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Encounter (2018) | K-Drama VIKI

Tempo. Talvez nosso bem mais precioso. O tempo está em tudo, enquanto também é algo ainda inacessível por nós numa quarta dimensão que não podemos alcançar agora pelas leis da física. Parece insano o quanto somos obcecados em controlar o que sequer conseguimos tocar, o tal do tempo. Mas podemos dominar a maneira como usamos ele, não é irônico? E poderoso. Não, isso aqui não é o roteiro de um episódio de Cosmos, é de Encounter mesmo que eu vou falar. Eu vim falar como esse drama é uma grande poesia audiovisual sobre o tempo.

Mas o tempo não é apenas um aspecto que traz reflexões na narrativa de Encounteré um tema central que guia toda a história romântica de Cha Soo Hyun (Song Hye Kyo) e Kim Jin Hyuk (Park Bo Gum).

Talvez você ache que isso não tem a nada a ver com a sua vida, mas quem nunca sentiu que estava fazendo algo na hora errada? Ou talvez na época errada? Que deveria ter conhecido aquela pessoa especial em outro momento da sua vida? Vivemos achando que não usamos o nosso tempo da maneira correta. Seja porque não sabemos usar o potencial dele (e o nosso) ou porque acreditamos que alguns encontros estão deslocados na narrativa das nossas vidas.

Mas, apesar de não controlarmos o tempo ainda — e se um dia pudermos fazer isso acho que seria um pouco preocupante, como várias obras e filmes já abordaram — controlamos nossas escolhas ao longo de nossa breve existência nesse misterioso cosmos. Logo, nada melhor do que decidirmos bem o que fazer com nossa duração como poeira de estrelas.

Eu não sou de colocar perfil de personagem, mas nesse caso é necessário para juntar os pontos. Vamos então montar o quebra-cabeças.

Cha Soo Hyun

A mulher com mais de 30 anos, bela e bem sucedida como CEO de um hotel cinco estrelas. Falando assim até parece um mar de rosas, mas só se for de espinhos. Cha Soo Hyun (Song Hye Kyo) teve parte de sua juventude e começo da vida adulta praticamente roubada de si pelos interesses de duas famílias — a sua e a de seu ex-marido.

Ela é uma mulher madura e decidida, e numa análise de cores eu diria até que não é nada coincidência as escolhas de roupas dela, principalmente as muitas vezes em que ela vestiu vermelho em cenas específicas onde a personagem tinha alguma liberdade. E então poderia naquele momento ser dona de si mesma — vermelho evoca liderança e emoções intensas. Todo o controle que, mesmo se ela liderasse vários hotéis inteiros, não consegue ter sob sua própria vida privada, conjugal e emocional.

Vale notar os muitos enquadramentos que enfatizam a solidão da CEO, e onde tantas vezes sua única companhia foram as pinturas. Soo Hyun é apaixonada por artes plásticas e pinturas em tela, contudo, levando em conta o fato que esses quadros foram pintados por outras pessoas com emoções que não são as dela, as telas são como se a única beleza genuína que ela pudesse ter em sua vida fosse a vinda dos outros. Além de ser alguém que vive quase completamente para o trabalho como a única coisa que ela pode fazer, e foca só no passar das horas com seus inúmeros relógios.

Kim Jin Hyuk

Um responsável rapaz de classe média criado numa pacata família em um pequeno bairro e que aproveita os simples prazeres da vida. E que antes de completar seus 30 anos juntou dinheiro para realizar uma viagem a Cuba. O que para CEO Cha era uma viagem a trabalho, para o homem apaixonado por fotografia e em início de carreira em relações públicas, era só mais um dos vários momentos em que ele aproveitaria ao máximo e registraria o que pudesse das belezas que encontrasse.

Não tem muito mais o que dizer de Kim Jin Hyuk (Park Bo Gum), ele é um personagem tão pronto como simples por isso. Eu já conhecia o trabalho dele por Love in the Moonlight e Passarela de Sonhos, da Netlfix, e fico encantada com seu talento (e de sorrisos carregadores de almas). O rapaz que ele interpreta tão bem é propositalmente alguém já decidido e determinado sobre a sua vida, porque essa é a história das mudanças na vida de Cha Soo Hyun e de como a relação dos dois será transformadora para ela.

O casal

Os dois cenários onde mais vemos nossos protagonistas durante este drama são o escritório de trabalho da CEO Cha e o quarto do Jin Hyuk. Os ambientes de cada um dizem muito sobre os dois e como ambos vivenciam seu tempo. O escritório dela é mais vazio, além dos móveis apenas um espelho (a imagem dela para os outros), as pinturas em quadro (a beleza dos outros que ela se apropria para si) e os relógios. Destaque para os relógios, reparem como eles mostram as horas em várias capitais pelo mundo e são filmados tantas vezes em planos abertos com Soo Hyun.

Já o quarto de Jin Hyuk é cheio de que? Isso mesmo, fotografias, espalhadas por todos os lados, paredes, estantes, mesinhas. Nosso jovem artista das lentes vai ainda mais longe na importância que dá a cada pequeno momento: ele fotografa com câmera analógica, que precisamos relevar à moda antiga.

Os relógios e a fotografia foram dois objetos colocados nessa história não só para definir os personagens, mas para nos mostrar suas maneiras opostas de ver o tempo passar em seu cotidiano. Uma mulher que só foca no trabalho e passar das horas e um homem que usa a técnica criada para congelar o tempo e aproveitar cada um de seus instantes — a fotografia cotidiana é puramente isso, uma espécie de pequena máquina do tempo portátil que nos possibilita guardar frações de segundos que consideramos importantes. E no romance do casal observamos Soo Hyun aprendendo a aproveitar mais seus momentos e alegrias através do registro fotográfico.

E não é somente nesses dois elementos — relógios e fotografia — que estão reflexões sobre o tempo. Estão no roteiro e nos diálogos a respeito das horas certas para se viver algo. Estão nos encontros casuais ou marcados que dão certo, ou não. Está na falta de sincronia de diversos personagens e casais secundários da trama, seja de amores correspondidos ou não.

A poesia acerca do tempo está até nas locações e arquitetura — a escolha de Cuba como cenário não foi por acaso, Havana é uma cidade antiquada que parou no tempo, o que faz parte do seu charme. Não à toa, uma das minhas cenas favoritas do drama é logo do início, quando no único momento de licença poética inserido diretamente na edição principal do drama, Cha Soo Hyun observa pessoas dançando ao pôr do Sol de Havana quase como num musical hollywoodiano.

Pode parecer apenas uma sequência bonita, mas meu motivo para gostar delas é porque essas cenas são o exato momento da ruptura de mudanças que Kim Jin Hyuk trará para a vida de Soo Hyun. Ali, ao som de uma apaixonada canção de Omara Portuondo, a mulher começa a perceber o mundo a sua volta de um jeito diferente, mais lento, mais apreciável, mais bonito. Como se a vida pudesse ser tão bela quanto um musical da broadway, se você parar para vê-la dessa forma. E nesse momento, apenas com um empréstimo de fones de ouvido, Soo Hyun verá a vida mais fascinante.

O conceito cinematográfico de Encounter

Algo comum no cinema e que Encounter abraça é utilizar um conceito uniforme para a obra, sendo este o tempo — um tema que irá guiar aquela história, nos mínimos detalhes. Estejam eles na edição do vídeo e seus efeitos especiais, como os finais de cada episódio que colocavam os dois num quadro de película ou as imagens de contos de fada ao redor de astros e estrelas no céu.

Ou pelo fato da direção de fotografia brincar com isso tantas vezes enquadrando os protagonistas em “molduras naturais”, algo que até nós mesmos podemos fazer no nosso dia a dia se usarmos janelas, espelhos, portas, etc. Enquanto a direção de arte fez isso através dos objetos, fotos impressas e relógios, como falei no tópico anterior. Tudo isso muito bem embasado num roteiro consistente de uma roteirista experiente adivinha no que? Cinema! E amarrado por uma direção geral competente.

Ter um conceito assim tão definido graças à linguagem cinematográfica me proporcionou ter a ideia dessa pauta logo nos primeiros episódios de Encounter. Eu só precisei ver até o final para comprovar minha teoria — de que o tempo era um catalisador no drama em tantos sentidos. Isso me dá sentimentos mistos: o de não ser tão surpreendida porque desde o início percebi isso e foi mantido, mas também o de ver uma história criada em bases firmes, mesmo que simples. Se é que falar sobre tempo seja simples, mas sou suspeita, adoro narrativas que tratam disso.

Encounter mostra a entrega emocional, o olho no olho, a reciprocidade no outro que todos gostaríamos de encontrar pelo menos uma vez na vida. Por isso todos aqueles planos perfis dos dois protagonistas se encarando sorridentes de igual para igual, tomados por um amor onde tudo é possível.

A razão do meu título favorito desse drama ser Encounter (encontro), e não Boyfriend (namorado), está relacionado a tudo que falei nesse texto e como se trata de algo que remete a uma hora marcada, uma pausa, um momento juntos. Barreiras geográficas, culturais, de idade ou do espaço e tempo, são alguns dos fatores que podem impedir pessoas de ficarem juntas, quase como se vivêssemos em frequências diferentes.

Só que todos estamos em frequências divergentes até colidir com a vida de outro alguém, porque somos pessoas diferentes com histórias e bagagens únicas. Existe maneira mais eficaz de tentarmos nos sintonizar do que o encontro?

Encontro

Encontro
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Cha Soo Hyun(Song Hye Kyo) é a filha de uma poderosa família da política. Ela divorciou-se recentemente do seu rico marido de um casamento arranjado. Cansada de viver a vida guiada pelos outros, ela decide viajar para o exterior. Ela conhece no caminho Kim Jin Hyuk(Park Bo Gum), um jovem espirituoso. Apesar das diferenças, ele são incontestavelmente atraídos um pelo outro.Os dois conseguirão achar o verdadeiro amor entre suas diferenças?
Cha Soo Hyun(Song Hye Kyo) é a filha de uma poderosa família da política. Ela divorciou-se recentemente do seu rico marido de um casamento arranjado. Cansada de viver a vida guiada pelos outros, ela decide viajar para o exterior. Ela conhece no caminho Kim Jin Hyuk(Park Bo Gum), um jovem espirituoso. Apesar das diferenças, ele são incontestavelmente atraídos um pelo outro.Os dois conseguirão achar o verdadeiro amor entre suas diferenças?
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