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Them (1ª Temporada)

Há algum tempo, o gênero de terror e suspense vinha tendo um problema por conta de sua saturação no mercado cinematográfico e televisivo. Existiam tantas produções saindo semana após semana que o gênero ficou manjado, previsível e até clichê, chegando ao ponto de não dar calafrios. O gênero apenas teve uma virada quando dois produtores trouxeram suas ideias de modos diferentes, que reinventaram a forma de assustar seu público: James Wan e Jordan Peele. Enquanto o primeiro se aventurava em criar ambientes de terror sobrenatural, o segundo apostava no terror psicológico com temas sociais, sempre com temas críticos raciais. E nesta linha que Them, a nova série antológica do Prime Video se propôs a seguir e contar uma história visualmente criativa com mensagem sócio-raciais fortes para criticar a sociedade pelos traumas alicerçados no ódio.

Na primeira temporada de Them, seguimos a família Emory (Deborah Ayorinde, Ashley Thomas, Shahadi Wright Joseph e Melody Hurd), durante os anos 1950 que se mudam da Carolina do Norte, fugindo do regime Jim Crow dos estados do Sul dos Estados Unidos, para a ensolarada Califórnia, em busca de novas oportunidades, além de fugirem da segregação e violência que acontecia com pessoas negras onde moravam. Porém, o novo bairro para onde se mudam é formado apenas por família brancas, que não ficam contentes com os novos vizinhos, e começam a dificultar a vida deles; se não bastasse os ataques físico e psicológicos de seus vizinhos, forças estranhas dentro de casa começam a mexer ainda mais com a cabeça dos Emory e provocar acidentes inexplicáveis.

Por ser uma história antológica, que tem sua construção e conclusão na própria temporada, ela carrega em si inúmeros questionamentos que são respondidos, e outros que deixam aberto para o telespectador ficar se questionando após os dez episódios. A construção da narrativa brinca com arquétipos de comparações e adequações da população negra, e tropos racistas ganhando forma e personalidade: temos o personagem negro violento, o desejo da pessoa negra em ser outra pessoa, o sentimento de inferioridade perante outros; e todos esses arquétipos são quebrados como parte da luta da identidade de cada um dos personagens dos Emory.

A história amarra os acontecimentos físicos de violência e ódio dos vizinhos com os acontecimentos psicológicos e sobrenaturais dentro da casa dos Emory de modo a criar uma correlação entre eles, fazendo a primeiro momento pensarmos que exista essa ligação, mas vemos que é apenas coincidência narrativa. E neste ponto temos o lado oposto aos dos Emory, sua vizinhança branca, que consegue arrancar um ódio dos telespectadores e retrata um personagem que ainda vive na atualidade que é o de superioridade de uma raça por outra.

Aqui, a série costura a atitude da população caucasiana da série com a revelação da origem do teor sobrenatural no penúltimo episódio, quando conhecemos quem é o principal antagonista da série: o racismo embasado na religião cega e/ou no sentimento de privilégio e superioridade de uma raça sob outra.

A série ainda acerta no visual, com cenários carregados de padrões e formas, inspirados em papéis de paredes e arabescos. Até mesma o enquadramento de câmeras assume algo mais moderno com uma variação da ângulo holandês, que pode irritar a certo ponto, mas dá perspectiva a cena e cenário. Aliado a isso temos o enquadramento mais intimista, com a atuação olhando diretamente para a câmera, muitas vezes em diálogos entre dois personagens, seja para um embate ou uma abertura na relação, além da simetria das cenas construídas.

Outro ponto mais técnico está na composição de cores da série, sempre com contrastes marcantes, e cores saturadas. Vemos essa diferença no cenário dos Emory, que é forte e carregado, ressaltando o peso de estarem vivendo num lugar que não são bem-vindos, enquanto que cenários dos vizinhos, principalmente de Betty (Alison Pill), são cores mais pastéis, claras, sempre para o verde bebê ou azul claro.

A produção ainda deixa no ar muitas questões dos protagonistas, mas esses questionamentos são pontos que alimentam a série mesmo após sua exibição, e deixam marcado na cabeça sobre a história que mostra um lado mais vil de pessoas que se acham no direito de se sentirem superiores a outros baseado na cor da pele, e no privilégio que possuem.

Them é uma série para quem não tem gatilhos, com estômago forte. Ela não tem medo de chocar com as escolhas dos personagens e ações, e sabe brincar com visuais e posicionamento de câmeras para extrair o medo que pode ter sido diluído com a enxurrada de produções de terror que se perdem ao longo da saturação do gênero. Ela é um grande dedo na ferida dos EUA, e de todos as sociedade que tiveram o escravismo como parte de sua sociedade, e que lutam até hoje por mais equidade de toda sua população. A série tira nossa suspiro de medo guardado, ansiando por algo de tamanha qualidade técnica, artística e de impacto social.

Them

Outros (Them)
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Movidos em busca de condições melhores de vida durante um período sombrio onde viviam, a família Emory se muda da Carolina do Norte para a Califórnia, fugindo do regime segregista dos estados do Sul dos EUA, mas sua nova vizinhança mostra que independente de onde estejam, o ódio os perseguirá. Aliado a isso, eventos sobrenaturais começam a piorar sua nova moradia.
Com um visual deslumbrante e escolhas visuais impressionantes, a série brinca com perspectiva sobre o racismo estrutural, e entrega sem medo, um terror sobrenatural, psicológico e extremista sobre a maior ferida social da humanidade, com atuações intimistas e fortes.
5/5
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