Le Bazar de la Charité | 1ª Temporada

Mini-série francesa, com apenas 8 episódios, Le Bazar de la Charité, aqui no Brasil intitulada “Chamas do Destino” chegou em dezembro de 2019 na Netflix, é uma ficção histórica com base em acontecimentos reais do grande incêndio do “Bazar de la Charité” que ocorreu em Paris em 1897. Desastre esse que matou 126 pessoas e deixou centenas feridas.

Usando esse acontecimento como pano de fundo para a construção da narrativa, a série vai contar a história de três mulheres: Adrienne (Audrey Flerot), Alice (Camille Lou) e Rose (Julie de Bona), que enfrentam dilemas que as forçam a tomar decisões drásticas afim de defender aqueles que amam.

Eu vivo um dilema quando se trata de séries de época, porque ao mesmo tempo que eu amo, porque fala de costumes passado, eu também detesto pelos mesmos motivos. Não que hoje tudo seja flores, mas o patriarcado e o machismo naquela época eram absolutos. Eles detinham o poder estrutural e era tão enraizado, que é agoniante de ver em tela. Não que não vivenciamos isso no nosso dia-a-dia, no entanto, hoje, ao menos nós podemos responder a altura (ou só meter o socão mesmo).

Então quando assisto séries como esta, eu praticamente surto a todo momento com as situações machistas que as protagonistas passam, e que infelizmente fez parte da história, e nesta série em especial, foi ainda pior, porque retrata um acidente que ocorreu na vida real, e e então fui pesquisar para saber mais, e é registrado oficialmente que grande parte das vitimas foram mulheres, e parte da explicação sobre esse motivo, foi porque os homens aristocratas que circulavam no local as empurravam, ou batiam nelas com suas bengalas, e passavam por cima de seus corpos para poderem sair do local.

O primeiro episódio retrata exatamente este acontecimento para o desenrolar do enredo, e os produtores reproduziram as sequências de cenas com exatidão. É possível ver mulheres sendo jogadas ou empurradas para o fogo, mulheres sendo mortas pisoteadas e coisas semelhantes, enquanto os homens covardemente fugiam do local sem prestar socorro. Esta série tem um dos melhores e mais fortes pilotos que já vi em televisão. Não dá para descolar o olhar da tela nem por um momento sequer. A forma como este incêndio nos é mostrado é magnífica. Tudo começa devagarinho, quase sem razões para preocupação, mas o sentimento de apreensão começa logo a surgir. Tudo é construído de forma a nos deixar com a tensão à flor da pele. Quando o incêndio deflagra a sério, é o caos. É assustador em termos humanos, mas brilhante em termos televisivos.

Entre os personagens tem um que se chama Julien, e eu devo dizer que o trabalho do ator Théo Fernandez ficou excelente porque é impossível o espectador não odiá-lo, e ele – o Julien – é o pior tipo de ser humano que existe: covarde e mentiroso, e para melhorar ainda mais, ele é um dos homens que além de não prestar socorro, quase matou uma das mulheres ao joga-la no fogo. E ele é noivo da Alice, uma das protagonistas. Noiva cujo ele deixa no meio das chamas, para salvar a própria pele.

Pois é.

Alice acaba se apaixonando pelo seu salvador, Victor (Victor Meutelet), que entrou no meio das chamas para salvar não só a ela, mas a várias outras moças que ficaram presas dentro do galpão. Mas se vê obrigada a casar com Julien, o cara que a deixou pra morrer e fugiu, porque a família faliu devido a imprudência dos investimentos que seu pai fez. Victor, que faz parte de um partido que é oposição à aristocracia, é acusado de atentado terrorista por suspostamente colocar uma bomba que causou o incêndio no bazar.

Temos também a Adrienne, cujo o casamento é um desastre, e preste a pedir divórcio, o marido tira-lhe a filha, e ela tem a brilhante ideia de usar o incêndio, cujo o evento ela não estava presente, pois foi encontrar o amante as escondidas, como desculpas para fingir que morreu, e pegar a filha de volta para fugir para Londres. Mas as coisas não saem exatamente da forma como ela planeja, e no fim, para conseguir escapar do marido ela se vê em meio a uma trama muito maior do que ela esperava.

Confesso que pra mim, o arco de Adrienne é sem dúvida o meu favorito, já que envolve drama investigavito, e eu acho curioso como os policiais e investigadores precisavam se desdobrar para resolver um crime, em uma época em que os recursos de analises e a medicina ainda era bem limitada.

E por ultimo temos a Rose, ela era dama de companhia e melhor amiga de Alice, e ficou extremamente ferida por causa do incêndio, e durante o caos das famílias que estão reconhecendo os corpos queimados, e também os feridos, ela é sequestrada por uma madame, e por dias ela fica presa enquanto está ainda muito ferida. Quando sua confusão por causa das dores e da morfina finalmente passa, ela recebe uma propósta, fingir ser a filha morta da madame, e como ela ficou muito disfigurada por conta das queimaduras, ninguém questionaria sua identidade. O único problema é que Rose é casada e está grávida de seu marido, que pensa que sua mulher está morta. E para sobreviver a isso, ela vai se colocar em uma situação muito complicada.

Toda a série é uma retratação de três mulheres que estão em situações complicadas, mas que se mantém muito fiel a elas mesmas e suas convicção, sem perder de vista aquilo que querem, mesmo tendo que sacrificarem algo no caminho. Todo o roteiro é bem escrito, e apesar de ter romance e drama, ele se contrói de forma certeira ao criar um jogo político em meio a confusão do incêndio, e sua verdadeira causa.

É uma série linda, retrata uma Paris belíssima do século XIX, e não só os palácios da aristrocacia local, mas também a periferia da cidade. E é claro, o componente histórico não falta, já que nessa época a morte por guilhotina ainda era uma forma de condenação bastante comum, e usada de forma muito leviana, considerando que muitos casos eram julgados sem provas concretas.

No demais, é uma série retrata sobre discussões relevantes e sempre pertinentes. Um retrato mágico de uma Paris em meio de uma época cheia de histórias memoráveis, e sobre como um incidente trágico pode alterar os rumos de pessoas, e sobre como elas precisam reaprender a viver em meio a uma sociedade que julgava conhecer tão bem.

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