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A Era de Prata da Disney | 101 Dálmatas

101 Dálmatas é o filme que salvou o departamento de animação da Disney, impedindo de ser fechado. Depois do grande e traumatico fracasso de A Bela Adormecida, o choque foi tão grande que Walt Disney considerou acabar com o departamento, encerrando logo o lugar onde tudo começou.

101 Dálmatas é o 17º filme animado da Disney, dirigido por Clyde Geronimi, Hamilton Luske e Wolfgang Reitherman baseado no livro de Dodie Smith de mesmo nome. O filme chegou aos cinemas em 25 de janeiro de 1961.

Xenografia

Após o fiasco de A Bela Adormecida, filme mais caro até então, o estúdio teve que fazer grandes concessões para que o departamento de animação pudesse continuar existindo entre as paredes de Burbank. Obviamente, o mais notório é a mudança da tecnologia de animação tradicional para a xerografia. A técnica usa fotocopiadoras para copiar os desenhos do animador em todo o filme. Isso desacelera bastante o processo de produção, e o animador não precisa mais refazer manualmente cena por cena de seus desenhos.

A tecnica de xerografia foi desenvolvida por Ub Iwerks, colaborador de longa data de Walt Disney. O primeiro filme a usar essa tecnologia 101 Dálmatas. Os 101 Dálmatas representavam a esperança do departamento de animação, e o orçamento e o nível de produção eram muito inferiores aos de seu antecessor. Ele prometia recuperar o dinheiro perdido e fazer a Disney se levantar novamente.

A xerografia não foi inicialmente considerada uma técnica rápida, fácil e barata. Quando Ub Iwerks desenvolveu essa tecnologia, ele estava procurando novas maneiras de expandir a animação. Ela foi usada pela primeira vez, inclusive quando finalmente atingiu seu clímax em A Bela Adormecida, para criar a floresta de espinhos. O segundo teste é para determinar se a mesma não afetaria a qualidade da animação foi o curta-metragem de 1960 chamado Goliath II.

Com o resultado do Goliath II, o estúdio decidiu usar a xerografia de forma definitiva, e o fato de Walt Disney não estar mais diretamente envolvido no departamento de animação também ajudava, já que assim os animadores detinham liberdade para fazer as melhores escolhas. Portanto, 101 Dálmatas foi o primeiro filme a usar da tecnica de Xenografia do ínicio ao fim.

As defeciências da Xenografia

No entanto, tudo isso não significa que a tecnologia não tenha deficiências. A xerografia permite que apenas linhas pretas apareçam, o que torna o filme feito desta forma mais áspero e produz uma impressão de processamento mais pobre. Tudo isso porque os desenhos dos animadores eram extraídos direto do papel para as folhas de acetato. Já não ia existir mais o processo de pintar e aperfeiçoar estes desenhos para que então eles fossem transferidos para o acetato.

Portanto, os animadores precisavam finalizar seus desenhos o máximo possível e com o máximo de cuidado para que o resultado final não ficasse tão confuso e imperfeito. A xerografia basicamente tornou o departamento de pintura da Disney obsoleto. Ele era considerado o melhor departamento de pintura do mundo, mas foi fechado. Isso causou o desemprego de centenas de pessoas.

A Produção de 101 Dálmatas

A história do filme vem de um livro infantil escrito pela escritora Dodie Smith em 1956. Smith escreveu este livro, inspirado em seus próprios dálmatas, o primeiro se chama Pongo e Cruela foi inspirada em uma conhecida sua. Em 1957, Walt Disney leu a obra que lhe chamou a atenção e obteve os direitos autorais da obra, o que deixou Smith feliz, pois sonhava que um dia a Disney adaptaria sua história.

Dodie Smith autora do livro que inspirou 101 Dálmatas, o filme animado da Disney de 1961
Dodie Smith e seus Dálmatas

Mais uma vez, devido ao grande número de projetos em que participou, Walt Disney passou o comando do filme à outra pessoa. Desta vez é Bill Peet, responsável pela produção do filme, que trabalhava no departamento de histórias da Disney. Ele sozinho adaptou 101 Dálmatas para as telas, sendo esta a primeira vez que um único animador foi responsável por construir toda a história de um filme na Disney.

Diferente do live-action, as histórias dos filmes de animação não eram construídas ao digitar de um roteiro, e sim desenvolvendo um storyboard, que conta a história do filme de cena em cena, como se fosse um quadrinho da mesma.

Bill Peet contou a história com tanta perfeição que Dodie Smith mais tarde admitiu que até melhorou seu livro. Não é à toa que Peet se tornou autor de livros infantis com sucesso depois de deixar a Disney.

A animação

Visualmente, Ken Anderson ficou a cargo de 101 Dálmatas. Se A Bela Adormecida era um filme sofisticado e clássico, que nos lembrava uma pintura medieval, e tudo se movia de forma perfeita e controlada, em 101 Dálmatas os animadores resolveram fugir disso o máximo possível para seu próximo filme. Assim 101 Dálmatas, se tornou em um dos filmes mais visualmente diferentes da Disney, que tinha o hábito de fazer seus filmes de forma realista e lapidada.

A arte aqui é extremamente angular e assimétrica. As imagens realmente parecem mais rascunhadas e informais (detalhes que eram causadas pela Xenografia), dispensando o polimento dos filmes que o antecederam, no entanto isto combina tanto com a história e a essência também informal da mesma que no fim, o que poderia ser uma imperfeição, faz o filme ficar ainda mais bonito.

O fato de Ken Anderson trazer Walt Peregoy para trabalhar em seu filme se deu porque Peregoy tinha um estilo mais vanguardista em suas pinturas. Assim, as dificuldades que a xerografia apresentava foram contornadas, e fizeram do filme mais leve e moderno.

Sim, a xerografia ajudou muito na produção de 101 Dálmatas e economizou muito dinheiro (principalmente, porque esse filme seira muito caro se últilizado às técnicas tradicionais, já que seria necessário repitar em todas as cenas as manchinas dos dálmatas), mas devido à sagacidade dos animadores, ela também foi responsável por nos trazer um dos efeitos visuais mais exclusivos da filmografia da Disney.

No entanto esse intusiamo não foi compartilhado por Walt Disney que odiou a arte do filme e chegou a dizer para Anderson que nunca mais seria diretor de arte outro filme da Disney. Até então os filme eram tão polidos e sofisticados, que ver 101 Dálmatas que foge completamente dessa polidez foi um choque. No entanto, mais tarde Walt entendeu que as diferenças entre este filme e os antecessores não tornava o filme pobre. E em uma cena poética de fechamento de ciclo que só encontramos em filmes, ele encontrou Anderson em sua última visita ao estúdio, antes de sua morte, e se acertou com Anderson.

A história de 101 Dálmatas

Aqui diferente dos muitos filmes da Disney, foge completamente das esferas fantásticas e de contos mágicos. Se voltando para uma graça mais comtemporânea, o filme repete a ideia de A Dama e o Vagubundo, e faz um filme mais atual. E tão atual que ele se passa na mesma época em que foi lançado: final dos anos 1950 início dos anos 1960.

101 Dálmatas é um filme despretensioso, que só quer nos entreter, e termina como um grande alívio na biblioteca da Disney. Alguns filmes nos tocam, outros filmes nos ensinam lições de vida, outros são belíssimos artisticamente falando, e outros são apenas divertidos de se acompanhar, e é nesta última categoria que se encontra 101 Dálmatas.

Ao invés de ser um conto de fadas, ou uma história de amor, ou qualquer coisa do tipo, 101 Dálmatas termina como uma grande aventura, que nos engaja a acompanhá-la e nos deixa nas pontas dos pés enquanto vemos o seu desenrolar. Nós realmente nos importamos com os dálmatas, e ficamos tensos assistindo eles tentarem voltar para casa, enquanto são perseguidos pelos vilões.

Embora os personagens Roger e Anita pouco apareçam, eles também são interessantes porque são mais realistas e se diferem dos que a Disney normalmente oferece. Roger e Anita não são os casais típicos dos contos de fadas da Disney, seu relacionamento é mais harmonioso, brincando um com o outro, há interações e demonstração de carinho, parecem um casal de verdade.

O mesmo pode ser dito da relação entre Pongo e Perdita. Ao invés de passarmos o filme vendo o lado romântico de sua relação, o filme já começa afirmando os dois como um casal, deixando a história menos sobrecarregada e dá a ela o espaço para focar no aspecto aventureiro que promete.

Assim, o fato de o filme ser mais contemporâneo e não seguir à risca o estilo lúdico e fantástico das histórias contadas pela Disney dá a ela a liberdade de ser mais despretensiosa, podendo contar uma história mais simples, mas, ao mesmo tempo, mais próxima de nós.

A vilã

A propósito, Cruela De Vil e Malévola têm muito em comum. Ambos são as estrelas de seus respectivos filmes, são as duas vilãs mais icônicos dos filmes da Disney, ambos têm designs excelentes e são criaturas simplesmente aterrorizantes.

Enquanto Malévola se gabava de ser a “senhora de todo o mal”, o nome de Cruela De Vil é literalmente um trocadilho com crue devil, diabo cruel. E isso é essencialmente o que sua personagem é durante toda a duração da história. Nada pode melhorar Cruela, nada pode justificar seu comportamento, mas é isso que a torna tão interessante. Nesse sentido, parece ser uma versão mais moderna de Malévola, justamente por ser muito ruim, e é isso que a torna tão grande.

O filme que salvou o departamento de animação

Por fim, todas as estratégias inovadoras e econômicas usadas em 101 Dálmatas valeram a pena. O filme teve um bom desempenho e boa aceitação do público, especialmente na França, onde foi o filme mais popular do ano. Seu sucesso se deu porque a sua história é despretensiosa. Não apenas uma história interessante e instigante, mas também uma aventura fascinante, principalmente para crianças, e que torna o filme popular junto do público. Essa aceitação do público e da crítica especializada permitiu que o departamento de animação continue existindo nos estúdios Disney.

Ironico que o departamento que começou tudo, fosse ameaçado de existência. Principalmente porque sem dúvida é o melhor departamento dentre todos existentes da empresa até os dias de hoje. Nenhuma outra produção se compara com as animações da Disney.

E assim, 101 Dálmatas termina como um filme extremamente divertido. Essa história simples e despretensiosa é exatamente o que o estúdio precisava em seu filme. uma história leve e envolvente, e foi isso que 101 Dálmatas entregou. Este não é um filme grandioso ou exuberante, mas oferece diversão, e continua até hoje como uma obra fascinante, e podemos assisti-lo mesmo na idade adulta, e ainda ficaremos fascinados pela doçura e simplicidade da história.

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