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Mundo em Caos

As produtoras cinematográficas já vem há algum tempo tentando encontrar a próxima história literária de um mundo distópico ou fantástico capaz de iniciar um novo fenômeno como aconteceu no início da década dos anos 2000. Uma das últimas histórias a conseguir tanto engajamento depois de Harry Potter, Jogos Vorazes foi o achado da Lionsgate, e de lá pra cá poucas franquias conseguiram sobreviver, ainda mais com o crescimento de outro campo: o streaming e as séries feitas exclusivamente para eles, que investiam mais e tinham mais tempo para desenvolver a história e não encurtá-la para caber em um tempo limitado de duas horas. Neste ano, depois de vários atrasos, chega a mais nova história distópica, também da Lionsgate, Mundo em Caos, mas mesmo com nomes conhecidos, não acaba tendo o mesmo espírito que outras histórias.

Baseado no romance de Patrick Ness, somos apresentados a um mundo onde, num futuro distante, as mulheres desapareceram, e os homens restantes acabaram sendo afetados pelo Ruído, uma força que deixa seus pensamentos audíveis e visíveis para todos. Neste mundo vive Todd Hewitt (Tom Holland), a última criança nascida, que acaba encontrando uma jovem astronauta que acabou caindo do espaço. Agora, ele desbrava o mundo para protegê-la e mantê-la longe do líder de sua comunidade, enquanto começa a questionar tudo que fora ensinado deste novo mundo.

Podemos ter a presunção de achar que conhecemos alguma coisa sobre adaptação literária para a cinematográfica, pelo simples fato de que crescemos com o boom das obras de fantasia e distopia literárias que foi o final dos anos 1990 e a primeira década dos anos 2000. Mas sim, vivemos ao auge, e com anos vendo diversas adaptações de variadas fontes, podemos ter esse posicionamento. Até hoje a busca pelo próximo Harry Potter ou Senhor dos Anéis ainda é algo presente, mesmo que em menor contingência, nos estúdios. Mas ainda existe. Um grande ponto destas histórias é que elas tinham uma premissa forte para existirem, e que pode ser perdida se não adaptada da forma que funciona em uma tela grande, sem que perca sua essência.

E aqui temos um divisor de opiniões: a forma como o Ruído toma forma. Por um lado, a escolha de utilizar feixe luminosos, que flutuam entre formas abstratas até formas consistentes, em variação de brilho e cor, é um ponto muito positivo, e até a escolha das formas e cores que eles se apresentam são uma escolha sagaz. O problema vem quando os pensamentos, que são audíveis – e até visíveis – se tornam o instrumento característicos que os pensamentos comuns tem em outras produções, que é mostrar ao público como o personagem se sente, ou resumir algo que aconteceu offscreen, ou seja, fora de cena, para justificar uma ação direta ou iminente. O que parece ser um desperdício quando estabelecemos os pensamentos audíveis e visíveis, podendo ser utilizado de outras formas.

Um ponto que foi pouco explorado, e que está nos trailers, são a capacidade de transformar os pensamentos em ilusões que confundam e amedrontam inimigos. E falando em explorar, outro ponto que prejudica a história é o tempo. Pessoalmente, não conheço a história dos livros de Mundo em Caos, mas a edição do longa parece que deixou de lado cenas importantes e que deixa a sensação que contribuíram para o desenvolvimento da trama e dos personagens, e acabam encurtando a história para caber em quase duas horas de duração, o que possivelmente seria adaptado para umas duas horas e meia, no máximo.

Fora isso, a história parece se focar demais na química de Tom Holland e Daisy Ridley, o que parece forçado e nada natural, e mesmo que queridinhos do público atualmente, ambos em produções da Disney, se você não leu o livro vai se perguntar o porquê deles insistirem neste relacionamento.

Continuando com as incongruências, temos a motivação do líder da colônia humana, vivido por Mads Mikkelsen, que pode fazer qualquer vilão na vida que ele consegue convencer com sua postura e expressão fácil, mas a motivação por trás de sua vilania é incoerente com a missão dos protagonistas, que automaticamente deveria ser oposta ou entrar em conflito, o que dá a sensação de que ambos buscam a mesma coisa, e que no final, ele só quer reforçar a força que ele tem perante outros. Quando chegamos na grande revelação no final do segundo ato, a história deixa mais perguntas do que respostas, e menos importância a história toma quando chegamos no clímax da história.

Mundo em Caos pode ter sofrido do que pode ser uma mistura de infelicidades: o efeito Novos Mutantes, por ter sido adiado várias vezes, tudo bem que aqui por motivos razoáveis com a situação global; uma montagem que não ajuda no desenvolvimento da história; escolhas de artifícios narrativos pouco elaborados e desperdiçados para funções já conhecidas; a aparente falta de substância no desenvolvimento da relação dos protagonista, e cenas para darem mais informações para essa aventura. Pode parecer exagero, mas ainda fica o gosto amargo na boca por ainda esperar a próxima grande história distópica sendo adaptada dos livros para o cinema.

Mundo em Caos

Chaos Walking (Mundo em Caos)
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Num mundo onde as mulheres desapareceram, e os homens vivem com o Ruído, uma força misteriosa capaz de torna audível os pensamentos deles, o último humano nascido acaba encontrando uma jovem astronauta, que caiu próxima a sua comunidade. Intrigado, ele tentando protegê-la, parte numa jornada para descobrir a verdade sobre este mundo e tentar controlar o Ruído.
Apesar da premissa interessante, longa parece ter sofrido de inúmeros infortúnios e desenvolvimento fraco, aliado a uma falta de química entre os protagonistas, uma sensação de cenas faltantes e cuidado na adaptação para não parecer um resumo do argumento para haver investimento no filme.
3/5
Total Score
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