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A Era de Prata da Disney | Alice No País das Maravilhas

Finalmente um filme baseado em um livro que realmente conheço. Li Alice No País das Maravilhas tantas vezes, e todas as releituras possíveis deste universo maravilhoso – inclusive fanfics – que sou até suspeita para falar. Mas vamos lá!

Alice no País das Maravilhas é o 13º longa-metragem produzido pela Disney. Lançado em 1951 e o segundo filme da Era de Prata, lançado apenas um ano depois do sucesso estrondoso de Cinderela.

Lews Carroll e a inspiração para o livro

O livro “As Aventuras de Alice No País das Maravilhas” foi escrito por Lews Carroll, pseudônimo usado pelo inglês Charles Lutwidge Dodgson, publicado em 1865. Dogson era professor de matemática pela universidade de Oxford com um dom para o aspecto lógico das coisas.

Ironico que suas obras mais conhecida, Alice No País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, sejam produtos que vão completamente na contra-mãos de seus aspectos firmados. Enquanto ele era conhecido por sua racionalidade, suas obras são desprendida de qualquer lógica, em um mundo onde tudo – literalmente, pode acontecer.

De acordo com biografias que descrevem sua vida, Lews foi uma pessoa infeliz. Desmerecia suas conquistas e tinha a auto-estima bem baixa. Inseguro com sua própria aparença Carroll era surdo de um ouvido, foi vítima de tosse convulsa na adolescência, de cuja qual seu peito nunca se recuperou, e possuía um andar peculiar devido à um problema no joelho. Mas o que era o pior, segundo ele, era sua gagueira, que o acampanhou a vida toda.

As Irmãs Liddel

De certo que toda essa insegurança, resultou em sua reclusão, sem muitos amigos de sua idade e entre os alunos da faculdade. Mas havia algo notório em sua vida, ele se dava muito bem com crianças.

Entre elas, três se destacavam: as irmãs Lindell, filhas do reitor da Christ Church, a faculdade constituinte da Universidade de Oxford onde Dodgson trabalhava. Lorina e Edith, a mais velha e a mais nova, eram queridas por Carroll. No entanto Alice, a irmã do meio, foi a que mais encantou o escritor e professor. Como o nome dela dá a entender, Alice Liddel foi a musa inspiradora por trás de sua obra.

Da esquerda para direita: Edith, Lorina e Alice LIndell

A ideia de Alice no País das Maravilhas veio de Carroll viajando de barco com as três irmãs. Lewis começou a contar a eles a história de uma garota chamada Alice, que estava em busca de aventura. As meninas adoram, e Alice pede a Carroll para escrevê-lo em um livro. Lewis fez isso, e Alice’s Adventures in Wonderland nasceu, primeiro como um presente para a menina Liddel, e depois como um livro publicado oficialmente.

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Adaptação de Alice No País das Maravilhas pela Disney

Antes do filme de 1951, a Disney já tinha desenvolvido em um projeto de Alice No País das Maravilhas. Anteriormente em 1924, Walt Disney já havia lançado a série Alice Comedies, que misturava live-action com animação.

O projeto inicial foi desenvolvido quando Walt tinha 21 anos, em seu primeiro estúdio, o Laugh-O-Gram Studios. Criou um curta-metragem intitulado Alice in Wondeland que nunca foi ao ar, mas que deu a chance que ele precisava para abarcar em Hollywood. Depois que Laugh-O-Gram Studios faliu, Disney e seu irmão se mudaram para California. Lá abriram o estúdio que se tornaria a Disney que conhecemos hoje. Walt então mostrou esse piloto para os investidores em potecial para que Alice se tornasse uma série. E foi isso que aconteceu em 1923.

Engavetamento: A Segunda Guerra Mundial

Eis uma curiosidade: Alice No País das Maravilhas seria o primeiro longa-metragem lançado pela Walt Disney. Sim, a ideia inicial não era Branca de Neve e os Sete Anões, e sim as aventuras de Alice.

Primordialmente, seria feito um longa que misturaria live-action com animações. Uma extenção da série Alice Comedies. Disney até mesmo comprou os direitos de animação de John Tenniel, artista responsavel pelos desenhos do livro.

No entanto, essa ideia foi devidamente abandonada com o tempo, em grande parte graças ao fracasso do filme “Alice no País das Maravilhas” de 1933, que assustou Disney e seus animadores e os impediu de adaptaram o trabalho de Carroll para o cinema.

Mas então veio o sucesso estrondoso de Branca de Neve e Disney se sentia confortável para animar Alice No País das Maravilhas para o cinema. Assim revivieu o projeto mais uma vez em 1939. Assim, Al Perkins foi contratado pela Disney para trabalhar no roteiro, e David Hall para desenvolver a arte que serviria de base para a animação do filme.

Rascunho artistico de David Hall para Alice No País das Maravilhas

No entanto, Walt insatisfeito com o trabalho deles, pensou que para os filmes da Disney, a arte e o texto eram muito sombrios e patológicos, e insistia em uma atmosfera mais sombria e menos fantasiosa.

Assim, com os problemas de desenvolvimento, e a Segunda Guerra Mundial, esta que paralisou muitos projetos, já as portas, Alice No País das Maravilhas foi mais uma vez engavetado.

Revivendo o projeto de Alice No País das Maravilhas pós-guerra

Com o fim da guerra, a Disney mais uma vez retirou o projeto da gaveta, e Walt estava realmente disposto a fazer com que o projeto de Alice No País das Maravilhas funcionasse.

Pensando nisso Disney contratou Aldous Huxley, autor do romance Admirável Mundo Novo, para trabalhar no roteiro, contudo, Walt achou o roteiro de Huxley muito literal e o autor acabou saindo do projeto.

Eis então que uma artista que já trabalhava na Disney apresentou sua versão de Alice para Disney, que ficou encantado. Mary Blair que já fazia parte da equipe de animadores desde 1940, foi a pessoa que se envolveu no projeto de Alice que se provou essencial para a realização deste filme.

Blair fez alguns desenhos para mostrar sua visão do País das Maravilhas, e sua visão deixou Walt Disney feliz. Em contrapartida com outras versões, Mary Blair foca na fantasia e nas ideias fantásticas do mundo de Alice, deixando de lado a parte mais sombria do trabalho de Carroll, trazendo à vida as coisas que tornam seu mundo interessante e divertido.

Arte conceitual de Alice No País das Maravilhas feito por Mary Blair

Dessa forma seus rascunhos cheios de cores vivas e formas geométricas exageradas, capturam exatamente o que Walt Disney desejava que seus filmes fossem: divertidos, engraçados, lúdicos e atraentes para as crianças. Somente com a participação de Blair, Alice no País das Maravilhas conseguiu desfazer as malas e finalmente avançou em seu trabalho.

Mary Blair e Walt Disney Studios

Blair, até os dias de hoje, é uma das maiores inspirações de conceitos animados. A mulher que se destacou na década de 1950 com sua arte inusitada, geométrica e muito coloridas, teve participações nos filmes de Cinderela, Alice e Peter Pan. Anteriormente particiou também de filmes como “Você Ja Foi a Bahia?“.

Na Era da Guerra ficou conhecida como uma das favoritas de Disney, pois mesmo na crise gerada pela Segunda Guerra Mundial, conseguia produzir uma arte sofisticada com uma quantidade reduzida de recursos. Além disso, Walt se identificava com o estilo simples e infantil de Mary Blair.

Blair foi inegavelmente importante para a realização de Alice no País das Maravilhas. O maior obstáculo para o filme sair do papel e se formar é a direção que o filme tomaria. O trabalho de Carroll é tão grande e cheio de possibilidades que o filme pode tomar um milhão de direções.

Decerto que ele pode ser assustador, estranho, ridículo, divertido, aventureiro. Não há limite para onde Alice pode ir, o que torna este filme difícil de desenvolver. Ninguém sabe bem para onde a história está indo, que direção está tomando e que direção esses animadores queriam que o filme tomasse.

Foi graças a arte de Blair, que capturou justamente o espírito lúdico e fantasioso do País das Maravilhas que os animadores conseguiram um norte e uma inspiração para o que fazer desse filme. E, assim, após vinte anos em produção, Alice no País das Maravilhas finalmente estreava nos cinemas em 26 de julho de 1951.

Produção de Alice No País das Maravilhas

Para falar sobre Alice no País das Maravilhas, devemos enfatizar a animação. Os cenários são tão únicoss e criativos que são quase como um personagem autônomo na própria história.

Os animadores da Disney foram capazes de permanecer fiéis o suficiente às ilustrações de John Tenniel, mas ainda conseguiram dar-lhes charme e personalidade suficientes para distingui-los e dar a essência Disney .

Por mais que as ilustrações do livro As Aventuras de Alice no País das Maravilhas sejam realmente maravilhosas, dar vida a elas seriam inegavelmente complicado. Eles têm um certo grau de seriedade e qualidades impessoais, o que torna difícil para eles se moverem, e é difícil atrair o suficiente para suportar uma hora de filme.

Portanto, com base na animação vívida e interessante desenhada por Mary Blair e extraindo toda a vida e criatividade necessária para contar a história, o efeito de animação nessa adaptação é inegavelmente melhor.

A animação

Aqui podemos ver a Disney experimental de volta. Em Alice, podemos ver que todos os envolvidos no projeto são muito ousados. O trabalho de Lewis Carroll é tão absurdo, tão único, tão pouco convencional que a única maneira de obter justiça era pular de cabeça no mundo do absurdo e da fantasia e depois continuar no instintivo. E foi exatamente isso que os animadores fizeram neste projeto.

Como Alice No País das Maravilhas segue um modelo de enredo dividido em partes, onde não há narrativa de começo, meio e fim, mas composta por várias situações e momentos isolados, foi então que cada animador chefe, os citados Nove Anciões, ficou responsável por desenvolver uma parte da história como queriam. Isso lhes deu autonomia para tentarem correr riscos, o que torna o filme tão único no final das contas.

A animação, diferente do live-action, não tem limites. Pode ser tudo o que o criador deseja. Pode ir além de todos os limites. Isso torna a animação uma maneira perfeita de se adaptar ao mundo de Lewis Carroll, porque ele não tem limites, você pode ir aonde quiser. Qualquer lugar que o animador desejar.

O mundo do País das Maravilhas nunca foi restringido e sempre lança coisas novas. Eles nos surpreenderam de novo quando pensamos que já havíamos visto de tudo, e estavam sempre dando novos detalhes para se observar.

A beleza dessa história é ver um mundo em que o impossível se torna realidade. A fim de tornar isso uma grande experiência os animadores transbordam criatividade em cada cena e mostrando que eles não se deram limites ao capturar a atmosfera de um mundo ditado pelo nonsense.

Os personagens icônicos de Alice No País das Maravilhas

O que marca a obra de Carroll é exatamente seus personagens. Os mesmos são tão marcantes e malucos e fora do esperado que se tornaram a parte mais importante do enredo. E não só a Disney conseguiu recriá-los de maneira bem-feita, como conseguiu dar uma cara nova a eles, os repaginar e, hoje, quando pensamos em muitas dessas criaturas, são suas versões de 1951 que vem a cabeça.

Os personagens são tão marcantes porque não têm amarras, restrições, podem fazer qualquer coisa e são tão loucos e estranhos quanto Lewis Carroll esperava. Desde o Coelho, tenso e nervoso, gritando que está atrasado, passando pelo Gato e pela Rainha de Copas, até chegar no Chapeleiro Maluco, que dispensa comentários, todos esses personagens são divertidíssimos de se acompanhar, e são eles que dão vigor à obra.

Por Alice ter diversos momentos icônicos e marcantes, muitos foram desenvolvidos e depois cortados do projeto final. Toda a sequência na casa da Duquesa, com o bebê que vira porco e a cozinheira foi cogitada, mas depois descartada. O Jaguardarte, de Através do Espelho também faria uma aparição, e o Cavaleiro Branco, também de Através do Espelho, iria aparecer.

O Cavaleiro seria uma caricatura do próprio Walt Disney, que seria o responsável por ajudar Alice no final da história, mas foi cortado do filme quando os animadores decidiram que seria melhor Alice aprendendo sua lição por conta própria.

O Livro e o Filme: Qual é o melhor?

Sinceramente acho dificil fazer essa comparação entre o filme e o livro. O livro de Carroll é uma obra complexa, que traz à tona uma série de temas, que ainda são motivos de debate até hoje. No entanto, o principal tema que todos parecem acordar em suas análises, é que Alice representa a jornada da infância para a vida adulta.

Tal conclusão não é tão difícil de se chegar, ainda mais quando chegamos no final do livro, e lemos sobre como a irmã de Alice deseja que sua irmã nunca cresça, mas a imagina com seus filhos, depois de adulta, contando para eles sobre o País das Maravilhas, e se lembrando de todas as simples alegrias da infância.

Já no filme, todo esse significado é ignorado, e vemos a jornada de Alice ao pé da letra, sem que ela esteja simbolizando algo mais filosófico. É preciso muita sabedoria para saber reconhecer que literatura e filmes são mídias diferentes. Em muitos casos, coisas que funcionam na página do livro não podem ser bem traduzidas na tela grande.

Certamente que há diferenças entre o filme e o livro, mas acho que, o verdadeiro motivo da boa adaptação do filme de 1951 é ser fiel ao espírito da obra original. O que neste filme se destaca é que ele foi capaz de extrair o melhor dos dois livros, tanto No País das Maravilhas, quanto Através do Espelho, e conecta-los entre si para realizar uma transição lúdica e divertida da literatura para o cinema.

Recepção pública e da crítica especializada

Infelizmente em seu lançamento o filme não atraiu o público desejado, e a crítica especializada também não morreu de amores pela obra apresentada pela Disney.

Criticos literários não gostaram do filme porque, segundo eles, ele “americanizava” uma clássica obra literária inglesa O que realmente decepcionou Walt Disney, no entanto, foi a apatia do público para com seu filme, e Alice teve um desempenho fraco nas bilheterias.

Assim, o estúdio acabou por se distanciar deste filme, e entre muitos, Alice No País das Maravilhas, foi o único a não ser relançado durante a vida de Walt Disney. Entretanto isso veio a mudar no fim da década de 1960.

Relançamento nos cinemas

A cultura hippie e o alto consumo de drogas da década de 1960 e 1970 acabou por influenciar no relançamento de Alice. A sociedade americana começou a ficar mais aberta ao surrealismo e à psicodelia. Então, filmes e outras obras culturais, como o livro de Lewis Carroll começaram a aumentar em popularidade.

Assim, com o crescimento de popularidade do livro de Carroll, o filme também começou a crescer em popularidade, e exibições do filme começaram a passar em faculdades durante os anos 60 e 70.

A companhia ficou dividida entre relançar seu filme nos cinemas ou não, porque ela é uma empresa familiar e “de respeito” e não queria ficar associada aos hippies e às drogas, mas acabou cedendo e em 1974 relançou seu filme nos cinemas com um pôster particularmente psicodélico que vocês veem abaixo. 

E esse foi um novo começo para Alice no País das Maravilhas. Com sua nova distribuição, vieram novas críticas, e o filme recebeu, finalmente, a aclamação que tanto merecia. Sendo assim, Alice No País das Maravilhas, é justamente considerada uma das melhores adaptações das obras de Carroll para as telas de cinema.

No site do Rotten Tomateos a pontuação de Alice é de 81% da crítica especializada e 78% da aclamação pública.

Outras adaptações de Alice No País das Maravilhas

Posteriomente, muitas décadas depois, salvo deste sucesso, a Disney começou uma onda de adaptações em live-action de suas obras clássicas. A primeira delas foi exatamente o filme de Alice No País das Maravilhas, desta vez dirigido por Tim Burton, estrelado nos cinemas em 2010.

O longa foi estrelado por Jhonny Deep como Chapeleiro Maluco, Mia Wasikowska como Alice, Helena Bonham Carter como Rainha de Copas e Anne Hathaway como Rainha Branca.

Consequentemente com o sucesso do filme de 2010, foi confirmado uma segunda adaptação intitulado Alice Através do Espelho lançado em 2016, mas que não teve o mesmo sucesso de seu antecessor.

Conclusão

No fim, Alice No País das Maravilhas acabou se tornando um filme muito especial, peculiar e atraente. É um dos trabalhos mais originais que o estúdio já nos forneceu, elimina a fórmula que afeta a maioria de seus filmes, e até hoje soa como algo muito único da casa do Mickey. Entre os filmes da Disney que fascinam o mundo e marcam gerações, Alice no País das Maravilhas é um dos filmes mais estranhos, por isso é tão especial.



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