Snowpiercer – O Expresso do Amanhã

Uma adaptação, por si só, já é uma tarefa bem difícil. Não apenas pegar uma história que já exista em uma mídia, e transpô-la em outra mídia, com o cuidado de fazer com que certos elementos característicos sejam adotados no processo para fazer sentido e ainda que faça com que funcione na nova mídia. Agora adaptar uma obra que já foi adaptada para outro veículo de mídia é uma tarefa bem desafiadora. Snowpiercer chega com essa tarefa de apresentar os conceitos que sua obra original trouxe, em uma outra mídia, que de foca mais no desenvolvimento dos personagens, diferente de sua adaptação para o cinema, e chegou ao seu final em território nacional pela Netflix.

Em Snowpiercer, ou como foi traduzido para o Brasil, Expresso do Amanhã, segue a sociedade pós-apocalíptica do trem de mesmo nome, que tenta sobreviver em uma configuração de castas, privilégios e poder enquanto a Terra sofre com uma era glacial causada pelos mesmos humanos que levaram ao aquecimento global. Só este resumo bem superficial carrega inúmeras críticas sociais e já percebemos quais os temas que vamos encontrar ao dar play nos dez episódios. Sim, vamos falar sobre política, clássica artimanha de enredos pós-apocalípticos. Sim, vamos falar de meritocracia e desigualdade social quando o poder fica concentrado na parte mais rica. Sim, vamos falar a mente humana e suas camadas, já que estamos vendo uma sociedade confinada numa gigantes gaiola metálica com 1001 vagões.

Mesmo que tenhamos estes assuntos pertinentes – e vários outros – a série se limita a desenvolver mais uma trama policial, principalmente em sua primeira metade, mesmo que orbite neste centro os temas de classes sociais e privilégios sociais. Fica até obscurecido esses temas, mas que perde sua posição dentro da narrativa quando o MacGuffin se resolve como algo rápido e ainda apresenta um antagonista fraco e sem grande impacto. Isso acarreta num problema vigente da história de Snowpiercer: muitos personagens que alimentam a narrativa de classes e privilégios sociais mas que são facilmente descartados – no sentido visceral, as vezes – ou esquecidos e mal desenvolvidos.

A principal força da série se encontra na segunda metade, quando acompanhamos de fato, a revolução das classes, e nem que seja pelas cenas bem elaboradas de guerra, sangue jorrando a torto e direito, mas como as engrenagens do Snowpiercer é desigual e aqueles que estão no poder ou numa classe acima querem manter este poder e seus privilégios, enquanto aqueles que foram subjulgados querem uma sociedade mais igualitária. Pode até ser algo como discutir uma sociedade monarquia versus uma anarquia, versus um comunismo, chegando numa possível democracia utópica, onde o povo tem plenos poderes de como gerir a sociedade. Não sou um cientista político nem um daqueles que discute fervorosamente sobre política, mas a série traz questões pertinentes e importantes, que foram subutilizadas na série, já que metade se importou mais em uma história de investigação policial.

Assistir Snowpiercer é como ir numa montanha russa: existem altos, existem baixos, e existem caminhos nivelados. A série não tem uma consistência mais unitária, cada personagem parece algo independente, que não se move com a narrativa principal, e isso acaba desacreditando em vários sentidos certas atitudes dos personagens, ações e até escolhas. Outros chegam a ser caricatos demais, como o caso da LJ (Annalise Basso) e do Osweiller (Sam Otto), que acabam não convencendo de sua psicopatia e egocentrismo exacerbados.

No protagonista, Layton (Daveed Diggs) tem os elementos básicos de qualquer herói, mas que falta muitas qualidades que fazem do herói um modelo a se acreditar. E isso é compensado pelos coadjuvantes que o cercam, e tem na principal antagonista, Melanie Cavill (Jennifer Connelly) um sobrepeso para todos os peosnagens. Enquanto cada personagem tem sua construção bem definida, falta algo para que suas ações tenha um motivo, e é Melanie que dá este contraponto para todos: Layton tem em Cavill a ordem das classes e suas divisões que ele deseja quebrar; Ruth (Alison Wright) um modelo a se seguir até certo ponto onde ela rompe relações para assumir o controle, quando os limites precisam ser extrapolados; para todos os personagens da Terceira classe, que quer “quebrar a roda”, ou aqueles que querem obter o controle do Snowpiercer. Melanie é um contraponto que funciona em todas as resoluções e configurações, sendo até mais interessante ver suas ações do que as artimanhas dia Fundistas para obter mais recursos de sobrevivência.

Snowpiercer se adapta mais uma vez para os moldes da TV, mas a sensação que fica é que focar no desenvolvimento de personagens precisa ter uma mão cirúrgica: poucos personagens pode ser desinteressante mais mais efetivo desenvolvê-los; muitos personagens traz uma trama mais complexa mas mais diversificada, e numa história de dez episódios pode ser que muitos personagens não tenham tanto tempo para apresentar camadas que levem ao desenvolvimento da narrativa principal. A série ainda levanta discussões sociais e políticas pertinentes a qualquer configuração atual, deixa um pouco de lado questões de ética e limites ultrapassados por qualquer situação, se perde na primeira metade como uma série de investigação policial bem sem graça, deixando para seus últimos episódios o que a série deveria ser desde o início, mesmo que a justificativa para ter o Fundistas líder na frente se arrastasse tanto quanto foi está temporada.

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