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A Era de Ouro da Disney

As Eras da Disney | A Era de Ouro

Olá, você leitor. Hoje a Geek House começa um novo projeto, onde vamos falar sobre as “Eras da Disney“. Neste especial, vou trazer a história e curiosidades dos filmes do estudio, enquanto contextualizo a história do estúdio e como estava os bastidores. A primeira delas é claro, A Era de Ouro.

Mas antes, vamos apensas relembrar como são divididas essas “Eras”. De uma forma bem simplista, o termo “era” históricamente é uma divisão feita dentro de um determinado período, que o difere de outro. Geralmente o que classifica uma era é a semelhanças do conjunto de acontecimentos, obras e adventos culturais.

A Companhia em sí nunca fez essa divisão, mas grandes estudiosos do cinema e fãs que trouxeram esse termo ao longo dos anos, para expecificar determinados estilos e classifica-los de uma forma mais linear.

Um último destaque é que a Walt Disney é composta por três grandes cannons: Walt Disney Animation, Pixar Animations Studios e DisneyToon Studios. O pilar principal é a Disney Animation, a Pixar é um estudio adquirido em 2006, e tem produções próprias como Os Incríveis, Toy Story e Valente. E a DisneyToon é responsavel pelas produções de orçamentos menores e lancamentos direto em homevideo. Aqui neste Especial trataremos somente dos filmes da Walt Disney Animation, logo filmes dos outros dois estúdios estarão de fora. Por enquanto.

A Era de Ouro: A primeira fase da Disney, é sobre os primódios, fase em que o estúdio estava se descobrindo e testando seus filmes, e qual a recepção do público mediante suas histórias. Ironico que seja chamado de Ouro, já que nesta época o estúdio passou por muitos altos e baixos financeiramente. Essa fase abrange os cinco primeiros filmes do estúdio: Branca de Neve, Pinóquio, Fantasia, Dumbo e Bambi.

Então, senta, que lá vem história!

A história e vida de Walt Disney

Quem não conhece Walt Disney? Começando sua carreia como animador em 1919, confeccionando comerciais, foi em 1928 que Disney encontrou seu primeiro sucesso, na imagem de Mickey Mouse, protagonista de diversos curtas que o animador realizou com seu constante colaborador Ub Iwerks. A carreira de Disney decolou a partir de então, e ele saiu de fazer filmes (que cresciam mais elaborados e impactavam a cultura da época cada vez mais) para trabalhar em diversos campos, desde a televisão até a construção de parques temáticos.

Hoje a Disney deixou de ser apenas um único homem e é uma companhia multimilionária, que está presente na vida de diversas pessoas de todos os quatro cantos do mundo, seja no cinema, na televisão, ou em diversos produtos, como materiais escolares, escovas de dente e balas e doces. Mickey não é mais o pequeno e modesto rato em preto e branco que estrelava os curtas ambiciosos de Disney, e sim uma figura reconhecida mundialmente, que representa todo o poderio econômico e cultural da Disney, que hoje é detentora de diversos outros estúdios, empresas, marcas, e companhias, crescendo como uma multinacional há cada dia.

Neste ponto, Disney pode ser considerado um dos maiores gênios mercadológicos do universo, começando como um pequeno animador do interior dos EUA, que deu o ponta pé inicial para o que veio a se tornar o maior conglomerado de empresas e de ações de todos os tempos, saindo, há muito tempo, de seu controle e se transformando em algo muito maior do que apenas a imagem de um homem franzino de bigode, responsável pelos personagens favoritos de seus filhos.

A Disney, muito mais do que se vender como detentora desses personagens, que incluem desde o Mickey, passando pelas princesas (Ariel, Jasmine, Branca de Neve, etc.) até chegar, nos dias de hoje, aos super-heróis Homem de Ferro e Capitão América e Han Solo e Chewbacca, soube montar toda a sua marca e se vender como a própria representação dos sonhos e da alegria infantil. Os parques temáticos da Disney, mais especificamente o Walt Disney World Resort, na Flórida, é conhecido, literalmente, como o “lugar mais feliz do mundo”.

Obviamente, a ideia de felicidade, aqui, está diretamente ligada à lógica americana capitalista. A felicidade da Disney é a felicidade do american dream, da meritocracia, que pode ser alcançada facilmente por qualquer um, apenas com o poder aquisitivo superacessível do dinheiro. Não existe outra maneira de se obter a felicidade sem que seja comendo um hambúrguer e tomando uma Coca-Cola ao lado de um boneco de pelúcia do Mickey, em uma daquelas ruas artificialmente arquitetadas desses parques, que são tão plastificados e artificiais quanto a ideia da felicidade que representam, com o castelo gigante da Cinderela atrás. Os parques da Disney são um outdoor típico dos anos 50 que vendiam essa ideia do american-way-of-life, em sua forma material e tangível.

Esse impacto cultural que a Disney representa hoje, estando presente em todas as esquinas, em alguma capacidade, nem que seja na mochila de uma criança indo para a escola ou numa embalagem de biscoito, se tornando quase impossível de se escapar, existe há muito tempo, apesar de hoje estar em sua forma mais monstruosa, e só tendendo a crescer com o tempo. A Disney molda a cultura americana, e, consequentemente, mundial, devido à globalização e poderio estadunidense, desde, no mínimo, a década de cinquenta, sendo um dos principais nomes por vender e fundamentar esta noção que temos, da sociedade americana perfeita e infalível, que cresce desde o fim da Segunda Guerra Mundial, onde, saindo como um dos grandes vitoriosos, os EUA decidiram se aproveitar daquele momento de vitória, ainda mais se comparado com a destruição mútua que ocorreu na Europa, deixando o continente em um estado calamitoso, para se vender como o mundo dos sonhos, o “lugar mais feliz do mundo”.

É aí que entra Disney, com seus filmes dóceis e fofos, e seus parques temáticos, cujo primeiro deles foi fundado em 1955, na década onde essa ideia do sonho americano crescia cada vez mais no subconsciente mundial.

Se olharmos para o próprio Disney, e na forma como ele se vendia, poderemos entender claramente a ideia do límpido e perfeito sonho americano. Ele era dócil e simpático, amigável com as crianças, além de extremamente divertido e extrovertido, com seus clássicos paletó e gravata, além de seu bigode, que davam a ele a essência de um simpático e exuberante tio, que vem visitar a família uma vez por ano, sempre trazendo barras de chocolate e brinquedos para as crianças. Muitas das fotos de Walt Disney, se você jogar no Google imagens neste exato momento, serão montagens do próprio com seus personagens; Mickey, Pato Donald, Pateta, fundamentando esta imagem que temos dele, de alguém extremamente criativo, responsável por trazer à vida muitas das figuras de nossas infâncias.

No entanto, segundo muitos, o verdadeiro Walt, que tomava corpo após os lançamentos dos parques temáticos, após as entrevistas, após as estreias de seus filmes, quando as luzes se apagavam e a festa acabava, deixando um rastro de lixo e sujeira que sempre ficam para trás quando a diversão se encerra e as pessoas se dão às costas, era um homem tímido, inseguro e autodepreciativo. Isto para não citar as constantes denúncias de que Disney era racista e antissemita, que são mentidas e desmentidas com mais rapidez que nós conseguimos trocar de meias.

De fato, não conseguiremos nunca saber, ao certo, como era a personalidade de Walt de perto, e o fato de ele ser um ícone cultural sempre gerará burburinhos e sua existência será sempre cerceada de mistérios e de fofocas, devido à fascinação do público para com essas figuras tão imponentes que, ao mesmo tempo que parecem serem calorosas e acessíveis para com seu público, sempre serão, de alguma forma, mais distantes do que parecem, e nós teremos que nos contentar com os constantes questionamentos à cerca da vida pessoal delas, nunca tendo as respostas de fato.

Ainda assim, a história de Disney parece ter sido toda fabricada para nos dar esta sensação de superação, para se adequar à clássica narrativa do “siga seus sonhos que eles se realizarão”, do oprimido que conseguiu dar a volta por cima e se tornar o herói. Walt nasceu em 1901, em Chicago, filho de Elias e Flora Disney, o quarto de cinco filhos. Logo, a família Disney se mudou para o Kansas, na região do centro-oeste americana, área das grandes fazendas e plantações, conhecida por, e representada em diversos filmes, séries, livros, e diferentes formas de entretenimento, como a região mais sem graça, mundana e banal do país, onde nada acontece, e as pessoas estão relegadas a viverem vidas sem graça e pouco interessantes, presos naquele ambiente sem brilho do interior, onde o glamour das grandes metrópoles como Nova York e Los Angeles é inexistente.

Assim, Disney era integrante de uma típica família americana, morando no interior com quatro irmãos. Tudo estava lá para uma clássica narrativa ala Patinho Feio, onde o irmão tímido e que não se destacava sai de Kansas e vai brilhar em Los Angeles, se transformando em uma grande estrela de cinema. Mas tudo ao seu tempo.

O papai Disney, aparentemente, tinha muitos problemas financeiros, sempre abrindo negócios modestos, mas que faliam e ele precisava recomeçar do zero, tendo sete bocas para alimentar. Ao chegar no Kansas, Elias abriu uma companhia de construção, depois uma fazenda, e depois um serviço de entregas de jornal.

Vivendo em uma casa lotada, a família Disney tinha uma dinâmica típica a de colmeias ou dos formigueiros, onde todos davam o máximo de si e “trabalhavam duro”, fazendo sua parte para que conseguissem se sustentar (ironicamente, o fato de Elias não conseguir sustentar nenhum dos serviços que abria, por si só, pode ser lido como uma consequência da sociedade capitalista americana, onde os pequenos e médios trabalhadores são engolidos pelas grandes corporações, e relegados à se adequar àquele sistema como peixes pequenos lutando por partículas de farelos, bem diferente da sensação meritocrática que a história da vida de Walt quer nos passar, de que tudo é possível se apenas trabalharmos duro para realizar nossos sonhos).

Walt, com nove anos, e seu irmão mais velho, Roy, acordavam às três e meia da manhã para ajudar seu pai a distribuir os jornais na vizinhança, muitas vezes debaixo da neve congelante que os consumia.

Para se consolar em sua infância triste e trágica de integrante de família pobre do interior, Disney tinha apenas a seus desenhos, que mantinham sua esperança viva naqueles tempos cabuloso e difíceis. Walt começou copiando os desenhos dos jornais e revistas e logo foi se aperfeiçoando, com o uso de lápis de cor e gizes de cera. Correndo atrás de seus sonhos e se recusando a desistir, como um bom representante do sonho americano, o pequeno Walt se matriculou em cursos gratuitos de desenho, à noite e durante o final de semana, em universidades, além de também se matricular em um curso à distância.

Durante o ensino médio, Disney virou o cartunista do jornal de sua escola, e desenhava imagens patrióticas sobre a Primeira Guerra — ele era, quem diria, também um patriota, valorizando aquela terra honrada americana, onde todas as pessoas eram livres para sonhar.

Não demorou para Disney tentar se alistar na própria guerra, inspirado por seu irmão, Roy. Só que Walt era muito novo para isso, e foi recusado. Não querendo abaixar a cabeça e perder a oportunidade de servir seu país, como todo americano de respeito, Walt forjou a própria idade para poder ser aceito pela Cruz Vermelha, e foi enviado à França, como motorista de ambulância para socorrer feridos. Como se não bastasse todo esse altruísmo e heroísmo, Disney ainda decorou sua ambulância com desenhos por toda sua lateral, mantendo seu espírito vivo entre aquele momento tão triste e caótico.

Assim, podemos perceber que Walt Disney é um típico americano comum. Vem de família grande e pobre do interior, onde tinha que trabalhar desde pequeno para ajudar seu pai nas despesas, mas sem nunca deixar seu sonho morrer. Disney também era um patriota e um herói de guerra, que levava os valores desta sociedade americana consigo. Tudo em sua vida parecia estar o levando para a clássica narrativa da volta por cima, e foi exatamente isto o que aconteceu, como sabemos.

Aquele garoto pobre e caipira se tornou um dos maiores ícones da cultura americana, além de incorporar os seus valores e a mensagem de que tudo é possível se apenas trabalharmos duro, máxima do sonho americano, em si. Não é atoa que ele foi tão celebrado. Disney não apenas representa o imperialismo estadunidense, ele também representava, enquanto vivo, a validação e confirmação daqueles valores moralistas e meritocráticos que permeiam aquela terra.

Porém, independente de como nós escolhemos por vê-lo, seja como, de fato um dócil e excêntrico homem, que deixava sua criatividade guiar sua vida, e fazia tudo pelo amor que tinha pela sua arte e pelo seu público, ou como um homem que é a representação em carne e osso do imperialismo cruel e sanguíneo americano, que se esconde atrás de propagandas coloridas da Coca-Cola ou pela figura simpática de Mickey Mouse para exercer sua soberania sobre as outras nações e mantê-la sobre seu controle, aos poucos as drenando de suas culturas e particularidades, o fato é que não podemos ignorar sua significância para a indústria da animação.

Apesar de eu concordar que existem muitas críticas passíveis de serem feitas ao Disney e à Disney, nós não podemos negar o impacto que este homem causou no mundo do cinema animado, mesmo que sua companhia tenha crescido cada vez mais e saído totalmente de qualquer controle, até se encontrar no status onde está hoje, detentora de diversas subsidiárias e crescendo cada vez mais. Facilmente podemos dizer que hoje a Disney é pelo menos 50% do mercado cinematográfico. E isso é muita coisa!

Mesmo que, sem sombra de dúvidas, a preocupação mercadológica tenha se feito muito presente a medida que Disney e seu estúdio iam crescendo, eu acredito que ele ainda prezava por sua arte e por seus projetos, querendo entregar obras de qualidade e que ressoassem com seu público, deixando seu lado mais corporativista e mercenário mais voltado para seus parques e seus programas de televisão. Esta preocupação, em ainda manter uma certa qualidade em suas obras, se mantém até hoje, na Disney atual, que, com seus filmes animados, quer, de fato entregar boas histórias, apesar de haverem inegáveis e incontáveis erros por sua jornada, de mais de 90 anos e cinquenta e nove filmes principais. Mas, se formos fazer um balanceamento geral, veremos que a maioria das obras do dito Walt Disney Animation Studios, estúdio principal do conglomerado que veio à se tornar a Disney, é positivo.

E tudo começou, como citado, com a criação de Mickey Mouse. Após a guerra, Disney foi procurar trabalho como artista, e, como eu disse, arranjou seu primeiro emprego em um estúdio voltado para a confecção de comerciais. Foi lá que Walt conheceu Ub Iwerks, com quem viria a trabalhar muitas vezes no futuro, até mesmo na criação de seu personagem mais famoso. Os dois trabalhavam na produção de comerciais que utilizavam da animação, e, à noite, criavam suas próprias produções.

Logo, os dois tinham seu próprio estúdio, e Walt já começava a trabalhar com elementos inovadores para a época, que iria aperfeiçoar a medida que sua carreira iria avançando, e, aos poucos, ele explorava todas as possibilidades que a animação, ainda em seu estado extremamente bruto (sem cor, sem som e estática, muitas vezes) poderia atingir, deixando claro que estava querendo aperfeiçoar seu trabalhado e entregar um produto de qualidade, mesmo em um mercado tão pequeno e limitado quanto o das animações era, na década de vinte. Esse perfeccionismo de Disney possuía consequências, no entanto, e seus projetos não conseguiam se pagar, o que fez com que ele tivesse que fechar seu modesto estúdio com Iwerks e seguir para outros projetos.

O Início de tudo: Steamboat Willie e a Era de Ouro das Animações

Em 1923, Walt e seu irmão, Roy, fundaram o modesto Disney Brothers Cartoon Studios, onde realizaram pequenos curtas animados, que seriam distribuídos por outros estúdios maiores. Depois de se aventurar por pequenas esquetes televisivas, com Alice’s Wonderland e Oswaldo o Coelho Sortudo (basicamente um protótipo do que viria a ser Mickey Mouse), Disney finalmente, em uma viagem de trem de volta para casa, depois de acabar de ser demitido da produção de Oswaldo, visualiza sua primeira grande ideia, que daria início e começaria a dar corpo a sua carreira. Estamos falando, obviamente, de Mickey Mouse. Junto de Iwerks, Disney decidiu usar aquela figura, criando pequenas esquetes de animações primeiro, para depois buscar distribuição, cansado do jogo corporativo e da questão dos direitos autorais.

Assim surgiram os curtas Plane Crazy O Gaúcho Galopante. Porém, foi com seu terceiro filme, Steamboat Willie, que Mickey estourou na boca do público. Em uma empreitada perigosa, Walt decidiu empregar som no seu curta, sendo que a sonoridade em filmes era algo extremamente novo, e com muitos detratores, que defendiam que a técnica não iria durar, e o cinema mudo continuaria sendo a norma. Quando suas ideias de como fazer o som funcionar no filme não coincidiam com as da empresa responsável por fornecê-lo, Disney resolveu solucionar o problema com suas próprias mãos, mais uma vez se provando como perfeccionista. Assim, Steamboat Willie foi um verdadeiro estouro com o público, e apesar de não ser a primeira animação com som, foi de longe a mais popular na época, ajudando não só a pavimentar o caminho para o uso de som no cinema, mas para as animações como um todo.

Mickey logo se tornou extremamente popular entre as crianças, e seus filmes se multiplicaram. O rato se tornou o ícone popular que conhecemos hoje já no final da década de vinte, e seus merchandisings começaram a pipocar para todo lado. O público se apaixonou pela doçura e simplicidade de Mickey — Ao contrário da maioria dos personagens animados da época, que eram bastante grosseiros, como uma forma de fazer humor, Mickey era uma figura fofa e delicada. Isto logo se tornou um problema, pois Disney e companhia tinham que tomar muito cuidado na maneira que conduziam Mickey em seus curtas, não podendo colocá-lo fazendo diversas piadas visuais que encontrávamos em outras animações, como Popeye e os Looney Tunes, para não manchar sua imagem delicada e amigável que tinha, sobretudo com as crianças.

A solução para este problema foi encontrada no elenco de apoio de Mickey, que crescia cada vez mais, com Minnie e Pluto, que não tinham o peso que Mickey tinha em suas costas, e podiam se dar liberdade para se movimentarem de forma mais grosseira e caricata, sobretudo os personagens de Pato Donald e Pateta, que vieram depois. Logo o elenco de apoio de Mickey foi se tornando muito mais atrativo e roubando os holofotes do próprio.

Steamboat Willie deu início ao período na história das animações denominado de A Era de Ouro da Animação Americana — Era Walt Disney já iniciando sua carreira no mercado com um estrondo e tanto, o remodelando e impactando logo em seus primórdios. A era se prolongou de então passando por toda a década de 30 aos anos 40. Foi durante este período que muitos personagens icônicos dos desenhos animados, conhecidos até hoje, passaram a surgir, como Popeye, Betty Boop, os Looney Tunes, Mr. Magoo, Tom e Jerry e Droopy. Até este momento, as animações não chamavam a atenção do público, e o espaço que tinha na indústria era muito pouco (uns dos poucos trabalhos bem-sucedidos com a animação nos períodos precedentes à Era de Ouro eram O Gato Félix e a série Out of the Inkwell).

Foi Steamboat Willie e a utilização do som neste curta que chamou os holofotes de volta às animações, as tornando extremamente populares nos anos subsequentes. Características dos desenhos dessa época incluem o visual preto e branco — mais tarde com as cores sendo adicionadas — o uso de músicas, e o humor absurdo e exagerado, que utilizava de muitas piadas físicas e teatrais para arrancar risadas da plateia. Além de Disney, outro grande nome deste período foi Tex Avery, que foi em direção completamente oposta ao trabalho do criador do Mickey (que havia se tornado a norma, com vários outros estúdios querendo capitalizar em suas características e formatos, à medida que a Disney crescia mais popular), introduzindo este estilo mais livre e louco de se fazer animação, utilizando de diversas situações absurdas e ridículas para fazer humor, diferente do estilo mais dócil do estúdio de Walt, que se prendia em amarras mais infantis em seus trabalhos.

Após Steamboat Willie, Disney iniciou sua série conhecida como Silly Simphonies, que durou por dez anos, que ele usava como uma plataforma para a experimentação e aperfeiçoamento de técnicas em sua animação, para ver até onde poderia ir. Silly Simphonies, assim como as animações da época, era composta por diversos curtas soltos, que não tinham ligação entre si, e duravam, em média, seis minutos. O primeiro deles foi A Dança dos Esqueletos. Depois de aperfeiçoar o uso de sons, Disney passou para o uso de cores, ainda uma técnica extremamente nova e pouco explorada, empregando o uso da técnica technicolor, fornecida por uma empresa de mesmo nome. O curta Flores e Árvores foi a primeira animação a usar cores, mas foi com Os Três Porquinhos, de 1933, que a técnica estourou completamente.

Assim como o uso de som, Disney não foi o primeiro a se desbravar por meio do cinema colorido, mais foi fundamental para popularizá-lo. Assim como seus filmes, que não eram ideias originais, Disney pegava esses conceitos já existentes e os reforçava, e os remodelava, dando a sua própria cara a eles. Flores e Árvores foi o primeiro filme a ganhar o Oscar de melhor curta animado, categoria que Disney viria por dominar nos anos seguintes.

O início da Era de Ouro da Disney

Disney e seu estúdio cresciam cada vez mais e iam ficando cada vez mais ambiciosos, mas sempre valorizando a qualidade de seus produtos acima de qualquer outra coisa. Muitos desses primeiros filmes do diretor mal se pagavam, devido aos custos da produção, e o perfeccionismo de Walt fazia com que ele não fosse o melhor chefe do mundo, trabalhando com sua equipe, que crescia à medida que o estúdio crescia, exaustivamente, querendo arrancar deles a mesma perfeição que ele se cobrava tanto para atingir.

Este mal-estar entre o animador e seus trabalhadores desencadeou uma greve em 1941, mas ainda assim, muitos dos aspirantes à animadores da época sonhavam em trabalhar com Disney, devido ao primor visual e criativo que eram suas obras. Enquanto isso, seu irmão, Roy, se tornou o braço direito de Walt, se tornando responsável pelas questões financeiras e mercadológicas do estúdio, enquanto Disney se preocupava quase que totalmente com a área criativa.

À medida que Disney crescia mais e mais ambicioso, ele ia ficando cada vez mais dessatisfeito com a produção de curtas animados. Depois de começar a lapidar sua arte, que começou em sua forma bruta, aperfeiçoando o uso de som e a cor, e conseguindo um tremendo reconhecimento, ganhando diversos prêmios e sendo catapultado para o estrelato, como um dos maiores nomes dos desenhos animados, Walt queria mais. Obviamente, o passo lógico a seguir, depois de anos aperfeiçoando sua técnica e trabalhando com curtas-metragens, seria produzir um longa animado, e foi exatamente isto que fez.

Querendo nada menos que a perfeição, Disney foi tomando todas as medidas necessárias para que seu sonho fosse possível, aumentando sua equipe de animadores, os inscrevendo em cursos de arte para que aperfeiçoassem suas técnicas, trazendo animais e atores para o estúdio para que sua equipe os estudasse e estudasse seus movimentos, querendo que seu filme fosse um estouro e de uma qualidade técnica impecável. Além disso, Disney queria avançar tecnicamente para que sua próxima obra fosse perfeita, e para isso foi desenvolvida a câmera multiplano, o que tornou possível que a movimentação de câmera, que sempre foi usada nos filmes em live-action, fosse possível, também, na animação, elaborando mais os cenários animados, que sempre foram muito estáticos e parados, deixando-os mais profundos, os dando uma maior textura, e um maior sentido de espaçamento, além de permitir um uso maior de efeitos especiais mesmo em desenhos feitos à mão.

Muitos criticaram Disney, em um primeiro momento, pelo uso deste tipo de câmera, o acusando de querer deixar suas animações mais realistas, alegando que assim elas perderiam seu brilho, mas o animador não lhes deu ouvidos, querendo deixar seus filmes animados ainda mais tangíveis, e críveis, e assim, aumentando seus laços para com o público.

Em um primeiro momento, a ambição de Disney, de querer elevar suas animações ao patamar dos longas-metragens, se tornou risível entre a comunidade cinematográfica da época, prevendo que não só esta empreitada seria um fracasso total, como levaria Disney à falência. No entanto, o animador, como sempre se empurrando para a grandeza, querendo se aperfeiçoar cada vez mais, confiou no que estava fazendo, e, com isso, revolucionou o mercado animado, o mudando para todo sempre.

Assim como muito do trabalho de Walt, ele não foi o pioneiro em realizar um filme animado em longa-metragem, mas foi responsável por aperfeiçoar este modelo e o elevar à um novo patamar, mudando a história das animações para todo o sempre. Disney estava se preparando para este momento desde antes de abrir um modesto estúdio com seu irmão na promissora Los Angeles. Sendo mais uma das pessoas que se mudou para a Costa Oeste, atraído por todas as possibilidades que aquele território inexplorado reservava, vendo potencial ali e querendo, como muitos, semear seu talento naqueles solos californianos, toda a jornada de Walt até então o levou para este ponto, onde tudo estava dependendo dele, e todos estavam esperando para ver o seu grande truque, e ele não ia parar ou hesitar em entregar tudo de si para sair vitorioso.

Desnecessário dizer, então, que a empreitada deu certo, e começando com Branca de Neve e os Sete Anões, de 1937, que, com os filmes que se seguiriam até Bambi (1942) formaria a Era de Ouro dos estúdios Disney, iniciou um impacto que se é sentido até hoje, começando com formatos e modelos que ainda são usados, pavimentando o caminho para todos os filmes animados hollywoodianos que se seguiram. Sem Branca de Neve e os Sete Anões, é provável não só que não teríamos os outros cinquenta e cinco filmes realizados pelo estúdio principal da Disney, mas que muito do mainstream animado também não tivesse chegado a existir, e a animação jamais se alimentaria do prestígio e do sucesso que tem hoje. Por isso, por mais que a figura de Disney, e sua empresa, sejam controversos, seu impacto e sua significância histórica são inegáveis.

E, talvez, nenhum outro período da história do estúdio seja tão ousado como a dita Era de Ouro. Por estar se desbravando por territórios desconhecidos, esses filmes se deram diversas liberdades de se explorar e de não se limitar, seja na técnica ou na narrativa, característica que não encontramos muito hoje no departamento animado de Hollywood, que segue cada vez mais engessado.

Foi esse período que iniciou a dita magia da qual a Disney tanto se gaba, nos transportando para seus mundos lúdicos e dóceis, cheio de possibilidades, nos abraçando e nos reconfortando depois de um dia triste, e nos afirmando que, não importa o que aconteça, tudo ficará bem no final das contas, e teremos nosso final feliz. Foram esses cinco filmes que estabeleceram o padrão inicial pelos quais muitos dos filmes animados mais abrangentes são medidos, e levaria muito tempo até que a indústria se desvirtuasse do mesmo, esperando por um estouro e um marco tão grande quanto o que Walt Disney nos entregou em 1937, e que continuaria por ser cimentado por toda a sua carreira, e até após sua morte.

Esses filmes são conhecidos por serem obras caríssimas e possuírem um alto nível artístico inerente em suas produções. Disney queria quebrar as barreiras dos filmes animados, ele não queria que a animação fosse vista apenas como uma subdivisão do cinema, e, para isso, ele abordou suas obras como verdadeiros projetos cinematográficos, com uma técnica, como eu citei, o mais polida possível, saindo da caricatura que a maioria das animações possuía na época. Walt queria que a ideia que se tinha das animações — que elas eram apenas curtas bem-humorados e divertidos, sem nada mais a oferecer — fosse superada, e saiu entregando filmes com um alto nível de sensibilidade, que exploravam uma esfera verdadeiramente cinematográfica, tecnicamente falando. Isto resultou, inevitavelmente, em filmes muito caros, que acabavam por não se pagar, e Disney teve que diminuir sua escala nos seus projetos subsequentes, mas isto é história para outra hora.

Outra característica marcante da Era de Ouro, pela qual ela ficou conhecida, foi por continuar permeando o campo lúdico e dócil que os curtas de Disney já trabalhavam, e elevá-lo à máxima potência, cimentando a noção que nós temos do estúdio até os dias de hoje; filmes infantis e fofos, que abordam sempre a esfera mágica dos contos de fadas. Muitas das imagens icônicas que permeiam nossas cabeças quando pensamos na casa do Mickey surgiram aqui, enquanto Walt começava a trabalhar a marca registrada do estúdio, com princesas, castelos, animais fofos e amigáveis, o uso de cenas músicas, personagens secundários usados como alívio cômico e vilões maquiavélicos.

Todos esses elementos se seguiriam por toda a jornada da Disney, estando presentes até os dias de hoje. No entanto, outra característica marcante da Era de Ouro foi casar essa esfera fofa e doce dos contos de fada com sequências extremamente tensas e sombrias, como a morte da mãe de Bambi, para citar o exemplo mais famoso. Por mais que a impressão que fique destes filmes é que eles são contos de fadas mágicos e infantis, numa reassistida, percebemos que não é bem assim, e que, junto com essas cenas doces há muitas sequências que chegam a ser aterradoras até mesmo para os adultos. Esta dicotomia, que casa cenas perturbadoras com cenas fofas e infantis, fez com que a Era de Ouro viesse a ser conhecida, alternativamente, como a Era do Alcatrão e do Açúcar.

Por mais que naquela época a Era de Ouro pudesse não parecer tão dourada assim — especialmente graças ao fracasso destes filmes na bilheteria — eles são imprescindíveis para a história não só do estúdio, como para a história da indústria animada no geral. Foi aqui que a magia, marca registrada da Disney, começou a ser semeada. Depois de noventa anos, esses filmes continuam tão mágicos e atemporais quanto sempre foram, ressoando, ainda, com o público de forma rara, mesmo que nossa realidade seja completamente diferente da realidade em vigor em suas respectivas estreias. A atemporalidade é uma das marcas principais da Disney e podemos perceber isso apenas se olharmos para sua primeira leva de filmes, que formam o período mais ousado e esperançoso de toda a jornada desta casa das ideias.

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