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A Era das Trevas da Disney | O Caldeirão Mágico (1985)

Então chegamos enfim ao filme que muda tudo. É aqui que a Disney passa por mudanças que vão fazer com que a próxima era seja chamada como é: Renascença. Mas não vou me apressar. Vamos falar então de O Caldeirão Mágico, o maior fracasso da Disney, e aquele filme que se ela pudesse, excluiria permanentemente de seus acervos, não exatamente por suas qualidades, mas pela conturbada lembrança que ele carrega em seus bastidores.

O Caldeirão Mágico é comumente conhecido como um dos maiores fracassos da história dos estúdios Disney. Não há porque fazer mistério quanto a isso, esse é o principal motivo pelo qual o filme ainda é lembrado, tirando isso ele praticamente saiu dos radares do público, algo que a Disney provavelmente preferiria que acontecesse, tendo em vista a maneira com que ela desesperadamente tenta empurrar a obra para debaixo do tapete — demorou treze anos e pedidos de fãs para que o estúdio finalmente cedesse e lançasse o filme em VHS.

Mas nem sempre foi assim; O Caldeirão Mágico chegou a ser visto como um novo Branca de Neve durante sua produção e a Disney parecia realmente estar tentando com esta obra, com seu tom mais maduro e seu gigantesco orçamento de quarenta e quatro milhões de dólares (o maior de um filme animado, na época) podem atestar. No entanto, nada disso foi capaz de salvar o filme, e após anos em um processo conturbado de produção, que viu mudanças na companhia como um todo, O Caldeirão Mágico foi um gigantesco fracasso, fazendo menos da metade de seus custos em bilheteria e perdendo para o filme dos Ursinhos Carinhosos. Esse foi o dia que a Disney perdeu. Após anos decaindo em qualidade desde a morte de Walt Disney, Caldeirão Mágico parecia simbolizar o ápice de seu fracasso, com o estúdio finalmente atingindo o infame fundo do poço…

Mas, por quê? É muito fácil apenas olhar para O Caldeirão Mágico como um fracasso gigantesco e justificá-lo como apenas sendo resultado de sua qualidade abaixo da média, mas o fato é que este filme é um subproduto de um período conturbado da história da própria Disney e das próprias mudanças e normas que ditavam não só o meio do cinema animado, mas do cinema como um todo, naquele momento em questão.

O filme foi baseado em As Crônicas de Prydain, uma saga literária de fantasia infanto-juvenil, escrita por Lloyd Alexander na década de sessenta, mais especificamente em seus dois primeiros livros, O Livro dos Três e O Caldeirão Negro (de onde pega seu título em inglês, The Black Cauldron), misturando elementos de ambas as obras em si de modo que acaba não sendo exatamente fiel a nenhuma das duas. 

Esses livros são um dos muitos filhos de Senhor dos Anéis, que se aventuraram pelo campo da fantasia medieval se inspirando diretamente nas obras de Tolkien, e não era nada menos do que o esperado para a Disney se prender a este campo em seu próximo grande filme animado durante os anos oitenta, década onde o gênero da fantasia experimentava um ressurgimento bastante significativo, começado por filmes como O Dragão e o Feiticeiro e Excalibur, mas explodido mesmo com os filmes de Conan, o Bárbaro, estrelando Arnold Schwarzenegger.

Esta tendência iria se arrastar por toda a década, com obras como A História sem Fim, A Princesa Prometida e Labirinto. Não demorou muito para que as animações se apropriassem do gênero de forma a manterem-se entre os interesses das crianças, com desenhos como He-Man, She-Ra e A Caverna do Dragão, em si baseada no jogo de RPG Dungeons & Dragons, que, fora do meio audiovisual, era febre entre as crianças e jovens da época. Para ser justo, a Disney havia adquirido os direitos das obras de Alexander antes desta dita explosão, ainda em 1971, mas a arrastada e conturbada produção da obra fez com que ela só saísse do papel em 1985, com o resultado gritantemente bebendo da fonte de seus contemporâneos do gênero da fantasia.

E falando nisso, por que a produção de O Caldeirão Mágico se arrastou tanto? Bom, isso está diretamente ligado ao período em que ele foi feito. Em O Cão e a Raposa nós já discutimos a conturbada transição pela qual a Disney estava passando durante o fim dos anos setenta para o início dos anos oitenta, com os animadores que trabalhavam no estúdio desde seus primórdios se aposentando e animadores recém-formados chegando para substituí-los, o que inevitavelmente gerou atritos entre as diferentes gerações.

Mas O Caldeirão Mágico começou a ser trabalhado antes mesmo de esse período transitório começar a acontecer. A ideia de fazer um filme em cima d’As Crônicas de Prydain veio de Frank Thomas e Ollie Johnston, dois dos Nove Anciões, que já estavam há alguns anos aposentados quando o dito filme finalmente estreou. Ambos acreditavam que os livros de Lloyd Alexander tinham potencial para se tornarem o Branca de Neve da nova geração, e em fim colocar o nome da Disney no mapa novamente, após o período escasso que se deu com a morte de Walt.

Mas, com a saída gradual dos antigos animadores e a entrada dos novos, O Caldeirão Mágico foi se provando um filme muito ambicioso e complexo para que os recém-empregados e inexperientes trabalhadores do estúdio pudessem entregar o que a obra precisava para se completar de forma bem-sucedida. Se mantermos o paralelo com Branca de Neve, podemos argumentar que antes de dar um salto gigantesco em direção ao primeiro longa-metragem animado hollywoodiano, Walt Disney e sua equipe doaram tempo para estudar e, principalmente, treinar antes de realizarem tal projeto tão ambicioso, através de trabalhos menores, como a série de curtas, Silly Symphonies.

Mas agora o filme já estava programado e a Disney não tinha nem os recursos nem a vontade de sair de seu caminho para treinar os animadores, o que gastaria tempo e dinheiro, então, ao invés, Ron Miller, que já havia se tornado presidente da companhia neste meio tempo, fez o caminho oposto e tentou suavizar o filme para que ele se adequasse às habilidades do seu corpo de animadores, dispensando a arte conceitual para a obra desenvolvida por Mel Shaw, animador veterano que já trabalhava com o estúdio desde Bambi, por considerá-la complicada demais para os novos animadores do projeto. Com essas dificuldades, o filme recebeu seu primeiro atraso, com sua estreia sendo movida de 1980 para 1984.

Com o passar dos anos, as coisas foram ficando cada vez mais complicadas, com o material denso dos livros se provando de difícil adaptação para um filme de oitenta minutos. Assim, um número inusitado de animadores e artistas começaram a se envolver com o projeto, mais do que em outros filmes do estúdio, o que por si só já deixou o processo de produção extremamente conturbado, chegando ao ponto em que Ron Miller teve que se posicionar e afastar diversos dos contribuintes, direcionando-os para outros projetos ao invés.

O fato de haverem diversas pessoas envolvidas também fez com que O Caldeirão Mágico fosse alvo de muita disputa e discordância entre os animadores, sobretudo no que tangia o tom, com este filme em específico sendo inusitadamente denso e mórbido para um filme da Disney, com várias cenas de violência, e sem aquela leveza e doçura que nós normalmente encontramos em obras do estúdio que contrapusessem e suavizassem a história (por exemplo, este é o primeiro filme da história do estúdio a não possuir canções). Tudo isso resultou na classificação indicativa deste filme, sendo este o primeiro filme animado da história do estúdio a não ser considerado livre para todos os públicos.

Este fenômeno pode ser traçado até dois fatores, o primeiro sendo o cenário onde o meio animado se encontrava durante a época. Eu citei isso brevemente em minha resenha de O Cão e a Raposa, mas do final dos anos setenta pro início dos oitenta, começou a surgir um crescente nicho de animações mais adultas e, consequentemente, mais pesadas, iniciado pelo animador Ralph Bakshi.

Aqui, as animações tinham caído drasticamente de seu status elevado durante os anos trinta e quarenta, migrando para a televisão, que crescia em popularidade após a Segunda Guerra, onde eram vistas como um produto medíocre voltado apenas para as crianças — o orçamento pequeno e a qualidade, em sua maioria, baixa destas produções também contribuiu para que as animações fossem vistas cada vez mais como um subproduto, além dos pais de crianças passando a policiar cada vez mais o que os seus filhos assistiam e ficando em cima das emissoras para que os desenhos animados se prendessem o máximo ao “politicamente correto” possível, o que os engessou ainda mais.

Apenas a Disney ainda mantinha a qualidade das décadas anteriores em suas produções, e nem isso se manteve com o fracasso de A Bela Adormecida nas bilheterias, e, sobretudo, a morte de Walt Disney, encaminhando o estúdio para sua Era das Trevas — similarmente este período, no que tangia o mercado animado como um todo, é conhecido como a Era das Trevas da Animação Americana.

Deste ecossistema surge Ralph Bakshi que, cansado do descaso em que o meio animado se encontrava, e se aproveitando do fato em que ninguém praticamente estava prestando atenção às animações, lança Fritz, o Gato, primeira animação a receber uma classificação +18. O filme foi um sucesso e lançou uma leva de filmes animados independentes e menores que eram mais adultos do que o público estava acostumado, como Uma Grande Aventura, As Aventuras de Mark Twain e filmes do próprio Bakshi, como sua adaptação em animação de O Senhor dos Anéis. Esta esfera mais madura e densa de se fazer cinema animado influenciou pesadamente os primeiros trabalhos de Don Bluth e os filmes que produziu após sair da Disney e montar seu próprio estúdio, e chegaram até a própria Disney, começando com O Cão e a Raposa, mas inegavelmente atingindo seu ápice com O Caldeirão Mágico.

Outro fator que contribuiu para esta pegada mais madura desta obra foi o crescimento dos blockbusters durante este período. Muitos apontam para Tubarão, de Steven Spielberg, como sendo o fundador da dita “era do blockbusters” no cinema. Após seu lançamento, em 1975, Star Wars, lançado dois anos mais tarde, expandiu a essência dos ditos blockbusters, sendo um sucesso gigantesco, e, a partir de então, filmes com um ritmo mais acelerado, de apelo mais comercial e com um grande orçamento foram se tornando lugar comum no cinema, e sempre atraindo um grande público, já que eram filmes “para toda a família” e possuíam um apelo que atingia às pessoas de todas as faixas etárias.

Com esses filmes, a Disney foi sendo deixada cada vez mais de lado — também não ajudava o ritmo irregular com que ela lançava suas obras, e a qualidade também irregular das mesmas — o que fez com que ela tentasse sair de sua zona de conforto, com seus filmes que cresciam cada vez menores e mais simples em escala, e fazer algo mais cinemático e épico, e também maduro, que pudesse competir com obras como Star Wars e Indiana Jones, e chamar a atenção do público, resultando nesta obra de 1985.

Com o passar dos anos, as coisas foram ficando cada vez mais complicadas, com o material denso dos livros se provando de difícil adaptação para um filme de oitenta minutos. Assim, um número inusitado de animadores e artistas começaram a se envolver com o projeto, mais do que em outros filmes do estúdio, o que por si só já deixou o processo de produção extremamente conturbado, chegando ao ponto em que Ron Miller teve que se posicionar e afastar diversos dos contribuintes, direcionando-os para outros projetos ao invés.

O fato de haverem diversas pessoas envolvidas também fez com que O Caldeirão Mágico fosse alvo de muita disputa e discordância entre os animadores, sobretudo no que tangia o tom, com este filme em específico sendo inusitadamente denso e mórbido para um filme da Disney, com várias cenas de violência, e sem aquela leveza e doçura que nós normalmente encontramos em obras do estúdio que contrapusessem e suavizassem a história (por exemplo, este é o primeiro filme da história do estúdio a não possuir canções). Tudo isso resultou na classificação indicativa deste filme, sendo este o primeiro filme animado da história do estúdio a não ser considerado livre para todos os públicos.

Este fenômeno pode ser traçado até dois fatores, o primeiro sendo o cenário onde o meio animado se encontrava durante a época. Eu citei isso brevemente em minha resenha de O Cão e a Raposa, mas do final dos anos setenta pro início dos oitenta, começou a surgir um crescente nicho de animações mais adultas e, consequentemente, mais pesadas, iniciado pelo animador Ralph Bakshi.

Aqui, as animações tinham caído drasticamente de seu status elevado durante os anos trinta e quarenta, migrando para a televisão, que crescia em popularidade após a Segunda Guerra, onde eram vistas como um produto medíocre voltado apenas para as crianças — o orçamento pequeno e a qualidade, em sua maioria, baixa destas produções também contribuiu para que as animações fossem vistas cada vez mais como um subproduto, além dos pais de crianças passando a policiar cada vez mais o que os seus filhos assistiam e ficando em cima das emissoras para que os desenhos animados se prendessem o máximo ao “politicamente correto” possível, o que os engessou ainda mais.

Apenas a Disney ainda mantinha a qualidade das décadas anteriores em suas produções, e nem isso se manteve com o fracasso de A Bela Adormecida nas bilheterias, e, sobretudo, a morte de Walt Disney, encaminhando o estúdio para sua Era das Trevas — similarmente este período, no que tangia o mercado animado como um todo, é conhecido como a Era das Trevas da Animação Americana. Deste ecossistema surge Ralph Bakshi que, cansado do descaso em que o meio animado se encontrava, e se aproveitando do fato em que ninguém praticamente estava prestando atenção às animações, lança Fritz, o Gato, primeira animação a receber uma classificação +18.

O filme foi um sucesso e lançou uma leva de filmes animados independentes e menores que eram mais adultos do que o público estava acostumado, como Uma Grande Aventura, As Aventuras de Mark Twain e filmes do próprio Bakshi, como sua adaptação em animação de O Senhor dos Anéis. Esta esfera mais madura e densa de se fazer cinema animado influenciou pesadamente os primeiros trabalhos de Don Bluth e os filmes que produziu após sair da Disney e montar seu próprio estúdio, e chegaram até a própria Disney, começando com O Cão e a Raposa, mas inegavelmente atingindo seu ápice com O Caldeirão Mágico.

Outro fator que contribuiu para esta pegada mais madura desta obra foi o crescimento dos blockbusters durante este período. Muitos apontam para Tubarão, de Steven Spielberg, como sendo o fundador da dita “era do blockbusters” no cinema. Após seu lançamento, em 1975, Star Wars, lançado dois anos mais tarde, expandiu a essência dos ditos blockbusters, sendo um sucesso gigantesco, e, a partir de então, filmes com um ritmo mais acelerado, de apelo mais comercial e com um grande orçamento foram se tornando lugar comum no cinema, e sempre atraindo um grande público, já que eram filmes “para toda a família” e possuíam um apelo que atingia às pessoas de todas as faixas etárias.

Com esses filmes, a Disney foi sendo deixada cada vez mais de lado — também não ajudava o ritmo irregular com que ela lançava suas obras, e a qualidade também irregular das mesmas — o que fez com que ela tentasse sair de sua zona de conforto, com seus filmes que cresciam cada vez menores e mais simples em escala, e fazer algo mais cinemático e épico, e também maduro, que pudesse competir com obras como Star Wars e Indiana Jones, e chamar a atenção do público, resultando nesta obra de 1985.

Finalmente parecia que as coisas iam se acertar para a Disney e, consequentemente, para O Caldeirão Mágico, após uma série de atrasos e empecilhos na produção, incluindo a descoberta de que os animadores estavam utilizando folhas do tamanho errado para transferirem seus desenhos, e uma greve promovida pelo sindicato dos animadores em 1982. Em 1984, Roy E. Disney, sobrinho de Walt Disney, conseguiu finalmente depor Ron Miller da presidência da companhia em favor de Michael Eisner e Frank Wells.

Eu já falei sobre isso no passado, mas, em termos breves, a gestão de Ron Miller da companhia não foi muito positiva para a Disney, não apenas no que tangia seus filmes animados, mas a companhia como um todo estava falhando em fazer dinheiro, o que motivou parte dos acionistas a se apossar da Disney, para que pudessem fragmentá-la e vendê-la, acreditando que esta seria a única maneira de conseguirem algum lucro. Ron Miller conseguiu combater esta tentativa, mas para Roy E. Disney, que queria manter o legado de seu tio e de seu pai, Roy Disney, aquela foi a gota d’água da gestão de Miller, e ele iniciou a campanha Save Disney, como uma maneira de convencer o resto do concelho a depor Miller.

Sua tentativa foi bem sucedida, e em troca ele trouxe Michael Eisner, da Paramount Pictures, para ser presidente da Disney, e Frank Wells, da Warner Bros., como CEO. Michael Eisner, por sua vez, chamou Jeffrey Katzenberg, também da Paramount, para ser o supervisor do departamento cinematográfico da companhia. Aquilo parecia ser um novo começo para a Disney, que estava pronta para se reerguer e conquistar o mundo novamente, e então… O Caldeirão Mágico aconteceu. E todos nós sabemos qual foi o resultado.

Da esquerda para direita: Michael Eisner, Frank Wells e Jeffrey Katzenberg

Agora, não é justo culpar Eisner, Wells e Katzenberg inteiramente pelo fracasso de O Caldeirão Mágico, até porque o filme estava em processo de produção anos antes de o trio ingressar na Disney. Mas, há uma parcela de culpa a ser colocada sobre eles, sobretudo Katzenberg, que, apesar de ter uma carreira de sucesso no meio cinematográfico, não era familiarizado com o nicho das animações. Isto estava destinado a ser um problema, levando em conta que boa parte do departamento cinematográfico da companhia era ocupada por filmes animados, e não demorou muito para que estes problemas viessem à tona. Antes de estrear nos cinemas, O Caldeirão Mágico foi exibido como uma prévia para um grupo seleto de pessoas, mas não foi bem recebido.

Pelo contrário, diversos pais prestaram queixas quanto ao teor macabro e violento da obra, e o clímax em específico foi responsável por aterrorizar diversas crianças, com várias delas inclusive saindo da sala de cinema, com medo, antes de a obra acabar. Vendo esta reação, Katzenberg ordenou que os animadores editassem o filme e cortassem diversas partes do mesmo, para o que Joe Hale, o produtor do filme, respondeu que animações não podiam ser simplesmente editadas, como filmes em live-action, sobretudo com a produção tão avançada assim. Com essa resposta, Katzenberg não se deu por satisfeito e decidiu editar o filme ele mesmo. Os animadores conseguiram urgir Michael Eisner a convencer Katzenberg a parar, mas ainda assim ele fez com que cortes fossem feitos, atrasando o filme em sete meses. No fim, doze minutos ao todo foram retirados de O Caldeirão Mágico.

Então, como podemos ver, O Caldeirão Mágico passou por um processo de produção absurdamente conturbado e longo. Depois de toda essa bagunça, é realmente surpreendente que o resultado final tenha ficado aquém do esperado? Mas mesmo que hoje o filme seja visto apenas como um desastre catastrófico, ainda assim há nele elementos positivos, que podemos salvar do resultado final; a parte técnica, sobretudo. A animação aqui é realmente muito bem-feita e está anos luz do que a Disney estava entregando antes.

Para um filme que teve sua estreia atrasada porque os animadores não estavam preparados o suficiente para entregar uma animação de qualidade, os visuais são realmente impressionantes, e os responsáveis por eles ao menos provaram que amadureceram o suficiente nesse meio tempo para entregá-los. Há muito mais atenção aos detalhes aqui, com os cenários expandidos e magnificamente bem-trabalhados em diversos momentos, e tudo isso ao menos ajuda a cimentar O Caldeirão Mágico como um evento cinematográfico, mais do que os filmes que vieram antes, que cresciam cada vez menores em escala.

O motivo para O Caldeirão Mágico parecer um filme maior e mais cinemático se dá porque a Disney realmente o via como tal. Por exemplo, este é o primeiro filme do estúdio desde o fracasso de A Bela Adormecida a ser projetado em 70 mm, o que já nos mostra um maior empenho por parte da Disney em fazer com que a obra fosse mais grandiosa e ousada, algo que ela tinha temido fazer desde que o filme de 1959 fracassou nas bilheterias, e se limitado a filmes menores e mais custo-efetivos.

Mas não aqui.

Pela primeira vez em muito tempo a Disney parecia estar realmente ousando novamente, e tentando de fato fazer algo significativo, o que faz o resultado de O Caldeirão Mágico nas bilheterias parecer ainda mais triste. E houve ainda mais inovações técnicas envolvidas na produção deste filme, como a utilização de um processo conhecido como APT (Animation photo transfer process). Este processo foi desenvolvido por David W. Spencer, e foi pensado como o sucessor da xerografia.

Ao invés de os desenhos dos animadores serem replicados por uma fotocopiadora, aqui eles eram fotografados e essas fotografias, por sua vez, eram recriadas na folha de acetato principal, que comporia os quadros do filme. Isto era benéfico porque fazia ser possível o maior controle das cores, que agora podiam ser replicadas também, ao invés de apenas os contornos pretos, como na xerografia tradicional, que acabava afetando o resultado final e causando a sensação de mau acabamento dos desenhos (quase como a xerografia colorida, mas mais sofisticado). Isso explica o porquê de os visuais de O Caldeirão Mágico, como um todo, soarem mais polidos do que o dos filmes que o sucederam.

Spencer chegou a ganhar um Oscar técnico pelo processo, mas ele não vingou graças ao crescimento dos computadores, que tornaram a técnica obsoleta por serem capazes de fazer a mesma coisa. E falando em computadores, O Caldeirão Mágico também foi o primeiro filme da Disney a se utilizar de imagens geradas por computador, CGI, em si, em pequenos detalhes, como a bola mágica da Princesa Eilonwy e no titular caldeirão mágico, assim como em demais efeitos especiais que aparecem durante o filme, como na iluminação, chamas de fogo, fumaça, raios, entre outras coisas.

De volta estava a câmera multiplano, que dava aos animadores mais poderio sobre seus cenários, podendo brincar com o zoom e com a perspectiva, aumentando e diminuindo a distância entre a câmera e os cenários e realmente explorar os desenhos dos animadores, como se eles fossem uma locação real que pudesse ser visitada. Esta foi a última vez que a dita câmera foi utilizada em um filme do estúdio, mais uma vez porque os computadores a deixaram obsoleta. Este também foi o primeiro filme da Disney a ser gravado em Dolby Stereo.

Então, como citado, nós realmente podemos ver o quanto a Disney estava levando a sério o projeto, tendo em vista todo o esforço e investimento em cima dele para que saísse como um verdadeiro evento cinematográfico, tão grandioso e épico quanto os blockbusters multimilionários que estavam sendo lançados naquela época pelos grandes estúdios de cinema. E isso realmente se traduz nas telas, através dos visuais, que são de fato impressionantes.

O filme também se mantém bem fiel ao campo mórbido e macabro, então ao menos aqui ele sabe o que quer fazer, diferentemente de muitos filmes do passado da Disney, que tinham medo de se manterem fiéis a campos mais tensos e sérios, com medo de alienar a audiência. Mas não aqui, onde há uma série de imagens e momentos verdadeiramente assustadores, e podemos perceber claramente que o estúdio não poupou esforços em entregar um filme diferente de tudo o que já haviam feito.

Eu nuca tinha visto o filme quando criança, mas tendo visto agora, já adulta, percebo claramente porque alguém teria problemas em mostrar certas cenas do tipo para crianças (lembrando que este filme foi o primeiro da história do estúdio a não possuir uma classificação livre, e dá para entender o porquê sem dificuldades). O filme não se limita ao construir o seu clima assustador, e vai o construindo mais e mais sem nunca parar, o que, apesar de poder ser demais para os espectadores menores, ajuda a fortalecer a obra e dá a ele uma identidade mais própria (a trilha sonora, composta pelo premiado Elmer Bernstein, contribui muito para montar esse clima mórbido da obra).

Os animadores disseram ter se inspirado no estilo gótico e pré-renascentista de A Bela Adormecida, e podemos notar a similaridade entre os dois filmes, não apenas porque ambos foram exibidos com um enquadramento de 70 mm. Além da ambientação medieval, O Caldeirão Mágico bebe muito da fonte de A Bela Adormecida, sobretudo das cenas estrelando a vilã Malévola, que eram mais macabras e mórbidas, tom que dita o filme como um todo. Os efeitos especiais contribuem muito para essa essência mórbida, com o caldeirão negro em si sendo um objeto tétrico, e com a fumaça verde que sai dele, além das chamas vermelhas que expele, fica ainda mais sinistro, contribuindo para a essência de misticismo da obra.

Aliás, as cenas e momentos que brincam com a magia e o teor místico do universo do filme são as melhores, visualmente falando, não só por se utilizarem mais dos efeitos especiais, mas por poderem dar mais liberdade para os animadores brincarem, e realmente são esses os momentos mais criativos do filme todo, com uma utilização mais variada de cores e imagens — momentos como os estrelando o próprio caldeirão, o vilão, Rei de Chifres, e as visões da porquinha mágica, Vem-Vem.

Aliás, além das similaridades óbvias com A Bela Adormecida, eu notei várias referências pelo filme, nesses momentos mais criativos, a filmes da Era de Ouro da Disney, que eram realmente mais artísticos e criativos, como esses momentos pontuais de O Caldeirão Mágico; momentos como a transformação da Rainha Má em Branca de Neve e toda a sequência de Uma Noite no Monte Calvo, em Fantasia (o Rei de Chifres, aliás, pega muito de Chernabogue). O uso da câmera multiplano também é bem-vindo não só porque dá mais grandiosidade aos cenários, mas porque faz com que sejam possíveis cenas de ação mais frenéticas e épicas.

Mas, mesmo na animação, já encontramos limitações em O Caldeirão Mágico. Apesar de a execução ser muito boa, o problema aqui é conceitual mais do qualquer outra coisa. A arte, na imensa maioria das vezes, e com a exceção, obviamente, das já citadas cenas que são guiadas por um maior misticismo, é extremamente simples e não sai do dito “padrão Disney”, sendo entregue quase que como algo que poderíamos ver em qualquer filme do estúdio, ou em qualquer filme animado daquela época, o que é particularmente grave considerando que este é um filme de fantasia, onde se espera encontrar uma maior criatividade visual e identidade própria.

Isso é particularmente notável no design dos personagens, que parecem uma fusão de personagens da Disney que já vimos antes, não tendo nada neles que se destaquem, mas os cenários também vão pelo mesmo caminho. O tempo todo, a ambientação aparenta ser um bosque qualquer, uma floresta qualquer, um castelo qualquer. Como citado, não há nada que se destaque, e o filme acaba tendo dificuldade em cimentar uma identidade própria, e sendo este um universo mágico e fantástico, era de se esperar que os animadores tivessem uma maior liberdade com o mundo que estavam criando, e brincassem mais com este universo, mas ao invés eles se mantêm em sua zona de conforto, só se aventurando quando estritamente necessário; isto é, nas cenas mais mórbidas e macabras, que é onde o filme realmente brilha e utiliza de seus efeitos especiais e imagens mais criativas, mas quando estes momentos acabam, parece que os animadores se entediam e fazem apenas o mínimo para continuar com a história. 

Aqui há momentos chaves de brilho, mas logo o filme larga a bola e se engatinha de volta à sua zona de conforto. A Bela Adormecida também sabia se utilizar de forma muito melhor de seu enquadramento de 70 mm, usando dele para montar seus quadros como verdadeiras pinturas panorâmicas, enquanto que em O Caldeirão Mágico pouco importa se ele é exibido em 70 ou em 35mm. O filme também tem quedas bruscas não só na criatividade, mas na própria qualidade propriamente dita de seus visuais.

Em um momento nós possuímos uma cena extremamente cinemática e bem detalhada, e em outro nós voltamos para aquela essência rascunhada e mal-acabada da xerografia, onde não só o design dos personagens sofre, mas os cenários ficam notoriamente menos detalhados. Mais tarde eu descobri que isso se deu porque o dito processo APT não foi usado no filme todo, por não ser “confiável” e os animadores muitas vezes voltaram para a xerografia, que era “mais segura”.

Mas mais do que isso, há a clara sensação de que os animadores usaram seu orçamento gigantesco apenas em cenas chaves, as mais “grandiosas” e “épicas”, e deixaram o resto do filme a própria sorte, ao invés de balancearem os recursos, criando uma imensa disparidade de qualidade por entre a obra.

Aqui nós já começamos a encontrar o que talvez seja o problema principal de O Caldeirão Mágico; a forma como ele se apoia totalmente em sua essência macabra, assustadora e, consequentemente, “madura” para chocar e prender a atenção do público, ao invés de, de fato, trabalhar melhor a sua história. Isso é uma crítica que eu sinto que é muito atribuída a diversos produtos audiovisuais, ou até literários, que caem na pretensão de querer se provar como sendo trabalhos “ousados” e “chocantes” com imagens assustadoras e de violência, muitas vezes gratuitas, e esquecem-se de trabalhar mais organicamente com sua narrativa e com as bases de sua história, algo que estava crescendo em popularidade na época em que este filme foi feito, sobretudo com as histórias em quadrinhos (procure sobre a “Era Moderna” ou a “Era das Trevas” dos quadrinhos) e que iria explodir na mídia como um todo durante a década final do século XX, e, como sempre um produto de seu tempo, O Caldeirão Mágico também foi vítima deste fatídico erro.

Assim, fica até a questão se o estúdio estava realmente ousando e tentando algo novo ou apenas se vendendo para aquilo que interessava seu público na época, sem dar a devida atenção para como fazer com que seu filme de fato funcionasse. Sim, a Disney realmente estava tentando fazer com que o filme funcionasse, ela abriu mão de um orçamento gigantesco para doar a esta obra (algo que não a víamos fazer desde a época de Walt Disney), desenvolveu técnicas de animação novas especialmente para o filme, experimentou com o CGI pela primeira vez e tudo o mais, mas ao invés de usar de tudo isso para montar um filme verdadeiramente bom e o qual ela e seus animadores realmente quisessem fazer, ela parece estar mais interessada em utilizá-lo para criar algo simplesmente popular e que interessasse às crianças e adolescentes do período.

Por que O Caldeirão Mágico é uma fantasia medieval? Porque fantasias medievais eram populares na época. Por que o filme é um blockbusters multimilionário? Porque esses eram os filmes que atraíam o público ao cinema na época. Por que ele é extremamente pesado e mórbido? Porque era isso que os jovens queriam ver na época. E eu não estou dizendo que não há maneiras de casar preocupações comerciais com um produto de qualidade, se este fosse o caso eu tampouco devotaria meu tempo a resenhar filmes da Disney, mas infelizmente, com O Caldeirão Mágico, o filme se fechou com 90% de apelo comercial e 10% de substância, o que é uma pena porque o filme mostrou que a Disney realmente estava disposta a tomar riscos, algo que ela não fazia desde a morte de seu líder fundador.

Este filme é extremamente diferente de tudo o que o estúdio já havia entregado anteriormente, sendo uma fantasia medieval não indicada para menores e com momentos que beiram ao terror, sem momentos musicais ou praticamente nenhum momento mais leve e descontraído, mas, infelizmente, todos os riscos tomados aqui foram pelos motivos errados. Imagine se ela tivesse tentado desta maneira e investido dinheiro e recursos em uma história realmente bem-construída? Bem, provavelmente o que teríamos seriam os filmes que Walt Disney lançou no começo de sua carreira, como Branca de Neve, filme cujo qual O Caldeirão Mágico tinha a intenção de suceder. Mas ao invés de personagens carismáticos e uma animação dedicada, O Caldeirão Mágico gastou tudo de si para montar um espetáculo gigantesco e volumoso, mas sem nada que o sustentasse.

E isso me leva a história, a real culpada pelo fracasso do filme. O Caldeirão Mágico se passa na terra fictícia de Prydain, e conta a história de Taran, um cuidador de porcos que sonha em se tornar um guerreiro glorioso. Ele descobre que a porca da qual ele cuida, Vem-Vem, tem poderes mágicos, e o vilão, Rei de Chifres, quer sequestrá-la para que ela lhe mostre, com seus poderes, o caldeirão mágico, um objeto fantástico que tem o poder de ressuscitar os mortos. Com o caldeirão, o vilão poderia criar um exército de mortos-vivos e então se tornar invencível. Cabe a Taran resgatar sua porca, destruir o caldeirão mágico e derrotar o antagonista, e em sua jornada ele faz vários companheiros que o ajudam em sua missão.

O problema com o roteiro de O Caldeirão Mágico começa pelo fato de ele tentar juntar o enredo de dois livros diferentes em um filme de oitenta minutos, e, não surpreendentemente, isto não dá muito certo, o que choca menos gente ainda quando descobrimos que um dos maiores empecilhos do processo de pré-produção do filme foi arranjar uma maneira de juntar as duas histórias em uma só, o que gerou diversos atrasos, e mesmo com o tempo extra, o filme ainda fez um mau trabalho juntando ambas as histórias.

Ok, então o que o filme pega do primeiro e do segundo livro das Crônicas de Prydain, respectivamente? No primeiro livro, o Livro dos Três, Taran, um porqueiro assistente, sai em busca de sua porquinha com poderes mágicos, Hen Wen, que fugiu, antes que o vilão, o Rei Cornudo, se aposse dela e use seus poderes. No meio do caminho ele conhece a Princesa Eilonwy, o bardo Fflewddur Fflam e o animal da floresta Gurgi. No segundo livro, Taran e seus amigos partem em outra aventura, desta vez visando destruir o caldeirão negro, que é utilizado pelo terrível rei Arawn para ressuscitar os mortos para que ele se junte ao seu exército de “guerreiros imortais”.

O filme junta a premissa de ambas as obras; não só Taran tem que resgatar Hen Wen, dublada como Vem-Vem, mas no meio do filme seu objetivo muda e passa a ser destruir o caldeirão mágico. Além disso, o Rei de Chifres (que teve a tradução de seu nome trocada, por motivos creio que óbvios) é promovido à antagonista principal, enquanto que nos livros ele é um personagem secundário que aparece apenas no primeiro livro (e apenas em momentos pontuais), com o verdadeiro detentor do caldeirão negro sendo o rei Arawn, antagonista principal da saga.

Essas mudanças não seriam necessariamente um problema, se esses diferentes pontos de roteiro fossem amarrados juntos em uma narrativa corpórea, mas este não é o caso. Como eu disse, no meio do caminho o filme dá uma virada brusca em seu objetivo, e este deixa de ser “temos que resgatar Vem-Vem” e passa a ser “temos que destruir o Caldeirão Negro”, ou seja, nós passamos quarenta minutos acompanhando os personagens tentando resgatar a porca, para que, de repente, ela simplesmente pare de importar para a história, e o foco principal acaba sendo outro completamente diferente daquele cujo qual, por quarenta minutos, o filme nos fez crer que era. E para piorar a situação, Hen Wen, ou Vem-Vem, simplesmente para de aparecer na história, e é descartada completamente, como se não fosse nada, sendo que até pouco tempo atrás ela era a principal peça que movia a história inteira.

Este defeito no roteiro, apesar de ser bastante significativo, não necessariamente significa que o filme não possa ser divertido ou entreter, mas já nos mostra o quão desfocados e sem muita familiaridade com o material original os responsáveis pelo filme estavam enquanto o faziam, e isso sim dá abertura para muitos problemas. Podemos perceber claramente diversos sinais de como os animadores e roteiristas não sabiam muito bem o que fazer com esta história, para onde ir, e o resultado é um filme bagunçado, sem foco e com diversos elementos soltos em si.

O fato de o final de O Caldeirão Mágico ser tão decepcionante e, assim como o resto do filme, acontecer rápido demais, não é tanto culpa do roteiro e dos animadores e mais de Jeffrey Katzenberg, que foi quem ordenou que esses cortes fossem feitos em primeiro lugar, mas ainda assim foi um final bastante brochante, sobretudo porque o filme parecia estar tão sério a respeito de sua temática e tonalidade mórbida, e um final que vai contra isso e abandona no meio do caminho o que provavelmente seria seu ápice e momento mais tenso e assustador dá a entender que os animadores se acovardaram nos quarenta e cinco do segundo tempo.

Eu entendo a problemática envolvendo essas cenas e talvez não houvesse necessidade de cenas tão gráficas e violentas (mais uma vez a questão de momentos gratuitos de terror e violência apenas para chocar), mas após um filme inteiro se encaminhando a essa direção eles poderiam ao menos tentar chegar a um meio termo e suavizar a sequência ao invés de apenas chutar o pau da barraca e abandonar tudo no meio do caminho. Isso faz parecer que o que veio antes foi ainda mais gratuito, porque toda aquela morbidez e violência não deu em nada no final das contas, além de que o filme termina com praticamente nenhum impacto.

Mas para além dos problemas de roteiro, há muito mais para se criticar em O Caldeirão Mágico, como a maneira com que ele constrói seu universo. Eu já falei sobre isso quando comentei sobre a animação, mas para um filme de fantasia, o mundo que nos é entregue em O Caldeirão Mágico não é muito fantástico. Claro que aparecem elementos fantásticos aqui e ali, mas até esses elementos não são muito impressionantes ou bem trabalhados dentro da história para se destacarem, e, no fim, este filme parece uma cópia genérica de outras histórias de fantasia do que algo com uma identidade própria ou que demande atenção, ao invés sendo apenas mais um produto que tentou capitalizar em algo popular de forma pobre e pouco desenvolvida.

Um desses exemplos são as fadas, que aparecem no filme, mas não cumprem praticamente nenhuma função e parecem só estar ali para servirem como elementos fantásticos que cimentem O Caldeirão Mágico como uma história de fantasia, sem possuírem qualquer função ou sequer personalidade própria. O design delas é extremamente genérico, servindo apenas como pequenos gnomos fofinhos, e tudo o que eles contribuem para a história é ajudar a transportar o quarteto principal de um lugar para o outro. Só isso. Logo depois, eles desaparecem para nunca mais serem vistos, e o filme simplesmente colocou todo um elenco de criaturas mágicas em si apenas para empurrá-las para debaixo do tapete no momento seguinte.

Para ser justo, as cenas dessas fadas foram as principais vítimas dos cortes que Jeffrey Katzenberg fez ao filme, mas sinceramente, eu acredito que era mais fácil cortar a sequência toda de uma vez do que apenas deixar uma ponta solta totalmente dispensável dentro da história. Sim, pontas soltas porque esse povo vai totalmente inexplicado dentro do filme; quais são os poderes deles exatamente? Por que eles moram debaixo d’água? Eu sei a resposta para essas perguntas porque eu li o livro que baseou este filme, mas se caso alguém for assistir apenas ao filme, pode descartar qualquer esperança de que ele reserve alguma explicação ao expectador.

Outro exemplo disso: a espada que Taran encontra no castelo do Rei de Chifres, que tem poderes mágicos e faz com que ele consiga vencer todos os seus adversários, que aparece no filme e vai embora sem mais nem menos. Sim, eu entendo que abrir mão da espada fazia parte do arco narrativo do personagem, como uma forma de se provar altruísta e não mais um personagem obcecado por glória, mas ainda assim o filme não devota praticamente nenhuma atenção a espada, não atribui uma história a ela, e apenas a adiciona como mais um objeto mágico que acaba não contribuindo muito para a história no fim das contas.

E falemos do vilão. O Rei de Chifres, ao menos no que tange seus visuais, é fascinante. Para começar que ele é verdadeiramente assustador, seja pelo seu design, que, diferentemente dos outros personagens aqui, exala bastante personalidade, e o faz um dos personagens mais visualmente ameaçadores de toda a história do estúdio, mas também a maneira com que ele é executado pelos animadores.

Toda cena com ele é ditada por muito mistério, ele parece estar sempre entre as sombras, e todas as cenas com ele vão sendo trabalhadas lentamente, nos deixando cada vez mais tensos, até que a câmera finalmente dá um zoom em seu rosto, e toda a espera é compensada ao nos depararmos com sua feição esquelética e seus olhos que de tempos em tempos brilham vermelho. Nesse ponto, a trilha sonora ajuda muito, contribuindo para a tensão que dita esses momentos e nos deixando ainda mais agoniados com a aura misteriosa desse vilão.

Nós claramente podemos perceber o quão mais entusiasmados os animadores estavam com as cenas macabras e mórbidas do filme comparado com o resto ao ver o quão mais bem sucedidas são os momentos estrelados pelo Rei de Chifres do que os estrelados por Taran e sua turma, desde sua primeira aparição até sua impactante morte.

O Caldeirão Mágico, um filme confuso, bagunçado, com diversos problemas de roteiro e animação, perdido em um limbo entre querer inovar e se prender à sua zona de conforto, e, ainda assim, eu não consigo odiar este filme. Eu sei que parece loucura sendo que eu passei 80% desse texto o criticando, mas parte de mim gosta de O Caldeirão Mágico, ou ao menos consegue se entreter o assistindo. Acho que parte disso se dá porque, por mais bagunçado que este filme seja, ao menos ele é algo novo e diferente do repertório da Disney.

Ouso dizer que este é o filme “menos Disney” de toda a biblioteca do estúdio, e é sempre bom ver um grupo de artistas tentar algo novo e sair de sua zona de conforto, nem que seja pelos motivos errados. Nós podemos perceber olhando as cenas do Rei de Chifres que os artistas estavam investidos em fazer um bom filme, mesmo que parte dele, e pelo dinheiro e recursos que a Disney doou ao projeto, ela claramente estava investida em fazê-lo funcionar, então ao menos houve um esforço, independente se era em nome da arte ou em nome do dinheiro.

E eu realmente acredito que há um potencial aqui. Na mão da equipe certa, uma animação muito boa poderia ter surgido em cima de As Crônicas de Prydain, e, mesmo que em poucos momentos, há esboços do que poderia ter sido em O Caldeirão Mágico.

É também notável que O Caldeirão Mágico seja o primeiro filme da Disney a ser totalmente animado pela nova leva de animadores que havia recém-entrado no estúdio (os antigos ainda estavam lá quando começou a se debater sobre a obra, mas o processo de pré-produção foi tão arrastado que quando finalmente a hora chegou para começar a trabalhar de fato nela, em 1980, nenhum se encontrava trabalhando mais na casa do Mickey), então faz sentido que eles quisessem mudar um pouco as coisas para que sua marca pudesse ser sentida pelo público.

Desnecessário dizer a este ponto que suas ambições falharam miseravelmente, mas O Caldeirão Mágico teve influências em relação aos filmes do estúdio dali em diante, e parte do seu legado seria sentido durante os anos noventa, quando a Disney finalmente sairia do marasmo e encontraria sucesso novamente. Acontece que esse foi de fato o primeiro filme a seguir o modelo dos blockbusters, sendo mais sério, impactante e possuindo uma história mais corpórea, e, por mais que nada disso tenha dado certo aqui, esse estilo comercial se manteria dali em diante pelo estúdio, que passaria a fazer filmes mais uniformes e sair do campo modesto e de menor escala que seus filmes se encontravam.

Podemos encontrar essa influência até mesmo na colocação de créditos do filme, com este sendo o primeiro filme a seguir o modelo moderno de colocar os créditos apenas no final do filme, ao invés de possuir créditos iniciais e terminar com um simples “fim”. Isso era a norma em Hollywood, até que um certo filme chamado Star Wars popularizou a colocação de créditos finais ao invés de iniciais, e apenas esse pequeno gesto nos indica que talvez O Caldeirão Mágico tenha sido a primeira entrada da Disney no campo dos filmes modernos, ou seja, por mais que tenha falhado, de certa forma ele pavimentou um pouco do caminho para muito do que veríamos a seguir.

Então eu realmente incentivo que as pessoas assistam a esse filme (ele está no Disney+) que é um que eu sei que não são todos que conhecem, pela maneira até um pouco desesperada com a qual a Disney tenta fingir que ele nunca existiu. Não é um filme de todo ruim, e tem até um pequeno grupo de pessoas que advoga pelo filme e o defende como uma obra injustiçada, então é sempre bom assistir para formar uma opinião a respeito.

Caso não goste, ao menos você conhece um pouco de uma obra que, para o bem ou para o mal, representa todo um trecho da história da Disney; e se gostar, eu recomendo que você vá procurar As Crônicas de Prydain, que é uma versão anos luz à frente de O Caldeirão Mágico, e mostra todo o potencial que o filme poderia ter atingido. E, quem sabe, caso você goste desses livros, tem sempre a esperança de que a Disney tente abordá-los mais uma vez — tudo indica que este é o caso, considerando que a companhia renovou a compra dos direitos dessas obras em 2016.

Infelizmente para este filme, no entanto, com uma futura adaptação de As Crônicas de Prydain, possivelmente em live-action, é capaz de que O Caldeirão Mágico seja ainda mais engolido pelas sombras do tempo, e esquecido de vez.

O Caldeirão Mágico

O Caldeirão Mágico
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Na mítica terra de Prydain, um garoto chamado Taran assume uma missão heroica. Com uma espada mágica ao seu lado, ele precisa impedir que o malvado Horned King libere os poderes sobrenaturais de um caldeirão mágico. Para isso, ele terá a ajuda da bela princesa Eilonwy, de Gurgi, e um porquinho clarividente.
Na mítica terra de Prydain, um garoto chamado Taran assume uma missão heroica. Com uma espada mágica ao seu lado, ele precisa impedir que o malvado Horned King libere os poderes sobrenaturais de um caldeirão mágico. Para isso, ele terá a ajuda da bela princesa Eilonwy, de Gurgi, e um porquinho clarividente.
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