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Resenha Literária | A Duquesa Feia por Eloise James

A Duquesa Feia

Em A Duquesa Feia, terceiro livro da série Contos de Fada publicado pela editora Arqueiro, Eloisa James recria O Patinho Feio em meio ao contexto Georgiano do início do século XIX na Inglaterra. Mais uma vez, a habilidade narrativa da autora foi capaz de me proporcionar uma leitura divertida e envolvente, que me surpreendeu com a velocidade de seus acontecimentos.

Em A Duquesa Feia nosso herói e heroína, James e Theodora (chamada de Daisy por James, embora ela mesma prefira Theo) foram criados juntos praticamente no berçário (ela é pupila de seu pai) e são, em muitos aspectos, melhores amigos. Quando ela tem 17 e ele 19, seu pai perdulário o informa que ele deve se casar com Theo; O duque de Ashbrook não apenas colocou suas próprias finanças no chão com maus investimentos, mas ele, hum, “pegou emprestado” parte do dinheiro de Theo na crença equivocada de que poderia recuperá-lo e substituí-lo antes que alguém soubesse que tinha acabado.

James tem um relacionamento compreensivelmente difícil com seu pai, cuja irresponsabilidade é evidente há muito tempo. Ele está furioso não apenas por ter que se casar contra sua própria vontade, mas com a insistência de seu pai de que ele deve fazer Theo se apaixonar por ele; ela não pode saber que é seu dote que ele realmente quer. James sabe que Theo descobrirá a verdade e ficará arrasado. Ele odeia a ideia de machucá-la e o fim inevitável de sua amizade. Mas seu pai força sua mão; a notícia de que a propriedade está em uma situação tão terrível pode não ser suficiente para fazer James capitular, mas a perspectiva de seu pai ir a julgamento por desviar a herança de sua pupila é.

Enquanto isso, Theo está se irritando com as restrições que a mantêm sob o controle da mãe bem-intencionada. Theo não é nada adorável e, na verdade, costuma-se dizer que tem uma aparência masculina. Ela tem traços fortes – maçãs do rosto dramáticas e um queixo agressivo – e tem certeza de que ficaria muito melhor se pudesse se vestir sem a interferência de sua mãe. As escolhas femininas de babados de sua mãe – brancos e rosas repletos de rendas e babados – pretendem fazer Theo parecer mais feminino. Eles acabam tendo o efeito oposto e, portanto, Theo é um pouco relutante durante sua primeira temporada em Londres. Ela está de olho em uma perspectiva matrimonial – um jovem de língua ácida que ela acha que poderia impressionar com sua inteligência, se ao menos ele a notasse.

Acontece que, antes que James possa ir muito longe no plano de “fazer Theo se apaixonar por ele”, as linhas entre o que ele está fazendo por obrigação e o que ele quer estão confusas. Theo também está começando a olhar para James de uma maneira diferente. Quando eles são descobertos em uma posição comprometedora no musical do Príncipe Regente, James deixa escapar uma proposta e, antes que você perceba, eles se casam.

James e Theo têm o tipo de noite de núpcias estranha que você esperaria entre dois adolescentes que já tiveram um relacionamento semelhante ao de irmãos e que têm pouca experiência entre eles (James teve uma amante de curta duração). Mas o próximo encontro deles é melhor – muito melhor. Infelizmente, isso acontece logo depois que Theo descobre que todos os jornais que cobriram seu casamento a estão chamando de “A Duquesa Feia” e pouco antes de ela ouvir seu sogro horrivelmente rude (sério, ele poderia ter levado alguns entalhes – ele era tão horrível e ofensivo) revelar a “verdade” sobre o desfalque e o plano de manipulá-la para se casar com James. (Eu coloquei aspas qualificativas em torno da verdade porque está claro que os sentimentos de James ficaram confusos, mesmo em tão pouco tempo – ele na verdade está muito feliz com o casamento, embora atormentado pelos segredos que escondeu de Theo.) Simples assim, a felicidade conjugal do casal é despedaçada; Theo expulsa James e seu pai de casa – uma casa que ela agora possui, devido em parte a James, que garantiu durante a redação do acordo de casamento que Theo fosse tratado com mais justiça.

Assim como em Quando A Bela Domou a Fera e em Um Beijo À Meia-Noite, a narrativa leve e descontraída de Eloisa James me permitiu mergulhar na história desde suas primeiras páginas. No caso de A Duquesa Feia, o enredo já se inicia com a discussão entre o duque e seu filho, de maneira a termos um vislumbre tanto da tensão que será desenvolvida quanto da natureza dos diálogos e da narrativa como um todo. Principalmente, já começamos a leitura inseridos na ação, o que nos provoca uma sensação de agilidade que se estenderá por toda narrativa.

Um dos pontos que mais chamou minha atenção na leitura foi a quantidade de eventos e o prolongamento de tempo cronológico abrangidos no enredo. Ao ler a sinopse, havia imaginado que haveria certa demora até se dar o casamento entre os protagonistas e que a descoberta da farsa seria um dos conflitos centrais, a ocorrer lá pela metade do livro. Então, a metade final seria composta pelas tentativas de reconciliação dos pombinhos.

Me enganei por completo: do casamento à separação não temos mais do que algumas páginas, e jamais imaginei tudo que ocorre após isso, sobretudo em relação às vivências de James. Dessa maneira, se a linguagem da autora garante agilidade à leitura, a trama em si contribui e muito para isso. Apenas ao final há uma desacelerada nos eventos, de maneira que a história foca mais nas cenas entre os protagonistas e o livro perde um pouco da velocidade inicial. Vale dizer, também, que embora haja muita coisa acontecendo, esses acontecimentos não são aprofundados, mas narrados de maneira mais superficial.

Outro ponto que me agradou — e que eu já havia notado em Um Beijo À Meia-Noite — é o empoderamento dado à protagonista. Imaginava que Theo seria a jovem tímida e reprimida por não se enquadrar nos padrões de beleza de sua época; ao contrário, ela não se deixa abater e mantém sua vivacidade mesmo sem se sentir bela. E quando ocorre todo o conflito com James, Theo assume as rédeas da própria vida e não se intimida com o que precisa enfrentar, apropriando-se, inclusive, de responsabilidades que só seriam atribuídas a homens no contexto em que vive. O único ponto em que ela é afetada é justamente o de sua sexualidade, que acaba por ser um dos conflitos a ser trabalhado na trama.

Em linhas gerais, A Duquesa Feia me proporcionou uma leitura leve, agradável e divertida, que me surpreendeu pelos eventos não terem se desenrolado como eu supunha e me conquistou pela protagonista à frente de seu tempo. O romance, mesmo não tendo sido o destaque na leitura, também me cativou, especialmente por mesclar o clichê de melhores amigos que se apaixonam com o do casal que passa a se odiar, de maneira que me vi torcendo por Theo e James por toda leitura.

9/10
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