close button

publicidade

O Último Duelo (20th Century Studios) | Crítica

Essa crítica contém spoilers

Sinceramente eu fiquei um bom tempo olhando para a tela pensando como começar a falar de O Último Duelo. Aqui estou eu relatando esse fato, mas ainda não cheguei a uma conclusão, necessariamente. Eu sai tão desorientada da sala de cinema que nem falei com ninguém. Esse filme é um retrato de como era uma verdadeira merda ser mulher em qualquer época da história da humanidade.

No entanto vale ressaltar que o diretor foi muito perspicaz em dividir o filme em 3 atos, cada um dele com uma versão da verdade segundo os personagens, o primeiro sendo a visão de Sir Jean de Carrouges (Matt Damon), o segundo ato de Jacques Le Gris (Adam Drive) e por último a verdade de Marguerite Carrouges (Jodie Comer), sendo o último, um destaque para a edição que destaca “A Verdade” de Marguerite.

Mas ao mesmo tempo que foi perspicaz essa ideia, confesso que foi bem incomodo ter que ver não uma, mas duas vezes Marguerite sendo estuprada. Sim, duas vezes. Vemos na versão de Le Gris e depois da versão de Marguerite. Como mulher, foi bem desconfortável ver não apenas uma mas duas vezes a cena do estupro. Não gostei, foi completamente desagradável e já fica de aviso, é um grande gatilho.

Mas acho que a maior sagacidade de O Último Duelo, é como as três versões da mesma história mostra lados completamente diferentes deles. Enquanto na versão de Jean, ele se mostra como um marido devoto e uma Marguerite apaixonada, e ele como um guerreiro honroso e dedicado a defender a coroa, na versão de Le Gris, Jean é imprudente e teimoso, além de usar a honra como um escudo para expor seu orgulho, e Le Gris é um devasso, com tendencias questionáveis de sua moral. E na versão de Marguerite (que é considerado a verdadeira versão dos fatos), Jean é bruto, orgulhoso e realmente imprudente, Le Gris é vaidoso e arrogante e ela é apenas a mulher que está tentando sobreviver ao cenário onde foi inserida, enquanto tem que lidar com uma sogra mal amada, a desgraça de ter sido estuprada, sendo julgada por todos enquanto é constantemente questionada dos fatos enquanto tenta buscar justiça pelo que lhe foi feito.

O Último Duelo me fez passar por todas as emoções possíveis, da raiva, a repulsa e nojo, agonia e desconforto. Se esse foi a intensão, parabém foi muito bem feito.

Não é difícil detectar a influência estrutural chave de “O Último Duelo” – o marco do filme “Rashomon” de Akira Kurosawa em 1950, a pedra de toque de qualquer história cinematográfica interessada em interpretações conflitantes do mesmo evento. O roteiro tripartido divide as lembranças e experiências de Jean, Jacques e Marguerite em seus próprios capítulos rotulados como “a verdade de acordo com” cada personagem. Apesar de experimentar a mesma cronologia tão extensivamente, o filme nunca parece monótono. Ridley Scott, o diretor, nunca é muito sentimental com qualquer momento, mantendo o processo em movimento em um ritmo rápido que desmente os 152 minutos de duração.

Embora os capítulos sejam distintos, eles nunca parecem duplicados ou desconexos. A parte do filme de Nicole Holofcener – que escreveu o terceiro ato – diverge do olhar masculino onde precisa, mas permanece operacionalmente coerente com os segmentos de Affleck / Damon. “O Último Duelo” constrói consistentemente sobre si mesmo, enriquecendo a interpretação dos eventos com cada recontagem sucessiva.

Claro, Jean parece um cavalheiro cavalheiresco em sua própria mente, por exemplo, mas é chocante ver o quão alheio ele está ao escárnio de seus nobres pares revelado pelos olhos de Jacques. Mudanças sutis nos eventos, desde o retrato de uma batalha contra inimigos selvagens até a cena de ataque central, estão repletas de assunto para discussão para os observadores atentos. O mesmo se aplica aos pecados de omissão de cada história, particularmente aqueles que ocorrem nos segmentos masculinos. Holofcener retrata um mundo de mulheres com esferas sociais vibrantes escondidas à vista de todos; sua revelação no terço final do filme serve como uma poderosa acusação do que os homens perdem quando eles só veem as mulheres na medida em que são relevantes para suas próprias jornadas narrativas.

Na maior parte do filme, Marguerite existe puramente como um objeto aos olhos dos homens do filme – menos como uma pessoa e mais como um meio para um fim. Mas Comer se recusa a nivelar o personagem aos seus padrões submissos, ambos cumprindo a tarefa e também subvertendo-a através de densos subtextos. Suas dicas para o público que voam sobre as cabeças de caras alheios pagam dividendos tremendos quando “O Último Duelo” gira de volta para sua história.

A cena do julgamento, é com certeza o lugar onde muitas mulheres infelizmente se identificarão. Sendo julgada por homens brancos, questionando sua moral, enquanto encontram todas as formas possíveis de humilha-la enquanto ridiculariza sua luta. Seja no século 14 ou em 2021, não parece que há uma real diferença. Marguerite é colocada nas visões masculinas como um objeto, e o julgamento – que ocorre na sua visão é um retrato nítido disso.

Há uma cena que se destaca pra mim na visão de Le Gris, onde um personagem fala “estupro não é um crime contra a mulher, mas contra a propriedade”. Se isso não te incomoda…

A luta final também é algo a se destacar, já que mesmo com a vitória de seu marido, provando então a “justiça divina da verdade”, e ela não sendo queimada viva, dá pra ver o quão desgostosa ela está, mesmo que no fim tenha sido provado que ela falava a verdade. O duelo em momento algum foi pra provar a verdade do que realmente aconteceu a ela. O duelo foi para salvar o orgulho de um homem que teve sua “propriedade violada”. A expressão de Marguerite enquanto desfila pela multidão que comemora a vitória de seu marido, deixa isso nitidamente claro. Ele está empertigado em cima de seu cavalo, acenando para a multidão, enquanto ela segue atrás, com o rosto fechado – resignado.

Tristemente não há realmente uma sensação de justiça em O Último Duelo. E essa é a maior realidade das mulheres quanto tentam lutar pelos seus direitos.

O Último Duelo

O Último Duelo
5 5 0 1
Retrata a história sobre o duelo entre o cavaleiro Jean de Carrouges e o escudeiro Jaques Le Gris, acusado de ter violado a esposa do cavaleiro. A luta, estabelecida pelo próprio rei da França, Carlos VI, marca o grande drama de vingança e crime do século XIV, que tem a esperança de ser resolvido somente após o combate. Baseado no romance homônimo de Eric Jager.
Retrata a história sobre o duelo entre o cavaleiro Jean de Carrouges e o escudeiro Jaques Le Gris, acusado de ter violado a esposa do cavaleiro. A luta, estabelecida pelo próprio rei da França, Carlos VI, marca o grande drama de vingança e crime do século XIV, que tem a esperança de ser resolvido somente após o combate. Baseado no romance homônimo de Eric Jager.
5/5
Total Score
Postagens Relacionadas