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O Legado de Jupiter

Quando a Marvel decidiu lançar Homem de Ferro em 2008, ela não imaginava o que estava construindo. Um mundo multimilionário de histórias interligadas de super-heróis? Também. Mas o que quero vir conversar aqui é com a criação de um gênero que está beirando ao exagero e a saturação. Já venho falando aqui nas últimas produções da saturação do mercado de super-heróis, e sempre quando algo não é bem feito. Com exceção de WandaVision, Liga da Justiça de Zack Snyder, Falcão e o Soldado Invernal, os novos universos de super-heróis menos conhecidos acabam tendo que fazer algo diferente para conquistar seu lugar, mas a sede ao pote de ouro pode ser prejudicial, e para O Legado de Jupiter, essa sede de ser algo sem limites da Netflix, fica rodando no mesmo lugar e não sai dele.

Na trama, quando a primeira geração de super-heróis da Terra parece estar cansada e já está passando o bastão para seus sucessores, algumas ações são tomadas quebrando o próprio código que rege os super-heróis, enquanto que a população pede por mudanças nas atitudes dos super-heróis, a primeira geração questiona seu passado e a forma como salvam o mundo, enquanto a nova geração entra em conflito com as diretrizes. E para piorar ainda mais a situação, um antigo inimigo que todos acreditavam estar derrotado, parece estar voltando para se vingar.

Antes de começar de fato a descascar o abacaxi, venho deixar como me preparo para uma série nova: quando não conhece bem a produção, principalmente quando ela é uma adaptação de outro meio, assisto ela com a expectativa bem baixa. Tomo esse caminho principalmente pois na atualidade da explosão de streamings e séries e filmes em produção, sempre haverá uma onda gigantesca de lançamentos e anúncios, e muita gente trabalhando 24 por 7 em mais de um projeto, e sempre a quantidade se sobrepõe a qualidade, logo, não ficarei decepcionado colocando minhas expectativas lá embaixo. O problema é quando mesmo com a expectativa lá embaixo, a produção surpreende negativamente e fica pior.

A mensagem principal da série é algo bem interessante, uma versão contrária ao que vemos em The Boys no Prime Video. Enquanto que na série da Amazon vemos os heróis utilizarem sua posição de super como motivo para serem violentos e quebrarem regras e condutas morais a torto e a direito, a premissa de Jupiter é os heróis, mesmo sabendo que são mais poderosos que outros humanos, seguem uma conduta, e tem a população pedindo que usem de violência e ultrapassem os limites para lidar com os vilões, que é reprimido pelos heróis.

Nos tempos atuais, ver este posicionamento de uma figura de poder de manter um mínimo de moral para lidar com as adversidade é uma mensagem muito interessante e que ganha atenção pela forma séria que tenta ser aplicada. E aqui começa o problema. A ênfase é no verbo tentar. A todo momento nos oito episódios de O Legado de Jupiter é mencionado o Código, os heróis mais jovens estão em conflito de serem éticos enquanto no calor de uma batalha alguns erros são cometidos, e lidar com seus erros é importante. Mas num piscar de olhos não vemos mais esses assuntos ganhando mais peso ou importância no desenvolvimento da trama.

O papel do filho do Utopian chega a ser descartável, quando o mesmo comete um erro logo no primeiro episódio, acabando ficando de “castigado” no episódio seguinte, mas não vemos as consequências diretas e indiretas, ou o aprendizado do personagem, pois ele simplesmente some de tela, e só reaparece mais para o final da temporada, com a resposta na ponta da língua. E isso se repete para todos do elenco jovem, eles quase nem tem presença na trama, e para uma produção levar no seu título a palavra Legado, e ter em sua sinopse a questão de uma nova geração tendo que lidar com os erros e o peso da geração anterior, é anticlimático ver a relevância deles e a presença quase nula deles.

Entendo que a escolha de ter os atores da primeira geração serem interpretados por atores bem mais jovens uma forma para conhecermos como eles ganharam seus poderes no passado, e visitar o período mais complicado dos EUA antes da Segunda Guerra foi interessante, e a parte que mais chama a atenção, mas quando acompanhamos o presente temos a maquiagem de envelhecimento que só piora a suspensão da descrença que assumimos ao começar uma fantasia, e aqui é com maquiagem de envelhecimento que parece uma máscara de plástico mal aplicada.

E agora entro na parte que mais me deu raiva: os efeitos visuais e decisões criativas dos uniformes. Nos pôsteres os uniformes parecem bregas, mas são bonitos, tem texturas bonitas, e um vanguardimos dos super-herois mais clássicos. Mas quando vemos os outros super-heróis e seus uniformes, ficamos se perguntando porque? Pra que capas de lã? Pra que capas? E aí vem os efeitos visuais: numa era que temos inúmeras produções com ótimos efeitos, pra que fazer algo que parece ser feito no início do século?

Isso só piora quando comparamos, por exemplo, Umbrella Academy ou a última produção de fantasia Sombra e Ossos, que os efeitos dão a sensação de realismo e veracidade para as habilidades existirem, mas em Jupiter, cria uma sensação de vergonha alheia. E ficamos ainda sem uma explicação mínima de quais são os poderes dos super-heróis, já que parece que todos são super fortes, super velozes e super resistentes, e se não for uma habilidade mais explícita fica parecendo que todos são iguais.

O Legado de Jupiter é um grande desperdício de potencial. Ele tinha uma mensagem interessante a ser trabalhada, uma premissa instigante mas que eles acabaram rodando em círculos, deixaram de lado a parte do legado e das consequências que uma geração deixa para outra, e acrescentam efeitos visuais e uniformes que foram feitos de mal jeito, as pressas, com uma montagem que faz perder o interesse pela quantidade exorbitante de cenas do passado com o presente que não se conectam em nada uma com a outra.

O Legado de Jupiter

O Legado de Jupiter (Jupiter's Legacy)
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Quando a primeira geração de super-heróis prepara a nova geração para assumir seu posto como protetores da Terra, a Código que regia as ações do heróis é questionada pela população, quando após um erro do filho do líder dos heróis infla aqueles que querem mais violência da parte dos heróis, enquanto um antigo vilão surge buscando vingança daqueles que um dia forma seus amigos.
Prometendo mais do que deveria, O Legado de Jupiter fica rodando em círculos em suas premissas e arquétipos, e confia na suspensa da descrença e em batalhas épicas do início do século para segura a atenção, e deixa de lado construir uma história sobre moral e ética, privilégios e condutas na sociedade. Com alguns efeitos visuais horríveis, e decisões visuais feitas na pressa, O Legado de Jupiter é um desperdício de potencial completo.
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