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A Era de Prata da Disney| Mogli: O Menino Lobo

Mogli: O Menino Lobo é ao meu ver o melhor filme da Era de Prata, não por ser super rebuscado, ou com o maior orçamento ou ter a melhor história, mas porque de certa forma, ele retorna as raizes da Era de Ouro, e nos traz uma história genuína e emocionante sobre um garoto que precisa descobrir seu lugar.

A Disney já é conhecida por trazer adaptações literárias que tem um conteúdo mais denso de uma forma muito mais leve e lúdica. Esse fato é conhecido como “disneyficação”. Com Pinochio, Bambi esse fato é mais notório, e então vemos isso acontecer também com O Livro da Selva de Rudyard Kypling.

O último trabalho de Walt Disney

Notório por ter sido o último filme onde Walt Disney trabalhou antes de sua morte, Mogli: O Menino Lobo, como muitos dos filmes do departamento de animação da Disney neste período, recebeu seu ponta pé inicial do roteirista Bill Peet. Peet que já tinha trabalhado em 101 Dálmatas, e em A Espada Era Lei, vinha levando o – agora minusculo departamento de animação sob seus cuidados. Desde o afastamento de Walt para se ocupar de outras partes de sua empresa, Peet foi quem tinha assumido o lugar do chefe.

Peet teve a ideia de adaptar o trabalho de Kipling para a Disney, pensando que o estúdio poderia produzir animais complexos como seus personagens. Walt concordou e colocou Peet no comando do projeto. Porém começou a surgir dúvidas quanto a sua capacidade de liderar o projeto quando A Espada Era Lei começou a receber críticas negativas por parte dos especialistas, e com isso Walt decidiu participar da produção do longa.

Com a atenção de Walt Disney voltada mais uma vez para o departamento que iniciou tudo, isto gerou atrito entre os dois homens, com Walt tirando Peet de seu próprio projeto, que, em troca, saiu do estúdio, em condições nem um pouco agradáveis. O que acontece é que a versão de Peet para a adaptação era muito mais fiel a densidade do livro, que contém assuntos muito complexos, que não era o que a Disney – como empresa – tinha o costume de lançar.

Porém por mais conturbada que tenha sido a saída de Peet, isso causou uma coisa boa: o retorno de Walt Disney para o dpto de animação. E pela primeira vez em muitos anos, retornou às suas raízes e trabalhou de perto na produção de um filme, tentando manter as coisas sob controle após a saída do encabeçador do projeto, e fazer com que a obra seguisse à sua maneira.

Mogli: O Menino Lobo então se torna não apenas mais um filme, mas também um projeto especial – já que esse foi o ultimo trabalho de Walt Disney antes de seu falecimento. É bem simbólico que ele tenha retornado às suas raizes, trabalhando em um projeto animado, como se precisasse se dispedir do lugar que fez ele chegar onde chegou.

Mudanças da obra original para o cinemas

Quando Disney assumiu o rumo do projeto das mãos de Peet e teve sua primeira reunião com o corpo de animadores, ao perguntar quem havia lido o livro original, nenhum deles respondeu positivamente, para o que Disney disse; “Ótimo, não leiam”. Fica óbvio que Walt queria criar a sua própria narrativa, e foi exatamente o que ele e seu estúdio entregaram com esta obra, com o filme não só sendo muito mais leve do que a versão de Kipling, como indo por outro caminho totalmente diferente.

Seria difícil para a Disney fazer uma adaptação de O Livro da Selva de qualquer forma, porque o livro é de fato bastante pesado e maduro, com uma versão da dita selva bem menos fantasiosa e mais violenta do que a que a Disney entregou, o que me deixa curioso para saber como seria a versão fiel de Bill Peet da história.

A significância de Mogli além de uma fábula

Mogli: O Menino Lobo na verdade é filme bem mais significativo e tocante do que as pessoas lhes dão crédito. Apesar de sua simples sinópse que apresenta a obra é muito sensível, ainda que simples, e ligo isso ao envolvimento pessoal de Walt Disney com o projeto.

O filme conta a trajetória de Mogli, um filhote de homem que foi encontrado na floresta pelos animais e criado por uma alcateia de lobos, precisa ser levado de volta para a aldeia dos humanos agora que o terrível tigre, Shere Khan, retornou para a selva, com seu ódio mortal por homens. Cabe à pantera negra, Baguera, levar a criança de volta para a aldeia, enquanto Mogli se recusa a ir e, no caminho, encontra Balu, um urso bon-vivant, que desenvolve uma amizade com o protagonista e o ensina sobre o estilo de vida da selva.

Mas apesar de sua simplicidade, Walt consegue dar um toque muito sensível a obra e diversos momentos genuinamente tocantes. Um elemento em comum entre o livro de Kipling e o filme da Disney é a temática sobre identidade e pertencimento, envolvendo o personagem de Mogli. Durante o discorrer do longa nós podemos notar o quanto Mogli está em conflito com suas duas identidades; o humano e a criatura da selva. Tendo vivido na floresta desde quando era um bebê, literalmente, aquele meio é tudo o que ele conhece, mas o menino, ao mesmo tempo, não se sente totalmente pertencendo ao lugar. 

Isso é claro tratado com sutileza, e as vezes pode até passar dispercebido entre os musicais ou as sequências cômicas tipicas das animação, porém a obra de 1967 aborda esta questão em seu protagonista se notarmos as sutilezas presente no longa.

A jornada de Mogli, se trata na verdade de uma jornada de autodescoberta e de amadurecimento. O protagonista precisa amadurecer o suficiente para aceitar as suas responsabilidades e assumir seu lugar no mundo. E nós conseguimos perceber o quanto esta decisão é doída, e compreender o quanto deve ser difícil para o personagem abrir mão de tudo o que ele conhece, do lugar onde ele passou sua infância e das criaturas a quem chamava de família, para ir se aventurar no desconhecido, mesmo que esta seja, no fundo, a coisa certa a se fazer quando vemos que todos ao seu redor começa a mostrar que na verdade o lugar dele não é ali, e sim com de sua espécie.

Os personagens

Mogli é aquele personagem que tem camadas explorada além de somente existir. E isso era meio raro entre os personagens humanos dos filmes da Disney. Durante seu filme podemos sentir seu conflito, enquanto procura seu lugar no mundo. Ele tenta se entrosar com os elefantes e com os macacos, mas é em Balu que ele finalmente encontra alguém com quem ele sente uma verdadeira afinidade, e acredita que poderá viver com seu novo amigo para sempre, como um urso. No entanto, mesmo tentando viver como um lobo, um elefante, um macaco, um urso, e até como um urubu, na reta final, nós sabemos que, eventualmente, ele terá que enfrentar os fatos e se assumir como aquilo que ele realmente é; um homem.

No entanto, por mais que Mogli seja um protagonista simpático e que gera empatia, ele está longe de ser o único bom personagem do filme. Os personagens de Mogli são, cada um a sua maneira, adoráveis e ótimos de se acompanhar, e muitos deles são citados, até os dias de hoje, como sendo alguns dos melhores personagens já criados no meio animado. Isto era exatamente o que Walt Disney queria. Ao assumir a produção, Disney tinha um plano bastante definido em mente; deixar a história simples e básica, para que os personagens pudessem brilhar individualmente. 

Ele queria trabalhar os personagens e deixá-los o mais carismático possível, para que eles pudessem ser as verdadeiras estrelas da obra, independente do enredo, e, ao assistir o filme, nós podemos perceber facilmente que esta abordagem deu certo.

Esses personagens são tão bons que os melhores momentos são as interações entre eles. De fato, a história pouco importa, e a graça de Mogli está em ver essas figuras interagindo e tomando parte em alguma ação. O foco nos personagens também explica o porquê de, mesmo em sua simplicidade, Mogli terminar um filme sensível: o fato de os personagens que protagonizam a história serem tão bem trabalhados faz com que eles se fechem de maneira muito tocante e tangível, e não apenas como alívios cômicos divertidos de se acompanhar. As relações deles uns com os outros, mesmo que simples, são tocantes porque os animadores pouparam o tempo necessário para desenvolvê-las.

Muitas vezes, nós caímos na impressão de, pelos filmes mais novos e modernos da Disney possuírem um foco narrativo maior, eles se fecharem como histórias melhores e mais bem trabalhadas, mas Mogli prova que, mesmo que simples, um filme pode ser tocante, sensível e bem trabalhado, se os responsáveis por contar a história saberem como dosar seus personagens e os momentos marcantes da história.

Balu e Baguera

Um grande exemplo disso são os personagens de Balu e Baguera. Sim, eles são divertidos e engraçados, principalmente Balu, mas eles também podem parar por um momento e estrelarem momentos genuinamente humanos e verdadeiros, e nós percebemos isso não só em seus momentos individuais, mas também em suas relações não só com Mogli, mas como um com o outro.

Cada um deles representa uma figura paternal diferente para Mogli, com maneiras diferentes de lidar com ele, mas, que no fundo, querem a mesma coisa: o bem do menino. A dicotomia presente em Balu e Baguera, com o urso sendo uma pessoa divertida e descontraída, que vive pelo lazer, e a pantera sendo tensa e severa, prezando pelas suas responsabilidades e pela ordem, representa dois lados de uma mesma moeda, e todos temos um pouco dos dois personagens em nós mesmos.

Eles, inclusive, representam as vozes interiores de Mogli, com Balu sendo a representação da diversão, e Baguera, das responsabilidades, e Mogli, assim como nós, tem que aprender a conciliar ambas estas noções, aprendendo que não podemos viver apenas para o lazer, mas que podemos relaxar de nossos deveres eventualmente e nos dar ao luxo de nos divertirmos. E essas são lições que os dois animais também aprendem um com o outro, aprendendo a atravessar suas diferenças e compreendendo que ambos querem a mesma coisa: o melhor para Mogli.

Shere Kahn

Outro excelente personagem que encontramos em Mogli é seu vilão, Shere Kahn. O personagem propriamente dito só aparece quando o filme já está na marca dos cinquenta minutos (com setenta e oito de duração) e, enquanto ele não dá as caras, sua aura e essência vão sendo construídas aos poucos, através do que os outros personagens têm a dizer sobre ele.

Ao invés de ser um animal irracional e impulsivo, como no livro, Kahn é um vilão elegante e sarcástico, que se carrega de maneira pomposa, o que o deixa ainda mais misterioso, ao mesmo tempo em que é muito divertido de acompanhá-lo, pois sua personalidade é ótima, sendo um vilão meticuloso e sarcástico, que parece se divertir com suas maldades.

No entanto, esta maior impessoalidade com que ele se carrega tem um impacto ainda maior quando ela se quebra, e Kahn parte para o ataque, agindo como um animal feroz e irracional, diferente do que estávamos vendo até então.

E Kahn também é interessante por o que ele representa dentro da história. O tigre é mais um caso de alguém que se utiliza do preconceito e da intolerância para disfarçar os seus próprios medos. Ao contrário da maior parte da selva, que aceita e abraça Mogli, Shere Kahn se recusa a lhe dar o benefício da dúvida, e resolve partir para o ataque, justamente por temer tanto os homens e o perigo que eles representam para os animais. A ameaça que ele representava para todos era exatamente o que ele sentia em relação aos humanos e, obviamente, ele não iria deixar que uma criança feito Mogli crescesse para amedrontá-lo, ao invés iniciando ele mesmo com a violência.

Assim, o trunfo de Mogli: O Menino Lobo, são realmente os seus personagens, e suas melhores cenas são motivadas pelos mesmos e por suas relações uns com os outros.

Deficiência com seu final

Meu único problema com Mogli: O Menino Lobo, é seu final, que eu sinto que é extremamente abrupto e anticlimático, sobretudo quando comparamos o mesmo com o cuidado com que o filme estava tendo em desenvolver a relação de Mogli com Balu e Baguera.

Até então, os animadores tiveram o cuidado de desenvolver bem a relação dos personagens nos levando a crer que Mogli entenderia, ou ao menos aceitaria que existe um lugar para ele no mundo, ainda que esse lugar não fosse em meio a selva. Porém é decepcionate que o motivo seja o que foi.

O filme termina com Mogli decidindo ir à aldeia dos homens ao se encantar com uma garota tirando água do riacho. Ela canta uma canção sobre como gostaria de arranjar um marido e o seduz, o atraindo para a aldeia. E sim, isso me tira do sério, principalmente com relação ao machismo escrachado. Mas ainda sim, consigo compreender, já que se trata de um filme do fim da década de 1960.

Porém, gostaria que os animadores tivessem terminado o ciclo do personagem de maneira mais significativa, com algum motivo mais simbólico e que condizia com sua jornada até então para ele ir para a aldeia, ainda mais depois de a obra ter trabalhado muito bem a relação do mesmo com Balu e Baguera, e a jornada de Mogli de forma primorosa.

Deveria ter trabalho melhor o motivo que o fez decidir ir à aldeia dos homens no fim das contas fosse algo que encerrasse sua jornada em direção ao amadurecimento. Apresentando como se ele entendeu que deveria assumir suas responsabilidades e preencher seu lugar no mundo, e não porque apenas encontrou uma menina aleatória na beira do lago por quem se apaixonou.

Live-Action

Mogli: O Menino o Lobo também tem a honra de possuir um remake em live-action que não só é digno, como possui uma incontestável qualidade, não apenas fazendo jus à história, como adicionando à mesma, aliando o filme da Disney com mais elementos do livro de Kipling, que se casam perfeitamente e revitalizam a história para uma nova geração — e o final também é melhorado, com Mogli, aliás, não indo para a aldeia dos humanos, o que faz sentido no cenário atual, nos passando a mensagem de que nós criamos nossa própria identidade, e não a sociedade ao redor.

Um marco de Walt Disney

No final das contas, Mogli: O Menino Lobo se sai como o melhor filme da Disney feito durante a década de sessenta. É engraçado ao mesmo tempo em que é tocante, é sério ao mesmo tempo em que é cartunesco, e nos remete ao início dos filmes feitos durante o início da carreira de Disney, que possuíam temas mais sensíveis e envolventes, ao mesmo tempo em que mantém a irreverência e maior senso de diversão dos filmes da Era de Prata. E, apesar de não ser tão polido quanto os ditos filmes dos primórdios da Disney, Mogli consegue voltar a impactar e se reconectar com o lado emocional do público, com uma narrativa, de fato, tocante e sensível, diferente dos outros filmes deste período, que cresciam cada vez mais vazios e simplórios.

E Mogli conseguiu carregar o fardo de ser o filme responsável por encerrar a jornada de Walt Disney como animador com maestria, sendo este o filme responsável por fazer com que Disney se re-encantasse com o meio animado, após anos afastado daquele lugar que iniciou sua carreira.

Segundo consta, em uma leitura do roteiro de Mogli, Walt chegou a dizer para seus animadores “eu tinha esquecido de quanto isso é divertido”, um depoimento tocante, que se torna ainda mais impactante pelo fato de este ter sido o último filme em que ele trabalhou, pois em 1966, um ano antes da estreia de seu último filme, Disney descobriu possuir câncer, morrendo logo depois. Felizmente, o filme, como citado, fez um ótimo trabalho ao encerrar o legado de Disney, sendo, justamente, extremamente divertido, além de envolvente e atemporal, tudo o que uma obra da Disney, ainda mais vinda das mãos do Disney, deveria ser.

Sendo assim, trinta anos após seu primeiro longa, em 1967, Mogli: O Menino Lobo estreava nos cinemas, encontrando uma calorosa recepção crítica e se mantendo como um clássico animado até os dias de hoje.

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