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O fraco repertório de diversidade no Oscar

A lista de indicados ao Oscar 2021 já saiu, e neste ano, muitas mudanças ocorreram na maior premiação do cinema, que teve muitas regras alteradas, devido a toda situação que vivemos. Não apenas regras que foram mudadas, este ano é uma das edições que mais possuem diversidade entre seus indicados.

E essas mudanças é claro, faz parte do reflexo social que vem mudando – ainda que aos poucos – a industria, que tem se visto obrigado a mudar, ou não ser mais bem-vistos perante o público. E apesar de parecer negativo, na verdade essas mudanças “obrigatórias” de mais representatividade no Oscar é abraçada com simpatia, já que isso realmente demonstra que podemos caminhar para um lugar melhor.

A história do Oscar

Durante a expansão do cinema americano principalmente nos anos de 1920, foi visto a necessidade de criar um sindicato que defendesse os interesses dos artistas. Então Louis B. Mayer, um dos chefes da Metro-Goldwyn-Mayer (empresa norte-americana de produção e distribuição de filmes e programas televisivos) deu a ideia de criar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – A.M.P.A.S, em inglês) para cuidar da imagem dos estúdios de cinema de Hollywood e resolver problemas trabalhistas.

Logo depois de oficializar a Academia em 1927, então foi decidido criar um evento que premiasse os melhores filmes do ano, e dois anos depois, em 1929, se deu a primeira premiação “Academy Award of Meret” (traduzido seria algo como “Prêmio da Academia por Mérito”). Desde então, todos os anos a premiação passou a acontecer dando méritos para os melhores filmes do ano anterior.

Primeira Edição do Oscar em 1929

Eis que então, o Oscar passou a ser uma premiação que começou a dar destaque para filmes que não tinha apelo popular (os famosos blockbuster), pois era uma chance de produções menos conhecidas chegar ao público. Isso obviamente acabou se transformando em algo mais elitista, e começou a se criar um nicho de filmes elegíveis para a premiação. Obras épicas sobre guerras, musicais, romances e dramas são os o que chamamos de “filmes oscarizados”. Feito na medida para que os acadêmicos os escolham para chegar à premiação. E de fato, a Academia nunca escondeu a preferência por esses gêneros.

No fim da década de 1920, existiam 26 membros na Academia. Todos homens brancos. Ao longo dos anos esse número cresceu exponencialmente, e os últimos dados divulgados indicam que existam cerca de 8500 pessoas. Até 2012, as estatísticas indicavam que 94% dos membros da Academia eram caucasianos, isto é, brancos, e 77% deles eram homens. Além disso, mais de 50% deles tinham idade superior a 60 anos. Em 2017, com novas admissões, 39% dos novos membros eram mulheres e 30% eram negros.

Todos esses dados demonstram apenas uma coisa: Que na verdade os filmes premiados são um reflexo daqueles que os escolhem. O mercado é feito por homens brancos, logo, os filmes e gêneros refletiam – e ainda refletem – produções com as quais os acadêmicos se identificavam e que os impactam. Ou seja, produções com pessoas brancas, com histórias sobre homens são sempre as escolhas mais prováveis.

1º Fato Histórico: Os primeiros negros indicados ao Oscar

Para se ter uma ideia, a primeira pessoa negra a ser indicada ao Oscar foi em 1940, onze anos depois da primeira cerimônia. Hattie McDaniel, que fez seu papel em “…E o Vento Levou” recebeu o premio de Melhor Atriz Coadjuvante. Mas apesar de ser um fato histórico, sabia que foi necessário pedir uma permissão especial para que ela entrasse no teatro onde ocorreu a cerimônia, como convidada? Que ela precisou se sentar em uma mesa afastada dos demais atores, no fundo? Que na época em que tudo isso ocorreu, ainda havia Lei de Segregação, e que existia O código Hays – um sistema de autorregulação dos estúdios para restabelecer a boa imagem de Hollywood após a enxurrada de escândalos dos anos vinte – que proibia os romances entre brancos e negros e não permitia que estes tivessem acesso a papéis violentos?

Ela foi uma grande exessão em meio à regras extremamente rígidas. Os atores negros ocupavam naquela época papéis irrelevantes, e com frequência sem créditos: eram motoristas, garçons, figurantes e especialmente empregados. E durante 24 anos nenhuma outra pessoa negra foi premiada até 1964 quando Sidney Poitier, levou o prêmio de Melhor Ator por Uma Voz nas Sombras.

Na esqueda Hattie McDaniel e a Direita Sidney Portier

O desequilibrio na igualdade de gênero, raça e etnia

Um estudo feito pela professora Stacy L. Smith da Universidade do Sul da Califórnia de 2016 analisou mais de 21 mil personagens de 400 filmes e séries entre 2014 e 2015, e esse estudo revela que  somente 33,5% dos papéis com falas eram de mulheres, e apenas 28,3% de pessoas não brancas, mesmo que estes grupos representem 40% da população dos EUA. “Sistemas de poder estabelecidos — dominados por homens brancos tomadores de decisão nos níveis mais altos — são difíceis de quebrar”, escreveu uma das autoras do estudo, Ana-Christina Ramon em nota divulgada para a imprensa.

Mas eis que então começa o problema, a sociedade no todo não é composta apenas de pessoas brancas, ou somente de homens . E essa mesma sociedade que é composta por diversidades e minorias começou a exigir novos posicionamentos, e também reconhecimento. E essa exigência bateu às portas da Academia, principalmente da cerimônia em si, que se tornou um dos maiores programas televisivos a partir da década de 1970 e palco para protestos sociopolíticos.

Houve manifestações sobre a Guerra do Vietnã, a queda do muro de Berlim, o embargo americano a Cuba, aborto, feminismo e, em várias oportunidades, discursos escancarados contra e favor do presidente americano em exercício. Um dos maiores (e inesquecíveis) protestos foi em 2016, onde a campanha #OscarsSoWhite (Oscar muito branco) ganhou força, uma vez que na edição daquele ano não havia nenhum negro indicado nas principais categorias. E há quem diga que realmente “não havia mesmo pelo simples fato de que nenhum negro (ator ou atriz) apareceu numa produção de destaque e com qualidades suficientes para uma indicação.” Mas será que é só uma questão de “aparecer numa produção?”

Oscar So White 2016
Foto oficial do Vencedores do Oscar 2016

Jeferson De, diretor brasileiro, em uma coletiva de imprensa para o filme “M8-Quando a Morte Socorre a Vida” expressou algo de muita relevância. Em sua fala ele coloca que uma verdadeira representatividade não se dá apenas nas telas. Ter um filme com representatividade é nos bastidores, na cabeça do projeto, ter pessoas das minorias. Nas produções executivas, na direção, na lideranças dos departamentos.

Até o momento apenas 08 diretores negros venceram o Oscar;

  • Matthew Cherry e Karen Rupert Toliver na categoria de Melhor Curta-Animado por Hair Love;
  • Spike Lee na categoria de Melhor Roteiro Adaptado por Infiltrado na Klan;
  • Barry Jenkins em Melhor Filme por Moonlighte;
  • Steve McQueen em Melhor Filme por 12 anos de Escravidão, inclusive, foi ele o primeiro diretor negro a ganhar nesta categoria.
  • Jordan Peele na categoria de Melhor Roteiro Original por Corra!;
  • Geoffrey Fletcher em Melhor Roteiro Adaptado por Preciosa: Uma História de Esperança
  • Peter Ramsey, em Melhor Animação por Homem-Aranha No Aranhaverso.

Nenhum diretor negro jamais ganhou na categoria de Melhor Direção, e em toda a história do Oscar, apenas seis profissionais afroamericanos foram indicados. Viola Davis em seu discurso ao vencer o Emmy de 2015 expressou que a única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa, são as oportunidades. Então fica aqui meu questionamento, em 2016 quando o Oscar foi completamente branco, foi realmente falta de “produção de qualidade” ou falta de oportunidade para que negros estivessem em grandes produções?

Em seus 92 anos de existência, menos de 1% dos prêmios da Academia foram para negros, somando todas as categorias. Cerca de 50 vezes apenas o prêmio foi para algum profissional negro. 2019 foi o ano em que mais se premiou negros em toda a história da Academia, dando destaque para filmes como “Infiltrado na Klan“, “Green Book: O Guia“, “Pantera Negra” e “Moonlight“. 2020 também foi um marco histórico, onde pela primeira vez um filme não-inglês, fora da categoria “Internacional” a vencer o Oscar, sendo “Parasita” o felizardo. Até os anos 2000, 95% das indicações nas categorias de atuação foram para atores brancos. Apenas 5% dos atores e atrizes indicados eram de outros grupos étnicos, como negros, latinos e asiáticos.

Na categoria de Melhor Direção, o número de mulheres indicadas é tão pequena que chega a ser vergonhoso. Apenas 5 mulheres até 2020 tinham sido indicadas na categoria. O número foi para 7, com esse ano tendo duas indicadas. Apenas uma ganhou: Kathryn Bigelow em 2010. E isso é explicativo; as indicações para as categorias são feitas em blocos: diretores só podem ser indicados por diretores; a representatividade fica ainda mais diluída: não adianta ter quase 9 mil membros se as mulheres, ou LGBTQ+ não estão presente nos 17 blocos que compõe a Academia; e em números significativos. Ou seja, enquanto não houver mais mulheres dentro de todas as categorias, principalmente as técnicas, as indicações para as minorias ainda serão extremamente escassa.

Outro exemplo é a primeira mulher negra a ser indicada na categoria de Melhor Roteiro Adaptado: Dee Rees em 2018. Nas categorias principais apenas Halle Berry ganhou o Oscar de Melhor Atriz. Em Melhor Atriz Coadjuvantes apenas 08 mulheres negras já ganharam a estatuetas. Viola Davis esse ano se tornou a atriz negra mais indicada ao Oscar, com quatro indicações, sendo duas dela na categoria de Melhor Atriz e ela é a única a ter os prêmios tríplice do audiovisual, tendo um Oscar, um Emmy e um Globo de Ouro. Precisa-se ter representatividade em tela, sim, mas a real mudança vai refletir a premiação, quando essa representatividade acontecer no mercado.

Regras de Diversidade no Oscar

Então em 2020 a Academia então divulgou novas regras de inclusão, que serão válidas a partir de 2024. Muitos jornais noticiaram que “Hollywood caiu sob pressão”. Como mencionado anteriormente, a minoria começou a exigir representatividade. Além de protestos nas ruas, a mídia é um grande catalizador para promover ideias, e o Twitter é maior arma. Então enquanto críticas eram lançadas para a indústria, que se recusava a acompanhar as mudanças sociais, a sociedade e as minorias ganharam voz, e atores começaram a usar de palco o próprio Oscar para criticar duramente a Academia. Então não vejo essas novas regras como “cair sob pressão” e sim como uma obrigação que já deveria ter sido parte dos critérios desde sempre.

Quatro novas regras foram criadas que abrange os quatro pilares que faz com que um filme aconteça; em Tela (elenco); na Produção (direção, produção executiva, roteirista, diretores de departamento – basicamente quem encabeça o projeto); no estúdio (técnicos de produção – câmeras, equipe de edição e efeitos especiais, figurinistas, equipe de maquiagem etc.) e em oportunidades de treinamento (estágio) e avanço em outros aspectos do desenvolvimento e lançamento do filme (divulgações, marketing etc); e para um filme ser elegível precisa-se cumprir duas das quatro regras.

O primeiro dos quatro novos parâmetros exige que o filme tenha um ator de destaque de um grupo racial ou étnico sub-representado (atores principais ou coadjuvantes); ou 30% de seus papéis menores destinados a minorias (participações especiais ou figurantes); ou que aborde questões que envolvem essas comunidades diretamente. O segundo critério estipula que, nos bastidores, figuras de chefia ou membros da equipe técnica sejam provenientes de grupos historicamente desfavorecidos. Isso inclui também mulheres, LGBT e deficientes físicos. Os terceiro e quarto critérios são sobre respeito à oferta de estágios e treinamento a trabalhadores sub-representados, e diversidade nas equipes de marketing e distribuição do filme.

Basicamente, as novas regras exigem um equilibrio maior entre pessoas brancas e minorias; Lembrando que para ser elegível, o filme precisa cumprir apenas duas das novas quatro exigências. E sim, estou me repetindo, porque é importante lembrar que isso de forma alguma afeta a produção de um filme. Não “elimina por completo toda a liberdade criativa e sensorial dos autores“. Isso porque uma história de qualidade, e dentro dos nichos “oscarizados”, é possível sim, com grandes atores que fujam do majoritário.

Então ao divulgar essas novas regras, enxergo oportunidades para grandes diretores como Steven Spielberg, de criar histórias espetáculares com homens de grandes talentos e que não precise ser um Tom Hanks por exemplo (entende-se que Tom Hanks é um grande autor, mas não é o único). E pode-se dar oportunidade para atores como John David Washington, ou Daniel Kaluuya. Há também a oportunidade de usar mulheres para contar suas histórias. Mas mais que isso, vejo nessas regras oportunidades para mulheres como Patty Jenkins, ou as recém indicadas ao Oscar 2021, Emerald Fennell e Chloé Zhao de finalmente terem seus trabalhos reconhecidos.

O jornalista e crítico de cinema Marcos Petrucelli em sua coluna para a Jovem Pan, escreve sobre as novas regras “Isso tudo não é somente desafiador; é absoluta e vergonhosamente doutrinário. Elimina por completo toda a liberdade criativa e sensorial dos autores. Toda e qualquer história estará submetida a regras que fogem ao bom senso e agridem a inteligência. […] Como Sam Mendes poderia dirigir um filme de guerra deslumbrante como “1917” sendo obrigado a incluir no elenco 30% de pessoas com deficiência física ou cognitiva? Quem vai definir um grupo como sendo pouco representado para que este seja tema da história principal? Será que finalmente teremos alguma produção sobre os Hititas, é isso?

E eu devolvo seus questionamentos dizendo, porque não se cria uma história deslumbrante como 1917, falando sobre as mulheres que também estiveram presentes em muitas guerras? Por que não se conta a história dos soldados que precisaram se afastar e se recuperar da guerra após perderem membros do corpo, ou tiveram problemas cognitivos devido a traumas ou lesões causada pela guerra? Ou não se criam história de homens que precisaram esconder sua sexualidade no exército para não ser rechaçado por seus colegas ou superiores? Por que não se criam história sobre a sociedade e a exclusão que ela faz de pessoas deficientes? Seriam histórias menos “deslumbrantes”?

Existe a possibilidade de criar grandes histórias com a minoria. O problema na verdade é que essas histórias não representa a maioria. E é por isso que incomoda. Por isso regras como essas são colocadas como “fora de bom senso e agressivas a inteligência”, não é por não ser uma oportunidade de contar novas histórias, mas porque não se fará apenas cinema com aquilo que já é do senso comum (“grandes filmes com homens brancos”).

Elenco de Parasita, primeiro filme não-inglês a ganhar o Oscar de Melhor Filme em 2020

E volto novamente na questão sobre o cumprimento das regras, que para tornar um filme elegível precisa ser seguido apenas duas das quatro. Ou seja, é possível contar uma história com um elenco majoritariamente branco, desde que nos bastidores da produção e dos departamentos de divulgação e marketing se cumpra a cota de pessoas inclusas dentro das minorias (mulheres, deficientes, LGBTQ+, pessoas não-brancas).

Porque essas mudanças são tão significativas?

Bem, o Oscar é um evento que conta com mais de 90 anos de história. Desde sua criação lá em 1927 e sua primeira cerimônia em 1929, muitas mudanças ocorreram, na indústria, mas principalmente na sociedade. E é significativo quando vemos essas mudanças em uma cerimonia tão importante e relevante na arte, porque o cinema é uma forma de entretenimento, sim, mas ele também é um espelho social, além de um grande influenciador para mudanças de pensamentos e criação de novos hábitos. Fato é que o cinema já foi usado muitas vezes ao longo da história para promover ideais, desde sua criação lá no fim do século XIX.

Além de que ele é um indicativo dentro da Indústria. Ou seja, ele é um balancear financeiro e popular. Um grande exemplo é Parasita, ganhador da edição passada como Melhor Filme. Acha mesmo que o público de forma geral veria um filme sul-coreano? Não. Mas ele foi bem recepcionado – e logo arrecadou financeiramente – pelo público. Por que? Porque foi indicado ao Oscar. E a opinião da Academia é de grande valia para o público em geral.

Fico pensando que apesar deste ano ter uma grande diversidade no Oscar, com duas mulheres indicada para direção – sendo uma delas não-branca – ou um grande quadro de pessoas negras indicadas, não entendo isso como diversidade, e sim como reparação. Com 90 anos de história, precisou-se cair audiência, haver boicotes, movimentos como #MeToo e críticas como o #OscarsoWhite para que houvesse uma pequena movimentação na academia. Está longe de ser ideal, mas ao menos está criando-se exigências de equidade para que no mínimo haja então oportunidade para que as minorias consigam se destacar.

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