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America – The Motion Picture

Por mais brasileiros que somos, não podemos negar que muito da cultura estadunidense faz parte do nosso cotidiano. Nossos vizinhos bem ao norte influenciam muito o entretenimento, os negócios, e em tudo que eles estão presentes, é claro, que eles estarão no holofotes. Comemoramos nosso dia da independência em setembro, e mesmo assim, sabemos que em julho os “americans” comemora o deles. Seus costumes, feriados e hábitos transbordam as fronteiras e oceanos, e conhecemos de certa forma como foi o processo, principalmente com a quantidade de produções audiovisuais que retratam ou se inspiram no final da década de XVIII. Mas essa data esconde muitas negligências sociais que nos últimos anos vemos de certa forma uma retratação nas produções, seja no famoso musical Hamilton, que retrata um fragmento desta época, e agora com America – The Motion Picture, animação da Netflix que usa e abusa da liberdade criativa para construir uma grande sátira e crítica a construção da nação americana.

Em America – The Motion Picture, a constituição estadunidense está prestes a ser assinada e ser declarada a independência das colônias britânicas na América da Inglaterra, mas os planos são frustrados com um golpe, que acaba eliminando todos os “pais fundadores”, sobrando apenas o inexperiente George Washington (Channing Tatum) para carregar o legado de seu amigo, Abraham Lincoln (Paul Forte) e dos pais fundadores. Ele então forma uma equipe para combater o exército britânico de transformar o povo do novo mundo em súditos da coroa britânica.

Já digo que o que atraiu minha atenção em particular, foi a premissa de misturar coisas muito atuais como super-heróis, e tecnologia à lá steampunk e até cyberpunk num contexto bem datado, referências explícitas a personagens do cinema e televisão, e recontar essa história que é inspiradora (para os estadunidenses), mas a surpresa ficou com o caminho, o desenvolvimento e o tom da história. Primeiro, precisamos tirar toda e qualquer lógica histórica sobre a independência dos EUA e da construção da nação. A história toma toda a liberdade criativa para misturar personagens que nunca se conheceram na vida real, para construir uma história nova, e até aí, tudo bem.

Mas toda a construção da narrativa do filme acaba sendo um grande trabalho de patchwork de elementos característicos da identidade estadunidense: o filme em si se constrói sob uma narrativa de besteirol, gênero de filmes que fizeram sucesso no final dos anos 1990 e início dos anos 2000; o filme esconde centenas – e não estão brincando – de referências, forshadowing, piadas contemporâneas, e críticas sociais sob a ótica de como os Estados Unidos foi construído. E isso é a genialidade da produção.

Por ser uma animação, ela tem a liberdade necessária para ir para onde quiser, e não se limitar com a realidade, e disso nasce uma enorme crítica a características dos estadunidenses que foram construídas com os anos, e que servem como uma forma de cutucar a ferida para os elementos mais controversos. E não apenas o famoso basebol, ou fraternidades gregas, ou a característica cerveja, personagens do cinema e do folclore dos EUA, mas até questões mais sociais como o racismo estrutural, seja pela raça negra, ou pelos nativos americanos, ou qualquer outros povos; o questionamento sobre os caucasianos serem realmente os nativos deste novo mundo; a forma como tratam estrangeiros, questões com as fronteiras, chegando ao machismo, conservadorismo e escravismo, principalmente dos pais fundadores. A produção não tem medo de mencionar tudo isso, seja de forma direta, seja de forma indireta. O filme joga sal em todas e mais feridas na construção da nação, das mais bobas, até às mais críticas mundialmente.

America sabe ser um filme besteirol, com cunho político, com pouca acurácia histórica, mas que mistura elementos mitológicos, referências atuais, aponta o dedo nos erros dos Pais Fundadores, e também em como a nação foi construída, sem se limitar a mostrar a violência, sangue e cenas mais pesadas. O longa está consciente destes erros, além de construções etimológicas de termos racistas e controversos, e não exalta o lado bom deles, mas o questionamento sobre a utilização dos mesmos nos dias atuais. É uma diversão autoconsciente de suas falhas, mas que ainda assim, é uma aventura sem limites para conhecermos com as analogias extremas o surgimento da nação que se baseia na liberdade.

America: The Motion Picture

America: The Motion Picture
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Após um golpe que matou os pais fundadores dos EUA, George Washington é o único capaz de carregar o legado de seu amigo Abraham Lincoln em busca de liberdade do domínio da coroa britânica. Mas a busca por um grupo de bravos guerreiros mostrará que a história da independência da América é bem mais complexa que conhecemos.
Após um golpe que matou os pais fundadores dos EUA, George Washington é o único capaz de carregar o legado de seu amigo Abraham Lincoln em busca de liberdade do domínio da coroa britânica. Mas a busca por um grupo de bravos guerreiros mostrará que a história da independência da América é bem mais complexa que conhecemos.
4/5
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