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A Era de Prata da Disney | A Espada era Lei

Apesar de ainda estarmos na Era de Prata, eu já começo a considerar a entrada da Era das Trevas a partir da triste queda de A Bela Adormecida. Mesmo com o óbvio sucesso de 101 Dalmatas, o departamento de animação ainda estava nadando em águas escuras, e as coisas não andavam nada bem, e A Espada Era Lei foi um filme cheio de tumultos em seu bastidores.

As Lendas Arthurianas

Lendas e histórias envolvendo o Rei Arthur existem e perduram por mais de mil anos. Por se tratar de uma história que já dura muito tempo, é cheia de muitas incertezas, e com a releitura dessa lenda e o surgimento e ressurgimento de novas versões, sua origem é ainda mais incerta.

Por exemplo, existem muitas questões em torno da imagem do Rei Arthur. Ele foi um verdadeiro líder britânico ou o personagem de folclore? Ninguém sabe. Em qualquer caso, a lenda da dinastia arthuriana resistiu ao teste do tempo. Abrangendo muitos séculos, de autor a autor, eles continuam a aumentar a lenda, então, ao longo dos anos, surgiram personagens como Merlin, Lancelot e Excalibur.

Por ser uma história muito conhecida e cheia de possibilidades e com um universo rico, claramente a Disney não perderia a oportunidade de adaptar para uma versão animada. E então, inspirado no livro A Espada Na Pedra do autor inglês T. H. White, surgiu o filme A Espada era Lei.

Publicado em 1938, A Espada Na Pedra conta a história da infância de Arthur e do encontro com Merlin,. O livro alcançou notoriedade ao desconstruir a face rígida e épica da história original, contando sua história de uma forma relaxada e divertida. Mesclando a Idade Média com o período atual, o livro é quase uma sátira do material original.

Produção

A essa altura do campeonato, as coisas no departamento de animação não andavam muito bem. Desde o fracasso de A Bela Adormecida e com a possibilidade de fechamento do departamento, o clima estava bem tenso. Walt Disney já não dedicava seu tempo para as animações. Tinha seu foco em outras produções, e os cortes nos orçamentos que já tinham sido aplicado fora ainda mais reduzidos.

Mesmo o sucesso de 101 Dálmatas não salvou completamente a situação desastrosa do departamento animado.

Os atritos no Dp. de Animação

Naquela época, havia um grande conflito entre os animadores que estavam se dividindo entre produzir duas animações: A Espada era Lei e Chantecler. E não havia a menor possibilidade dos dois filmes serem produzidos por conta dos cortes financeiros.

Eis que grande parte dos animadores queriam produzir Chantecler, e apenas Bill Peet (para quem não se lembra dele de 101 Dálmatas, Peet trabalhava na parte dos roteiros no departamento de animação da Disney) estava interessado em adaptar A Espada Era a Lei. No entanto todos os outros animadores, encabeçados por Ken Anderson (diretor de arte de 101 Dálmatas) e Marc Davis (um dos Nove Anciões), envolvidos com Chantecler.

Arte conceitual de Chantecler

Chantecler seria um musical com animais antropomórficos, no caso, galos e galinhas — o filme em si era baseado em uma peça de teatro do mesmo nome que conta a história de um galo que acreditava poder fazer o sol nascer com seu canto. Chantecler era um projeto antigo por entre as paredes da Disney, tendo sido engavetado e desengavetado diversas vezes por entre os anos, e Anderson e Davis resolveram resgatar a ideia mais uma vez, por estarem insatisfeitos com A Espada Era a Lei

No entanto, devido à posição debilitada que o departamento de animação se encontrava na época, apenas um dos filmes poderia ser produzido, e isto gerou atrito interno entre os animadores, particularmente entre Peet e Anderson e Davis, com ambos os grupos querendo que seu projeto fosse escolhido por Walt Disney.

Alegadamente, após uma apresentação sobre Chantecler ser recebida de forma silenciosa, Peet gritou do fundo da sala “Você não pode colocar uma personalidade em um galo!”. No fim das contas, como sabemos, Chantecler foi arquivado e A Espada Era a Lei recebeu sinal verde para continuar com sua produção, influenciado pelo musical Camelot, e com argumento de que, não só Chantecler seria um projeto mais caro, por possuir mais músicas, o que significava escalar grandes artistas para a dublagem, mas também seria difícil fazer gerar empatia com um galo. E então, A Espada Era a Lei surgiu, gerando rancor entre os animadores.

Lá em 1939, quando Peet expressou seu desejo de adaptar a obra pela primeira vez, a Disney obteve os direitos autorais da obra de White. No entanto, nessas duas décadas, ocorreram muitas e muitas mudanças. Como todos sabemos, devido ao fracasso de “A Bela Adormecida”, o departamento de animação diminuiu drasticamente, e muitas de suas funções foram interrompidas, o que significa que os filmes não são mais tão refinados e sofisticados como antes, o que enfraqueceu muitos de seus filmes que vieram posteriomente.

Quando pensamos na mitologia arthuriana, nós pensamos em histórias épicas e grandiosas, e isto é algo que A Espada Era a Lei não consegue entregar. Eu não digo isso como uma fã frustrada. Eu sou muito fã das histórias e lendas do Rei Arthur e seu universo, mas também entendo que adaptações são guiadas de formas diferentes. Mas há também aquela grande expectativa de ver o épico quando se trata deste universo. E A Espada era Lei não entrega isso. Na verdade A Espada era Lei não entrega nada de nada.

E por mais que A Espada na Pedra fosse um livro bem mais descontraído do que as típicas histórias do Rei Arthur e de Merlin, ainda estava presente nela a essência dessas histórias, que nos lembrasse que o que estávamos lendo era algo provindo do universo dos Cavaleiros da Távola Redonda, algo que não podemos dizer sobre o filme em questão, que termina sem foco e vazio de conteúdo, entregando um trabalho, no mínimo, medíocre. 

No entanto, isso não é chocante, ainda mais quando olhamos como estava os bastidores. Como mencionado anteriormente, Bill Peet foi uma das únicas pessoas que realmente estava envolvido no projeto, e a maioria dos animadores tendia para Chantecler, que foi cancelado. Agora a equipe do estúdio se concentrava em um projeto no qual não estavam envolvidos.

Neste ponto, Walt Disney realmente deixou de lado esta parte da empresa, e não participou da produção de A Espada era Lei, mas tinha sua atenção ativamente para Mary Poppins, que estreou um ano depois. É apontado que este foi o último projeto que teve total devoção de Disney em vida, ou seja, A Espada era Lei foi empurrado para baixo do tapete por ele.

Essas situações então abriu a porta para outros serem responsáveis ​​pelo projeto. A Espada era Lei foi o primeiro filme da Disney a ter um único diretor (até então, os filmes da Disney eram dirigidos em conjunto, o projeto era dividido em sequências, e diferentes animadores ficavam responsáveis ​​pela direção do filme). O diretor foi um dos nove anciãos, Wolfgang Ruthman. Além dele, Bill Peet também escreveu o roteiro de A Espada Era Lei. Esta é a segunda vez que isso aconteceu, sendo a primeira em 101 Dálmatas, também escrito por Peet. Embora seja considerada a forma “ideal” de fazer um filme, ela mostra a insatisfação geral de Disney e de seus animadores com o filme.

E, ainda tinha o irmão de Disney, Roy, pressionando cada vez mais para fechar o departamento de animação, mesmo com o sucesso de 101 Dálmatas. Isso porque acreditava que os recursos utilizados nele poderiam ser melhor aderidos em outros lugares (como um segundo parque de diversões, por exemplo), um corte de gastos foi feito em cima de um já estabelecido corte de gastos, com A Espada Era a Lei tendo um orçamento 40% menor do que 101 Dálmatas, que já era considerado um projeto menor e barato. E, infelizmente, todos esses problemas ficaram evidentes ao se assistir ao filme.

A animação

Mas vamos ao filme. Como já mencionei sou uma grande fã das lendas arthurianas, então digo com grande tristeza que esse filme é uma grande decepção. Principalmente por não ter sido possível fazer ele da maneira que ele merecia. Sempre penso que aquele não era o momento para desenvolver um filme que se utilizava do universo da Idade Média.

Não é sequer justo comparar com A Bela Adormecida, que é o filme mais caro do departamento até então, mas A Espada era Lei se passava no mesmo período – a Idade Média, então a única coisa que consigo pensar é que, se eles tivessem esperado, engavetado, e deixado para desenvolver o projeto em um período mais forte e mais confortável financeiramente, teria ficado tão épico quanto esperamos de adaptações das lendas arthurianas.

Em 101 Dálmatas, eu expliquei que a xerografia é essencialmente uma técnica de corte de custos, os animadores foram capazes de usá-la de uma forma que soa como uma brisa, ao invés de uma maneira ruim. Bem, eis que a cópia xerográfica envelheceu rapidamente e começa então a mostrar seus efeitos negativos. Assistindo A Espada era Lei, podemos ver isso facilmente. Talvez seja porque 101 Dálmatas é um filme mais contemporâneo, e o estilo xerográfico faz com que todo o universo pareça mais descontraído, mas A Espada era Lei não ficou desta forma. E no fim parece apenas mal feito mesmo.

As lendas do Rei Arthur, e qualquer história de época, sobretudo as ambientadas na Idade Média, são histórias grandiosas e épicas, que precisam ser bastante trabalhadas e elevadas, e a Disney simplesmente não podia se dar ao luxo de fazer isto naquele momento. Assim, os visuais do filme são pobres, pouco inspirados e, sinceramente, feios.

Os cenários são preguiçosos e pouquíssimo trabalhados, parecendo planos de fundo qualquer que não dialogam com os personagens. E os próprios personagens são mal-acabados, lembrando que a xerografia não possibilitava que nenhuma outra cor contornasse os personagens que não o preto, e eles terminavam mais rascunhados e ensaiados do que, de fato, prontos para estrelarem seus próprios filmes.

Trilha Sonora

Além da animação, outra parte fraca de A Espada Era a Lei é a música. Tecnicamente falando, embora se trate de um musical e tenham surgido quatro canções durante sua execução, essas canções ainda são muito comuns e genéricas, e não deixaram sua marca. É até um pouco surpreendente que as músicas desse filme foram compostas pelos Irmãos Sherman, sendo esta sua primeira parceria com a Disney.

Para quem não sabe, os Irmãos Sherman são uma dupla bastante conhecida de compositores, que encontraram fama compondo para musicais, sobretudo para filmes, possuindo uma vasta parceria com a Disney. Muitas de suas músicas se tornaram marcos para o estúdio, com diversas delas virando canções icônicas e extremamente populares até os dias de hoje. São músicas que eles escreveram para Mogli, Os Aristogatas, mas, principalmente, Mary Poppins.

Sabendo disto, nós podemos compreender melhor porque as músicas aqui parecem tão fracas; eles estavam ocupados em outro lugar. Assim como Disney, a atenção dos Irmãos Sherman estava totalmente voltada para Mary Poppins, e, mais uma vez, A Espada era Lei foi relegado à segunda posição.

A história

Eu realmente fico inconformada em como Peet conseguiu escrever um roteiro incrível em 101 Dálmatas e errou feio em A Espada Era Lei. E detalhe: TINHA UM LIVRO NO QUAL SE BASEAR!!!! É tão frustrante que ele não tenham conseguido ao menos desenvolver uma boa história que chego a ter vontade de chorar.

Mesmo com os problemas de orçamento, o caos da xenegrafia e a falta de atenção e dedicação para desenvolver a animação e a trilha sonora, se ao menos o roteiro do filme fosse bem feito, esse teria salvado tudo e seria fácil e completamente possível ignorar os outro problemas.

Mas nem isso foi bem feito.

O filme se abre com um livro, e somos informados sobre a dita espada do título, a espada na pedra. O narrador nos informa que só alguém digno conseguiria arrancar a espada, e esta pessoa se tornaria o novo rei da Inglaterra. Mas ninguém jamais conseguiu arrancar a dita cuja e, sem um rei, a Inglaterra foi definhando, e se tornando um lugar caótico e sombrio.

Até ai tudo certo. Só que, após esta introdução, isto nunca mais é trabalhado ou sequer citado. Aliás, é fácil esquecer que este elemento está presente no filme em um primeiro lugar, porque ele não contribui em praticamente nada para a história até o seu final, quando os animadores resolvem resgatar a premissa, e colocam Arthur para arrancar a espada. Mas até isso parece ter caído dos céus, porque não foi trabalhado ao longo do filme, e não há nada indicando que Arthur era o escolhido para arrancar a espada, e o filme também não trabalha um arco narrativo para o personagem que nos mostre como ele é uma pessoa digna, ou como ele amadureceu ao longo da história, se tornando alguém capaz. 

Este filme simplesmente prova que A Espada na Pedra não era o material adequado para o estúdio se adaptar em tempos de crise financeira. Este é o mito do Rei Arthur. É um material denso que requer maior atenção e brilho. Isso porque devido problemas e restrições financeiras, o departamento de animação da Disney simplesmente não podia insistir em produções que exigiam mais dedicação.

Mas ainda que eu não seja fã número um de A Espada Era a Lei é difícil ser dura com o filme quando descobrimos sobre sua produção conturbada. Praticamente ninguém estava interessado no projeto; Walt Disney não queria fazê-lo, os Irmãos Sherman não queriam fazê-lo, até os animadores não queriam fazê-lo, então é mesmo surpreendente que o filme terminou fraco e pobre? Além do fato de que o estúdio tampouco tinha o orçamento necessário para fazer com que a história funcionasse e tiveram que se agarrar a tudo o que tinham em mãos para fazer o filme (lembrando que houve um corte de 40% do que já havia sido cortado em 101 Dálmatas).

Assim, era de se esperar que o filme terminasse de maneira fraca e, de todos os filmes da Disney feitos durante a vida de Walt Disney (com a exceção dos feitos durante a Segunda Guerra Mundial, até porque sabemos que eles mal contam pra alguma coisa). E é a primeira vez que estamos experimentando o que iria acontecer com o estúdio após a morte de Walt Disney; filmes sem brilho, vazios de personalidade, esquecíveis e com pouco mais a oferecer além de um entretenimento momentâneo.

Com todos esses defeitos, é um pouco triste que A Espada Era a Lei tenha sido a última animação da Disney lançada durante a vida de Walt, mas, felizmente, não foi a última em que ele trabalhou, com o próximo filme da Era de Prata se fechando de maneira muito mais memorável.

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