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Eurovision: A Saga de Sigrit e Lars

Não é lá muito difícil entender de onde surge o desgosto de parte da crítica e do público com “Festival Eurovision da Canção”. O longa inevitavelmente posa como mais um destes penduricalhos da comédia contemporânea estadunidense, jogando toda forma de clichê e gag narrativa que o gênero no país se acostumou a repetir nas últimas duas décadas, uma prática que em si não apenas reforça o desgaste quase completo da fórmula, mas também a falta de inventividade da obra perante o tipo de história que quer contar ao seu público.

Kitschy”, expressão do inglês para denominar um estilo estético que no Brasil fica traduzido como cafona. A ligação dessa palavra com Will Ferrell pode ser empregada positiva ou negativamente ao longo de sua carreira, em especial ao seu tipo de humor.

Festival Eurovision da Canção: A saga de Sigrit e Lars (Eurovision Song Contest: The Story of Fire Saga, 2020) acompanha a jornada de Lars Erickssong, interpretado por Will Ferrell, que sonha em ganhar o festival desde a infância, quando este lançou para o mundo a banda sueca ABBA. Sigrit Ericksdóttir (Rachel McAdams) se inspira desde pequena no entusiasmo de Lars e juntos formam o Fire Saga. De uma maneira inusitada, entram no Eurovision com seu pop extravagante representando seu país de origem, Islândia. 

Caracterizado como comédia e musical, o filme apresenta altos e baixos nos dois gêneros. Começando pelo lado musical, as apresentações que fazem uma ótima fusão entre figurino, ambientação e atuações cafonas são destaques. Até as que não possuem um tom satírico para com o festival são bem posicionadas na composição do filme. No entanto, o maior problema do lado musical também se entrelaça com o lado humorístico, já que um maior aproveitamento das cenas, maior presença do festival em si, deu, por vezes, lugar a uma comédia repetitiva. 

Entrando no lado humorístico, quando este não está associado com a música, possui uma inclinação a se tornar cansativo. Certas piadas são mal utilizadas e descaradamente repetidas em outras partes do filme, às vezes em sequência, sem outra abordagem. O humor absurdo fica em um meio termo: momentos de quebra de expectativa típicos dos filmes de Ferrell são enfraquecidos pelo vício da repetição já citada. A parte estética dos personagens compõe um lado positivo, fazendo um contraste cômico com o ambiente ao redor. 

Rachel McAdams cumpre seu papel de forma agradável, passando ingenuidade e até certa determinação em representar o país que ama. A sueca Molly Sandén, que dubla McAdams, mostra sua potência nas músicas e compõe suas características. Dan Stevens, de Downton Abbey, marca os números musicais com seu personagem russo Alexander Lemtov, demonstrando a excentricidade da competição. Em contraponto, Will Ferrell parece deslocado na atuação, com expressões vazias. Distante de papéis memoráveis do ator,  Lars só se sustenta na cafonice musical. 

Para o desespero daqueles que se aventuram pelos filmes atrás de “pontos fracos” e “pontos fortes”, não parece existir aqui uma concepção sólida que divorcie estes elementos porque a produção, no fim, se mostra muito segura do desejo pelo mau gosto inscrito em seus atos. É o cerne de uma arte cafona – ou, para brincar em uma época de terminologias, “cafonarte” – que se encena em “Eurovision” sem qualquer pudor, mesmo quando os limites criativos já explicitados revelam as fraquezas do todo e o ar comercial do longa revela a ausência de uma autoralidade discernível – é inevitável a comparação com os dois “Mamma Mia!”, por exemplo, até porque eles também são produtos pouco apreciados, que abraçam com maior vigor a drasticidade de seus atos.

Como uma comédia musical despretensiosa, que não pretende se levar a sério e expõe uma cafonice homenageante, Festival Eurovision da Canção: A saga de Sigrit e Lars pode agradar. Em uma análise, duas horas de filme podem se tornar cansativas com a saudade das performances e com piadas descompassadas. A maior preocupação acerca da continuidade do filme na memória geral está na sua seletividade de público. Mas para os fãs da competição, é uma maneira descontraída de reviver seu lado cafona e, até mesmo, preencher o vazio desse ano. 

Eurovision: A Saga de Sigrit e Lars

Eurovision: A Saga de Sigrit e Lars
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O sonho de dois cantores é participar da maior competição de música do mundo. Mas intrigas de rivais e acidentes no palco testam a relação entre os dois.
O sonho de dois cantores é participar da maior competição de música do mundo. Mas intrigas de rivais e acidentes no palco testam a relação entre os dois.
3/5
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