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A Era de Prata da Disney | A Bela Adormecida

E chegamos então ao filme da Linha Princesas que divide a opinião do público. Enquanto A Bela Adormecida tem aspectos que são lindos e admiraveis, muitos consideram esse longa metragem uns dos piores filmes. Não prometo chegar a um consenso aqui, mas vou tentar mostrar os dois lados e fica para você decidir se ele é ou não um bom filme.

A Bela Adormecida é o décimo sexto filme da Disney Animation. Lançado em 1959, o longa se tornou um clássico da Disney e ganhou um remake em live-action em 2014 com Angelina Jolie e Dakota Fanning nos papéis principais.

As histórias macabras de A Bela Adormecida

Primeiro que, apesar da história de Aurora na Disney ser de um conto muito leve e bonito, as histórias originais são muito mais horríveis, e sinceramente, enojantes. Enquanto pesquisava mais, fiquei horrorizada com os contos que circulavam entre o povo nos tempos passados.

Perceforest

Bem, A Bela Adormecida é aquele tipo de estória que está na boca do povo, muito antes de sequer existir registro dela. Então o conto escrito mais antigo de que se tem informações é o de Perceforest, um romance em seis livros escrito nos Países Baixos entre 1330 e 1344. Nesta versão, a deusa romana Têmis joga a maldição em Bela Adormecida, aqui chamada de Zelladine, depois que percebe que a faca que foi lhe reservada para usar durante a festa de nascimento de Zelladine não era tão chique quanto à das outras deusas convidadas; Lucina (ou Juno) e Vênus.

Aqui podemos ver o primeiro protótipo para as três fadas do filme da Disney, neste caso, deusas, com uma entre elas sendo a rogadora da maldição, e não uma bruxa externa. Assim como no filme, as deusas dão seus presentes para a garota, com Têmis se aproveitando deste espaço para amaldiçoá-la. Tudo ocorre como planejado, e Zelladine espeta seu dedo em uma roca de fiar, caindo em um sono profundo.

O amante de Zelladine a encontra naquele estado e, sem “conseguir controlar seus instintos” (sendo um grande fdp), a estupra (algumas versões dizem ‘transar’, mas sabemos que não foi isso que aconteceu) a engravidando. Zelladine dá à luz a um bebê nove meses depois, ainda dormindo, e o bebê acaba acidentalmente tirando o espeto da roca de seu dedo, acordando a mulher.

Sol, Lua e Talia

Outra versão que ficou conhecida, inspirada nesta foi Sol, Lua e Talia, escrito pelo italiano Giambattista Basile durante o século XV. Nesta versão as coisas acontecem mais ou menos da mesma forma, com a exceção de que ninguém diretamente amaldiçoa a menina, que aqui já é uma princesa, e são astrólogos que profetizam que ela irá espetar seu dedo em uma roca e cairá em sono profundo. 

O rei decide se livrar de todas as rocas do reino, mas Talia, anos depois, vê uma senhora fiando e pergunta se ela pode ajudá-la, dando abertura para que ela espetasse seu dedo e dormisse. O rei não consegue enterrar a própria filha, e leva seu corpo adormecido para uma de suas casas no campo. A partir daí as coisas se repetem, um homem, desta vez um outro rei, encontra o corpo de Talia e acha tão linda que a estupra, ela tem seus bebês, dessa vez gêmeos chamados de Sol e Lua, ainda adormecida, e um deles, chupando seu dedo acreditando que fosse seu peito, arranca o espeto, e ela acorda.

O problema aqui é que a história se estende se tornando ainda mais assustadora. O rei reencontra Talia e a mantém como sua amante, até que a rainha descobre e, enraivecida, decide matar os bebês e dá-los de jantar para o marido (por sorte o cozinheiro poupou as crianças sem o conhecimento da monarca), além de tentar executar Talia na fogueira, mas o rei descobre sobre seus planos, e é ela quem é executada, com Sol, Lua, Talia e o rei terminando juntos e felizes para sempre. Nem quero saber a moral desta história.

A Bela Adormecida no Bosque

As versões das histórias mais conhecidas e famosas da história nos dias de hoje são, mais uma vez, a do francês Charles Perrault e a dos alemães irmãos Grimm, sendo estas as duas versões que contam a história da forma com que ela se espalhou com o passar dos anos e como se manteve no imaginário popular.

Perrault publicou uma versão em 1697 chamada “A Bela Adormecida na Floresta“, que contava a história de uma princesa que foi amaldiçoada por uma fada do mal quando nasceu. Isso aconteceu porque ela tinha menos utensílios do que as outras sete fadas e ficou irritada (isso porque as pessoas acreditavam que ela estava morta e tinha estado em reclusão por muitos anos, então o monarca não lhe preparou e separou bons talheres).

Até então, as primeiras seis fadas que se apresentaram a princesa deram-lhe dons como “beleza”, “elegância”, “dança” e “música”, enquanto a fada do mal a amaldiçoou com uma roda de fiar, alegando que espetaria o dedo e morreria. Então, a última fada que ainda estava com ela tentou resolver o feitiço, mas apenas parcialmente, transformou a morte em sono profundo por cem anos e foi acordada pelo beijo do príncipe; e esta é a primeira vez que este elemento foi adicionado para substituir o estupro.

A partir dai o resto se desenrola daquele jeito que a gente já conhece, e o rei tenta tirar todas as rocas do reino, e a princesa espetando seu dedo mesmo assim e dormindo. A Fada que trocou a morte por um sono profundo é chamada de volta ao castelo. Ela previu que a princesa acordaria sozinha, então ela coloca todos os presentes em um sono profundo. A fada também fez espinhos crescerem ao redor do castelo para que a princesa não fosse perturbada enquanto dormia. Cem anos depois, um príncipe descobriu a existência da princesa, cruzou a floresta de espinhos para encontrá-la, ficou fascinado com sua beleza, beijou-a e acordou-a. O resto do castelo também é despertado e os dois protagonistas se casam.

Esta história tem uma continuação e é considerada duas histórias separadas, que foram posteriormente reunidas. Após o casamento, o príncipe e a princesa tiveram dois filhos, Joel (dia) e Aurore (alvorada). Poucos anos depois, esses nomes serviram de inspiração para o nome da princesa Disney. Esta continuação é muito semelhante à de Sol, Lua e Thalia. A rainha, a mãe do príncipe, um homem notório, descobriu a existência da princesa e de seus dois filhos e disse ao chef para matá-los e servir suas carnes na refeição. Obvio, isso não acontece, a rainha é morta e a família do princípe e da princesa vivem felizes para sempre.

A Pequena Rosa

Estranhamente, a versão dos Irmãos Grimm é muito leve e não tão cruel e patológica como suas outras obras. A história dela é quase exatamente igual à história de Perrault. Eles se inspiraram na história de Perrault, exceto que a fada do mal amaldiçoou a princesa não por causa de seus talheres, mas porque ela não foi convidada, ideia que mais tarde foi usada pela Disney. O título do filme é The Little Briar Rose, algo como A Pequena Rosa. Fora isso, as duas histórias são quase iguais, e são essas versões que remodelaram nosso conceito de A Bela Adormecida, e é também onde a Disney se inspirou no filme de 1959. O filme foi creditado à obra de Perrault, apesar de se assemelhar mais a história dos Grimm, talvez apenas porque não queriam ser assossiado aos irmãos e suas mórbidas histórias.

Produção

A Bela Adormecida é sem dúvida um dos filmes mais ambiciosos da Disney, perdendo talvez apenas para Fantasia. O longa passou a ser produzido em 1951, logo após o sucesso de Cinderela. Sua produção ambiciosa acabou por atrasar suas estreia três vezes, passando dez anos em andamento. A ideia é que o filme fosse lançado em 1955, e pode parecer pouco, ainda mais se comparado com os filmes anteriores. Mas diferente dos outros que precisaram ser parados por causa da Guerra, A Bela Adormecida só levou tanto tempo devido a todo o perfeccionismo de Walt Disney e sua equipe.

Acontece que Walt Disney queria que a história de Aurora fosse o maior filme do estúdio. Mais ambicioso, um grande a maior sucesso que faria todos os olhos e holofótes se voltarem para ele. O que acontece é que nesta época, finalmente, havia bons cachês e a empresa estava estavél financeiramente.

A essa altura do campeonato, até o parque da Disney, Disneylândia, já havia sido inaugurado, e a empresa também estava indo muito bem com suas produções em live-action tanto para o cinema quanto para TV. Então agora, a Disney tinha um gigantesco orçamento que podia apoiar tamanha grandeza. Diferente da Era de Ouro, onde sua ambição quase o levou a falência.

Inovação

Com isso, a filmagem de A Bela Adormecida ganhou muitas liberdades, inclusive este é o primeiro filme de animação rodado no formato 70mm, ou seja, o filme foi filmado com filme 70mm e câmera horizontal, por exemplo em Dama e o Vagabundo, a tecnologia widescreen, Cinemascope, é usada para tornar as fotos mais panorâmicas e amplas, dando ao filme uma sensação magnífica e espetacular (lembre-se que o surgimento do widescreen na década de 1950 é uma forma de competição cinematográfica com a popularidade crescente da televisão).

Outra inovação é a utilização do som em filmes, o som é gravado em estéreo, o que dá a sensação de que o som vem de vários lugares diferentes da sala de cinema, como se o público estivesse cercado por ele. Já podemos ver Walt Disney se mantendo em contato com seu contexto de exploração novamente aqui. Isso é o que torna seus primeiros filmes tão especiais. Ele quer inferir todas as possibilidades de seu filme se tornar um grande trabalho, como suas primeiras produções.

Mas, muito mais que só gravações e sons, a animação d’A Bela Adormecida era a parte mais ousada de todo o filme. Walt Disney queria sair do lugar comúm onde se encontrava a animação da época. O estúdio de animação UPA criou um estilo de desenho animado mais simples e cartunesco em seus trabalhos. Ironicamente, está em nítido contraste com o estilo mais bonito e realista das pinturas da Disney. Popular entre as animações, não como um declaração de estilo, mas porque é mais barato e fácil de fazer.

Agora era a vez da Disney se opor ao estilo UPA e maximizar o nível artístico de A Bela Adormecida para torná-la o mais elegante, clássica e bela possível. Em suas próprias palavras, a Disney quer que a A Bela Adormecida fosse “uma ilustração em movimento, uma animação definitiva”; e conseguiu.

A década de 1950 e projetos mais “rasos”

Embora os filmes da Disney dos anos 1950 fossem bons do ponto de vista narrativo e os efeitos de animação lindos, eles perderam o frescor e a coragem dos filmes lançados por Walter no final dos anos 1930 e início dos anos 1940. Claro, esses filmes são considerados clássicos e amados pelo público, mas falta-lhes a natureza experimental da Disney nos primeiros dias de sua carreira.

Branca de Neve é ​​um projeto ousado só por existir. Pinóquio é considerado por Walt seu maior trunfo visual. Ela mudou completamente o campo dos efeitos visuais de animação e tem uma história tensa que dificilmente seria contada nos dias de hoje. Fantasia é um milionário projeto casado com música clássica. Na animação, desenvolveu um sistema de som para o sistema de projeção de cinema. Bambi usa uma animação única para contar uma história adulta e madura, especialmente em termos de sua formação impressionista.

Podemos dizer que todos esses filmes revolucionaram em certa medida o campo da animação e trouxeram coisas novas. O que era de se esperar, pois os filmes de animação estava sem seus primeiros passos e Walt Disney gosta de experimentar e sempre criar com sua arte coisas novas.

No entanto, desde a década de 1950, essas veias experimentais desapareceram. Começando com Cinderela. Embora este filme seja bom, é baseado inteiramente no que o público quer ver, não na criatividade dos animadores. Os esforços foram bem, e Cinderela foi um grande sucesso, mas os filmes da Disney finalmente se estabilizaram e não se permitiram como os filmes anteriores – talvez apenas o projeto Alice no País das Maravilhas tenha sido desenvolvido por décadas. Porém, em geral, os filmes daquela época estavam mais na zona de conforto, principalmente no aspecto visual das coisas.

Isso , em parte, se dava por Walt tinha ficado entediado com as animações. Sempre gostando de explorar campos diferentes, sua atenção tinha se voltado para outras areas de sua empresa, como projetos em live-action e TV, e até mesmo para seu parque. A essa altura, a companhia tinha crescido muito, e sua atenção se dividiu inevitavelmente. A Disney já estava com sua própria distribuidora também. Inclusive A Bela Adormecida era o segundo filme distribuido sem ajuda externa. A Dama e o Vagabundo foi o primeiro a ser distribuido pela Buena Vista.

Mas A Bela Adormecida foi um projeto que trouxe sua atenção novamente para as animações, e Walt mais uma vez se permitiu tornar as raizes experimentais. Obviamente, desde que a Disney se tornou uma grande empresa, Walt não podia mais supervisionar de perto os animadores, querendo ou não. É aí que entra Eyvind Earle.

As artes conceituais d’A Bela Adormecida

Gadis dan Unicorn; arte em tapeçaria que inspirou o conceito de A Bela Adormecida
Gadis dan Unicorn; arte em tapeçarias que inspirou Walt no conceito de A Bela Adormecida

Se A Bela Adormecida é o ativo visual que conhecemos hoje, tudo se deve a Eyvind Earle. Walt Disney foi inspirado por uma série de tapeçarias medievais e esperava que A Bela Adormecida seguisse esse estilo artístico e conceito estético, e o estilo de pintura de Earle se encaixa perfeitamente nesse conceito.

Assim, Disney, reclamando que, sempre que algum artista criava uma arte conceitual para um de seus filmes, o projeto final sempre se diferenciava daquele conceito inicial, como acontecia com Mary Blair, a quem eu citei no meu texto sobre Alice no País das Maravilhas. Walt sentia que os filmes baseados nos desenhos de Blair, como Alice e Peter Pan, sempre acabavam falhando em recriar seus desenhos para a tela e, não querendo que isto acontecesse, deu autonomia total à Earle para que ele encabeçasse o projeto e fizesse ele à sua maneira.

Olhando para a arte conceitual criada por Eyvind Earle para A Bela Adormecida, podemos ver que o filme apenas captura sua essência. Tanto este filme quanto o estilo de Earle reproduzem o próprio estilo medieval, pré-renascentista e gótico. É esse estilo que realmente diferencia A Bela Adormecida de outros filmes da Disney. Acredito que neste quesito, o filme se destaca de qualquer filme feito antes e depois, até mesmo nos dias de hoje.

Nunca queo estúdio ousou novamente nesse nível, ainda mais hoje que o uso de CGI e as animações em 3D mudou e muito o conceito dos filmes animados. Você pode pausar A Bela Adormecida a qualquer momento dentro de 75 minutos, e então você verá uma bela imagem, pronta para compor sua decoração em casa. A arte aqui é muito bonita, realmente parece medieval, sejam as cores brilhantes que ele usou, seja os traços ou o design do personagem.

Com o enquadramento retangular, a obra de arte deve ser maior e mais detalhada para preencher a tela, o que significa que os animadores precisaram aprimorar ainda mais sua arte, o que ajuda a fazer com que o filme pareça algo visto em um museu em vez de um filme da Disney. Para você ter uma noção, como o quadro do filme foi ampliado e pode ser exibido em uma vista panorâmica, o papel que o animador desenhava não era mais um tamanho normal e quadrado, mas um retângulo e um papel enorme, que parecia quase um lençol, então sim, esse processo era mais trabalhoso, mas também ajudou a melhorá-lo.

Sendo assim, a arte de Earl é o verdadeiro protagonista do filme. É muito diferente de tudo o que o estúdio fazia no passado, é extremamente delicado e polido, requintado e perfeito, e imediatamente chamou a atenção das pessoas.

A arte dos personagens e o realismo

A pureza e requinte das cenas e fundos também devem ser refletidas em seus papéis, o que torna as estrelas de A Bela Adormecida um dos personagens mais requintados e realistas dos filmes da Disney. Seus movimentos e posturas são muito mais semelhantes a realidade. Aqui as dificuldades dos primórdios não existia mais, e os animadores tinham muito mais conhecimentos e habilidades para conseguir criar personagens realistas.

Porém, além dos movimentos, o design desses personagens também está intimamente relacionado à realidade. Portanto, eles se combinam com as cenas requintadas e nobres de Eyvind Earle, o que não dá mais espaço para caricatura e exagero. Os personagens aqui precisavam ser bonitos e realistas, que é o que eles entregam. A maioria das figuras humanas que vemos são a realidade mais próxima que a Disney conseguiu chegar. Esses personagens são tão delicados que é difícil acreditar que mãos humanas os deram vida e capturam com precisão o sentido da realidade.

Desentendimentos no backstage

Eis que com essa maior precisão nos detalhes dos personagens, começaram a ter certos desentendimentos entre o grupo de animadores e Eyvind Earle. Por terem que conduzir seus desenhos baseados em artes já feitas, no caso, nos conceitos criados por Earle, os animadores se sentiram incomodados com a falta de liberdade criativa para conduzir seus desenhos.

Earle, como perfeccionista, não deu espaço para outras ideias que não fossem as suas. Isso criou um conflito entre ele e o corpo de animadores, porque Eyvind Earle queria intervir no design do personagem e determinar como torná-lo uma animação, incluindo a paleta de cores que deveriam seguir. Os animadores geralmente tinham autonomia em outros projetos para animar seus personagens da maneira que eles gostam, mas Earle não deu a eles liberdade.

Isso, somado ao fato de Earle ser uma pessoa bastante séria e pouco amigável também causava um maior transtorno e barreias com o corpo de animadores, e o projeto não foi concebido de maneira leve e divertida, e sim de maneira restrita e tensa, com os animadores e Earle em um constantes discussões, ao mesmo tempo em que eram distantes uns dos outros.

Os animadores também não gostavam de ter que seguir por esse caminho ultra realista, querendo ter a liberdade para criarem seus personagens de maneira mais lúdica e divertida, como personagens de desenhos animados propriamente ditos. No entanto essa opção não estava na mesa, e eles tinham que seguir não só as ordens de Earle, como as do próprio Walt Disney. Como o mesmo tenha apontado Eyvind como o supervisor do projeto, e ele defendia todas as ações e escolhas de Earle, indo contra as críticas e questões dos animadores, e não lhes dando ouvidos.

Esta é a primeira vez que os animadores sentem que Walt Disney é mais um chefe do que um amigo. Isso fez com que o relacionamento de Walt com os trabalhadores se deteriorasse. Por estar tão ocupado com todo o trabalho da empresa que não conseguia dedicar seu tempo ao departamento de animação, algumas pessoas se sentiram frustradas, pois sentiam que ele sobrecarregava-os de trabalho sem realmente participar do mesmo.

O desgaste entre os animadores e Earle foi tanto, especialmente com Clyde Geronimi, que Eyvind saiu da Disney em 1958, antes da finalização do filme, mas, felizmente, a animação se prendeu ao seu estilo, terminando como uma das mais estilizadas e únicas que a Disney já entregou. Clyde que vivia em grande embate com Eyvind foi nomeado diretor do projeto após a saída de Earle.

Trilha Sonora

Eis que outro destaque no filme é a trilha sonora. A Bela Adormecida ao contrário da maioria dos filmes desse período, e dos períodos que se seguiriam, o filme tem poucas músicas propriamente ditas, com a que se destaca sendo Once Upon a Dream, que Aurora e o Príncipe Felipe cantam no bosque, e as outras sendo mais impessoais, sendo cantadas por um coro onipotente, fora das cenas.

A ideia inicial era, de fato, fazer composições próprias para A Bela Adormecida, com músicas mais alegres e divertidas, cantadas pelos próprios personagens, como em filmes comuns da Disney, mas essa ideia foi cortada e substituída pelas composições de Tchaikovsky.

A Bela Adormecida combina perfeitamente a ação dos personagens com a música. Essa combinação está perfeitamente coordenada. Isso nos dá a sensação que Tchaikovsky criou as músicas especificamente para o filme por causa da combinação entre as imagens vemos e o som que estamos ouvindo. É perfeito.

É incrível como os animadores ajudam esses dois elementos – por exemplo, ao contrário de Fantasia, os animadores criam animações em cima da música, aqui eles tinham que coordenar uma composição já existente com uma história, também, já existente, e eles fizeram isso com tamanha segurança e plenitude que parece, ao assistir o filme, que os dois elementos foram feitos um para o outro.

Lembrando que para aumentar o poderio sonoro no filme, todas as músicas foram gravadas em estéreo, algo que a Disney não fazia desde Fantasia, quando criou um sistema de som próprio que lhe rendeu um Oscar honorário. Os músicos viajaram até a Alemanha para gravar as canções em um estúdio musical, e, nas sessões de A Bela Adormecida, a música tocava de maneira que parecia estar emergindo de todos os lugares e de diferentes direções.

A história de A Bela Adormecida

E eis que chegamos então a história propriamente dita d’A Bela Adormecida. Se toda a produção como puderam ver é espetacular em cada detalhe, a história de Aurora, pode ser muito mais fraca do que muitos outros ja feito. No entanto se formos analisar A Bela Adormecida é rechado dos cliclês que tanto amamos. Temos fadas, uma bruxa que vira dragão, um príncipe destemido e amor a primeira vista.

A Disney sempre consegue mergulhar seu público em universos e terras mágicas onde tudo é possível, e faz isso com tanta desteza que mesmo o mais racional dos seres humanos consegue imergir neste mundo fantástico e comprar as ideias irreais. E nesse quesito A Bela Adormecida não falha.

Mesmo sendo muito mais simples e direta em sua história, aqui não há cenas que não se completam com a trama principal. Diferente de Branca de Neve e Cinderela que tem cenas como as dos anões lavando as mãos, ou Tatá e os ratinhso fugindo de Lúcifer, que nada acrescetam a trama principal, em A Bela Adormecida, isso não acontece. Todas as cenas giram em torno do enredo apresentado. As cenas das fadas conversando é sobre como criar Aurora, Malévola conversando com o corvo é sobre como encontrar a princesa. Todo o desenrolar corre apenas em uma direção e não perde de vista o que realmente está sendo contado.

A Bela Adormecida, é um dos grandes contos de fadas da Disney, possuindo romance, magia, a luta do bem contra o mal e o final feliz, todos elevados à máxima potência, sendo um dos filmes de contos de fadas da Disney que mais consegue capitalizar em cima desse senso de fantasia e maravilhas.

Os protagonistas

Decerto que mesmo com a beleza e magia presente no filme, precisamos destacar que narrativamente falando, A Bela Adormecida é extremamente fraco. Das princesas Aurora é com certeza a mais sem personalidade e vazia. Ela é a que mais se encaixa no estereótipo das princesas; uma menina sem personalidade, passiva e que não tem nenhum controle sobre sua própria vida. Por isso, é fácil fazer o argumento de que Aurora tampouco é a verdadeira protagonista de A Bela Adormecida. A princesa só tem dezoito falas e só aparece em dezoito minutos em um filme com seu nome.

Essas análises sobre a Aurora, principalmente, faz perceber que a evolução das princesas é tão importante, e que por sorte, as crianças de hoje tem personagens com personalidades e importância. Porque por mais que em quesitos de beleza, Aurora sem dúvida seja a mais linda de todas, a personagem está ali somente para nada. Um artifício apenas.

Aurora mal aparece, e quando o faz não tem muitas funções. Muito pelo contrário, a única coisa que ela tem para fazer no filme é andar pela floresta cantando e interagindo com seus amigos animais — a clássica imagem das princesas da Disney — até se conhecer e se apaixonar pelo príncipe. É literalmente tudo isso o que ela faz na história, e tudo isso se desenrola em uma única cena, ou seja, ela só tem uma cena para fazer alguma coisa, e, de resto, ela praticamente só dorme ou então aparece muda.

Mesmo a única brecha que aparece quando as fadas a informam que ela é uma princesa e que está prometida à um príncipe. Aurora fica devastada e começa a chorar, pois ela estava apaixonada pelo homem que conheceu no bosque (sem saber sua verdadeira identidade), mas, na cena seguinte, ao invés de mostrá-la sendo vulnerável ou lhe dando algum tipo de personalidade, Aurora simplesmente aceita seu destino e vai com as fadas até o castelo, entrando muda e saindo calada.

Mas para tratar Aurora e os animadores da Disney de maneira justa, o príncipe Felipe estava desperdiçando personalidade tanto quanto ela. No início, parecia ser uma grande melhoria para outros príncipes da Disney de antes.

Com personalidade e nome, um luxo que Branca de Neve e Príncipe Cinderela não tinham, ele começa bem. Ele mostra ser espirituoso com nas cenas onde interaje com seu cavalo, e depois com seu pai. Mas depois isto meio que morre, e ele perde todo esse lado mais humano que tinha funcionando, assim como Aurora, mais como um artifício de roteiro do que como um personagem, sendo o responsável por derrotar Malévola no final, mas não fazendo muito mais além disso.

Personagens secundários

Dos personagens secundários de A Bela Adormecida, as três fadas, Fauna, Flora e Primavera estão entre os melhores alívios cômicos que a Disney já criou. De todos os ajudantes das três princesas originais, as fadas são as melhores; As fadas roubam a cena completamente, e nós podemos argumentar que elas são as verdadeiras protagonistas da história. São elas que empurram a história para frente sempre. 

Quando Malévola amaldiçoa Aurora, dizendo que quando ela espetar o dedo na roca irá morrer, é Primavera quem substitui a morte pelo sono que só poderá ser despertado com um beijo de amor verdadeiro. Aqui vai um adendo: como seria possível um beijo de amor verdadeiro sendo que ela estaria dormindo e não teria a chance de conhecer ninguém para criar laços de amor? Está certo que a Disney responde a isso colocando o amor a primeira vista. Mas ainda sim, é estranho pensar que a primeira vista é possível sentir “amor verdadeiro”.

Depois, são as fadas que possuem a ideia de levarem Aurora para morar com elas na floresta, e quando Aurora cai no dito sono, são elas as encarregadas de libertar o príncipe Felipe para que ele possa beijá-la, além de enfeitiçarem sua espada para que ele possa dar o golpe fatal no dragão.

As fadas e Malévola são as únicas personagens que tem algum controle pelo o que acontece, que possuem uma voz ativa na história, e nós podemos ler A Bela Adormecida como uma luta das três contra a vilã, e Aurora e Felipe são apenas os peões utilizados no embate entre elas.

É irônico que, em uma década marcada pela passividade feminina, ao fazerem de sua personagem o mais passiva e apática possível, os animadores acabaram, inadvertidamente, colocando o peso na história em outro grupo de mulheres, fazendo delas não só interessantes, mas as únicas personagens da história com algum controle sobre a situação, com a exceção de Malévola, que contribui ainda mais para a situação.

É até um pouco desconcertante perceber que as três fadas são três personagens femininas ativas e poderosas ainda na década de cinquenta, sendo já senhoras, e até hoje, na era do Empoderamento é difícil ver mulheres idosas sendo retratadas dessa forma na mídia.

A vilã

Agora vamos falar sobre outro personagem do filme e o mais icônico. Malévola. A personagem feroz é tão marcante e acompanhada de tanta diversão que, não é atoa ela ser a vilã mais famosa e popular da Disney. Malévola é a vilã definitiva da Disney, e representa tudo o que o vilão da Disney deveria ter e por que gostamos tanto deles. Em suas próprias palavras, ela é a “A Dona do Mal” e Malévola representa o típico vilão da Disney: mal, perverso, que se diverte com suas maldades e ama fazer o mal.

Ao contrário dos protagonistas que, na maioria das vezes são sem graça por estarem presos à representarem sempre a bondade e a doçura, os vilões tem a liberdade para fazerem o que quiserem. Eles podem ser exagerados, eles podem se descontrolar, eles podem ser irônicos, eles podem ser elegantes. Eles podem ser sutis em um minuto e se transformarem em seres exagerados no outro, e isso dá a oportunidade para que eles roubem a cena facilmente, e é exatamente isto que Malévola faz.

Sim, sua motivação para suas ações é bem ridícula; tudo o que ela faz é motivado por não ter sido convidada para o nascimento de Aurora (o que, era uma grande ofensa na Idade Média). Mas essa motivação que pode parecer fraca também ajuda a engrandecer Malévola; ela é um ser tão mesquinho e que adora causar o caos, que vai arranjar qualquer brecha para poder fazê-lo. E é isso que faz dela tão boa, ela é sua típica vilã de contos de fadas e animações infantis, com o fato de ela conseguir se transformar em um dragão sendo a cereja no bolo.

Seu design, é perfeito, e simboliza perfeitamente o que seu personagem é — o que é melhor para simbolizar a senhora de todo o mal do que a dar as feições do diabo? Sua pele verde, seus chifres, seu roupão escandaloso e esvoaçante, tudo isso deixa ela muito melhor e muito mais perversa, além de tudo o que ela tem para trabalhar, seja seu cetro, seu corvo (que foi criado para que ela tivesse alguém com quem pudesse conversar em seus monólogos), as criaturas bizarras que moram com ela em seu castelo, e até o castelo em si, que seguindo o exemplo dos outros cenários de Earle, é lindo, capturando perfeitamente a essência da arquitetura medieval.

Malévola é perfeita em todos os sentidos, sendo a vilã mais icônica e famosa da Disney, justamente por ser, pura e simplesmente, a representação do mal.

As mudanças no estúdio após A Bela Adormecida

A Bela Adormecida é mais um dos filmes que, apesar de hoje ser extremamente querido e adorado, não encontrou o mesmo entusiasmo do público da época em sua estreia. Assim como acontecia no início da carreira de Walt Disney, quando seus filmes mais ousados e experimentais não conseguiam pagar seus orçamentos grandiosos com o que acumulavam na bilheteria, A Bela Adormecida sofreu um destino semelhante.

Seu orçamento, graças à animação rebuscada, ao aparelho de som em estéreo e ao fato de ser gravado em 70mm fez de A Bela Adormecida o mais caro de todos do estúdio até aquele momento e, como toda barganha, o resultado para a empreitada, assim como os filmes da Era de Ouro, seria incerto, e acabou pesando para o lado negativo, com a bilheteria de 5.3 milhões para um orçamento de 6 milhões, o que era, de fato, uma maneira bastante deprimente de fechar uma década tão grandiosa para a Disney e que só havia lhe rendido bons frutos.

Acontece que Walt Disney é diferente do início de sua carreira, quando vivia e respirava animação, não estava mais tão investido assim naquele meio para justificar as perdas que ele trouxe com A Bela Adormecida. Mesmo que o filme de hoje seja considerado um clássico, mesmo que nos traga personagens comumente imaginadas, mesmo que a “Once Upon a Dream” hoje seja considerada um dos maiores hinos de toda a biblioteca musical da Disney, o filme quase representa fim da linha do departamento de animação.

Walt considerou fechar o departamento, e dar um fim àquilo que deu início à sua carreira e à sua companhia. Para ele estava claro que fazer projetos ousados e elevados já não valiam a pena, e ele não estava suficientemente investido no meio animado para justificar insistir nesses projetos, como fez no início de sua carreira, mesmo com os recursos financeiros escassos. Para se ter ideia, o trauma pelo fracasso de A Bela Adormecida foi tão grande que os contos de fadas não foram planejados pelos próximos trinta anos.

Então mesmo que hoje o filme seja considerado a personificação do que é um conto de fadas, e que o trabalho estético seja o mais belo de toda a filmografia da Disney, naqueles tempos não se via essa perspectitva, e após a morte de Walt Disney, os tempos ficaram ainda mais sombrios.



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