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The Handmaid’s Tale e os parelelos com a realidade

E então estou me forçando a assistir The Handmaid’s Tale porque a série está indicada mais uma vez ao Emmy, e sinceramente tem tantos gatilhos que minha mente precisa de um escape muitas vezes depois de terminar um episódio. Eu li o livro uma única vez, e de verdade não sei se conseguiria ler a sua continuação. Eu fiquei mal por semanas depois de finalizar, exatamente por todo seu conteúdo real e sensível. Passei mal, chorei horrores e mal conseguia dormir, de tão abalada que fiquei por ler.

Mas a verdade é que essa série e os livros tem tantas coisas que estão ali para ser discutida. E infelizmente a realidade ficional da série não está tão longe da vida real quanto parece. A situação do Talibã no Afeganistão prova isso.

Toda vez que um grupo religioso extremista assume o poder, o direito das mulheres e das minorias são os primeiros a sumir, por isso nossa batalha nunca, nunca acaba. Precisamos estar vigilantes a todo momento para que todas as nossas lutas não sejam perdidas.

Quando falamos sobre “mundos distópicos” imaginamos e estamos acostumados com sociedades fundamentalmente diferentes da nossa. Distantes, tanto no espaço, como no tempo. Mas não foi bem isso que Atwood apresentou em The Handmaid’s Tale. A história se passa exatamente onde estamos, no nosso tempo. Nossa protagonista poderia ser eu ou você, apenas vivendo a vida com sua filha e seu parceiro, trabalhando em um escritório normal, pegando Uber pela cidade, jantando fora com a melhor amiga.

Até o dia em que um grupo fundamentalista cristão dá um golpe de estado e ela se vê sem mais nada. Seu escritório a demite, sua conta bancária é congelada, sua família é tirada de si e, por último, todos os seus direitos lhe são negados. Por ser fértil em um mundo com altas taxas de infertilidade, ela se torna uma aia: uma espécie de serva sexual para famílias poderosas que não podem conceber. A destituição de direitos é tão completa que nem o próprio nome ela pode manter. Seu nome agora depende do homem que irá estuprá-la todo mês. No caso da nossa protagonista, a conhecemos por Offred. Of Fred. De Fred.

Mais do que a proximidade em termos de tempo e espaço, a história de Atwood é tão impactante porque é impossível não reconhecer nela uma extrapolação de crenças e ideais muito presentes na nossa própria sociedade. Ainda mais com a forte onda de conservadorismo que temos observado recentemente. Sim, a República de Gilead é um extremo, mas um extremo fortemente ancorado em realidade. De fato, tal verossimilhança foi algo conscientemente pensado por Atwood.

Com isso, tudo o que vemos em The Handmaid’s Tale tem base em alguma realidade, passada ou presente. Execuções em massa, fundamentalismo religioso, queima de livros, a história da escravidão, o uso da vestimenta para marcar o status das pessoas, a subjugação histórica da mulher. Tudo isso e mais serviu de base para a construção dessa história. E o que assusta nela, o que nos faz ter que “criar coragem” para conhecê-la, são justamente os elementos que reconhecemos ainda em nossas próprias vidas.

Os paralelos entre ficção e realidade são inúmeros, mas separei seis que já dão muito o que pensar. São eles:

Controle da mulher e maternidade compulsória

the handmaid's tale

No mundo distópico de The Handmaid’s Tale, o corpo das mulheres não é delas. les servem a um determinado fim definido pelos homens no poder e fortemente ancorado em rígidos papéis de gênero. As Marthas são reduzidas à limpeza e à cozinha; as Esposas ao ambiente doméstico e à servidão ao marido e aos filhos; as aias à concepção de bebês. Em maior ou menor grau, são todas desumanizadas e objetificadas, transformadas em utensílios pelos homens no poder.

A situação das mulheres na República de Gilead é uma extrapolação do controle exercido sobre a mulher em nossa própria sociedade. Nossa sexualidade é monitorada, somos frequentemente reduzidas à “mães”, “filhas” ou “esposas”, nossos corpos são transformados em objetos sexuais na mídia, e mesmo no espaço público somos intimidadas e constantemente confrontadas com a ameaça de violência.

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Além disso, a maternidade é compulsória também para nós – um destino selado tanto pela socialização, como pela falta de políticas sociais de planejamento familiar e pela criminalização do aborto, que além de extinguir nossa escolha e liberdade sobre nossos corpos, coloca mais de 200 mil mulheres em risco em clínicas clandestinas e mata uma delas a cada dois dias todos os anos (a maioria delas negra e pobre, em situação de vulnerabilidade social). E o pior: tal violação de direitos da mulher é mantida e exercida por homens, dado que apenas 10% dos deputados e 13% dos nossos senadores são mulheres.

Dependência financeira

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Uma das primeiras coisas que os novos governantes da República de Gilead fazem depois do golpe de estado é destituir todas as mulheres de suas rendas e contas bancárias. Sem recursos, elas se tornam vulneráveis e mais facilmente subjugadas.

Manter as mulheres fora do mercado de trabalho, restritas ao ambiente doméstico e dependentes de um provedor masculino, é e sempre foi uma forma de controlá-las e mantê-las em posição inferiorizada. Hoje em dia, apesar de muitas mulheres trabalharem fora, o ideal “Bela, Recatada e do Lar” ainda permanece firme e forte, e a pressão para assumir a responsabilidade pelo lar, filhos e idosos está entre os principais motivos para a exclusão da mulher do mercado de trabalho. Dependentes financeiramente de seus parceiros ou parentes homens, muitas mulheres se tornam vulneráveis à violência, sem possibilidade de escapar. Lembrando que, no Brasil, 70% dos estupros acontecem dentro de casa e que 50,3% dos feminicídios foram cometidos por familiares.

Vale lembrar que estereótipos e papéis de gênero ainda fazem com que homens sejam melhor remunerados do que mulheres, e ocupem a grande maioria das posições de poder em instituições, governos, empresas e corporações. [O gráfico acima é do Banco Interamericano de Desenvolvimento, referente a toda a América Latina].

Culpabilização da Mulher

Algumas das cenas mais difíceis de assistir em The Handmaid’s Tale acontecem no Red Center – o centro de treinamento onde as aias aprendem o seu “ofício”. Lá, todo resquício de desafio e questionamento é arrancado delas pelas Tias – mulheres mais velhas encarregadas da disciplina e lavagem cerebral que será aos poucos forçada goela abaixo das jovens, na base da humilhação e violência.

Em uma dessas cenas, uma das mulheres é convidada a se sentar no centro de uma roda formada pelas outras aias e contar a todas sobre o estupro coletivo que sofreu quando era adolescente. Depois de contar a sua história, as Tias fazem perguntas e começam a culpar a vítima pelo estupro que sofreu. Logo, todas as outras aias são obrigadas a gritar insultos contra ela, chamando-a de puta e vadia. No fim, a própria vítima passa a acreditar nisso.

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Essa cena ressoa tão claramente com a realidade que só de me lembrar dela eu tenho vontade de me enrolar em posição fetal. Também aqui na nossa sociedade, mulheres são culpadas pela violência que sofrem. Suas vidas são reviradas para justificá-la e a qualquer sinal de “desvio” do ideal “bela, recatada e do lar” a sociedade não tarda em gritar “ela estava pedindo!”.

De fato, assim como em The Handmaid’s Tale, mulheres são tão hostilizadas em casos de violência sexual – pela família, pela mídia, pelas autoridades – que muitas de nós realmente acreditam que são culpadas. Aqui vale lembrar da pesquisa do IPEA, que descobriu que 58,5% da população brasileira concorda com a frase: “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros.”

Rivalidade feminina

É interessante notar que muito da hostilidade e culpabilização que as mulheres sofrem na vida real é exercida por outras mulheres. A manutenção da rivalidade feminina beneficia imensamente o patriarcado, e nossa socialização nos prepara para competir com outras mulheres e desconfiar umas das outras. Desunidas, nos tornamos mais fracas e vulneráveis.

the handmaid's tale

Isso é representado de forma brilhante em The Handmaid’s Tale. Em inúmeros momentos vemos como as mulheres são mantidas isoladas, em rivalidades e desconfianças que as mantêm exatamente na posição desprivilegiada em que estão. É na cena do centro de treinamento descrita no item acima que esse tema é apresentado de forma mais explícita, mas também o vemos na relação entre Offred e a Martha de sua casa, entre as Esposas e as aias, entre as Tias e todas as outras mulheres, e até entre as próprias aias.

Sobre isso, vale uma citação da própria Margaret Atwood:

“Sim, mulheres vão se voltar contra outras mulheres. Sim, elas vão acusar outras para se manter fora da mira: nós vemos isso muito publicamente na era das redes sociais (…). Sim, elas aceitarão contentes posições de poder sobre outras mulheres, até – e, possivelmente, especialmente – em sistemas em que as mulheres como um todo tem pouco poder: todo poder é relativo e em tempos duros, qualquer quantidade dele é visto como melhor do que nada. Algumas das Tias são devotas verdadeiras, e acham que estão fazendo um favor às aias: pelo menos elas não serão enviadas para limpar lixo tóxico, e pelo menos nesse bravo novo mundo elas não serão estupradas, não de verdade, não por estranhos. Algumas das Tias são sádicas. Algumas são oportunistas. E elas são adeptas de pegar alguns alvos declarados do feminismo de 1984 – como campanhas anti-pornografia e maior segurança contra violência sexual – e usá-los em seu favor. Como eu digo: vida real.”

Heterossexualidade Compulsória

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Como eu já disse outras vezes, o que interessa para mim quando um livro é adaptado para a TV ou para o cinema não é se a história vai ser igualzinha, mas sim se a essência da obra é preservada. Pensando nisso, a série The Handmaid’s Tale é, para mim, uma das melhores adaptações de livros que eu já assisti na vida. Não só a produção conseguiu se manter fiel à essência da obra de Atwood, como foi bem sucedida ao incluir novos elementos, não presentes ou não tão bem desenvolvidos em sua contraparte literária.

Um desses elementos é o foco dado a uma das aias, que é lésbica. Através dela, vemos como a República de Gilead trata homossexuais – ou, como eles são chamados, “traidores do gênero”. Tanto em The Handmaid’s Tale como na vida real, essa suposta “traição” tem relação íntima com a estrutura da opressão feminina. Como muito bem dito por Paloma, do blog Valkirias:

“(…) o processo de dominação é mantido por diversas instituições sociais consagradas que, à primeira vista, parecem neutras. Entre os pilares que sustentam a sociedade patriarcal encontramos o casamento, a heterossexualidade e a maternidade, todos compulsórios, que somados dão origem à família tradicional nos moldes que conhecemos atualmente, com toda a distribuição de papéis e a estrutura de submissão e controle que lhe é inerente.

O mundo de The Handmaid’s Tale é ficção, mas não está muito distante do real. A heterossexualidade é compulsória porque fora dela fica exponencialmente mais difícil dobrar mulheres à submissão. (…) A partir daí, o controle que era interno, disfarçado e amplamente romantizado precisa tomar forma externa e ostensivamente agressiva.”

De fato, muito do tratamento destinado à homossexuais em Gilead tem relação com o nosso mundo. Espancamentos, estupros corretivos, exclusão social e até assassinatos acontecem diariamente no Brasil e no mundo contra homossexuais. Além disso, em muitos países a homossexualidade ainda é crime.

Machismo Hostil x Machismo Benevolente

the handmaid's tale

Em diversos momentos de The Handmaid’s Tale vemos com clareza a perversidade do sistema de opressão em Gilead. Nos Red Centers, as aias são quebradas, mas aprendem que, apesar de não possuírem direito nenhum, serão protegidas até certo ponto, contanto que se conformem e aceitem o seu destino.

Vemos essa espécie de sistema de compensação em diversos momentos ao longo da série. As Tias se esbaldam em sua ilusória posição de poder, exercido contra outras mulheres. As Esposas se contentam com o seu status social, também acima das outras mulheres. As aias têm muito pouco com o que se contentar, mas muitas se apegam ao discurso de sua centralidade para a manutenção da vida, e quando engravidam são acolhidas e paparicadas até o nascimento da criança. Depois de dar à luz, porém, são descartadas como produtos usados.

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Tudo isso lembra muito as dinâmicas da vida real relacionadas à machismo hostil e machismo benevolente. Machismo hostil é aquele que violenta, que diz que a mulher deve ficar em casa e ser submissa ao marido. Já o machismo benevolente se baseia em pré-concepções sobre gênero que parecem positivas à primeira vista, mas que reforçam a desigualdade de maneira mais ampla, e muitas vezes dão munição ao machismo hostil. Um exemplo seria o cavalheirismo: um tratamento diferenciado dado às mulheres porque elas seriam mais frágeis, fracas e/ou incapazes. É importante notar, no entanto, que esse tipo de “ajuda” ou “recompensa” só é dispensado às mulheres que se conformam ao que é esperado delas.  

De acordo com os os pesquisadores Peter Glicke e Susan T. Fiske, tanto o machismo hostil como o benevolente existem lado a lado, um reforçando o outro. Talvez não tão surpreendentemente, os pesquisadores descobriram que nos lugares onde existe mais machismo hostil, as mulheres são mais receptivas à machismo benevolente. Isso porque, como são constantemente confrontadas com reações hostis toda vez que não se conformam aos ideais de gênero, essas mulheres veem no machismo benevolente a possibilidade de proteção e apreciação. O paralelo com a estrutura social em The Handmaid’s Tale é assombroso.

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Não é fácil ler, nem assistir The Handmaid’s Tale. Mas se você tiver a oportunidade, faça-o. Mais do que uma produção sobre um mundo distópico, a série é valiosa para ajudar a entender melhor o nosso próprio mundo.  

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