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Literatura Brasileira

A Literatura Brasileira é ruim?

Eu me considero particularmente privilegiada quando se trata da minha educação literária. Tenho uma família que lê muito. Minha mãe sempre foi um grande exemplo, já que ela sempre leu muito. Quando criança cresci lendo Turma da Mônica, Menino Maluquinho, mas quando chegou o Ensino Médio, vem a obrigatoriedade das leituras clássicas, afinal é elas que caem nos vestibulares. Ironicamente eu me apaixonei por Machado de Assis, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Aluíso Azevedo e tantos outros escritores da literatura clássica brasileira.

Eu me lembro de passar horas conversando com meus professores sobre a narrativa de Bentinho, e como ele é um narrador questionável, ou sobre a desigualdade social que ainda é tão presente quando na época em que Capitães da Areia foi lançado. Mas isso sempre foi muito normal para mim. Vejo tanto potencial em nossa literatura quanto ler A Revolução dos Bichos ou Admirável Mundo Novo.

Mas ainda sim, é muito comúm ouvir que nossa literatura não é boa; “são apenas livros chatos que temos que ler pra passar na faculdade”. Infelizmente, no entanto, é uma opinião ainda de muitos dos insuficientes leitores do Brasil. Parei para pensar nesse assunto quando Memórias Póstumas de Brás Cubas foi lançado nos Estados Unidos em 2020 e esgotado no mesmo dia.

Nelson Rodrigues cunhou o termo “complexo de vira-lata” para se referir à constante e quase intrínseca posição de inferioridade que o brasileiro se coloca em face aos outros países do mundo. Nada no Brasil funciona ou presta, não é? Essa ideia é tão profunda na nossa identidade que desvalorizamos histórias, conquistas ou produtos antes mesmo de conhecê-los. 

Estou aqui particularmente falando de livros, mas quero dar um bom exemplo mudando um pouco para a TV. Netflix recentemente lançou Cidade Invisível, que junta nossos maiores contos populares, nosso Folclore e criou uma história fantástica. Ela foi uma das maiores séries brasileiras vistas lá fora. No Rotten Tomaotes (o maior site de aprovação da critica especializada internacional) ela está com 94% de aprovação. O mundo inteiro apreciou nossos contos, nossas histórias, nossos mitos culturais. Mas se perguntar poucos são os brasileiros que realmente conhece essas mesmas histórias. Ele consegue valorizar os mitos gregos, nórdicos, egípicios e tantos outros, mas desvaloriza os mitos da própria cultura.

Em junho de 2020, a editora Penguin lançou uma nova tradução do clássico Memórias Póstumas de Brás Cubas, de autoria de Machado de Assis, nos Estados Unidos. A história do defunto Brás Cubas narra sua vida inteira com sarcasmo, honestidades incômodas e detalhes que impressionaram os leitores da época e ainda impactam os de hoje. Tanto que, um dia após o lançamento nos Estados Unidos, o estoque de exemplares físicos da tradução de Flora Thomsom-DeVaux na Amazon e na Barnes & Noble já havia se esgotado. No mesmo dia, a The New Yorker publicou um artigo sobre o livro, no qual afirma que Brás Cubas é “um dos mais inteligentes, um dos mais divertidos e, portanto, um dos mais vivos e permanentes livros já escritos”.

Os estadunidenses viram numa obra brasileira o que nós teimamos em ignorar. Viram beleza, talento e qualidade. Para a maioria de nós, Machado é somente um autor chato que nos obrigam a ler nas escolas. E, sim, talvez a maior parte dos adolescentes não esteja preparada para enfrentar a escrita do autor. Ainda assim, com a abordagem certa, é possível fazer a experiência muito mais divertida. Brás é um narrador um tanto hilário e sua história de vida é contada de uma maneira tão inesperada e sem escrúpulos que surpreende e vicia.

Esse comportamento dos leitores dos EUA não se resume a Machado. Alguns Young-Adults têm sido comprados para publicação por lá. Livros como Você Tem a Vida Inteira, de Lucas Rocha, e Quinze Dias, de Vitor Martins, serão publicados em inglês. O primeiro, inclusive, ganhou uma recomendação do icônico Jonathan Van Ness, integrante do programa da Netflix “Queer Eye”. Outros autores, como Raphael Montes, já têm suas obras publicadas em outros países; Eduardo Sphor e Daniel Galera também são publicados internacionalmente. Isso sem falar de nomes consagrados, como Jorge Amado, Clarice Lispector e Guimarães Rosa.

Eu te pergunto então: se há tantos amantes da nossa literatura mundo afora, porque teimamos em apreciar e valorizar somente o que vem de lá? E, ainda, quanto mais famosos os livros são aqui, mais chamamos atenção de agentes e editores internacionais, viu?

Nós já não somos um país com um elevado número de leitores e o mercado editorial, apesar de bem estabelecido, não é tão incentivado como em outros países. Aparentemente, cada vez menos pessoas leem em ônibus, metrôs e trens. Tudo bem, isso entra em uma conversa sobre tecnologia que não cabe aqui. Mesmo assim, será que não valia a pena parar e pensar sobre isso? 

As obras brasileiras têm qualidade, os escritores, talento, e as editoras, produções primorosas. Vamos tomar um momento e investir em autores nacionais. Vamos apoiá-los, lê-los, fazer propaganda deles e falar com orgulho quando gostamos de um livro deles – mandar todos os amigos lerem. 

Minha esperança é que mais leitores descubram as obras primas que realmente é a literatura brasileira. E que consigam se apaixonar por ela, tanto quanto amos as obras internacionais.

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