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A Era da Guerra | Alô, Amigos

No capítulo anterior, introduzi e contextualizei a situação da Disney em meio a Segunda Guerra Mundial, e como o estudio foi transformado em um meio de comunicação político, onde passaria não mais a fazer filmes lindos e cheio de magia, mas sim, curtas que eram ultilizados para instruir os militares e também a população americana a como agir em meio ao que estava acontecendo. Além destes curtas instrutivos, o Estados Unidos estava iniciando a Política da Boa Vizinhança, onde a ideia era estreitar laços com a America Latina, tanto para conseguir recursos de materia-prima, que estava em falta no Norte devido a Grande Depressão, como também para impedir que influências da Alemanha Nazista chegassem até nós. Pensando em tudo isso, a Disney teve um grande papel nessa Política de Boa Vizinhança, já que maior estratégia do Governo Americano era ultilizar da cultura e dos meios de comunicação que estavam crescendo muito, para manter os EUA no controle e seus países vizinhos ao sul a sua merce.

Na década de 1940, a Segunda Guerra Mundial bateu às portas dos Estados Unidos, e o governo Franklin Delano Roosevelt estava em pleno andamento, tentando reconstruir o país após a Grande Depressão. A chamada política de boa vizinhança era uma parte do plano de reconstrução. Essa política incluiu o fortalecimento das relações entre os Estados Unidos e a América Latina, por isso os americanos mudaram suas relações com os países abaixo deles. As práticas intervencionistas do final do século 19 e início do século 20 foram abandonadas e a diplomacia começou a se efetivar. Os Estados Unidos cooperando com seus vizinhos do sul tinham como objetivos estratégia política e objetivos econômicos. A primeira é ter um impacto maior no solo da América Latina, impedindo a influência da Europa, especialmente a influência da Alemanha nazista, que mostrou interesse em se juntar aos países latino-americanos e difundir localmente seus próprios interesses, então os Estados Unidos se colocaram à frente desta influência da Alemanha ao expandir sua política, colocando os latinos sob seu controle e exercendo controle sobre eles.

E os interesses econômicos por trás dessa abordagem era reconstruir os Estados Unidos após a Grande Depressão e fortalecer os laços econômicos entre as duas Américas. Além de atingir os objetivos por meio dessas estratégias, já que os Estados Unidos também dependiam de nossa matéria-prima. E além dessas aquisições eles também pretendiam formar um mercado externo para seus produtos na América Latina. E não é que deu realmente certo? Até hoje essa influência é super exercida em nosso mercado.

A forma mais eficáz que se pensou para conseguir exercer essa influência sobre nós aqui no Sul, foi através dos meios Culturais. Com o avanço de meios comunicacionais crescendo em todo mundo e TV e o Rádio chegando cada vez mais às casas da população, o governo dos Estados Unidos logo percebeu que poderia usar esses métodos para exercer sua autoridade e benefícios políticos de uma forma mais inofensiva, sem o uso de poder militar. Se dissermos a verdade, essa estratégia continua até hoje, não é mesmo? Por isso, os Estados Unidos utilizaram seus filmes e produtos para transmitir um sentimento de maior apreço e respeito pela nossa cultura, e logo surgiram figuras como Carmen Miranda (Carmen é considerada a musa da política da vizinhança), se espalharam pelos solos da América do Norte e da América Latina, dando a impressão de um maior estreitamento cultural entre os dois lugares.

Especificamente, no que diz respeito ao Brasil, foi nesse momento que nossas terras começaram a ser vendidas como terra da Boêmia, festas, praias e carnavais, e a mídia norte-americana quis transmitir nosso país com atitude positiva, e com isso começamos nos sentir representados e reconhecidos por este poder. Além disso, os Estados Unidos também utilizam seus meios de comunicação para divulgar o chamado American way of life aqui, fazendo dos Estados Unidos um lugar de sonho e prosperidade em nossa imaginação.

Sim, esse é um artigo onde trago curiosidades e descorro sobre os filmes da Disney, mas é importante contextualizar, porque o periodo histórico, e o que estava acontecendo naquele momento, é algo que está ligado intimamente com o Estúdio e faz parte de sua história, porque foi por causa de seus curtas e coletâneas que grande parte da Política da Boa Vizinhaça teve sucesso. Foi nesse período de influência política que surgiu personagens como o Zé Carioca, por exemplo, que faz parte das estratégias de estreitamento cultural entre EUA e a América do Sul.

Portanto, a partir de 1942, junto com “Alô, Amigos“, teve início o segundo período da história da Disney, o Período da Guerra. Filmes caros e ambiciosos foram deixados de lado e filmes simples e de conotação políticas entraram em seu lugar: projetos menores e baratos, nos quais alguns curtas eram juntados em um filme e depois lançados como um longa-metragem. Esses filmes são uma estratégia para os estúdios Disney sobreviverem à guerra. Eles perderam a maioria dos animadores que foram trabalhar no conflito e a maioria de seus esforços foram adotados pelo governo dos EUA. O governo dos EUA contratou a Disney e sua equipe de onde criaram breves propagandas e materiais educacionais após conhecerem a possível influência política da mídia, o que permitiu ao povo americano entender como agir durante a guerra.

O primeiro trabalho neste período sombrio da história da Disney é “Alô, Amigos”, que transmite a descaradamente a “política da boa vizinhança”. A “história”, do filme, se é que podemos chamá-la assim, conta da viagem que Disney e seus animadores fizeram em uma turnê pela América Latina em 1941. Nós os vimos explorando diferentes países: Peru, Chile, Argentina e Brasil, em seguida, mostraram quatro curtas de animação diferentes, um para cada país. De acordo com o filme, a inspiração vem da cultura e da paisagem desses países. A viagem de Disney e uma equipe de 20 artistas aos Estados Unidos foi paga pelo governo dos EUA (especialmente pelo Departamento de Estado dos EUA). O Departamento de Estado dos EUA viu a popularidade de personagens da Disney como Mickey e Donald aqui, e uma excelente oportunidade para implementar a “Política de Boa Vizinhança” e de estreitar seus laços com os latino-americanos e os afastar dos interesses do Eixo (aliança militar entre alguns países Europeus-Africamos-Asiáticos, que tinham como ideial as políticas do Nazismo), que crescia influente na América-Latina neste período.

Levaram tão a sério sua motivação para estreitar os laços com os países latino-americanos que o “Alô, Amigos”, que estreou no Rio de Janeiro em 1942, só se espalhou em solo americano um ano depois e obteve grande sucesso, dando a Disney lucro e apelo popular, e além de ser responsável por consolidar outro conceito da sociedade americana na América Central e do Sul, também deixa de lado os espectro de floresta e natureza, e também mostra o outro lado da moeda: Em Buenos Aires mostra-se a beleza da cidade, e também os prédios requintados do Rio de Janeiro e de seus moradores, todos vestidos de maneira luxuosa e elegante, deixando para trás idéias exóticas, bárbaras e primitivas que até então pensavam da América Latina.

O filme possui quatro segmentos, cada um deles começa com imagens dos artistas da Disney visitando o país, fazendo desenhos da cultura local e dos cenários.

  • Lago Titicaca: Nesse segmento, o turista americano Pato Donald visita o Lago Titicaca conhecendo os nativos e tendo problemas com uma lhama.
  • Pedro: A sinopse de Pedro diz respeito ao pequeno avião partindo do Chile, em sua primeira viagem para pegar correspondência aérea em Mendoza, com resultados quase desastrosos. Este segmento foi lançado depois como um curta-metragem independente em 13 de maio de 1955 pela RKO Pictures.
  • El Gaucho Goofy: Nesse segmento, Pateta é um caubói norte-americano que vai misteriosamente para os pampas argentinos onde aprende sobre os nativos.
  • Watercolor of Brazil: O final do filme, traz um novo personagem, Zé Carioca, passeando pela América do Sul o Donald e o ensinando o samba (com as canções “Aquarela do Brasil” e “Tico-tico no Fubá”).

A trilha sonora original deste filme foi composta por Edward Plumb, Paul Smith e Charles Walcott. A música tema “Saludos Amigos” foi composta por Charles Walcott e Ned Washington. O longa traz ainda a música “Aquarela do Brasil” do famoso compositor brasileiro Ary Barroso e cantada por Aloysio de Oliveira e a versão instrumental “Tico-Tico no Fubá” de Zequinha de Abreu. “Aquarela do Brasil” foi criada e apresentada pela primeira vez em 1939, mas não obteve muito sucesso. Porém, após aparecer neste filme, tornou-se um sucesso internacional, tornando-se a primeira canção brasileira tocada em rádios norte-americanas, mais de um milhão de vezes. O longa-metragem foi indicado a três Óscar em 1943, nas categorias de melhor trilha sonora, melhor canção original por “Saludos Amigos” e melhor mixagem de som.

No fim, Alô, Amigo é um filme irregular e distorcido. Algumas partes são melhores do que outras, e o filme é, na melhor das hipóteses, inofensivo. Não é um filme ruim, mas também não é um bom filme. É apenas uma obra que está ali, mas que do ponto de vista de hoje, não causará nenhum impacto e não fornecerá muito. Ao contrário de todas as obras anteriores, que eram cheio de qualidade. Compreensivelmente, a Disney não conseguiu manter o nível de qualidade durante os anos de guerra, mas o fato é se não estivessemos retratando as obras da Disney, podia muito bem fazer como eles próprios e fingir que esses tempos nem existiram.

O filme está disponível no Disney+.



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