, e ele não inova tanto nesse sentido, como os próximos filmes da Disney inovariam, e serve mais como um resgate e celebração da tradição do estúdio do que uma remodelada na mesma. O que funciona aqui é o mesmo que já estava lá quando o estúdio era controlado por Walt; o senso de diversão e de leveza, e o próprio escapismo romântico, que deixam a história doce e divertida de ser acompanhada, mesmo que nada de outro mundo, com o poderio de esses filmes de nos pegar pelo coração e de nos manter investidos e interessados pelo o que já está acontecendo, mesmo que, racionalmente, nós já tenhamos um conhecimento prévio de que, no fim, tudo terminará bem de qualquer forma, estando intacto aqui.

A estrutuação dos personagens

Muito desse investimento vem através dos personagens; são eles que nos fazem investir na história que nós já conhecemos de cor e salteado, e é graças a eles que nós entramos nesse universo de cabeça, já que eles dão personalidade e novos ares à narrativa, que poderia facilmente ser considerada genérica e engessada, por ser clichê, mas que, graças a esse elenco, se fecha de forma bastante divertida em sua leveza e previsibilidade. As grandes estrelas aqui, como em muitos filmes da Disney, são, de fato, os secundários, e A Pequena Sereia não apenas resgata a presença de secundários e alívios cômicos marcantes, mas os remodela para a Renascença, e os transforma em algo imprescindível para os filmes que viriam depois — a partir daqui todos os filmes do estúdio precisariam de acompanhantes fofos e simpáticos para ajudar a protagonista em sua jornada (e vender merchandising para as crianças), assim como personagens engraçados que aliviariam a história principal com seus momentos cômicos e piadas.

Nem sempre esse formato daria certo, mas aqui em A Pequena Sereia ele funciona muito bem, por estes personagens serem todos genuinamente engraçados e lotados de personalidade. Linguado é o animalzinho fofo obrigatório, que venderia milhões de pelúcias no mundo todo, mas também é mais do que apenas fofinho, sendo o amigo atrapalhado, mas atencioso de Ariel, que faz de tudo para ajudá-la, e estrela cenas engraçadas em suas aventuras com ela.

Sebastião e Sabichão

Mas são os outros dois animais, Sebastião e Sabichão, que realmente brilham aqui, o primeiro por ser um dos personagens mais completos do filme, dividido entre ajudar a garota protagonista a realizar seu sonho, mesmo que ele saiba que esta é a coisa errada a fazer, ou então comunicar às autoridades (o rei Tritão, no caso) o que Ariel pretende fazer, e arriscar prendê-la em uma vida infeliz — com o tempo, Sebastião desenvolve um laço com Ariel e se transforma em um de seus maiores aliados, além de também trazer muitos momentos cômicos consigo, devido a seu jeito pomposo e sério de agir, servindo sempre a voz da razão, em constante contraste com as trapalhadas em que ele se mete quando se muda para o mundo da superfície com a sereia.

Já Sabichão, a gaivota, é o personagem mais assumidamente cômico do filme, sendo o dito especialista sobre o mundo dos humanos com quem Ariel vai se consultar, porém só lhe dando informações erradas sobre como os objetos que ela encontra funcionam, e esse seu jeito burro e atrapalhado estrelarão muitos dos melhores momentos do filme todo. No fim, são esses três personagens alguns dos principais responsáveis por fazer do filme tão divertido e tão querido por tantas pessoas até os dias de hoje.

A Vilã Ursula

Mas a outra grande personagem aqui é ninguém menos que a antagonista da história, Úrsula, a bruxa do mar, outro elemento resgatado diretamente dos filmes clássicos da Disney com suas Bruxas Más e suas Malévolas, e que também abriu um precedente para todos os filmes que vieram a seguir, com seus vilões teatrais e sarcástico. Úrsula é simplesmente fantástica; eu já disse muitas vezes que os vilões da Disney são provavelmente os elementos do estúdio que eu mais gosto, e a bruxa do mar deve ser uma das melhores que esses animadores já entregaram em seus oitenta anos de história.

Ela é tudo o que um vilão da casa do Mickey deve ser; pomposa, exagerada, cômica e assustadora ao mesmo tempo, maquiavélica e terrível, e deixando claro o quanto ela se diverte fazendo suas maldades. As cenas de Úrsula são algumas das melhores do filme inteiro — incluindo seu icônico número musical — e a única reclamação a respeito dela que eu tenho é que ela não aparece tanto quanto eu gostaria, ficando boa parte do filme acompanhando as coisas de longe até finalmente aparecer e interagir mais corporeamente com os personagens e com a história, mas até isso ajuda a pintá-la com mais mistério e fazer dela uma figura mais interessante.

A dublagem de Úrsula também é fenomenal, seja a original, dublada por Pat Carroll, ou a brasileira, dublada por ninguém menos que Zezé Motta. Ambas parecem estar se divertindo horrores dando a voz a vilã, e fazem um trabalho fenomenal capturando a essência jocosa e exagerada da personagem, com sua voz grave e envelhecida, que a deixa ainda mais grandiosa — Pat Carroll, atriz de televisão americana, deu entrevistas falado que um dos maiores sonhos de sua carreira era trabalhar em um filme da Disney, e ela realmente deixa isso transparecer com Úrsula.

Ursula é o grande trunfo entre os personagens de A Pequena Sereia por ser extremanente marcante

Mas uma das coisas que eu mais gosto em Úrsula é o seu design, sua figura gorda, e seu corpo de polvo, que se movimenta de forma hipnótica pela água. Sua figura grande realmente casa com sua personalidade exagerada e teatral, fazendo da vilã ainda mais imponente e grandiosa, e demandando total atenção do público sempre que está em cena. O mesmo pode ser dito das cores usadas não apenas na vilã, mas em todas as suas cenas, sobretudo o seu covil.

Sempre que Úrsula aparece, o filme notoriamente escurece, e o preto e o roxo tomam conta, alimentando a figura assustadora e tensa da vilã, assim como sua essência meio decadente, de quem foi largada às próprias traças, e seu ego e voluptuosidade, que deixam claro, em cada movimento seu, o quanto ela acredita que merece mais do que a vida miserável que leva, e o quanto está disposta a fazer de tudo para realizar seus objetivos.

Divine – a grande inspiração por trás de Ursula

O animador Ruben Arquino foi o responsável por supervisionar a animação de Úrsula, e ele baseou seu design na drag queen Divine, um dos meus fatos preferidos de toda a história da Disney — de fato o estilo teatral, exagerado, decadente e elegante ao mesmo tempo de Úrsula, lembra não só Divine, como o mundo drag no geral. Divine vivia em um mundo completamente oposto ao mundo mágico e familiar de Disney, sendo uma grande figura do movimento independente do cinema, estrelando nos filmes cults e transgressivos de baixo orçamento do cineasta John Waters, que ganharam bastante popularidade com o público independente e cult, virando um grande símbolo da contracultura LGBT dos anos sessenta e setenta, completamente diferente dos filmes infantis e “para toda a família” da Disney.

Mas uma das coisas que eu mais gosto em Úrsula é o seu design, sua figura gorda, e seu corpo de polvo, que se movimenta de forma hipnótica pela água. Sua figura grande realmente casa com sua personalidade exagerada e teatral, fazendo da vilã ainda mais imponente e grandiosa, e demandando total atenção do público sempre que está em cena. O mesmo pode ser dito das cores usadas não apenas na vilã, mas em todas as suas cenas, sobretudo o seu covil. Sempre que Úrsula aparece, o filme notoriamente escurece, e o preto e o roxo tomam conta, alimentando a figura assustadora e tensa da vilã, assim como sua essência meio decadente, de quem foi largada às próprias traças, e seu ego e voluptuosidade, que deixam claro, em cada movimento seu, o quanto ela acredita que merece mais do que a vida miserável que leva, e o quanto está disposta a fazer de tudo para realizar seus objetivos.

O animador Ruben Arquino foi o responsável por supervisionar a animação de Úrsula, e ele baseou seu design na drag queen Divine, um dos meus fatos preferidos de toda a história da Disney — de fato o estilo teatral, exagerado, decadente e elegante ao mesmo tempo de Úrsula, lembra não só Divine, como o mundo drag no geral. Divine vivia em um mundo completamente oposto ao mundo mágico e familiar de Disney, sendo uma grande figura do movimento independente do cinema, estrelando nos filmes cults e transgressivos de baixo orçamento do cineasta John Waters, que ganharam bastante popularidade com o público independente e cult, virando um grande símbolo da contracultura LGBT dos anos sessenta e setenta, completamente diferente dos filmes infantis e “para toda a família” da Disney.

Divine só chegou até os animadores da Disney graças a Howard Ashman, que vinha justamente deste cenário artístico e contracultural de Nova York, sendo um escritor e compositor de teatro homossexual judeu e fortemente marcado por este lado mais artístico e experimental antes de se encontrar trabalhando na Disney, e foi ele que levou esta faceta para A Pequena Sereia, dando a ideia para os animadores a se inspirarem em Divine para criarem Úrsula (Divine morreu um ano antes do filme chegar nos cinemas, em 1988) — sendo este pequeno detalhe apenas mais um dos louros vindos do extremamente bem sucedido casamento da Disney com Ashman.

Saber que Divine foi quem inspirou Úrsula deixa a personagem ainda mais interessante e lhe dá ainda mais bagagem, já que pode ajudar a responder algumas das perguntas deixadas sem resposta pelo próprio filme. Nós não temos muito conhecimento do personagem da bruxa, ela é uma vilã bem direta e sem muitos rodeios, apenas querendo causar o mal e dominar os sete mares, mas sua motivação não é deixada muito clara. Úrsula diz que foi expulsa do palácio do Rei Tritão e que teve que se recolher em seu covil decadente e misterioso, mas não sabemos muito mais do que isso.

O fato de Divine ter sido a grande inspiração por trás de Úrsula ajuda a vermos a personagem por outros ângulos, talvez como uma não-conformista, alguém que foi contra as normas ditadas por Tritão, assim como Divine era uma grande não-conformista e quebradora de normas, e por isso acabou se tornando uma pária naquela sociedade, sendo jogada ao relento e virando alguém nas margens, alguém rejeitada pelo resto daquele mundo. Isso também se amarra a algo que a Disney costumava, e talvez ainda costume, fazer com seus vilões, seja intencionalmente ou apenas um reflexo dos preconceitos sociais enraizados, de codificá-los com fortes tendências e subtextos homossexuais, de forma a deixá-los mais degenerados e ameaçadores, sobretudo quando vistos pelos olhos da dita família tradicional, o principal público alvo para uma companhia familiar como a Disney.

Isto não é algo que começou com Úrsula e que exista talvez até desde Pinóquio, com João Honesto e Gideão podendo muito bem serem lidos como um casal, mas Úrsula é sem dúvidas o ápice entre eles, como sua origem bem deixa escancarado. No entanto, muitas vezes o tiro saía pela culatra, e ao invés de serem desprezados, o jeito jocoso, teatral e espalhafatoso desses vilões, em contraste com o estilo mais quadrado dos protagonistas, atraíram e chamaram a atenção de muitas pessoas, o que justifica o fato de hoje os vilões da Disney serem tão queridos e uma parte tão imprescindível da companhia quanto as suas princesas, por exemplo, e Úrsula é um excelente exemplo disso.

Os vilões achariam popularidade particularmente com crianças questionadoras de sua própria sexualidade e gênero, que encontrariam um maior conforto e inspiração na elegância e teatralidade desses personagens. Além disso, o fato de Úrsula ser uma pária da sociedade está diretamente ligado a Ariel, outra personagem não-conformista e que vai contra as regras estabelecidas pelo seu meio, sendo a diferença entre elas a de que Ariel quer apenas ser livre para realizar seus sonhos, enquanto que Úrsula quer se vingar de todos que a rejeitaram.

A tecnicas de animação e a decicação para A Pequena Sereia

Mas aproveitando que citamos o design de Úrsula, nos atentemos a animação da obra por um instante. Fica evidente o maior cuidado e maior orçamento que A Pequena Sereia recebeu, elevando o patamar visual para lugares que há anos nós não víamos pela mão da Disney. Apenas a escala deste filme é muito maior do que os filmes do estúdio vinham sendo a mais de vinte anos, e a atenção aos detalhes é de admirar. Os ângulos vastos de câmera capturam perfeitamente toda a imensidão do mar, e os animadores conseguiram capturar a essência e a maleabilidade do ambiente, deixando-o perfeitamente tangível.

Nós conseguimos facilmente sentir que os personagens estão se movendo debaixo d’água, com cada movimento por parte dos mesmos, e, segundo consta, para criar o mar em A Pequena Sereia foi necessário o uso de diversos efeitos especiais, coisa que a Disney não fazia de tal maneira desde Fantasia, em 1940, com diversas técnicas distintas, como a aerografia e o emprego da animação computadorizada para incrementar a ambientação, com mais de um milhão de bolhas sendo desenhadas para o filme. Mas o mais impressionante é de fato a escala, com os animadores dando uma atenção absurda para os detalhes, fazendo das cenas mais grandiosas e amplas, para captar todo o alcance e o poderio dos cenários, seja o castelo do rei Tritão, o covil de Úrsula ou a caverna de Ariel, com sua coleção gigantesca de objetos humanos.

A maneira com que a câmera se move por entre essas locações, deixando-as perfeitamente imersivas, quase que engolindo o público, era algo que há muito a Disney não fazia, e diversos momentos me remeteram diretamente aos clássicos realizados quando Walt Disney ainda era vivo — até a reutilização da câmera multiplano ocorreu aqui, porém não muito, já que ela já estava totalmente precária após anos pegando poeira, e não pode ser utilizada em abundância. O uso de efeitos também foi algo fantástico em A Pequena Sereia, sobretudo a maneira com que o filme brinca com a iluminação, como na cena onde Tritão destrói a coleção de Ariel com seu tridente, no naufrágio do navio de Eric e na sequência de Corações Infelizes, possivelmente o trunfo visual de todo o filme, na maneira com que ela brinca com as luzes e com efeitos especiais.

A história de Ariel é o filme que abre a Era da Renascença da Disney

Os animadores também fizeram um excelente trabalho animando os números musicais, perfeitamente coreografados e em sintonia com a música, algo que eu acredito que não deve ter sido fácil de fazer, mas só de ver os personagens dançando e cantando essas canções já contagia o público, e os faz querer fazer o mesmo. Apesar de Úrsula ser o grande trunfo do filme no que tange a animação dos personagens, Ariel também é incrivelmente animada, com seu cabelo vermelho sendo uma enorme parte de sua identidade, e seu design tendo se tornado icônico com o passar dos anos, e uma das principais memórias que as pessoas mantêm desse filme.

Glenn Keane, o responsável por Ariel, fez particularmente um trabalho fenomenal quando a personagem se transporta para o mundo humano, sem que ela possa falar, conseguindo nos mostrar os sentimentos e sensações da personagem apenas com seus visuais e expressões, e mostrar o quão entusiasmada ela estava ao desbravar aquele mundo totalmente novo para ela, a deixando ainda mais fascinante e humanizada.

A Renascença da Disney foi um período onde os filmes não era apenas bonitos como na Era de Ouro ou Prata, mas que consiste em personagens mais substanciais

A Pequena Sereia é definitivamente um primeiro passo na direção certa, com a Disney passando a valorizar o meio animado novamente, e entregando tudo de si para que ele se fechasse de forma polida e bem-feita. O filme não apenas abriu um novo ciclo, como fechou outro — este foi o último filme a se utilizar da animação feita estritamente a mão, algo que a Disney tinha interrompido quando se mudou para a xerografia, e também foi o último filme a se utilizar da própria xerografia. A partir de agora, os filmes animados do estúdio iriam todos ser feitos pelo sistema CAPS, que também foi utilizado aqui, cujo qual, como eu disse no meu texto sobre Oliver e sua Turma, migrava os desenhos dos animadores para o computador, e fazia com que fosse possível a aperfeiçoamento desses desenhos se utilizando as máquinas.

Assim, A Pequena Sereia pode ser descrito como um perfeito casamento entre o passado, o presente e o futuro, fechando portas antigas ao mesmo tempo em que abriu novas, e tudo isso para atingir o melhor resultado possível para os seus visuais.

O Grande Trunfo: A Trilha Sonora de A Pequena Sereia

Mas eu argumentaria que o trunfo indisputável de A Pequena Sereia não são os seus personagens, e tampouco a sua animação, e sim a sua trilha sonora. Como eu havia dito, esse foi o primeiro em uma leva de filmes do estúdio a se adequar à fórmula Broadway, e é esse elemento, trazido por Howard Ashman e Alan Menken, que realmente dá gás à narrativa de A Pequena Sereia, a impedindo de a ficar desgastada, e lhe lotando de personalidade. Com A Pequena Sereia sendo estruturado como um musical da Broadway, o filme realmente se transforma, para além dos contos de fadas clássicos do estúdio, e ganha uma maior profundidade.

Os grandes contos de fadas do período de Walt Disney, apesar de extremamente bem-feitos e envolventes, poderiam ser descritos como bastante simples e até um pouco inconsequentes, sintoma de um período onde as fórmulas narrativas cinematográficas como um todo, ainda mais para as animações infantis, não haviam sido tão sofisticadas e se desenvolvido. Mas aqui, ao empregar a música em si não apenas como um acompanhamento divertido e descontraído, como nos primeiros filmes da Disney, mas como uma parte intrínseca da narrativa, os animadores conseguiram fazer com que nós tenhamos um maior entendimento destes personagens, e fazer com que nós nos importássemos mais com eles, a medida com que eles cantam como uma forma de se expressar para a plateia.

Assim, a história deixa de ser apenas uma simples história de amor com um vilão malvado, onde os heróis salvam o dia no final, apesar de ainda ser exatamente isso, porque as músicas corroboram a narrativa. Normalmente, o cronograma musical dos filmes da Disney pós-Ashman e Menken se segue assim; um número de abertura, que nos dá a oportunidade de conhecer o mundo onde nossos protagonistas moram e como eles funcionam, o número do protagonista, onde ele canta sobre seus sonhos e desejos, o que inicia seu arco narrativo que se encerrará ou com ele realizando seus objetivos ou com ele aprendendo uma lição sobre o que ele realmente precisa ao invés do que ele desejava, o número do vilão, que não apenas nos dá maior entendimento sobre esta figura, mas, assim como o número do protagonista, deixa seus objetivos claros, mais uma série de números descontraídos pelo resto do filme, muitas vezes cantados pelos alívios cômicos. Ou seja, com as canções, os personagens não são apenas um vilão e uma princesa, e nós realmente podemos entender melhor estas figuras, com eles deixando de serem arquétipos genéricos.

A parceria de anos: Howard Ashman e Alan Menken

O principal responsável por trazer este modelo para a Disney foi Ashman, que inclusive pode até ser considerado o terceiro diretor do filme, junto com Musker e Clements. Foi ele quem idealizou A Pequena Sereia como um musical, e o aspecto musical é indispensável para fazer de Sereia o que ele é hoje. Depois de seu primeiro grande sucesso com A Pequena Loja dos Horrores, Ashman encontrou o seu primeiro grande fracasso com seu próximo musical, Smile. Desiludido e tentando se reerguer, Ashman encontrou sua nova casa no formato da Disney e, mais especificamente, em A Pequena Sereia.

E por mais que Alan Menken seja tão imprescindível para o filme quanto Ashman, o trabalho de Menken era mais contido, ele trabalha com ele mesmo. Era Ashman que realmente se envolvia em literalmente todos os aspectos da produção — foi como eu disse, ele foi o grande motivador criativo por trás deste filme, a ponto de até se tornar um dos produtores, junto com John Musker. Howard estava tão determinado a fazer de A Pequena Sereia algo especial que ele marcou uma reunião com os animadores certa vez, e foi nessa reunião que ele disse que acreditava existir fortes paralelos entre os musicais e as animações, e acreditar que uma união entre os dois meios era mais do que mágica, era inevitável. Nesta reunião, Ashman traçou os paralelos entre o cinema musical e o cinema animado, deste os seus respectivos primórdios e aquele presente momento, apontando as suas similaridades.

E ele não estava errado; de fato, não é difícil ver as similaridades entre os dois “gêneros” (aspas porque animação não é tecnicamente um gênero, mas para o propósito desse texto, digamos que ela seja). Assim como a animação, os musicais tiveram o seu auge no início do século vinte, sendo o principal atrativo cinematográfico durante anos (algo similar a o que os filmes de super-heróis representam nos dias de hoje), fazendo rios de dinheiro e sendo celebrados por todos, com filmes como O Mágico de Oz, Amor Sublime Amor, Mary Poppins, Minha Bela Dama e A Noviça Rebelde, até que o público cresceu cansado da repetição no formato desses filmes, e eles vinham fracassando cada vez mais em bilheteria, até que morreram de vez em 1969, com Alô, Dolly.

Próxima da mesma época que as animações, que, já estando mal das pernas desde o surgimento das televisões, quando todos menos a Disney, basicamente, pararam de lançar animações cinematográficas e se limitaram a lançar desenhos animados de fácil produção e de baixo orçamento apenas para fazer dinheiro e gerar audiência, morreu de vez após Walt Disney, que muitos vinham como o único a ainda carregar os espírito das animações das décadas de trinta e quarenta, falecer e o estúdio perder seu rumo e também passar a entregar apenas filmes fáceis e rápidos em sua maioria. Ashman queria, com A Pequena Sereia, reviver os dois gêneros, e fortalecer ambos em seu casamento um com o outro, e foi exatamente isto que ele fez.

Mas Howard foi muito mais do que apenas o letrista; é como eu disse, ele foi praticamente o terceiro diretor. Foi dele que veio a ideia de transformar Sebastião no personagem que ele é hoje, de fazê-lo jamaicano, foi ele quem levou a inspiração de Divine para a personagem de Úrsula, e, mais importante ainda, Howard deixava claro para os dubladores como ele queria que os personagens se expressassem, quase como se essas figuras fossem criações dele.

Em suas gravações com Alan Menken, Ashman interpretava literalmente todos os personagens e depois passava essas gravações para os animadores e dubladores, para que eles soubessem como eram aqueles personagens que ele tinha na cabeça. Na hora da gravação das falas, Ashman sempre estava presente e sempre auxiliando os dubladores. Jodi Benson, com quem Ashman havia trabalhado em Smile e quem ele mesmo trouxe para dar voz a Ariel, disse por sua experiência no mundo da dublagem que antes dele, isto não era comum, e foi Howard que abriu a precedência para um maior casamento entre os dubladores e os diretores (sem falar que o trabalho de Benson é basicamente uma das características mais marcantes de Ariel, e é impossível imaginar qualquer outra pessoa dando voz ao personagem que não ela — segundo Glenn Keane, a figura de Ariel só se materializou em sua cabeça quando ele ouviu a gravação de Jodi Benson cantando — e, se não fosse por Ashman, provavelmente isto teria acontecido).

Pat Carroll disse exatamente a mesma coisa sobre Úrsula; ela pediu para ele cantar “Corações Infelizes” para que ela se inspirasse, e naquele exato momento, Ashman não apenas se fantasiou como a personagem, mas a incorporou perfeitamente, aderindo todos os maneirismos da bruxa em si. Carroll assistiu tudo e pegou cada uma das deixas do compositor para a sua performance — quando ela perguntou se poderia roubar suas ideias para Úrsula, Ashman respondeu; “eu estava esperando que você roubasse”. Ou seja, grande parte do que faz “Corações Infelizes” tão genial veio diretamente de Ashman.

Howard fez muito mais do que apenas compor, ele até escreveu parte do roteiro para Sereia, ele contribuiu enormemente para os personagens, ele deixou o seu DNA intrinsecamente ligado ao projeto. A criatividade latente de Ashman, e sua vontade incontrolável de dominar tudo o que ele tocava quase o fez perder o emprego na Disney, pois não eram todos que conseguiam acompanhar seu entusiasmo ininterrupto, mas felizmente ele conseguiu fincar suas garras n’A Pequena Sereia, mudando completamente os rumos da Disney no processo.

As músicas de Ashman e Menken são realmente especiais, e foram um grande marco no estúdio, que diversos filmes animados até os dias de hoje tentam seguir. Realmente me incomoda quando as pessoas dispensam as músicas dos filmes da Disney como sendo apenas canções tolas para crianças, porque elas são extremamente especiais e bem escritas — essas músicas ganharam prêmios, afinal — e funcionam muito mais como canções que de fato tem um papel narrativo e ajudam a puxar a história para frente, sendo extremamente significativas para as suas narrativas, do que apenas músicas infantis quaisquer que só estão lá para encher linguiça e entreter as crianças.

Além do que, elas são extremamente divertidas e bem escritas. Há um motivo para as canções de A Pequena Sereia serem lembradas até hoje, afinal. “Parte de seu Mundo” é uma das melhores canções de todo o estúdio, e um dos trunfos de A Pequena Sereia. É extremamente difícil assistir à esta cena em questão e não se sentir arrepiado ou sentir vontade de cantar junto — é aqui onde Ariel abre seu coração e expõem seus sentimentos para a plateia, e onde nós podemos realmente sentir uma conexão com ela e entender suas motivações.

Essa música abriu um precedente para a Disney, as ditas canções “eu quero”, onde o protagonista em questão canta sobre seus desejos na vida, e “Parte de seu Mundo” é uma das melhores a vir de todo o estúdio. Junto com a letra e o trabalho fenomenal de Jodi Benson no áudio original está a animação — simplesmente fantástica, com a caverna de Ariel sendo extremamente detalhada e vasta, e os movimentos da personagem enquanto ela nada pela água sendo incríveis.

Jeffrey Katzenberg pensou em cortar a música em questão quando as crianças pareciam entediadas com a cena em uma das exibições-teste, com o filme ainda incompleto. Musker, Clements e Ashman tentaram argumentar com ele, mas no final foi Glenn Keane, o animador de Ariel e principal responsável pela sequência, que conseguiu convencê-lo — felizmente, porque o filme não seria o mesmo sem essa cena.

Depois temos as canções de Sebastião, que são as mais divertidas e envolventes do filme todo, e vieram diretamente da ideia de Ashman e Menken de aderir músicas de cunho caribenho no filme, as casando com o resto das canções, que são mais teatrais e lembram bastante a Broadway. “Aqui no Mar”, um reggae e música que deu o Oscar de melhor canção a Ashman e Menken, é possivelmente a mais memorável de todo o filme, devido a ser simplesmente extremamente divertida e animada, e, mais uma vez, os animadores fazem um excelente trabalho animando o número com os diversos peixes que dançam e interagem enquanto Sebastião canta, o realizando exatamente como um número de um musical, e se fechando de forma sublime e perfeitamente envolvente — é impossível ver essa cena e não minimamente balançar a cabeça.

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Beije a Moça” tem o mesmo efeito, dessa vez do gênero do calipso, com a animação da sequência sendo fenomenal, não apenas o cenário da baía em que Ariel e Eric estão remando, mas, mais uma vez, a coreografia que provém de um musical, com todos os animais cantando e dançando, e termina como outro número extremamente envolvente e que ficará na cabeça de quem quer que assista ao filme.

Além disso, temos “Corações Infelizes”, que não apenas é uma das melhores canções de vilão já provinda de um filme da Disney, sendo extremamente Broadway, com Úrsula já agindo de forma teatral naturalmente, e atingido a máxima potência aqui, com seus movimentos e seus comentários sarcásticos (a parte em que ela fala para Ariel não subestimar o poder da “linguagem corporal” é um dos melhores momentos de toda a história do estúdio), e tanto Pat Carroll quanto Zezé Motta fazendo um excelente trabalho a dublando, mas a animação também é fantástica, com o uso de luz em específico, com todos os raios reluzentes que a bruxa faz surgir de seu caldeirão sendo hipnotizantes e muito bem feitos.

Além disso, a composição instrumental de Menken também vale a pena ser citada, porque contribui imensamente para a atmosfera da obra, e capitaliza nos sentimentos e sensações que essas cenas visam nos passar — o momento em que Tritão destrói a caverna de Ariel é um exemplo magnífico disso.

Roteiro, arcos narrativos e algumas falhas

Mas vamos falar do arco de Ariel. Sim, há muitas falhas. Não podemos apenas dizer que todo o filme é perfeito por toda sua maravilhas tecnicas. Mas a história de Ariel é o ponta-pé para que os próximos arcos de suas protagonistas rumassem além de apenas viver para encontrar um grande amor.

É verdade que nem todos os filmes da Disney pré-Renascença eram básicos e simples, eu poderia facilmente apontar arcos para os protagonistas de Pinóquio e de A Dama e o Vagabundo, por exemplo, mas, em sua maioria, os primeiros protagonistas da Disney eram bem passivos e não tinham muita agência. Aqui, a Disney passa a se preocupar em criar narrativas mais motivadas pelos personagens, corroborando sua fórmula e a atualizando para uma nova leva de pessoas, e para novos tempos. Esses personagens em sua imensa maioria são sempre motivados por uma vontade de se autodescobrir e encontrarem seu lugar no mundo, com suas narrativas sempre se guiando pelo caminho do dito coming-of-age, o que faz desses personagens mais completos e interessantes para os telespectadores. Mas, fica evidente que, em A Pequena Sereia, a Disney ainda não tinha dominado totalmente este novo formato, e ainda estava descobrindo uma maneira de construí-lo.

O filme deixa muito claro sua paixão pelas novidades que o mundo humano trazia consigo, primeiro logo na terceira cena da obra, onde ela procura um navio abandonado com Linguado por “tesouros”, e depois quando nós vemos a sua caverna, onde ela guarda seus ditos tesouros, e canta sobre sua vontade de pertencer a outro lugar que não o que ela estava naquele momento. Isso tudo faz de Ariel uma personagem muito mais interessante e identificável, não apenas porque ela tem um objetivo tangível, mas porque ela deixa de ser apenas um arquétipo e uma personagem passiva e sem vida, ao invés sendo aventureira, desbravadora, curiosa, e lotada de personalidade.

Mas ainda há aqueles que dizem que ela apenas se perdeu ao conhecer Eric. Em partes devemos concordar que isso acontece. Mas eu ainda sou aquela que firmemente defende que Eric foi apenas o meio que ela teve de poder estar no mundo humano. Ela se apaixonou por ele? Sim, ela precisou focar grande parte de sua estadia no mundo humano em conquistar seu coração? Sim, mas porque, não apenas ela queria que ele a quisesse, mas porque Eric era o meio de ela continuar ali e ainda firmar o acordo com a Ursula.

E sejamos sinceros… a pessoas tendem a fazer umas locuras por amor.

Mas para além deste fato sobre ela, precisamos falar sobre ação e consequência, porque apesar de eu defender em partes as ações da Ariel, concordamos que ela apenas recebe tudo que quer, sem ter nenhuma conquência de seus atos, que quase custaram o reino de seu pai, como a vida do próprio Eric.

Ariel desobedece a palavra de seu pai e assina o contrato com Úrsula que dá a ela a oportunidade de tomar o poder do oceano no final da obra, com o filme nunca a forçando a reconhecer o que ela causou e reparar esses danos. Ela nunca tem que encarar seus próprios erros, é recompensada no final, sem que realmente tenha feito por merecer, e seu arco de personagem se torna ainda mais fraco por causa disso. A protagonista não aprende nada, ela não cresce e nem é forçada a amadurecer no decorrer da narrativa, ela apenas quer algo no começo do filme, e o ganha no final.

Úrsula diz para Ariel que meninas não precisam falar, e Ariel nunca prova que ela está errada. Claro que é a voz da personagem que garante seu relacionamento com Eric, e que Úrsula não de fato acreditava naquelas palavras, com elas sendo apenas uma forma de manipular Ariel para arrancar a voz da garota, o que ajudaria seus planos, mas ela nunca de fato usa sua voz, ou qualquer coisa, para resolver o conflito do filme. Seria interessante se Musker e Clements, que também assinam o roteiro, tivessem se aproveitado dessa deixa para dar mais agência para Ariel, e fazer dela provando Úrsula errada ao não ser apenas uma menina passiva e bonita, e salvando o dia, mas, no final é exatamente isso o que ela caba sendo.

O filme acaba valorizando a visão de Úrsula ao tirar qualquer agência de Ariel, e ela não apenas não repara nenhum de seus erros, como também sempre precisa ser resgatada.

Nesse sentido, o rei Tritão é um personagem muito mais completo do que Ariel. Ele sim muda, aprendendo que não poderá cuidar de sua filha para sempre, e aprendendo a deixá-la seguir seu caminho no final. É Tritão quem tem um arco, e é tritão quem tem o conflito interno, mas ao invés nós vemos tudo pelos olhos de Ariel — quase que como um Procurando Nemo, só que visto pelos olhos do filho (e mesmo Nemo tinha um arco mais bem definido e uma agência maior do que Ariel).

Tudo isso sem citar que Tritão provavelmente tinha um ponto para o que ele estava falando — os humanos, de fato, são perigosos, nós vemos isso diversas vezes, mas mais precisamente na cena em que o cozinheiro do palácio de Eric tenta cozinhar Sebastião vivo. Isso sendo um filme da Disney, nós nunca temos que lidar com as implicações dos humanos se alimentando de peixes, e a cena é usada como comédia dentro da obra — não que isso me incomode, afinal não era o propósito desse filme fazer algum tipo de comentário sobre as conflitantes classes sociais e como uma explora e abusa da outra (nós temos Zootopia para isso), mas, no fim, o filme acaba inadvertidamente apoiando a visão de Tritão — porque Ariel é só uma adolescente no final das contas, ela é apenas uma menina entusiasmada que não entende nada sobre a vida e acha que tem a resposta para tudo, sua paixão pelo mundo dos humanos é provavelmente apenas uma obsessão na qual ela projeta para se sentir mais completa.

A Pequena Sereia de Hans Christian Andersen

Algo que pode explicar essa dissonância entre a primeira parte de A Pequena Sereia e sua conclusão é a própria natureza do material original, de Hans Christian Andersen, publicado em 1837. Muito se comenta sobre as diferenças entre a obra de Andersen e a adaptação da Disney, esta primeira sendo muito mais trágica, e também menos lúdica. A sereia do título, que não é nomeada, sonha em ir para o mundo dos humanos, sim, mas não tanto graças a um homem, ou ao menos este não é o seu motivo principal.

Ela se apaixona por um príncipe que resgata do afogamento quando seu navio naufraga, mas a personagem só decide ir em frente com seu plano de ganhar pernas quando descobre que os humanos, ao morrerem, tem a oportunidade de viverem eternamente no reino dos céus — já as sereias, apesar de terem uma vida muito maior que a dos homens, chegando a viver trezentos anos, simplesmente se transformar em espuma do mar ao morrer, porém uma sereia teria a vida eterna concedida a si caso ela se casasse com um humano.

A sereia quer a vida eterna que os humanos desfrutam, e para isso procura a bruxa do mar, que não é uma vilã propriamente dita, e sim mais neutra. A bruxa lhe dá pernas em troca de sua voz — cortando sua língua — mas avisa que cada passo que a protagonista der com seus novos pés vai causar-lhe a sensação de estar pisando em cacos de vidro, e que seus pés iriam sangrar. Ela também avisa que a sereia terá todo o tempo que lhe for necessário para tentar encantar o príncipe e casar com ele, mas caso ela falhe e o príncipe case com outra, a menina se transformará em espuma do mar, ainda assim, a personagem segue em frente com o plano, e procura o príncipe, sendo acolhida por seu palácio, para colocar seu plano de casar com ele e conseguir a vida eterna, porém o príncipe diz que apenas se casará com a mulher que o resgatou de seu naufrágio, quem ele acredita ser a garota que encontrou seu corpo na areia depois da seria tê-lo depositado lá.

A sereia e o príncipe se tornam muito próximos, e ele gosta de vê-la dançar, mesmo que isso a faça sofrer dores inenarráveis, porém a cada minuto que ela passa com o príncipe, a sereia sente dor por saber que ele jamais irá querer casar com ela. O rei e a rainha arranjam um casamento para o príncipe, que ele recusa, por só querer casar com a menina de seus sonhos, mas depois descobre que a princesa a quem ele foi prometido é exatamente a mesma garota que encontrou seu corpo. A sereia é forçada a vê-lo se casar com outra. Para evitar que sua irmã se transforme em espuma do mar, as irmãs da protagonista fazem um acordo com a bruxa, lhes dando seus cabelos em troca de uma faca, com a qual a sereia teria que matar o príncipe para voltar a ser sereia, mas, devido a seu amor pelo homem, ela se recusa e, após a cerimônia, se transforma em espuma do mar.

A Pequena Sereia original era todo pautado pela tragédia da história. O arco narrativo da sereia de Andersen era se deixar levar por suas ambições, e ser punida por isso, seu final trágico era indispensável para o seu personagem — o próprio Andersen voltaria atrás na morbidez de sua história e nos momentos finais, onde, ao se transformar em espuma do mar, a sereia vira um espírito, e lhe é informado que ela só ganhou a oportunidade de se transformar em espírito pelos seus sacrifícios, e que se ela fizer boas ações para a humanidade pelos próximos trezentos anos, finalmente poderá ascender para o reino dos céus e ganhar a imortalidade, mas a maioria dos acadêmicos leem esse texto como uma adição tardia do autor, e não como parte do texto original.

A mensagem que A Pequena Sereia defendia era uma contra a cobiça, com a protagonista sendo punida por sua sede de poder ao querer receber a vida eterna, e deixando sua família e as pessoas que amava para trás para atingi-la, assim como uma mensagem sobre tomar responsabilidade por seus próprios atos, com a sereia não tendo ninguém para culpar por sua situação além dela mesma, e tendo que lidar com as consequências de suas próprias ações — é por isso que ela rejeita a misericórdia da bruxa, não matando o príncipe para poder virar princesa; por entender que, no fim das contas, ele não era o culpado por sua situação, e sim ela mesma.

Obviamente a Disney não podia manter um final tão trágico em um de seus filmes infantis, mas, ao reescrever a história, o estúdio acabou apagando o valor do personagem de Ariel, e deixando-a extremamente desinteressante, porque ela não é punida e não tem que sofrer as consequências por seus atos, mesmo que, assim como a sereia de Andersen, ela tenha cometido sua leva de erros. 

Apesar das falhas, sucesso!

A Pequena Sereia abriu muitos precedentes para os filmes do estúdio que viriam depois, e é de se compreender que, no começo da Renascença, Musker, Clements, e o resto dos animadores ainda não tinham total manejo da fórmula que se provaria extremamente bem-sucedida com o passar dos anos (até que deixaria de ser) e, em A Pequena Sereia, ainda estavam brincando com ela e testando seus limites e possibilidades. A Pequena Sereia é apenas um pequeno passo para o que viria depois, e, com o tempo, a Disney iria conseguir desenvolver narrativas introspectivas de coming-of-age como ninguém, incluindo Musker e Clements, que ainda teriam muitos filmes sob sua direção, e provavelmente muito pouco disso teria sido possível se não fosse por A Pequena Sereia, a fundação na qual todo o futuro da Disney cresceu e se aperfeiçoou.

Jeffrey Katzenberg acreditava que A Pequena Sereia seria bem-sucedido, mas não tão bem-sucedido quanto Oliver e sua Turma, porque, segundo ele, Sereia era um filme para garotas, e filmes para garotas simplesmente não fazem tanto dinheiro quanto os para garotos, “é assim que as coisas são”. No fim, A Pequena Sereia fez duzentos milhões de bilheteria, mais da metade de Oliver e sua Turma, e o mais bem sucedido filme animado da Disney em duas décadas — desde Mogli, o último filme do estúdio a ter a participação de Walt Disney. Se isto não é o sinal de algo extremamente especial, eu não sei o que seria. Porque filmes da Disney, quando feitos da maneira certa, não são para garotas ou para garotos, tampouco para crianças ou adultos, eles são para todos, e dialogam com qualquer tipo de público.

A Pequena Sereia abriu uma série de precedentes para a Disney. A partir de aqui, todo filme do estúdio precisaria seguir a estrutura da Broadway e possuir números musicais, todos precisariam de um vilão maquiavélico e teatral, todos precisariam de alívios cômicos e personagens fofos para vender merchandising por fora, e todos aperfeiçoariam ainda mais o modelo narrativo do coming-of-age e da valorização do personagem — não demorou muito para que as rachaduras nesse modelo começassem a aparecer, mas não aqui, aqui ele ainda era uma brisa de ar fresco, que trazia o estúdio de volta para sua glória de outrora, e restauraria a esperança do público e dos próprios trabalhadores do estúdio de que havia magia para ser feita ali, mesmo após anos no ostracismo.

Essa esperança falou mais alto em Jeffrey Katzenberg e Michael Eisner que, vendo o dinheiro e o sucesso trazido por A Pequena Sereia, acreditaram ser perfeitamente possível a realização de um filme por ano por parte do departamento animado de aquele ano em diante, mesmo que isso significasse ainda menos descanso para os animadores, e mais trabalhos em suas costas, mas Eisner e Katzenberg não se importavam, agora que eles haviam descoberto a mina de ouro que era o departamento animado, o qual os mesmos quase fecharam alguns anos antes por ser considerado um desperdício de recursos e espaço, a dupla apenas queria mais, e era mais que eles iriam conseguir.

A Pequena Sereia, mesmo com suas falhas, demarcou uma total virada de direção para a Disney, que vinha se ensaiando desde a aposentadoria dos animadores antigos e a limpa que Eisner, Wells e Katzenberg fizeram na companhia quando adentraram lá dentro. Tudo o que veio antes, seja a experiência de Musker e Clements dirigindo O Ratinho Detetive, seja a contração de Howard Ashman para compor uma música para Oliver e sua Turma, tudo conspirou para que, assim, um milagre acontecesse, um milagre na forma de uma sereia ruiva que sonhava em fazer parte do nosso mundo, e tudo o que viria a seguir seria graças a esse grande evento na forma de filme, que juntou uma série de artistas apaixonados em prol de um objetivo em comum; criar algo especial. E foi exatamente isso o que eles fizeram, com este algo especial continuando a crescer através dos anos, e transcendendo um único corpo de artistas, tomando proporções inimagináveis, com A Pequena Sereia sendo o primeiro passo da Disney em direção à grandeza, e todos os seus sucessores da década a seguir beberiam de sua fonte e aprenderiam com suas qualidades e defeitos, assim se fechando como o Branca de Neve de uma nova geração.

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