Primeiras Impressões | Bom Dia, Verônica

A Netflix está olhando, nos últimos meses, com mais carinho as adaptações de livros e histórias em quadrinhos que não ficam tanto nos holofotes. Esquadrão 6, The Old Guard, além do sucesso que já está em sua segunda temporada The Umbrella Academy, são um pouco das histórias que chamaram a atenção da gigante do streaming, e ganhou muito espaço no mercado devido ao interesse da Netflix, que antes, histórias como essa eram esquecidas. Se isso acontece com as produções lá de fora, não demorou muito para uma adaptação de um romance brasileiro ganhar sua adaptação na Netflix. Bom Dia, Verônica é uma história ousada, e mesmo os poucos episódios que fomos convidados a conferir mostram que tanto a Netflix quanto a produção local tem muito o que ganhar, e que levantará muitos debates com está história.

A história se foca na escrivã da polícia Verônica (Tainá Muller), filha de um policial que tem um passado conturbado, e que acaba presenciando uma morte que a faz se envolver diretamente na investigação de um predador sexual. Ao mesmo tempo, este envolvimento acaba levando ela a conhecer Janete (Camila Morgado), que se sente culpada pelas ações do marido, o tenente coronel Brandão (Eduardo Moscovis). A partir daí a história se desenvolve em dois núcleos que começam a se entrelaçar.

Antes de começar a de fato analisar os poucos episódios que tivemos acesso, essa série não é para todos. Ela segue a mesma linha que 13 Reasons Why trouxe na primeira temporada, lidando com temáticas delicadas, muitas vezes situações gatilho para muitas pessoas, e não é para quem tem estômago fraco.

Já começo, então, a comentar que após diversas produções nacionais feitas pela Netflix, Bom Dia Verônica é a aquela que temos a maior sensação de que o segmento de série descobriu sua forma de construir e contar história. Algo que não seja uma cópia do modelo estadunidense em construir histórias seriadas, muito menos que se assemelhe com a nossa clássica forma de contar em forma de novela, ou a cópia das produções da HBO, que tem seu próprio modelo regional. Os episódios tem um ritmo que mistura os dois tipos mais generalistas – entre a série estadunidense e as novelas brasileiras -, sem passar a ideia da narrativa ter como base uma forma ou a outra, mas que é algo entre as duas que constrói o interesse em continuar acompanhando seu desenvolvimento.

O desenvolvimento da história ainda ganha mais camadas ao acompanharmos a vida pessoal, tanto de Verônica, quanto de Janete, e criamos uma grande empatia com elas – mesmo que uma seja um pouco mais complicada – e essa empatia é o cerne da mensagem implícita destes episódios. Quando os casos de abuso doméstico, e violência contra a mulher, é notável a falta de empatia dos policiais, e ainda piora essa sensação ao ouvirmos de uma policial mulher, e é vindo da própria Verônica a empatia que faltava nestas conversas, não colocando a vítima no papel da acusada, mas sim de vítimas.

A série começa com um grande soco na cara, algo inesperado, e tão chocante que pensamos “não terá mais nada que me surpreenda”; aí chegamos no encerramento do episódio e percebemos que estávamos enganado; aí chegamos no segundo episódio, e percebemos que falamos cedo demais. Todas as revelações são colocadas de uma forma a não ser tão óbvia, e isso deixa a história mais imersiva e instigante. Até mesmo surpreendente, quando enfim descobrimos mais sobre os personagens, e suas histórias e manias.

Bom Dia, Verônica começa de uma forma surpreende e inesperada, e desenvolve sua narrativa sem pressa, revelando aos poucos os perigos desta investigação, e se torna algo pessoal, e reforça – de forma bem subjetiva – a necessidade de empatia para evitar perdas irreparáveis. Ela constrói no seu tempo as camadas das personagens principais, e deixa no ar o debate destas questões delicadas na sociedade.

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