Lovecraft Country

Apesar do caráter já conhecido de H.P. Lovecraft, a mitologia monstruosa que ele criou inspirou inúmeras produções de horror ao longo dos anos, e estava arranhando a superfície e emergir em novas histórias. E de forma primorosa, Lovecraft Country, série da HBO baseada no romance que é baseado no universo monstruoso do autor debate a posição das minorias raciais que lutam contra a supremacia defendida pelo autor destas criaturas e numa viagem psicodélica e confusa entrega uma história que não queremos tirar os olhos.

Se você acompanhou semanalmente a série na HBO você percebeu a sua imprevisibilidade na previsibilidade narrativa de qualquer série fantástica. Seguindo Atticus “Tic” (Jonathan Majors) e Leti (Jurnee Smollett) que após uma viagem ao interior para ajudar o tio de Atticus, George (Courtney B. Vance) em relatar as rotas mais seguras dos EUA para negros poderem viajar, acabam presenciando que a magia e monstros são reais, e vão embarcar semana a semana a desvendar mais uma peça na trama dos magos brancos em busca de controle sobre as minorias.

A questão imprevisível na previsibilidade narrativa é um dos principais combustíveis que mantém a atenção a série. A série se utiliza de inúmeros arquétipos do monomito – ou jornada do herói – para desenvolver os personagens e a trama, mas sua imprevisibilidade se apresenta no questionamento cena a cena que nos questionamos: o que exatamente estamos assistindo aqui? Fica difícil descrever ou dar alguma explicação lógica as decisões artísticas e narrativas do produtor Jordan Peele, conhecido por trabalhar questões raciais em analogias d e suspense e terror, e colocar a figura negra como protagonista de sua história.

A série equilibra desenvolvimento dos personagens nos episódios, e deixa um episódio focado em um ou outro para aprofundar ainda mais sua posição na história, e como ela reflete um fragmento da figura negra na história da humanidade de forma a dar uma justiça dramática. Quanto a essa justiça temos em todo episódio gravações de discursos inerentes a trama sobre preconceito, violência racial, e inúmeras questões sociais relacionadas a injustiça racial. É quase poético a série se chamar Lovecraft e abordar o empoderamento negro em sua história.

A série não se limita a apenas abordar episódio a episódio questões relacionadas exclusivamente a raça negra, mas aborda o papel feminino e o feminino negro na sociedade, a posição do LGBTQIA+ e suas limitações que são impostas pela sociedade, temos um breve episodio sobre como a presença de estadunidense em terras longínquas se torna opressora. A série mescla inúmeros argumentos sociais ao principal. Esses episódios conseguem extrair ótimas atuações dos personagens, dando aos coadjuvantes maior destaque e dando-lhes, também, o seu protagonismo. Aliás, os Coadjuvantes constroem mais a história e tem arcos mais interessantes do que o protagonista Tic.

Apesar de abordar ótimos pontos, a série parece viajar em inúmeros gêneros, do horror sobrenatural no terceiro episódio, ao horto psicológico no oitavo episódio, ao suspense cósmico e histórico do sétimo episódio, a ficção científica tanto no sétimo quanto no nono episódio, indo até a caça ao tesouro no quarto episodio. A série parece não saber em qual gênero mirar, mas independente de sua indecisão, a história se sobrepõe e agarra sua atenção e prende você até o último minuto e deixa aquele gosto amargo de ter que esperar uma semana para saber qual será a próxima viagem, enquanto o roteiro não deixa claro inúmeros pontos, aberto a interpretação.

Lovecraft Country é de longe uma das gratas surpresas deste ano, principalmente deste ano, quando questões de violência racial estiveram em pauta, além de inúmeros acontecimentos sociais extremistas ganhando mais e mais espaço. É uma série que questiona após uma louca viagem num mundo repleto de arquétipos e analogias narrativas, e mesmo com alguns pontos baixos (desperdício da nativa americana hermafrodita) e personagens construídos para odiar, a série se consagra como uma ótima história sobre a história e entregando uma justiça histórica a dar ao povo negro seu papel de protagonismo e herói de sua história.

Lovecraft Country

Lovecraft Country
4 5 0 1
Após uma viagem de pesquisa se tornar um pesadelo monstruoso, Atticus (Jonathan Majors) e Leti (Jurnee Smollett) descobrem que a magia existe e que monstros são reais. Tentando seguir em frente e desvendar a relação dos dois nos planos dos magos, eles embarcam numa jornada de protagonismo de suas histórias e impedir supremacistas de tomar um poder inegalável
Uma história imprevisível na previsibilidade da construção narrativa, que surpreende pelos exageros e discursos sobre justiça racial, violência e contrários a supremacistas numa época delicada para minorias
4,0 rating
4/5
Total Score
Postagens Relacionadas