3%

Chegar ao final de qualquer jornada é a sensação quase invisível de todos que acompanham a mesma, mesmo que o fatídico “a jornada é mais importante que seu final” esteja certo, encerramentos podem desvalorizar toda uma excelente jornada até então. Séries que são muito bem construídas desde sua primeira temporada podem ganhar uma má reputação se seu final – ou sua reta final – for cheia de furos, incoerências narrativas e soluções mirabolantes para entregar um final a seu público (vide Game of Thrones). A primeira série brasileira da Netflix, 3% teve uma jornada bem consistente ao longo de seus quatro anos, e chega a sua última temporada, com alguns tropeços, mas de forma satisfatória, entregando uma história de empatia em sociedade.

Após os eventos da terceira temporada, os habitantes da Concha são convidados pelos Maralto para negociar uma troca entre os militares da divisão que foram capturados após descobrirem a sabotagem da comandante Marcela (Laila Garin) contra a Concha. Mas essa visita diplomática é fachada para um plano de sabotagem contra o próprio Maralto, que acontece simultaneamente com um novo processo, agora antecipado e ainda mais violento do que os outros processos, comandado por André (Bruno Fagundes), irmão de Michelle (Bianca Comparato).

Por ser a última temporada a série se propõe a entregar pontos finais. Seja para personagens, seja para arcos e ideais, e trabalha quase que metade da temporada planos mais politizados e estratégicos, com todos os grupos sendo inimigos de todos: os líderes da Concha divididos em dois grupos, o conselho do Maralto, a força militar da Divisão comandada por André, o novo grupo de jovens que entram no processo. Os quatro primeiros episódios se focam nas estratégias de cada grupo em formar alianças frágeis com certos grupos para acabar ou neutralizar o poder de um terceiro, e é nesta movimentação que a série parece a certo ponto confusa, pela dimensão de alianças.

Essa confusão, por mais que tenha uma ideia negativa – principalmente quando analisamos uma história – é na verdade um ponto alto, já que está temporada se foca mais em abordar questões sociopolíticas e como elas afetam sociedades em crise – a arte imitando a vida? – o que prepara a história para seu arco final. Final este que é uma montanha russa de acontecimentos para chegar ao desfecho, e neste momento se perde na realidade do mundo distópico que se encontra para enfatizar o mérito na sorte e estratégia de uma competição.

A mensagem principal que a série entrega é a construção de uma sociedade mais democratica, onde todos tem voz, e ninguém está acima de ninguém. Uma mensagem bem pertinente para a atual situação do nosso país. Nisto a série usa e abusa do “retrato da época” que ela se insere: produção brasileira que fala sobre meritocracia, elitização da sociedade e privilégios por uma parcela da população.

Por mais que seja uma temporada satisfatória, os arco de alguns personagens não são tão bons, ou ficam mal resolvidos: Marco (Rafael Lozano) tem um capítulo para abordar todo o ciclo que sua família tem nesta sociedade, e traz um final “poético”; Michelle que é a protagonista da série, tem uma conclusão boa, após realizar seu objetivo primário; Rafael (Rodolfo Valente) acaba ficando mais em segundo plano, posicionado mais como braço direito de Joana. Personagens secundários que ganharam notoriedade tem suas histórias resolvidas rapidamente.

Joana é a personagem que ganhou mais protagonismo desde a primeira temporada e ganha espaço como uma força solitária, e que tem na primeira metade desta temporada questões com seu passado que busca sua origem, mas que apenas é uma ferramenta para nebular suas decisões, e dá a ela no final um protagonismo ainda mais forte. Já o antagonista da história, André, termina como o fanático ditador que quer controlar a sociedade na sua ilusão de ser escolhido do Casal Fundador, e tem um final muito bom.

3% pode não ter um final de temporada tão coeso ou grandioso – sério, finalizar com um jogo de adivinhação e lógica para decidir quem governa? – mas que todo seu legado é visto hoje como o pontapé inicial para produções locais, e que o mundo começa a conhecer outras histórias brasileiras, e também até o Brasil conhecer a sua forma de contar histórias. Tudo bem que já importamos inúmeras histórias, já temos produções de outros estúdios, mas a importância de estar na Netflix, a maior plataforma de streaming do mundo, abre portas para nós conhecermos como produtores de histórias e para o mundo conhecer nossas histórias e ideias.

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