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A Era de Ouro da Disney | Fantasia

Em nosso novo capítulo das “Eras da Disney”, ainda na Era de Ouro, hoje vamos falar sobre o terceiro filme lançado pela Disney Animation, e o mais ousado filme de sua história: Fantasia.

A Era de Ouro da Disney | Branca de Neve e os Sete Anões
A Era de Ouro da Disney | Pinóquio

Depois de estabelecer o que seria sua marca registrada em Branca de Neve e os Sete Anões, Disney e sua equipe resolveram ousar em Pinóquio, e foram além nesta obra, de 1940. Sendo o filme animado mais longo do estúdio, passando da marca de duas horas, ele inova tanto no visual quanto na narrativa, sendo o filme mais fora dos padrões que o estúdio entregou em toda a sua filmografia animada.

Fantasia foi produzido com um orçamento de 2.280.000 dólares, aos quais 400.000 dólares – quase um quinto do orçamento – foram para as técnicas de gravação musical.

Ao contrário de outros trabalhos da Disney até aquele momento, em Fantasia a música é a principal força motriz da história. A ideia do filme é precisamente o poder da música para despertar nossos corações e estimular nossa imaginação a florecer com cada nota. Ao contrário de outros filmes que Walt e sua equipe estavam realizando, onde a música deveria combinar com a história e narrativa, neste os animadores do projeto tiveram de ajustar sua arte e desenho de acordo com a música.

Acervo: D23 – Disney, Stokowski e Taylor discutindo Fantasia.

Fantasia é, sem sombra de dúvidas, o filme mais ousado da carreira de Walt Disney, e da Disney como um todo. Depois de estabelecer o que seria sua marca registrada em Branca de Neve e os Sete Anões, Disney e sua equipe resolveram ousar em Pinóquio, e foram além nesta obra, de 1940. Fantasia não é somente o filme animado mais longo do estúdio, passando da marca de duas horas, como inovou tanto visual quanto narrativamente, sendo o filme mais fora dos padrões que o estúdio entregou em toda a sua filmografia animada.

Não seguindo uma história definida do início ao fim, Fantasia é incorporado de oito segmentos diferentes — curtas animados juntados à oito distintas músicas clássicas. Mas chamar Fantasia de uma coletânea de curtas é o reduzir muito. Fantasia é um mostruário do lugar que a música pode nos levar, e a capacidade da animação de reproduzir coisas fantásticas. O filme, aliás, é o casamento perfeito entre a trilha sonora e os visuais, e o exemplo perfeito das coisas que a arte não filtrada é capaz de atingir. No início de sua carreira, Walt Disney se preocupava mais com aperfeiçoar sua arte e usá-la para alcançar lugares nunca antes alcançados pela animação, e levar o público nessa viagem. Nenhum filme mostra isso melhor do que Fantasia.

Ao contrário das outras obras da Disney até então, a música é a principal condutora da história. A ideia de Fantasia é justamente o poder da música de despertar sensações em nós e como estimula nossa imaginação a voar com cada nota. Os animadores do projeto tiveram que adaptar sua arte e seus desenhos à música, ao contrário dos outros filmes que Walt e sua equipe estavam entregando, onde a música é que tinha que casar com a história e com a narrativa, em Fantasia a música veio primeiro e os animadores tiveram que fazer seu trabalho em cima dela.

A ideia de Fantasia era a de justamente ser um concerto animado, com um programa, uma orquestra sinfônica tocando, um condutor e um apresentador e, obviamente, a animação passando em cima dos instrumentos e da música. A Orquestra da Filadélfia foi a responsável pela música, Leopold Stokowski, que já conduzia a Orquestra desde 1912, foi o escolhido para conduzir a música do filme, e Deems Taylor, compositor e crítico de música, atuou como o mestre de cerimônias do filme, introduzindo cada segmento separadamente. Fantasia chegou a ter o nome de The Concert Feature (O Filme em Concerto, em tradução livre) em sua fase inicial. A ideia de Disney era que o filme fosse trazer a música clássica para a vida de pessoas que, como ele, eram “alheios a esse tipo de coisa” — segundo o próprio, ele não contribuía muito para com a parte musical de Fantasia, por ter um conhecimento muito limitado da área.

O fato de a parte visual ter vindo depois e ter que se adaptar à parte sonora, faz de Fantasia muito único, artística e estilisticamente falando, e diferente de tudo que a Disney tinha feito até então, e até do que viria a fazer. Diferente de muitos desenhos da Disney, Fantasia não tinha pretensões de ser doce, ou simpática aos olhos. Claro que há muitos quadros em Fantasia que se adaptam ao estilo Disney de fazer animação, com personagens simpáticos, dóceis e fofos dançando e se movimentando ao som da música clássica — entre eles, até o próprio Mickey — mas há muitos outros quadros que vão além disso.

A arte em Fantasia é muito mais variada e polida do que em trabalhos anteriores da Disney. Ela não tem medo de ir até campos mais sombrios e obscuros, ou então campos mais realistas e fora da bolha fofa e idealizada, que era pelo o que a Disney era conhecida a fazer. A animação em Fantasia não se limita, e vai do fofo e do banal ao grandioso e assustador em questão de segundos. Muito da arte aqui, ao invés de trazerem consigo o estilo dos curtas do Mickey e dos Três Porquinhos, parecem quadros pincelados com todo o cuidado do mundo. Fantasia, nesse sentido, é muito mais maduro e até experimental do que qualquer coisa que a Disney já tinha feito, e, novamente, do que ela viria a fazer.

A narrativa em Fantasia muitas vezes é dispensável. Ao invés de uma história, o fio condutor do filme são os visuais e a música, portanto muitos quadros em Fantasia não seguem uma narrativa definida, e, algumas vezes, não seguem sequer narrativa nenhuma, e vemos figuras e visuais surrealistas se adaptando às notas musicais. Claro que há outras vezes em que há uma história exata, que, inclusive foi definida antes da música, como é o caso de O Aprendiz de Feiticeiro, sem sombra de dúvidas o curta mais famoso de fantasia com a imagem de Mickey com seu chapéu estampado com a lua e estrelas se tornando um marco cultural. Mas a maior parte dos quadros de fantasia são um casamento das duas ideias — não seguem nem uma narrativa específica de começo, meio e fim, mas tem, sim, uma ambientação e personagens específicos que ditam o tom e dão um senso da história para o público.

Agora, pense. A Disney, uma das maiores empresas do mundo, um monstro coorporativo que cresce mais a cada dia, comprando e engolindo cada vez mais outras empresas e negócios e os incorporando em seus próprios negócios para que ela fique cada vez mais rica, um dos maiores nomes que impactam e contribuem para a cultura de massas, e que segue influenciando e engolindo, inclusive, a cultura de outros países, e cuja principal preocupação, hoje, é puramente mercadológica, fazendo um filme totalmente experimental, sem narrativa, onde tudo o que vemos são visuais, muitas vezes soltos e com um toque de surrealismo, aliados de música clássica, por duas horas, cuja preocupação era pura e simplesmente nos passar a beleza dessas duas formas de arte quando aliadas uma com a outra.

Obviamente algo assim só poderia sair da Disney em seus primórdios, quando ela ainda valorizava a parte artística do que fazia em pé de igualdade (quiçá até mais) com suas preocupações mercadológicas. Hoje em dia algo como isso só poderia sair fora da esfera hollywoodiana, vindo de círculos independentes e menores da animação, e ainda é completamente absurdo para mim que o estúdio do Mickey tenha nos entregue algo tão experimental.

Daí você me pergunta se uma obra com essas não seria muito entediante e pouco atrativa para as crianças, para o que eu respondo; sim. Fantasia não é nenhum pouco um filme para crianças, não importa o quão bonitas sejam as imagens. Com a exceção de, discutivelmente, três segmentos, todos os outros podem ser considerados tediosos e arrastados pelos olhos dos pequenos, além de não terem nada que os chame atenção ou que esteja lá simplesmente para os agradarem — algo novo vindo da Disney.

À não ser que a criança em questão seja muito pequena, de no máximo três anos, digamos, e não ligue para narrativa ou para tempo e consiga se distrair vendo imagens desconexas justamente por não ter discernimento para entender direito o que está assistindo, Fantasia é algo que só poderá ser, de fato, apreciado pelos olhos dos adultos. Eu mesmo me lembro de assistir Fantasia quando era menor e, ao mesmo tempo em que achava chato, tinha a sensação que quando crescesse iria entendê-lo melhor, e gostar dele. Pulemos para uma década e meia no futuro e eu… continuo o achando um pouco chato… e continuo acreditando que vou apreciá-lo melhor no futuro.

Não, mentira, não é bem assim. Quando eu assisti Fantasia para escrever esse texto, inclusive, foi a primeira vez em que eu consegui compreender o filme um pouco melhor. Não compreendê-lo narrativamente — até porque não tem muito o que se entender neste aspecto — mas compreender seu apelo, e suas qualidades. Foi a primeira vez em que eu consegui não o achar tão chato assim, e me entreter o assistindo, me entreter vendo suas imagens, como elas se casam com as músicas e até acompanhando a própria história que algumas delas contam. Mas com isso dito, eu ainda não consegui me render totalmente a Fantasia, mas agora não mais porque não consigo gostar da história de maneira nenhuma e nem porque não tenho paciência para acompanhá-la, mas sim porque eu, até mesmo porque consigo acompanhá-la, também consigo perceber seus defeitos, seu maior deles sendo; o filme é arrastado. Sim. Há sequências que se esticam demais sem necessidade, e sim, eu entendo que eles precisavam acompanhar a música e ir adicionando imagens à medida que ela toca, mas ainda assim, esse é o principal problema com Fantasia, e não há nada que suavize isso. E por mais que parte de mim ainda ache que eu gostarei ainda mais do filme à medida que for ficando mais velho, agora que já envelheci o mínimo que seja, consigo ver Fantasia não como uma obra difícil e indecifrável, mas sim como uma obra, que tem defeitos e qualidades, assim como qualquer outra.

Fantasia definitivamente está na categoria de filmes que são mais fáceis de nós apreciarmos do que de gostarmos. E sim, eu sei que eu tenho batido muito nessa tecla nesses textos, mas isso acaba acontecendo muito com a arte, sobretudo no cinema. Há diversos filmes em que nós podemos perceber suas qualidades técnicas, mas que são mais distantes do público, mais difíceis de se serem assistidos e acompanhados, e isso impede que nós, por mais primorosos tecnicamente que essas obras sejam, criemos laços mais corpóreos com elas, o que fazem com que, como citado, nós consigamos apreciá-las pelo o que elas significam, pelo o que elas trazem, mas não gostar das mesmas, particularmente falando. E Fantasia, ao menos para mim, é uma dessas obras.

Mas antes de Fantasia virar a obra grandiosa e altamente artística que nós conhecemos hoje, ela era bem menor em escala. Aliás, Fantasia não era nem para ser um longa, e sim um curta, composto somente do segmento d’O Aprendiz de Feiticeiro, que era pensado por Walt Disney como sendo a obra de retorno de Mickey Mouse que vinha caindo cada vez mais em popularidade, em favorecimento de seus personagens secundários, Donald, Pateta e Pluto, principalmente. Não é atoa que de todos os quadros, este é o mais “Disney” de todos, o que fez dele o mais popular, justamente por ser o mais dedicado ao público infantil.

Destinado a entregar tudo de si neste curta, que seria parte da série Silly Symphonies, Disney acabou extrapolando o limite de seu orçamento, que chegou a ficar quatro vezes maior do que o de um curta padrão da série. Apesar de o casamento da animação com a música clássica não ser nada de novo para Disney, — a ideia de Silly Symphonies era justamente colocar a animação para acontecer em conjunto com a música, afinal — o animador queria ir além da função cômica que essa adição normalmente tinha nessas obras. Nas palavras dele, Disney queria produzir um projeto onde “fantasia pura se desdobra… ações controladas por um padrão musical tem muito charme no reino da irrealidade”. Disney conheceu Leopold Stokowski, condutor da Orquestra da Filadélfia desde 1912, em um restaurante em Hollywood, e o contou sobre o projeto, que encantou Stokowski e ele concordou em participar, e ofereceu seus serviços gratuitamente. Ainda assim, obviamente que os custos do projeto excederam qualquer limite possível, e Roy Disney, que comandava a parte financeira da Disney na época, disse para seu irmão tentar manter qualquer custo adicional o menor possível, ainda mais levando em conta que O Aprendiz de Feiticeiro era puramente experimental e eles não tinham ideia de como seria seu desempenho nos cinemas. Porém Disney viu aquele problema como uma oportunidade, e a partir daí Fantasia nasceu.

Mas isso não quer dizer que os custos pararam. Pelo contrário, Disney ficou ainda mais ousado. Um sistema de som totalmente novo foi desenvolvido para o filme, e instalado em todos os cinemas em que ele foi exibido originalmente, chamado de Fantasound. O Fantasound é um sistema estereofônico, isto é, ele causava a impressão de que o som estava vindo de direções variadas, ao invés de estar saindo de uma única direção. Disney queria que o público sentisse como se a orquestra estivesse realmente presente. Mais tarde, o Fantasound ganhou dois óscares honorários, tendo sido considerado um sistema de som inovador. Assim, fica claro para qualquer pessoa que para Walt Disney este não era apenas um filme qualquer, ele queria que Fantasia saísse do campo cinematográfico, queria que seu filme fosse uma experiência por si só.

Aliás, a ideia de Disney, originalmente, era de que Fantasia fosse um projeto contínuo, com novas edições do mesmo sendo lançadas ao longo dos anos, com segmentos novos sendo adicionados e substituindo segmentos antigos, para que o público sempre visse uma versão nova do filme. Nas palavras dele; “Fantasia é atemporal. Pode durar dez, vinte, trinta anos. Pode durar até depois da minha morte. Fantasia é uma ideia. Eu nunca conseguirei fazer um novo Fantasia. Eu posso melhorá-lo. Eu posso elaborá-lo. Só isso.” Infelizmente o fracasso do filme nas bilheterias, ainda mais se comparado com seu orçamento monstruoso, deu um fim nesta ideia, mas discorrerei mais sobre isso mais tarde. O importante aqui é notar como Walt Disney não tratava Fantasia como um mero filme, e sim como algo mais, um projeto ambicioso e grandioso, que realmente era, mas que superava até o próprio meio onde se encontrava. Podemos perceber o quão apaixonado Walt Disney era por esta obra, e é esta paixão e dedicação com que entregou aos seus projetos no início de sua carreira que o levaram aonde ele chegou, e foi por continuar sempre os tratando com essa mesma dedicação que ele continuou mantendo o mesmo prestígio até sua morte. Por mais que existam mil críticas que mereçam ser feitas à pessoa de Disney, ninguém nunca poderá dizer que ele era um mero mercenário que não ligava para seus próprios projetos, e Fantasia é a maior prova disso.

Como citado, a ideia principal de Fantasia era ser uma animação em formato de concerto. Para isso, ele não só possuía uma orquestra sinfônica o acompanhando e um programa, mas também um mestre de cerimônias e até um intervalo de quinze minutos no meio (que tipo de filme hoje em dia, ainda mais da Disney, faz isso hoje em dia?) — eu inclusive me pergunto se em sua exibição original o intervalo de fato durou quinze minutos, porque na versão atual distribuída em DVDs e blu-ray dura no máximo trinta segundos — e tanto a orquestra quanto o mestre de cerimônias, Deems Taylor, são mostrados no filme, em sequências live-action, que funcionam como interlúdios entre um curta e outro. Essas cenas se passam de maneira até um pouco informal, no sentido de que o filme quer nos causar a impressão de que estamos de fato em frente àquelas pessoas naquele momento, e para isso ele não corta e nem edita certas situações, como em um momento, onde o mestre de cerimônias vai falar, mas é interrompido quando um dos instrumentos cai no chão, e levam alguns segundos para que o seu tocador, com a ajuda de outros participantes da orquestra consigam levantá-lo, e o filme não corta e nem acelera esta parte, como uma tentativa de causar um senso de genuinidade no público.

O mestre de cerimônias não só introduz todos os diferentes números, mas ele também contextualiza o público sobre a história das músicas tocando, e seus significados quando aliadas das imagens que estamos prestes a ver — algo também incomum para um filme da Disney, com Fantasia mostrando que não é um simples filme infantil. Por mais que eu goste dessa contextualização que o filme faz, por ser uma maneira de trazer conhecimento ao seu público, parte de mim gostaria de ver o filme sem que ela estivesse presente, pois, quando o significado por detrás das cenas que eu estou vendo já são previamente trazidos à mim, isso impede a minha mente de tirar conclusões próprias sobre o que estou vendo.

O primeiro quadro de Fantasia também é o mais simples de todos, além de ser o mais abstrato, e também o mais curto. Sendo passada enquanto Tocata e Fuga em Ré Menor, de Bach, toca, seu começo se dá em live-action, com a orquestra sendo iluminada por diversas cores, como o azul, o vermelho, o verde e o dourado, de forma que só a silhueta dos músicos fiquem visíveis, projetadas em cima desses fundos coloridos, até que vão perdendo espaço até desaparecerem por completo, e trocados por imagens animadas abstratas e surrealistas, que lembram, em um primeiro momento, céus coloridos, com nuvens sendo suavemente formadas na tela, e a cor do dito céu sempre mudando, indo do vermelho, para o laranja, para o amarelo. Enquanto isso, diversos símbolos, que parecem similares à diversos instrumentos de uma orquestra, como as cordas de um violino e as varas de um trombone. As imagens vão mudando drasticamente ao longo da música, mas nunca saem do campo abstrato e surreal, com linhas e formas indo e vindo de acordo com o som e o ritmo da música. Apesar de simples, este primeiro segmento é um perfeito exemplo de o que é Fantasia; os lugares para os quais a animação vai quando guiada pela música. Este quadro nos mostra toda essa essência da criatividade não filtrada e não limitada para onde a arte é capaz de ir, podendo ser extremamente calma ou extremamente violenta e frenética de acordo com o tom do que está sendo tocado. Fantasia é um dos poucos filmes da Disney que valorizam a arte pura e simples mais do que a história, algo que foi se perdendo à medida que o estúdio avançou. Não que eu não goste de seus filmes futuros, até porque uma boa história é, muitas vezes, essencial para fazer um filme. Mas eu sinto falta desse cuidado e desse apresso maior que Walt Disney tinha com suas partes visuais. Ele não as via como meras ferramentas para contar a história, ele as via como uma parte imprescindível de suas obras, as colocando em pé de igualdade com a narrativa, isto quando não as deixava tomar conta do show — mais uma vez, como em Fantasia.

No entanto, se engana quem pensa que a sequência mostrada em Tocata e Fuga foi feita informalmente e sem uma maior organização criativa. Walt Disney disse que queria fazer um filme surrealista desde que viu A Color Box, de 1935, do artista Len Lye. “[A ideia para o quadro] não foi nenhuma ideia repentina… era uma ideia que nós alimentamos por muitos anos, mas nunca tivemos a chance de tentar”, disse Disney. Para a confecção deste curta, a Disney contratou o animador de efeitos especiais, Cy Young, e o animador alemão conhecido por suas obras abstratas Oskar Fischinger, cujos alguns trabalhos eram feitos acompanhados de músicas clássicas. No entanto, os estilos de Disney e Fischinger não casaram, e ele foi dispensado do projeto.

O segundo segmento é provavelmente o meu favorito. Acompanhado de O Quebra-nozes, de Tchaikovsky, ele nos mostra os passar das estações. Apesar de não ser tão abstrato quanto o primeiro quadro, este segundo ainda não tem uma linha narrativa definida, e mostra uma série de cenas soltas que não tem relação umas com as outras, e, além do tema; as quatro estações, não parecem estar contando uma história, e só querem mostrar a movimentações dessas imagens para o público.

O motivo de eu gostar tanto deste curta é porque ele é tão bonito de se olhar, tão polido, tão agradável aos olhos. Por estar representando à natureza, a arte é muito delicada, e doce. É o tipo de animação que não encontramos muito no dia de hoje, sobretudo no mundo do CGI em que estamos vivendo. A arte aqui é tão bonita e elevada, que já causa a sensação de não estarmos vendo um desenho animado propriamente dito, e sim uma pintura que leva vida. Os animadores tiveram tanto cuidado para nos passar esses visuais de forma límpida, e esta dedicação e pureza se traduzem na tela. Seja as fadas, tão magnificentes, que começam o quadro dando vida à natureza, o que simboliza a primavera — tudo o que elas tocam ganham cor, seja as flores até uma teia de aranha cheia de gotículas d’água, que são bastante realistas aliás — ou os cogumelos dançantes, que figuram uma das sequências mais conhecidas do filme, que é também uma das mais encantadoras e adoráveis.

Os ditos cogumelos são igualmente delicados, e seus movimentos casam perfeitamente com a música. Por ser uma sequência cômica, os animadores disseram terem estudado Os Três Patetas e suas movimentações para animar os cogumelos, mas essa cena é tão delicada e bem-feita que encanta mais do que faz rir, apesar de a comédia estar bem delineada. As gotículas d’água, que também estão presentes em suas cabeças vermelhas, brilham os olhos de tão bem-feitas que são. Depois deles vem a cena das flores, que são igualmente elegantes e serenas, que começam flutuando em cima de uma água cristalina, para depois ganharem vida e passarem a se moverem e a se rodopiarem, como se fossem bailarinas (adequado, considerando que a música em questão é um balé). De fato, os movimentos de bailarinas foram estudados para animá-las. No entanto, a minha parte favorita do meu quadro favorito é a sequência dos peixes. Eles são igualmente dóceis e delicados e tão bonitos de se olhar. Seus movimentos são tão precisos e suntuosos, enquanto eles balançam suas caudas transparentes de um lado para o outro — aliás o design deles também é belíssimo.

Entre eles há uma grande variedade de cores, que vão do rosa ao preto, passando pelo vermelho e pelo branco, e seus corpos são simples bolas com olhos, mas tão delicadamente desenhados, e suas nadadeiras e suas caudas são muito maiores que seu corpo, mas finas e transparentes, que se movimentam repetindo os movimentos que eles fazem com seus corpos enquanto nadam. A ambientação deste momento também é muito bem-feita, com a água parecendo tão real a cada movimento que os peixes fazem que nós temos a sensação de que podemos tocá-la. Para a movimentação dos peixes foram estudados os movimentos de uma dançarina do ventre. Depois disso voltamos às flores, que se movimentam junto com a música.

Aliás palmas aos animadores por conseguirem animar de forma tão rápida essa sequência, que se passa em uma parte muito rápida da música, e as flores não perdem uma nota, acompanhando os músicos do início ao fim. As flores abaixam, levantam, se agacham, chutam o ar, rodopiam, de forma que nós ficamos até sem ar. Depois disso vem a parte final, que é mais delicada e menos movimentada. As flores e folhas começam a cair, simbolizando o outono, e pousam em cima da água, novamente bastante realista, e depois a neve cai também, com a chegada do inverno, e as fadas voltam, tão régias e pomposas como no início. Dessa vez elas aparecem sentadas nos flocos de neve, que são igualmente polidos e belíssimos de se ver, e a parte dois de Fantasia se fecha. Se eu tivesse que fazer uma crítica à esta parte é que, sim, ela acaba se arrastando demais, na minha opinião, e perde um pouco de momentum, mas as cenas são tão lindas e primorosas que nós conseguimos segurar um pouco o fôlego e assistir até o fim sem mais reclamações.

Depois vem o já citado O Aprendiz de Feiticeiro. Eu não sei o que aconteceu entre mim e este curta, mas desde pequeno eu nunca entendi muito bem o seu apelo. Talvez eu tenha ficado enjoado do mesmo depois de ver ele constantemente referenciado e parodiado em outros lugares, mas, para mim, nunca vi grandes graças nesta cena. Todo mundo sabe o que acontece — Mickey é o titular aprendiz de feiticeiro, que manda ele encher seu caldeirão com água. Só que Mickey decide testar seus poderes e dá vida à uma vassoura para fazer seu trabalho por ele. Mickey acaba dormindo e deixa sua vassoura descontrolada enchendo o caldeirão de água até que a sala inteira inunde. Quando Mickey acorda ele tenta mandar a vassoura parar, mas ela não o obedece, o que causa ele a espatifá-la em milhões de pedaços.

No entanto estes pedaços ganham vida e se transformam em vassouras, que seguem enchendo baldes de água e a colocando no caldeirão, até que o feiticeiro chega e salva o dia. A música tem o mesmo nome do curta, composta pelo francês Paul Dukas, e, por sua vez, é inspirada em um conto homônimo do alemão Goethe. Talvez seja o fato de este curta, como o próprio filme diz, ter começado com a história em mente e depois ter sido incorporada na música, talvez seja o fato de ele sair da esfera mais artística e subjetiva de Fantasia e se assimilar do campo mais típico da Disney, eu não sei, mas nunca fui muito fã desta sequência — e olha que era um fã de Mickey quando menor.

Falando em Mickey, este curta também é notável por ser a primeira vez que pupilas foram adicionas em seus olhos, que antes eram apenas bolas pretas, como uma forma de adicionar mais expressão a seu rosto. Mas a figura mais interessante deste curta não é Mickey, e sim o Feiticeiro, que chega a dar até um pouco de medo, com sua expressão séria e imponente. Ele é tão misterioso e místico, que chama a atenção, mesmo que só apareça no início e no final do mesmo, e um atleta serviu de inspiração para a movimentação do Mickey.

O próximo quadro é o maior deles, ganhando por pouco do que vem depois dele. Segundo o próprio filme, quando Igor Stravinsky compôs A Sagração da Primavera ele quis expressar a vida primitiva. No entanto, enquanto Stravinsky representou isto em seu balé com uma série de danças tribais, os animadores da Disney levaram isso ao pé da letra, e representaram, ao som desta música, o início da vida na terra. Eu estou dividido em relação à A Sagração da Primavera, pois, ao mesmo tempo em que acho este segmento um trabalho exuberante, com os visuais de tirar o fôlego casando perfeitamente com a música, é o quadro de Fantasia onde podemos sentir perfeitamente aquele problema que eu cite — o arrastamento, que causa um cansaço no público.

Aliás, o problema neste quadro é ainda pior pois há diversos momentos onde achamos que a coisa vai se encerrar, e ela ainda continua, o que aumenta essa sensação de cansaço e de que ele se arrastou de forma desnecessária. Mas tirando esse problema, como eu citei, a animação aqui é exuberante, e uma das melhores em todo o filme. O senso de escala que esses animadores conseguiram atingir apenas com seus lápis e pincéis chega a ser bizarro de tão primoroso, e eles conseguem nos passar toda a sensação grandiosa que uma história tão grande quanto a da Terra precisa. Começamos o curta no espaço, e vamos, aos poucos, nos aproximando da Terra que, de fora, ao contrário de seu visual verde e azul que conhecemos hoje, ainda está vermelha e alaranjada, graças a sua atmosfera primitiva e tóxica e todos os gazes que saíam daqui nesta época.

Quando adentramos a terra propriamente, nós a vemos em seu estado inicial, pintada por uma paleta de cores quente, lotada de tons alaranjados e avermelhados, tanto nos céus, quanto nos solos e nas montanhas. Encontramos todos os vulcões explodindo para todos os lados, com sua lava passando pelo chão e arrastando tudo o que vê pela frente, deixando um rastro destrutivo para onde passa. No entanto, o reino dos vulcões não dura para sempre, e logo a água chega, igualmente violenta, com as ondas do mar engolindo tudo o que veem, e logo, cobrem os vulcões. Depois disso, o filme nos mostra as evoluções das espécies, conseguindo retratar até mesmo as bactérias de maneira divertida e que nos entretém, enquanto vemos esses seres microscópicos se movimentando de acordo com a música, até que eles evoluem para peixes, que evoluem para seres terrestres, até que chegamos na era dos dinossauros.

Essas cenas onde os animais começam a aparecer conseguem nos passar muito bem essa violência e bestialidade do reino selvagem, onde a lógica de que só os mais fortes sobrevivem impera, e nós vemos a relação desses seres, onde um é comido pelo outro e todos estão constantemente disputando alimentos e espaço. No entanto, o grande vencedor dessa batalha é o tiranossauro rex, que chega até a assustar o público com toda a sua imponência e selvageria, e pela maneira com que todos os outros dinossauros, não importa o quão grande fossem abaixassem para ele. Como eu disse, essa essência, de uma vida selvagem e violenta, onde ninguém está cem porcento seguro e todos estão sempre brigando e disputando é muito bem passada para nós.

Os animadores conseguem capturar muito bem esse muito violento e imperdoável, além do já citado senso de escala, de que tudo o que estamos vendo são cenários e situações gigantescas e monstruosas. Fica até difícil de acreditar que algumas dessas imagens foram alcançadas por mãos humanas, pois elas são tão grandes, tão bem detalhadas e, inclusive, tão realistas — sim. Diferente do que a própria Disney costuma entregar, não vemos aqui uma preocupação para que essas imagens e personagens sejam fofos ou simpáticos, e sim para que sejam os mais reais possíveis, e esse realismo é imprescindível para que esse impacto com o que estamos vendo aconteça.

No final da história, nós vemos a extinção dos dinossauros, com a Terra se tornando um ambiente inóspito para eles, e um por um eles caem, incluindo o tão poderoso tiranossauro, que antes assustava todos, e agora é só um ser ínfimo se comparado com a escala do planeta. Vemos ele ser derrubado, vemos seu corpo apodrecer até que só sobrem seus ossos, e vemos como até seus ossos são engolidos pela Terra. Assim, como os vulcões foram derrotados pela água, os dinossauros são derrotados pelo próprio planeta, e a mensagem principal que esse segmento parece querer nos passar é como, não importa o quão grandiosos e imponentes podemos parecer, no fim das contas, só somos meros peões no tabuleiro do universo.

A Sagração da Primavera é mais um dos segmentos que pode ser considerado que a história veio antes da música. Disney queria um quadro durante o filme em que ele pudesse explorar o campo pré-histórico, com os dinossauros e todos os outros monstros desse período, e, durante um curto período de tempo, O Pássaro de Fogo, também de Stravinsky, foi eleito, porém Deems Taylor, o mestre de cerimônias, acreditou que A Sagração da Primavera seria um casamento melhor, e Disney concordou ao ouvir a música escolhida A ideia do curta era, inclusive, se seguir para a era dos mamíferos, chegando até os primeiros humanos, porém esta ideia foi cortada, com o estúdio querendo evitar polêmicas com os criacionistas. Apesar de parte de mim ficando curioso com como se daria esta continuação, outra parte acredita que foi para o melhor que o filme tenha se encerrado onde se encerrou, até porque, como citado, ele já estava se arrastando demais só com o que já foi mostrado, imagina se ainda decidissem adicionar mais elementos.

Após este segmento bastante pesado e tenso, nós voltamos para o mundo lúdico e alegre da Disney. Com a Sinfonia Pastoral, de Beethoven, vemos como seria o mundo da mitologia greco-romana interpretado pela Disney, com personagens fofos e alegres, e um mundo colorido e otimista. Vemos centauros, “centauras”, cupidos, cavalos-alados, unicórnios e faunos, todos pintados na dela como criaturas doces e adoráveis, vivendo em uma paisagem bucólica e florida, com florestas e gramados, árvores e lagos, e todos eles vivem ali em perfeita harmonia, nos causando aquela sensação típica de um filme da Disney, onde tudo é colorido e muito positivo.

Após essa cena com os centauros, vamos ao deus Baco, do vinho e do teatro, que está festejando espalhafatosamente, com uma caravana o seguindo, e, em uma daquelas cenas que jamais passariam em uma animação da Disney atual, está claramente bêbado, com uma taça em sua mão derramando vinho para todos os lados. A festa é interrompida, no entanto, por Zeus e Hefesto, que se divertem jogando raios em cima dos personagens e causando a destruição. Felizmente, tudo acaba bem, com Íris, a deusa do arco-íris, trazendo o dito-cujo para os céus, e o curta termina com todos indo dormir. A arte, aqui, é muito bonita também, mesmo sendo mais parecida com a arte padrão da Disney, e inovando menos. Ainda assim ela é muito bem-feita e bastante doce, com as cores vivas, muito presentes, brilhando nos olhos, assim como o design fofo e amigável de todos os personagens.

No entanto, pelo o que este quadro é mais conhecido, é por suas polêmicas. Não apenas é o único filme da Disney a mostrar seios escancaradamente, — novamente, algo que jamais passaria não só na Disney, mas no meio de animações atual — mas por ser responsável por propagar estereótipos raciais. Essa segunda polêmica se refere ao personagem de duas centauras negras, uma delas que, inclusive, polia a casca de outra centaura, branca, como se fosse uma serviçal. Se essa descrição não é suficiente para você, de todas as polêmicas sobre racismo envolvendo os filmes da Disney, essa foi uma das únicas que o estúdio resolveu cortar de redistribuições da obra, o que já diz muito.

Opa, o que é isso? hmmm

Depois disso vem o segmento mais engraçado e divertido de Fantasia, que, assim como Sinfonia Pastoral e O Aprendiz de Feiticeiro, é a principal parte do filme que mantém o estilo clássico da Disney e não vai por caminhos mais artísticos e/ou experimentais. O curta é sobre a passagem das horas, e nós o vemos representar a manhã, o meio-dia, o fim da tarde e a noite de maneiras diferentes, até seu encerramento.

É neste segmento que também estão algumas das cenas mais conhecidas de Fantasia, como as avestruzes e hipopótamos fazendo balé. Se passando em cima de Dança das Horas por Amilcare Ponchielli, nós começamos com as avestruzes, que são bastante delicadas e graciosas, representando a manhã. Quando o meio-dia chega, elas são trocadas pelos hipopótamos, que são bem mais espalhafatosos e exagerados em seus movimentos, com o fato de serem grandes e gordos representarem toda a imponência do horário que estavam representando. No fim da tarde, temos os elefantes, que juntam a delicadeza das avestruzes com a aparência gorda dos hipopótamos. À noite, chegam os jacarés, criaturas ardilosas e maliciosas, que embatem diretamente com os hipopótamos, o dia.

Aliás, a melhor parte deste curta, está nas constantes interações de seus diferentes personagens, que sempre se dão, obviamente, através da dança, com todos os seus personagens sempre dançando o tempo todo em que estão presentes. Este é o único segmento de Fantasia que é assumidamente uma comédia, e, junto com O Aprendiz de Feiticeiro, é a que está menos distante do estilo normal da Disney, não só em visuais, como em tom. O filme pega toda a essência espalhafatosa e teatral com que os desenhos animados faziam comédia, utilizando de situações absurdas e do humor físico para fazer rir. Depois de segmentos mais densos ou mais contemplativos, Fantasia tenta aliviar um pouco seu ar mais sério e lento com esta sequência, e funciona. Pelo menos eu me peguei dando gargalhadas assistindo aos hipopótamos dançando e seu embate com os crocodilos.

Uma coisa que eu gosto muito nesses primeiros filmes da Disney é como eles trabalham em diversos campos diferentes, eles vão do assustador ao engraçado em questão de segundos. Disney e sua equipe sabem como ninguém que o diferencial da animação, ao contrário da objetividade dos filmes em live-action, está na forma como ela dialoga com nossos sentimentos, e eles se aproveitam dessa capacidade como ninguém. Os primeiros filmes da Disney nos fazem rir e nos fazem chorar, nos assustam ao mesmo tempo em que nos emocionam. Esse é o período da Disney onde ela não estava tão preocupada com a questão mercadológica e com como seus filmes poderiam ser recebidos, portanto eles não se censuravam, e se aproveitavam da capacidade emocional das animações até seu limite, querendo arrancar todas as animações possíveis do público.

Depois de dois segmentos mais leves e familiares para o público com sendo obras típicas da Disney, Fantasia se encerra com um segmento mais ousado e assustador. Uma tática comum desse período da Disney, onde suas animações poderiam ser assustadoras, era colocar essas sequências mais pesadas de seus filmes entre momentos mais dóceis e fofos, e Fantasia segue essa regra ao pé da letra. O último quadro do filme se baseia em cima de duas músicas. A primeira sendo Uma Noite no Monte Calvo, de Modest Mussorgsky, e a segunda, Ave Maria, de Franz Schubert.

Como citado, esse curta é bastante obscuro, e com certeza foi responsável por traumatizar muitas crianças. O próprio mestre de cerimônias fala que o dito Monte Calvo era conhecido por ser onde os adoradores de Satanás se encontravam, e o quadro em questão se baseia em cima disso — bastante incomum para um filme da Disney, no mínimo. Em mais uma sequência que ficou bastante conhecida em Fantasia, o quadro é responsável por nos introduzir à figura de Chernabog, um demônio preto que, segundo o filme nos leva a entender, é o próprio diabo. À noite, ele acorda em cima do dito Monte Calvo, enquanto todos da vila nos arredores dessa montanha estão dormindo e começa a invocar todos os espíritos e assombrações para irem ao seu encontro, até que a manhã chega, e, com os sinos da igreja tocando e os habitantes da vila cantando Ave Maria, ele é exorcizado para fora dali e o dia chega, trazendo consigo paz e esperança, e levando embora a morte e a malvadeza.

Se formos parar para analisar, — na realidade nem precisamos, porque o mestre de cerimônias, mais uma vez, expõe com todas as letras o significado por trás deste curta, mais uma vez — Uma Noite no Monte Calvo traz consigo um bocado de simbolismos e mensagens religiosas, algo não tão comum para filmes da Disney. A principal ideia que ele passa é o embate entre o sagrado e o profano, e como, no fim, a vida e a esperança saem vitoriosas na luta contra o desespero e a morte (nas palavras do próprio mestre de cerimônias).

Mas apesar de a mensagem ser bastante diferente de tudo o que esperamos ver da Disney, o que mais me chama a atenção é a arte. Uma Noite no Monte Calvo é o quadro de Fantasia que é mais artística e estilisticamente diferente de tudo o que já vimos do estúdio. — Com exceção do primeiro quadro, surrealista. — As imagens estão muito distantes daquele estilo padrão do estúdio de nos entregar imagens fofas, dóceis e simpáticas, com personagens igualmente fofos e adoráveis. As imagens, aqui, parecem muito uma pintura que toma vida. Algumas cenas parecem, de fato, um quadro, e é tudo tão mais polido e maduro do que qualquer coisa que a Disney entregou que, se a figura de Chernabog não tivesse ficado conhecida e o segmento caísse na obscuridade, acho que muitas pessoas não adivinhariam que o que estavam vendo veio da Disney, se o quadro as fosse mostrado separadamente.

Assim podemos perceber que Fantasia é um filme extremamente diferente de tudo o que a Disney já nos trouxe. Ele casa diferentes estilos, bastante variados, em suas imagens, indo desde o fofo e adorável ao assustador, e não se limita em querer causar, de fato, estas sensações em seu público, através das imagens, tão polidas e realizadas, e que fazem seu trabalho primorosamente. E tudo isso casado da música clássica que é essencial para Fantasia, talvez até mais do que os próprios visuais, pois a ideia de Fantasia nasceu com a música.

Sua função, idealizada por Walt Disney e sua equipe, era ver aonde a música conseguia levar nossas imaginações, e a arte foi feita em cima dessas músicas, se adequando a elas, e não o contrário. Fantasia é, de fato, uma ode à arte, ele não utiliza da animação para contar uma história, ele se utiliza de uma história para conseguir passar ao público todo o poderio que a música e os visuais têm de nos tocar e de nos emocionar. Fantasia é arte pura, arte viva, latente, não filtrada e não lapidada, e algo assim jamais sairia da Disney atual, que não vê mais a animação como Walt Disney via na época; como uma técnica crua e selvagem, que ainda precisava ser polida, e cabia à ele domá-la e descobrir até onde ela iria, quais eram suas limitações, mas, sobretudo, quais eram suas possibilidades, e ele não se limitava em levá-la até seus limites. Walt Disney valorizava muito mais a parte artística de suas obras do que qualquer outra coisa.

Já hoje, a Disney se preocupa muito mais com a parte textual de seus filmes, querendo que eles contem histórias mais do que se preocupar em expandir o meio, e mostrar seu poderio — o que não necessariamente é um problema, quando eles querem, de fato, passar uma boa história para o público, e não apenas entregar algo fácil e que atraia as crianças para fazer dinheiro.

No entanto, eu sinto falta dessas obras antigas da Disney, obras como Fantasia, principalmente, mas também Pinóquio e até Bambi, em certa capacidade, que eram mais ousados, e não tinham medo de ir mais longe, de se explorar até o seu limite, e entregar coisas que não se era esperado que animações entregassem, ainda mais em um período onde sua principal função era fazer rir e serem atrativas para as crianças. E não é como se eles não tivesse capital e não existissem artistas capaz disso, eles só apenas não enxergam os filmes como uma arte, e sim como um ato mercadológico.

Hoje em dia isso se perdeu no mercado mais abrangente de animações, que acaba se adequando a uma fórmula e entregando trabalhos que, por mais que muitas vezes consigam se excelentes, não saem muito de sua zona de conforto como os primeiros trabalhos do estúdio do Mickey fazia — É inclusive muito estranho pensar que seja a Disney que fazia esses trabalhos, tão fora da caixa, sendo que hoje ela é a cara dos estúdios convencionais de animação, que contribui mais do que ninguém para a cultura de massas (novamente, não que isto seja um problema). No entanto, em um mercado de animações que cresce cada vez mais formulaico e não se permite, é importante que temos obras como Fantasia, que nos levam de volta para um período onde nem sempre as coisas foram assim.

E é também importante que as pessoas que trabalhem no meio hoje, sobretudo as que trabalham na Disney olhem para seu passado, e se reconectem com essa veia artística que seu fundador e sua equipe tinham, sobretudo hoje, na era do CGI. Eu não sei o que Fantasia é senão uma ode ao 2-D. Com uma alta variedade artística e de estilos sendo empregada por toda a sua duração, Fantasia é o mostruário perfeito de todo o poderio que a animação feita a mão tem, e como essa técnica consegue impactar o público e atingir sua veia emocional apenas com seus visuais, que vão do lúdico ao realista ao assustador em questão de segundos. A arte aqui é tão polida, tão delicada, tão elevada à máxima potência que tira nosso fôlego e fica difícil compreender como tamanha perfeição conseguiu ser extraída apenas das mãos humanas. Fantasia deixa sua arte, e sua música, tomarem conta da narrativa, e este é seu principal diferencial.

No entanto, a resposta para essas questões — por quê a Disney não ousa mais e entrega trabalhos experimentais que nem na década de quarenta? — logo se fizeram presentes. Para realizar um trabalho tão exuberante quanto Fantasia, a Disney precisou de um orçamento gigante, ainda mais se considerarmos a confecção do Fantasound, que precisou ser instalado em cada sala de cinema em que o filme foi exibido, o que, por si só, já gerou uma grande despesa. Além disso, em sua primeira distribuição, Fantasia não foi exibido amplamente, como um filme. Disney queria que Fantasia fosse exibido de forma mais prestigiosa, pois não o considerava tanto como um filme, e sim como um verdadeiro espetáculo.

Assim Fantasia, em sua exibição original, foi tratado como tal, e, ao invés de ser lançado em todos os cinemas do país de uma vez só, ele circulou pelos Estados Unidos, como uma atração ou uma peça de teatro, indo de cidade em cidade, o que ajudou para que ele arrecadasse menos, pois não estava disponível para todos. Isso aliado de Fantasia não ser uma obra própria para crianças, possuindo duas horas de duração, que, por sua vez, aliado ao fato de a Segunda Guerra continuar se alastrando pela Europa, afastando o público europeu, fez de Fantasia um fracasso retumbante de bilheteria, ainda maior do que Pinóquio.

Com o tempo, Fantasia foi vingado, e em suas constantes re-exibições e redistribuições conseguiu alcançar a popularidade e conseguir mais dinheiro, mas ainda assim, o estrago e o impacto negativo que causou para a Disney e suas finanças já estavam feitos, ainda mais se considerarmos que ela mal tinha se recuperado do tombo que levou com Pinóquio, e seus problemas financeiros foram se acumulando. Estava claro para Disney e sua equipe que trabalhos mais ousados e artísticos nem sempre se traduziam em sucessos financeiros — como aconteceu com Branca de Neve e os Sete Anões — e eles precisavam arranjar um jeito de se recuperar rapidamente. Para isso, eles precisavam fazer um filme barato e rápido, e que conseguisse atrair o público. É aí que entra nosso próximo filme.

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