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A Era de Prata da Disney | A Dama e o Vagabundo

A Dama e o Vagabundo talvez seja um dos meus filmes favoritos da Disney. Mas confesso que a primeira vez que vi a animação foi pouco antes de sair o live-action pelo Disney+. E me apaixonei ainda mais depois que fui buscar mais da história por trás do filme e da produção dele.

Mas sem delongas: A Dama e o Vagabundo é o 15º filme de animação produzido pela Walt Disney Animation, e o quarto filme da Era de Prata da Disney. Dirigido por Hamilton Luskes, Clyde Geronimi e Wilfred Jackson. Estreiou nos cinemas em 22 de junho de 1955.

Produção

Diferente dos filmes anteriores da Disney, A Dama e o Vagabundo é um filme 100% original, sem se basear em nenhuma obra pré-existente. E talvez por isso esse seja uma das histórias mais livres da filmografia do estúdio.

A ideia veio de um dos animadores, Joe Grant e sua Cocker Spaniel que se chamava Lady e sobre como ela foi deixada de lado depois do nascimento do primeiro filho dele. Grant saiu do estúdio antes que o filme fosse finalizado e por conta disso levou anos até que os créditos fosse devidamente dados. Grant acabou voltando para Disney alguns anos depois, e trabalhou até sua morte aos 97 anos. Up – Altas Aventuras de 2005 é dedicado a ele.

Ele desenhou Lady e contou sua história para Walt que adorou a ideia. Nesta mesma época, na década de 1930 pouco depois do lançamento de Branca de Neve, Disney procurava por novas ideias, e a história de Lady, que era encantadora, começou a ser desenvolvida. No entanto, Walt que era conhecido por ser bem exigente com seus filmes, não satisfeito com o rumo que a história tomava, acabou por engavetá-la.

Disney ganhou inspiração para continuar este projeto depois de ler o conto Happy Dan, The Whistling Dog na revista Cosmopolitan, sobre um cachorro vira-lata, e foi então que a ideia de colocar Vagabundo no filme. Ao juntar as duas histórias temos então o resultado que conhecemos hoje: A Dama e o Vagabundo.

O filme foi se desenvolvendo pelo final da década de 1930 se estendeu até 1940, mas com a Segunda Guerra, foi engavetado assim como todos os projetos desta época.

Inédito

A Dama e o Vagabundo foi o primeiro filme da Disney a ser desenvolvido em widescreen (produções filmadas de forma panorâmicas, tecnologia criada em 1953 conhecida como CinemaScope) marcando o início das produções cinematográficas modernas. Ah, e isso tanto nas filmagens quanto nas exibições.

O CinemaScope foi desenvolvido para competir com a televisão que na década de 1950 está ganhando popularidade. Havia um certo temor de que o cinema se tonaria obsoleto. A Disney não querendo perder a oportunidade de ter outro marco importante para sua história, decidiu que queria A Dama e o Vagabundo fosse o primeiro filme animado filmado e exibido em CinemaScope.

Isso fez com que os animadores precisassem fazer duas versões do filme, já que nem todos os cinemas da época já tinha as novas tecnologias de exibição.

O Roteiro de A Dama e o Vagabundo

A Dama e o Vagabundo não é exatamente o tipo de filme que lembraria a Disney. Se pararmos para pensar, esse talvez seja um dos filmes mais “reais” até então desenvolvidos, salvo talvez por Babi. O longa apresenta uma história livre de toda aquela viagem fantasiosa e fantástica para nos apresentar algo mais real, e próximo de nós: a história de dois cachorros.

Isso de alguma forma acaba se tornando, pelo menos no meu ponto de vista, um filme mais Disney, do que os demais. Ele é fofo, alegre, desprentencioso, simples em sua narrativa, doce e esperaçoso.

O fato dos animadores não estarem adaptando também é algo que encoraja ainda mais o enredo. Aqui há mais liberdade criativa, e também há a liberdade de tornar essa história mais intima, especial que ressoa com as pessoas ao redor de todo o mundo.

A Dama e o Vagabundo é essencialmente a história de dois cachorros de origens diferentes, e a forma como eles percebem o mundo ao seu redor. Não há nada mais que isso. Aqui não há super vilões, nem uma grande reviravolta, não há saltos de mágia e grandes atos de fantasia. E por tudo isso, é um dos filmes mais belos deles.

Sabe, nem toda história precisa ser uma enorme aventura fantásticas. As vezes você fica feliz com uma história simples. A Dama e o Vagabundo apresenta isso. Por não ser baseado em nenhuma obra ou livro, os animadores podem tornar esse filme muito mais intimista, e essa possibilidade transforma o filme em algo mágico. Não tem erro.

Ambientação

Diferente dos outros filmes da Disney, A Dama e o Vagabundo tem uma ambientação completamente diferente dos demais filmes até então lançado. Ele não se passa em terras mágicas ou reinos distantes, mas sim em uma pequena cidade americana. Seu ar mais contemporâneo, com casas suburbâneas, arvores arburizadas e ruas de concretos dá ao filme um certo charme.

Sua estética mais original traz uma originalidade que muito falta em outros filmes da Disney. Mas apesar de verdade, não sei bem se posso considerar uma comparação com os demais, já que até então os filmes produzidos eram sempre baseado em obras de outrem.

No entanto, mesmo em sua originalidade, o longa passava um ar nostálgico, mesmo em sua época, já que ele é ambientado no incio do século XX. Assim o longa possuí elementos que mostram esse período, como as roupas, os carros e telefones antigos, que remetem a essa fase. A cidade onde se passa o filme, foi inspirada na cidade natal de Walt Disney, Marceline, em Missouri.

Já mencionei anteriormente em meus textos, que Walt queria produzir um filme que falasse da cultura americana, já que até então seus filmes foram inspirados em obras de outras culturas. A Dama e o Vagabundo foi um desses filmes que trouxeram a essência norte-americana.

Os detalhes em A Dama e o Vagabundo

O longa também capta muito bem a visão pelos olhos dos animais. Os planos mais baixos, e os destaques que trazem para os cachorros comprovam isso. Cada um dos bichanos visto no filme tem suas particularidades, jeito de andar e suas personalidades.

Os animadores conseguem captar bem as diferenças entre as raças. Assim os detalhes no balançar dos rabos e os pelos quando se movem e usar essas caracteristicas individuais para compor as personalidades de cada um deles.

Lady por exemplo é régia e delicada. Você percebe isso em seus movimento. Já Vagabundo é mais solto. Tem um gingado mais leve e isso se reflete no seu estilo de vida. Mas esses detalhes não está só nos protagonistas. Os demais personagens estão incluso nesses detalhes.

Os vizinhos de Lady, por exemplo, são um terrier escocês, Jock, cujo andar agitado reflete sua personalidade mais nervosa e metódica e Trusty, um Cão de Santo Humberto, cujo visual enrugado e andar relaxado fazem dele mais calmo e amável, além de idoso. Tem também Peg, uma cadela pequinês que é uma ex-namorada de Vagabundo, e seus pelos pomposos deixam ela mais voluptuosa e sexualizada, dando a ela uma essência mais como a de Vagabundo, malemolente e despreocupada com a vida.

Racismo

A Dama e o Vagabundo também tem ações explicitas (?) de racismo. Na verdade nunca enxerguei a cena desta maneira, então fiquei bem surpresa quando em minhas pesquisas pra escrever o artigo, isso surgiu.

O que dizem é que a cena dos gatos siameses é racista com os asiáticos. Aparentemente, os gatos siameses são originários da Tailândia (o nome dos gatos, Si e Am, faz referência ao antigo nome da Tailândia, Sião), e foram usados em desenhos animados durante o século XX como uma forma de projetar concepções racistas sobre os asiáticos.

Assim a cena – que é um musical – segue um ritmo com características asiáticas. Os gongos acompanham algumas notas, e os animais, aparentemente, possuem trejeitos asiáticos em si, como os olhos “puxados” (?) e os dentes da frente acentuados (o que eu nem sequer sabia que eram estereótipos asiático. Mas ao que tudo indica, nos Estados Unidos, são um trejeito comumente associados a eles). No original esses detalhes são mais nítidos, já que a dublagem é um soteque muito carregado.

Mas como eu disse, nunca tinha exergado essa cena desta maneira. Porém não podemos descartar que está ali.

O romance em A Dama e o Vagabundo

O filme mais romantico da Disney é ironicamente, um filme com animais e não humanos. Decerto, que consigo pensar em outros filmes que são romanticamente bem desenvolvidos também. Porém, A Dama e o Vagabundo é o primeiro que desenvolve bem esse romance, e não apressa ou deixa surpéfulo.

Nesse sentido também é muito mais próximo da nossa realidade. E isso o difere exponencialmente de todos os outros filmes feito até o momento, onde os relacionamentos eram rasos e apressados.

Muitas pessoas concordam que A Dama e o Vagabundo é uma excelente história de amor. E não é à toa que a cena mais icônica do cinema, tendo sido recriada, homenageada e parodiada muitas vezes vem deste filme. O beijo acidental entre os dois enquanto eles dividem um prato de espaguete é uma das cenas românticas mais famosas da história do cinema.

Inclusive, Walt sentia-se inseguro quanto a essa cena, e quase a cortou do filme. Segundo ele, parecia bobo e esquisito. No entanto, Frank Thomas, um dos Nove Anciões, tinha muitas expectativas quanto a essa cena. Tanto que foi o próprio que animou para mostrar a Walt.

No entanto, faz sentido que os animadores tenham conseguido desenvolver esse relacionamento de forma muito mais madura com os animais ao invés de humanos. Na década de 1950, os estigmas femininos eram muito mais fortes. E eles eram muito refletido nas telas. Personagens femininas tinham certos padrões nas telas. A elas eram relegadas a boas e perfeitas esposas (que nunca questionavam seu papel no mundo) e a par romântico dos personagens masculinos.

Em A Dama e o Vagabundo, por se tratar de animais, eles conseguem desenvolver com muito mais liberdade o relacionamento dos dois, de forma saudável e mais natural.

Um final feliz diferente

Como resultado, a relação entre Lady e Vagabundo não é um amor idealizado por conto de fadas, não é a mágica e uma fantasiosa história de amor com que sonhamos, mas com a qual podemos aprender. O amor deles é algo pelo qual tiveram que se esforçar, e eles aprenderam um com o outro e cresceram pessoalmente através dos aprendizados que um trouxe ao outro. Esta é uma relação saudável e muito real, o que afinal a torna mágica e magnífica.

E, por fim, como o romance de seus protagonistas, A Dama e o Vagabundo, apesar de se manter em uma ambientação mais realista e possuir uma história menos fantástica, continua sendo um dos grandes clássicos da Disney, e ganhou um novo destaque com o filme em live-action feito para o Disney+.

A Dama e o Vagabundo prova que um filme da Disney não precisa se passar em um reino distante, ou em terras fantásticas para se provar um verdadeiro conto de fadas.



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