Bom Dia, Verônica

Nada retrata tanto uma sociedade quanto a arte. Pinturas, esculturas, literatura, peças teatrais tem como principal objetivo ser uma válvula de escape para o artista transmitir uma mensagem e ser um retrato vivo da sociedade que o cerca, independente que esse retrato seja o mais belo a ser visto, ou o mais incômodo que alguém quer que se retrate, e é o dever do artista levar esse retrato para levar a discussão e resolver problemas ou impedir que os erros continuem sendo cometidos. Bom Dia, Verônica, nova série Original Original, baseado no romance policial de Ilana Casoy e Raphael Montes, tem esse papel, pois por mais angustiante que seja tratar deste assunto, ou incômodo, o tema faz refletir.

A série segue Verônica (Tainá Müller), uma escrivã da delegacia da policial civil, que acaba se envolvendo em dois casos distintos mas que envolve o abuso doméstico e abuso psicológico e sentimental. Após presenciar o suicídio de uma vítima de golpe na delegacia, ela se aprofunda no caso e tenta soluciona-lo e levar justiça as mulheres enganadas, mesmo sendo impedida pelo delegado geral, e a delegada adjunta. Seu envolvimento acaba levando a conhecer Janete (Camila Morgado), uma dona de casa que sofre com os maus tratos de seu marido, além de estar envolvida em algo ainda mais brutal.

Não é fácil lidar com temas tão delicados. Outra série da casa, 13 Reasons Why foi um das primeiras produções que levou a discussão de saúde mental e consequências de abusos, só que voltado a um público mais juvenil, sempre ressaltando a importância de buscar apoio; a série brasileira tem um papel semelhante, agora voltado a temas ainda mais complexos e numa linguagem mais adulta. Um ponto crucial – que apontamos em nosso artigo de Primeiras Impressões – foi a relação da empatia e apatia presente na condução de situações semelhantes: quando a sociedade assume o papel de acusador e coloca a vítima do abuso ou golpe como culpada por se permitir ser enganada ou abusada, em vez de colocá-la no lugar de vítima, e isso ganha mais camadas ao passar dos episódios, antes focado num arco mais secundário, e com o passar da temporada, mais focado a personagem de Camila Morgado.

É nítido que a narrativa da série – como apontamos anteriormente – encontrou uma forma de contar está história sem copiar o modelo narrativo das séries estadunidenses a quais fomos acostumados, ou com a forma narrativa de novelas, mais relacionado a nossa cultura. É perceptível uma forma de narrativa que flutua entre estas duas formas, mas ao mesmo tempo, não é parecido com nenhuma dessas.

Apesar dos personagens que se envolvem na história, é notável o trabalho do trio principal, Tainá Muller, Camila Morgado e Eduardo Moscovis, e como as camadas de cada um vão sendo descobertas de forma orgânica e uniforme ao longo dos oito episódios da primeira temporada. A construção dos personagens já é bem definida nós primeiros episódios: Verônica é destemida e empática; Brandão é controlador e manipulador; Janete é submissa e autodepressiativa. E essas qualidades são trabalhadas pouco a pouco e ganham mais camadas e importância na trama.

A história pode se perder um pouco quando insere a trama policial, principalmente com a ideia de deixá-la de gancho para próxima temporada, mas até então, deste subarco, permitiram a personagem de Muller perceber o perigo quando mexe com quem detém o poder, e deixa em aberto para ser desenvolvido em outro momento.

Bom Dia, Verônica não é uma série fácil de acompanhar, ela é visceral e não se segura quando a questão é mostrar a pior versão de um ser humano, mas também entrega uma mensagem positiva sobre perseverar, mesmo que a realidade seja outra, e consegue prender a atenção durante toda a investigação e descobrindo mais e mais da protagonista, e dos coadjuvantes que a cercam. Não é uma série para se ver se você possui qualquer tipo de gatilho, existem momentos delicados, mas que trazem a tona discussões sobre abuso doméstico, tortura psicológica, e em menor nível, corrupção.

Uma luta por justiça contra abuso e tortura psicológica

Bom Dia, Verônica
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Após presenciar o suicídio de uma mulher abalada, Verônica se envolve numa investigação de um golpistas de mulheres que a levará a conhecer Janete, uma dona de casa submissa ao marido, que se envolve num crime ainda mais perigoso e macabro.
Tratando de temas complexos e delicados, Bom Dia, Verônica encontra um equilíbrio narrativo para levar a discussão sobre submissão e abuso de poder, abuso e tortura psicológica e física, reforçando a empatia ao tratar vítimas de abusos e se colocar na pela das maiores vítimas.
4/5
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