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Emma - Filme indicado ao Oscar 2020

Emma (2020)

Embora tenha nascido há pouco mais de dois séculos, Jane Austen continua influenciando a cultura pop e a forma como enxergamos o amor. Suas obras já foram adaptadas dezenas de vezes para o cinema e para a televisão e inspiraram tantos outros livros, séries e filmes. A cada par de anos, mais ou menos, uma nova versão de um dos livros da autora surge para nos encantar e fazer apaixonar novamente por seus personagens. Em 2020, foi a vez de Emma., seu último romance publicado em vida, ganhar espaço nas telonas; A adaptação, dirigida por Autumn De Wilde e roteirizada pela também escritora Eleanor Catton, nos traz uma versão leve e divertida do clássico.

Extremamente observadora, a Austen se especializou na exploração dos conflitos desenvolvidos entre classe e gênero, utilizando o que tanto presenciava em seu cotidiano para produzir verdadeiros clássicos, como o inesquecível “Orgulho e Preconceito“. Hábil no desenvolvimento de marcantes personagens, consolidou sua assinatura a partir de uma sutil ironia sempre presente em suas páginas, injetando assim doses de modernidade na literatura inglesa através de um estilo crítico e bem-humorado.

Aqui De Wilde toma liberdades de flerte com Austen, com um efeito muitas vezes hilário. Há um forte elemento de comédia maluca em jogo (De Wilde cita Bringing Up Baby como inspiração ao lado dos filmes de amadurecimento de John Hughes), uma abordagem que paga dividendos agradáveis ​​ao público, mesmo que reduza as complexidades do texto original a uma brincadeira de tela bem mais caricaturada. A roteirista Catton, cujo romance épico vencedor do prêmio Man Booker “The Luminaries” é uma maravilha de forma, cenário, história, humor e mistério, não surpreendentemente acertou com a mistura robusta de narrativa, humanidade e comédia de Austen.

Membro de uma nobre família rica, a jovem Emma (Anya Taylor-Joy) passa os seus pacatos dias auxiliando seu pai (Bill Nighy) na recepção de famílias menos abastadas e participando de importantes cerimônias envolvendo seu círculo social. Nas horas vagas, seu passatempo favorito é ajudar aqueles com quem se importa na formação de casais, profundamente dedicada ao cultivo de relacionamentos enquanto mantém a recusa em se tornar uma mulher casada.

Quando a humilde Harriet (Mia Goth) cai no círculo de Miss Woodhouse, Emma rudemente a desvia do curso do amor verdadeiro. Em vez disso, ela se volta para o claramente inatingível – e totalmente inapropriado – Sr. Elton (Josh O’Connor). Enquanto isso, o vizinho amigo-cunhado Sr. Knightley (Johnny Flynn, combinando vulnerabilidade com um magnetismo animal notavelmente ausente do romance de Austen) circunda Emma com um ar de adoração e exasperação, lamentando sua crueldade casual enquanto admira secretamente sua sagacidade e beleza.

Os pontos fortes de Taylor-Joy estão em ser a anti-Gwyneth aqui: sua Emma é mais arrogante e obstinada do que iluminada pelo sol e esperta, mais próxima da heroína que Austen sempre acreditou que gostaria mais do que os leitores gostariam. Mas isso, é claro, torna as rachaduras em seu verniz, quando Taylor-Joy as revela com arte, muito mais atraentes como uma maturidade arrojada.

Flynn, por sua vez, sua aparência como um vocalista do rock constrangido ao transmitir partes iguais de diversão, atenção plena e vulnerabilidade é uma revelação, tão divertido como sempre foi assistir as palavras de um desesperado dizerem uma coisa enquanto os olhos e as ações comunicar outra coisa.

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Algo que parece não ter sido compreendido por muitas pessoas, todavia, é o motivo para a cena de nudez do Sr. Knightley no início do filme, quando o vemos de costas, trocando os trajes. A cena não serve num sentido sexual, mas nos mostra algo que geralmente vemos em personagens femininas no cinema: ele trocando de roupa. Como a vestimenta da época exigia muitas e muitas camadas, era normal, para um cavalheiro como ele, ter a ajuda de criados na hora de trocar as vestes.

Já aí podemos ver que Emma. é um filme escrito e dirigido por mulheres, pois subverte o uso da nudez para algo natural e focado em um personagem masculino. Além disso, não é de hoje que estamos familiarizadas com o male gaze, ou “olhar masculino”, que faz uso de personagens femininas, seja na literatura ou no audiovisual, como objetos sexuais cujos corpos servem para o deleite de homens.

O contrário não me parece ser o objetivo da diretora, mas seria possível dizer que aqui temos um olhar que não necessariamente sexualiza seus personagens masculinos, mas que os mostra sob as lentes das mulheres à sua volta – e expõe tanto os corpos quanto as mentes desses personagens de forma mais vulnerável, aberta e gentil do que geralmente são retratados. Não há nada de viril nos homens de Emma.

Como desenhista de produção, Kave Quinn evoca um ambiente luxuoso no qual a possibilidade de pisar na lama em enclaves enclausurados continua sendo uma ameaça percebida, e a figurinista Alexandra Byrne veste o elenco com uma série de colares intrusivamente altos que parecem oferecer a cabeça de todos em uma bandeja – uma metáfora visual elegante para a sátira social afiada guilhotina de Austen. Não foi a toa a indicação do filme para o Oscar 2021 na categoria de Melhor Figurino.

Emma. pode facilmente ser considerada uma história em que nada acontece – mas tal pensamento reflete apenas o exterior superficial. O que encontramos, de fato, é um ano na vida de uma jovem que passa por transformações profundas e percebe-se muito mais complexa do que imaginara. Ela aprende que suas ações possuem consequências, mas que existe uma diferença entre ter poder e ser arrogante. Essa é uma daquelas adaptações que satisfaz os fãs de Austen e ao mesmo tempo faz com que quem ainda não conhece a obra se interesse por ela. Além de ser aquele tipo de filme que te deixa com um quentinho no coração ao final.

O filme está disponível no Telecine.

Emma.

Emma.
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Bonita, inteligente e rica, Emma Woodhouse é uma abelha rainha inquieta em sua pequena cidade natal. Em busca de emoções, ela se aventura por decisões equivocadas e erros românticos até encontrar o amor que sempre acreditou estar ausente em sua vida.
Bonita, inteligente e rica, Emma Woodhouse é uma abelha rainha inquieta em sua pequena cidade natal. Em busca de emoções, ela se aventura por decisões equivocadas e erros românticos até encontrar o amor que sempre acreditou estar ausente em sua vida.
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