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A Era das Trevas da Disney | Aristogatas (1970)

É pouco encorajador que o período que se instaurou na Disney após a morte de Walt, e que duraria por duas décadas inteiras, seja chamado de, literalmente, A Era das Trevas, reflexo de um momento em sua história onde o departamento animado da Disney se sentiu extremamente abalado pela morte de seu líder fundador, e, assim, se estagnou com o passar dos anos, entregando filmes mais enfraquecidos e sem brilho, e, assim, possuiu dificuldades em causar impacto, se tornando esquecida pelo público, amargurando fracassos tanto financeiros quanto criativos. E o filme que abre esta época tão esperançosa da história do estúdio é Aristogatas, o último filme para o qual Walt Disney deu sinal verde antes de sua morte.

O filme conta a história de uma família de gatos, a Duquesa e seus três filhotes, Marie, Toulouse e Berlioz, que pertencem à socialite Madame Adelaide Bonfamille. Quando o mordomo da senhora, Edgar, descobre que ela pertence deixar sua herança para seus gatos, e apenas depois que eles morressem ela passaria para o serviçal, o homem resolve sequestrá-los e jogá-los embaixo de uma ponte. Na rua, a família de felinos conhece outro gato, Thomas O’Malley, que os ajuda a voltar para casa, e desenvolve um romance com Duquesa.

De todas as ideias e todos os projetos do mundo, Aristogatas foi o último projeto que o próprio Walt Disney aprovou antes de sua morte, o que é, no mínimo, um pouco surpreendente, mas bastante sintomático para o que veio a se tornar a Disney nos anos que se sucederam. A ideia original de Aristogatas surgiu como um episódio duplo para um dos programas de televisão que Disney tinha na época, e isso fica evidente quando olhamos para o resultado final, assim como é a sensação que temos de muitas das outras obras desse período; histórias menores e mais contidas, que parecem, realmente, algo vindo de um lugar menor, como a televisão, do que como uma obra cinematográfica, como os filmes que vieram antes. Walt Disney, no entanto, sentiu que Aristogatas era promissor o suficiente para ir para as telas de cinema, e levou a ideia para o departamento de animação, isso ainda em 1964.

Mas com a morte de Walt Disney as coisas se complicaram para o filme, que teve que receber uma série de cortes da versão que Disney havia idealizado, pelas mãos de Wolfgang Reitherman, que estava dirigindo o filme sozinho, sendo este o terceiro filme do estúdio a possuir um único diretor creditado, com os outros dois sendo seus antecessores, Mogli e A Espada Era a Lei, também dirigidos por Reitherman, que havia escalado para o topo da pirâmide do estúdio durante os anos sessenta, e seria um dos líderes do mesmo após a morte de Disney.

Reitherman se viu tendo que cortar diversos aspectos do conceito original de Aristogatas para deixar a produção mais enxuta e custo-efetiva, e assim a história original foi consideravelmente diminuída e resumida, e até a parte artística da obra recebeu cortes. As ações exercidas por Reitherman, mesmo que, provavelmente, necessárias, estavam em direto contraste com o lema que guiava os animadores a partir de agora, “O que Walt faria?”, estando o diretor indo diretamente contra a versão do filme idealizada por seu mentor.

Agora, quando eu digo que o filme é “sem brilho” não significa que eu necessariamente não goste dele. Pelo contrário, eu acho Aristogatas um filme doce e fofo, mas não vai além disso, e este é exatamente o problema. O filme é bem pequeno, limitado e genérico, servindo apenas como um entretenimento de uma hora, que não deixa a sua marca, não traz nada de muito memorável e nem pode ser comparável aos outros grandes filmes da Disney, falhando em capturar sua essência ou causar algum impacto que seja.

Acho que vale lembrar aqui que essas comparativas são com os próprios filmes da Disney. Quer dizer, de forma indivídual esses filmes tem sim suas qualidades, e seu próprio brilho. Mas estamos falando de uma empresa que abriu o comercio das animações e que ganhou Oscar Honorário e fez um dos maiores filmes animados da história. Então sim, comparado a Era de Ouro e Prata, qualquer filme que veio depois sempre vai ser sem brilho e sem graça. Pelo menos até a Renascença.

E, neste sentido, a história é o aspecto mais fraco. Fica claro suas origens como um roteiro de um programa televisivo, porque ela é extremamente contida e simples, se privando da essência de algum produto cinematográfico, abrindo mão de uma certa grandiosidade ou de algo de maior substância. A base da história — um mordomo sequestra um grupo de gatos para poder ficar com sua herança — é pouco imaginativa, e os animadores não usam dela para fazer algo maior, ficando apenas no básico, e o filme termina extremamente simples, o que contribui para o fato de ele acabar genérico e pouco impactante.

Ao invés de eles tentarem esticar a tensão ou engrandecer a narrativa, mais uma vez aqui temos uma série de momentos soltos compondo a história, mas que não possuem personalidade e ficam, mais uma vez, genéricos. O filme é cerceado de momentos cartunescos e exagerados que, ainda que divertidos, ajudam a diminuir a história e causar a impressão de que o que estamos vendo é algum produto menor, como um desenho para a televisão, que é exatamente o que Aristogatas deveria ter sido.

Além disso, não há tensão nenhuma na história, nenhum senso de urgência ou de perigo, e nós nunca sentimos que, de fato, os gatos estão verdadeiramente em apuros, o que dificulta o nosso investimento com os personagens e com a história. Não há nada que aconteça que nos deixe aflitos, nem nada que dê a impressão de que os gatos não voltarão para casa de forma segura, e o que vemos parece apenas um passeio dos personagens pela cidade. Os próprios gatos não parecem estar verdadeiramente preocupados com suas situações, e só vão de cena em cena, sem nunca se questionar se voltarão seguros para casa ou o que os colocou naquela situação em primeiro lugar. Eles nem parecem tristes por estarem fora de casa.

O filme tenta consertar isso com alguns momentos onde os gatos, especialmente Duquesa, parece preocupada com o estado de sua dona, Madame Adelaide, mas logo ele esquece isso e empurra para debaixo do tapete, para que tenhamos espaço para alguma cena animada e divertida, apenas para resgatar a ideia momentos depois, esperando que apenas nos informar que aquela preocupação existe é o suficiente para provar que há, de fato, alguma maior profundidade ali quando isto é pouquíssimo trabalhado no resto da história. E, além disso, a própria jornada dos gatos de volta para casa não parece ser um grande obstáculo. Eles até tentam colocar momentos chave onde isso pode ser sentido, quando Marie cai do caminhão onde eles estavam pegando carona, ou quando Marie, mais uma vez, cai dos trilhos do trem para o rio, mas eles não carregam essa tensão ou senso de perigo pelo filme.

Os gatos nunca parecem cansados, tristes ou frustrados, e eles voltam rapidamente para Paris, sem que o filme tenha acentuado sua jornada até aquele momento. Talvez se os animadores tivessem esticado seu período fora de casa isso tenha sido diferente, e dava para fazê-lo, mesmo com o filme tendo pouco mais de uma hora, se eles tivessem priorizado a narrativa principal, ao invés de colocarem de tempos em tempos cenas soltas com personagens secundários, que causam a impressão de estarem lá apenas para encher linguiça.

Mas não é apenas com os gatos que está a culpa para o filme parecer ser tão pequeno e com um senso de tensão mínimo. Outro grande elemento que contribui para isso é Edgar, o vilão da história, que é um personagem muito fraco e genérico, e é quase uma piada quando comparado com outros antagonistas que vimos ou iremos ver na biblioteca da Disney. Aliás, o próprio filme o trata como uma piada, o usando como alívio cômico mais do que como uma ameaça a ser considerada.

E eu não digo que vilões não possam ser cômicos, mas, especialmente quando o antagonista é o responsável pelo conflito principal que os personagens principais têm que atravessar, os animadores tinham que, no mínimo, casar a comicidade do personagem com alguma ameaça maior, para que compremos o que está acontecendo, e nos importemos também. Mas Edgar nunca é retratado desta maneira, com o filme o retratando como um tapado que está sempre se atrapalhando com seus próprios planos e não tem capacidade de exercer nada direito.

E além de ele não fazer um bom trabalho como vilão, ele também não é um alívio cômico de destaque, repetindo o mesmo arquétipo do personagem atrapalhado e que sempre faz besteira e se dá mal que já vimos tantas vezes. Suas motivações são bem básicas e pouco inspiradas — quantas vezes já não vimos essa ideia de alguém querendo se livrar da pessoa que estava na sua frente para receber alguma herança? — o que, para ser honesto, não é um problema que apenas Edgar possui, com alguns dos vilões da Disney possuindo motivações meio genéricas, mas pelo menos a maioria desses personagens conseguiam compensar por isso com uma boa caracterização e bons momentos, o que, como estabelecemos, falta em Edgar.

E além disso, o mordomo começa o filme como uma boa pessoa e um empregado prestativo, e é só quando ele descobre sobre a herança que sua personalidade muda bruscamente, sem nada que indicasse anteriormente que ele era alguém com más intenções, o que eu até posso respeitar se a ideia dos animadores tenha sido mostrar como a ganância e a sede por dinheiro muda as pessoas, mas tendo em vista com o quão pouco imaginativo é o filme, e Edgar especificamente, eu estou inclinado a acreditar que tenha sido apenas uma tática rápida e fácil para estabelecer um antagonista.

Sendo assim, Edgar fecha o filme como sendo o elemento mais fraco e esquecível do mesmo, e sua personalidade atrapalhada e genérica é mais um dos resquícios da origem televisiva e menor de Aristogatas. E talvez Edgar também tenha sido vítima dos cortes que o filme recebeu nas mãos de Wolfgang Reitherman, com a versão original do filme possuindo dois antagonistas, o que, talvez, fizesse dele um personagem melhor, mas não temos como saber.

Quanto aos outros personagens, eles são ok. Não são as figuras mais marcantes e bem construídas que a Disney já nos entregou, mas também não são ruins ou irritantes. Assim como o filme, eles são fofos e inofensivos, porém genéricos. Os filhotes são um ótimo exemplo; os três são personagens fofos, feitos sob medida para atrair os olhares das crianças e conseguir vender merchandising, mas há pouca substância ali, e suas personalidades mal são delimitadas — a descrição desses personagens começaria e terminaria com “fofos”, não possuindo muitas coisas que os diferenciem um do outro.

No entanto, é quando eles interagem que os três realmente se destacam, com o filme realmente conseguindo capturar a relação de irmãos de maneira crível. Eles agem como irmãos, brigando, se provocando e disputando pela atenção da mãe, e esta maior credibilidade que o trio possui quando divide os holofotes ajuda a engrandecê-los como personagens, além de deixá-los mais engraçados e envolventes. Eu também gosto do conceito de dar a cada um deles um talento específico; Marie canta, Berlioz toca piano e Toulouse pinta, o que é um pouco engraçado, considerando que no universo do filme os animais e os humanos não se comunicam verbalmente, mas ninguém questiona as habilidades antropomorfizadas destes animais, mas, ainda assim é um conceito interessante, e que adere não só às suas personalidades, mas também ajuda à construí-los como animais de elite.

Mas, ainda assim, o filme não faz muito com esse conceito, e esses talentos logo são esquecidos, servindo mais como uma ideia para uma cena solta, que só está lá para esticar a história e depois é descartada. No fim, o trio, apesar de funcionar em conjunto, terminam como animais fofos genéricos e com uma personalidade ínfima — o fato de eu ter que pesquisar o nome dos meninos no google por não lembrar quem era quem não é um bom sinal. A mais memorável deles é Marie, mas isto é provavelmente porque a Disney viu a chance de enfiar ela em todo e qualquer tipo de merchandising que pudesse imaginar.

Os momentos de brilho de Aristogatas são realmente aqueles que são mais leves e cartunescos, considerando que o filme se iniciou como um projeto menor, para a TV, com a qual esses momentos mais exagerados de desenho animado dialogam mais. São cenas soltas, onde há pouca intenção de avançar a história, e o filme só quer nos entreter e nos divertir, colocando seus personagens para interagir e se divertirem uns com os outros. Isto realmente funciona, pois não há a necessidade de que a história seja mais aprofundada, e ela pode apenas se dar a liberdade de se divertir com o que tem em mãos.

São os momentos onde os filhotes podem interagir uns com os outros, como a já citada cena onde eles exercem seus talentos, ou momentos mais alucinatórios e exagerados, como a sequência final, onde todos os gatos de rua amigos de O’Malley se juntam para atacar Edgar, os momentos onde o advogado atrapalhado de Madame Adelaide aparece, ou na melhor cena do filme todo, onde a música Todo Mundo Quer a Vida que um Gato Tem toca. Essa cena é divertida, leve e alegre, e é exatamente isto que Aristogatas é em seus melhores momentos.

Por isso que, mesmo com suas falhas, eu ainda consigo gostar do filme, porque quando ele se deixa ser apenas leve e descompromissadamente divertido, ele entrega, e, mesmo por um momento, e mesmo que não seja memorável ou deixe sua marca, ele consegue nos alegrar enquanto assistimos. Aristogatas está em seu melhor quando se deixa ser leve, e são esses os momentos que realmente se destacam; as cenas soltas e divertidas, onde o filme é cartunesco e exagerado, não ligando para contar a história principal.

Quanto a animação, eu acredito que esta seja a pior animação que algum filme da Disney já entregou, pelo menos até o momento. Eu não sei se foi proposital, mas aqui os animadores conseguiram elevar aquela essência mal-acabada da xerografia para a máxima potência, e o filme todo parece ser composto por rabiscos e rascunhos, com as linhas pretas dos contornos estando grotescamente destacadas e bagunçadas, que dão a todo filme a sensação de um mal acabamento que o enfraquece muito. E antes isto era sentido apenas nos personagens, mas aqui até os cenários são afetados, estando igualmente mal-acabados e pouco caprichados, retratando as elegantes ruas e paisagens de Paris de maneira bastante pobre, o que é decepcionante, para dizer o mínimo. 

Felizmente, a trilha sonora consegue compensar a arte, e as músicas de Aristogatas são muito agradáveis, aliás elas são ótimas (muito melhores do que o filme merecia que elas fossem, para ser honesto). As canções conseguem capturar o estilo boêmio de Paris, com muito jazz, assim como o instrumental do filme, e são todas muito divertidas de se serem ouvidas, mesmo que não sejam as mais memoráveis, além de contribuírem para a história.

A maioria delas foram compostas pelos irmãos Sherman mais uma vez, mas o destaque absoluto do filme, Todo Mundo Quer a Vida que um Gato Tem foi composto pela dupla Floyd Huddleston e Al Rinker, sendo esta a segunda vez que os irmãos Sherman compuseram músicas para um filme cuja a canção mais famosa não era deles. Todo Mundo Quer a Vida que um Gato Tem é extremamente irreverente e divertida, sendo contagiosa e animada, e é sem sombra de dúvidas a maior parte do filme, com seus instrumentais de jazz conseguindo capturar a essência do que Aristogatas deveria ter sido: um filme leve e extremamente divertido, o que ele conseguiu em certos aspectos, mas não tanto quanto esta canção.

É também neste momento onde a animação realmente brilha, não se importando em ser polida nem nada do tipo, e se permitindo ser livre e cartunesca, com visuais alucinatórios e coloridos que são bem mais envolventes do que a tentativa do filme de recriar um estilo polido, que foi, inevitavelmente, enfraquecido pela xerografia. Infelizmente, este foi o último filme onde os irmãos Sherman trabalharam da Disney por trinta anos, alegando que o espaço de trabalho no estúdio tinha se tornado “tóxico” após a morte de Walt.

Assim, Aristogatas termina como um filme leve e divertido, porém falha em ser algo mais do que um entretenimento qualquer, além de não ser muito memorável e não deixar marcas, não possuindo momentos icônicos como muitos de seus antecessores, e nem sabendo como recriar sua essência lúdica e sentimental, se fechando como um produto que, ainda que divirta, é bastante genérico, e não é atoa que tenha envelhecido como um filme menor e não comparável aos filmes mais conhecidos e aclamados do estúdio.

Aristogatas, sobretudo, é a primeira dose do que viria a ser os anos setenta e oitenta para a Disney; um período escasso criativamente, onde os filmes que se seguiriam viriam a ficar cada vez menos marcantes e mais repetitivos, com a Disney parando de inovar e se enterrando em sua zona de conforto.

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