Enola Holmes

www.robertviglasky.com

Quem não cresceu lendo as histórias dos casos solucionados pelo detetive Sherlock Holmes, provavelmente já deve ter ouvido o básico do personagem criado por Sir Arthur Doyle. O investigador nada ortodoxo tem inúmeras versões literárias, cinematográficas e seriadas, já que parte da obra de Doyle está em domínio público, e vez ou outra o sobrenome Holmes surge em uma produção audiovisual como sinônimo de um personagem perspicaz e extremamente inteligente. Com toda a certeza o sobrenome Holmes agora seguirá a seguinte pergunta: Sherlock ou Enola? Chega na semana que vem (23) o filme original Netflix, Enola Holmes, baseado no primeiro romance da personagem, escrito por Nancy Springer; o longa entrega uma história moderna sobre liberdade e individualidade, além de inserir o mundo de investigação e mistério conhecido de Sherlock Holmes em um formato leve e juvenil.

Criada para ser independente, Enola Holmes (Millie Bobby Brown) vive com sua mãe, Eudoria Holmes (Helena Bonhan-Carter) na mansão Holmes. Seus irmãos mais velhos, Mycroft (Sam Cliffin) e Sherlock (Henry Cavill) seguiram suas vidas na política da Grã-Bretanha e na investigação policial, respectivamente. Vivendo cercada de desafios para aprimorar sua inteligência, força e determinação, no dia de seu décimo sexto aniversário, Enola percebe que sua mãe desapareceu, e agora, a guarda dela passa para seu irmão mais velho, Mycroft, que deseja uma vida mais conservadora para a jovem irmã. Mas contrariando seus irmãos, Enola foge para ir atrás de sua mãe, e acaba descobrindo algo maior do que a busca por sua família.

Já começo está análise dizendo que o filme, que desde seu anúncio vinha sendo cercado por polêmicas sobre os direitos autorais do personagem Sherlock Holmes, já surpreende pela sua narrativa e construção da personagem principal, e que os personagens coadjuvantes são tão interessantes e bem desenvolvidos na medida que não ofusque Enola, mas que sirvam como acessórios para construir mais de sua personalidade e persona. Aliado a uma ótima direção de atuação, a história – que de uma forma simplificada – pode soar bem clichê e muito fraca (por falta de outro termo), consegue entregar uma história divertida e carregada de significados importantes, como posicionamento feminina numa sociedade conservadora e majoritariamente masculina, e que sabe inserir momentos cômicos e momentos de mais ação sem parecer exagerado.

Millie Bobby Brown, que já havia roubado o coração das pessoas ao despontar como a Eleven em Stranger Things, em um papel mais focado num drama de fantasia adolescente oitentista, e que esteve num papel mais dramático no quase esquecível Godzilla (2018), em Enola Holmes conseguimos ver outra faceta de sua atuação: seu timing cômico. Utilizando do já conhecido quebra da quarta parede, o roteiro utiliza muito bem deste recurso, para construir a personalidade mais contemporânea de Enola, uma jovem destemida, inteligente, sarcástica e muito sagaz, sem exagerar na mão e parecer que a personagem está narrando suas ações para a câmera. É quase um canto da sereia toda vez que Enola olha para a câmera, que esperamos alguma frase ou olhada que dá mais personalidade para a personagem, ou para a própria história, e ficamos vidrados, e esperamos pela próxima olhada na câmera por parte da personagem.

Como mencionei anteriormente, os personagens coadjuvantes não são descartáveis, o roteiro sabe bem utilizá-los para contribuir – mesmo que em uma ínfima parcela – na persona da protagonista, e seus personagens são tão interessantes quando a protagonista. Mycroft cria a tenção do vanguardismo versus o progressismo da Enola; Sherlock constrói uma relação mais afetuosa e quase de respeito pela engenhosidade e sagacidade de sua irmã mais nova, beirando a uma proteção igual a que sua mãe dava a ela. Lord Tewksbury (Louis Partridge) é o “interesse amoroso” de Enola, com várias aspas, já que esse sentimento por mais perceptível aos olhos não é explorado, sendo ele quase o principal caso que Enola resolve junto com o desaparecimento de sua mãe.

Ainda temos a sombra de sua mãe que aparece em flashbacks ensinando sua filha a ser independente. Personagens avulsos – sim, temos personagens avulsos – que mesmo que aparecem um ou outra cena, acrescentam na construção da história e principalmente para Enola. O longa ainda se posiciona num momento importante para o Reino Unido, e como qualquer analogia cinematográfica ou seriada, cria relações com o mundo atual, e permeia questões sociais e políticas tão atuais que só temos o ótimo trabalho do figurino e design de produção que nos transporta para o final do século XIX londrino.

Enola Holmes é uma surpresa do início ao fim, seja o trabalho de atuação dos personagens, o contexto histórico que estamos inserindo e como ele conversa com a personagem título, e como sua personalidade se molda ao desbrava o mundo sozinha, enquanto busca o paradeira de sua mãe, e como ela sozinha provocará uma grande mudança para a sociedade britânica. Enola Holmes ainda consegue trazer questões sociais sobre equidade de gêneros, e mesmo que seu roteiro seja simples, divertido e leve, o longa fala sério nas suas entrelinhas com eficácia.

Enola Holmes

Enola Holmes
4 5 0 1
Quando sua mãe desaparece em seu aniversário de 16 anos, Enola procura a ajuda de seus irmãos mais velhos. Mas assim que ela percebe que eles estão menos interessados em resolver o caso do que mandá-la para o internato, Enola faz a única coisa que uma garota esperta, cheia de recursos e destemida em 1880 faria. Ela foge para Londres para encontrá-la. Encontrando diversos personagens memoráveis pelo caminho, Enola se acha no meio de uma conspiração que pode alterar o rumo da história política
Quando sua mãe desaparece em seu aniversário de 16 anos, Enola procura a ajuda de seus irmãos mais velhos. Mas assim que ela percebe que eles estão menos interessados em resolver o caso do que mandá-la para o internato, Enola faz a única coisa que uma garota esperta, cheia de recursos e destemida em 1880 faria. Ela foge para Londres para encontrá-la. Encontrando diversos personagens memoráveis pelo caminho, Enola se acha no meio de uma conspiração que pode alterar o rumo da história política
4/5
Total Score
Related Posts