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Warrior Nun

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Religião, futebol e política não se discute! Essa frase é bem conhecida por muitos. Elas envolve posicionamentos, criação da pessoa e gostos. Mas sempre movimentam a indústria do entretenimento – e real até – criando discussões, utilizando alegorias e movimentando mais o imaginário das pessoas e criando novas discussões. Agora misturar freiras, um grupo devoto da fé como guerreiras, pode atiçar o imaginário ainda mais. A adaptação da Netflix Warrior Nun traz os clássicos clichês do exagero de colocar a figura religiosa como uma força bélica, numa série jovial, que equilibra a ficção e trata de assuntos sérios sobre fé e aceitação, sem pregar a doutrina religiosa, ou teorias científicas.

Baseado nos quadrinhos Warrior Nun Areala, Warrior Nun recria a história dos quadrinhos ao estilo mangá, com uma nova personagem, a sucessora da Irmã Shannon, Ava (Alba Batista), uma jovem que estava em seu leito de morte, quando recebe o Halo sagrado que lhe concede poderes sobrenaturais que lhe ajudam no combate de criaturas infernais que vagam pela Terra. Mas uma vez de volta a vida, e com seus movimentos curados, Ava tem uma jornada de aceitar seu novo destino, enquanto tenta aproveitar sua nova vida ao máximo.

Em dez episódios, a série acaba prendendo sua atenção pela forma simples de tratar de assuntos bem particulares, ao mesmo tempo que exalta o elemento jovem da série, mas isso é parte da construção da personagem principal. Pode até parecer superficial demais, e até rotular a série como mais uma série teen que pipoca na platfaorma, mas essa parte da personalidade de Ava cria empatia com os telespectadores, e isso abre espaço para personagens mais caricatos de se relacionarem com o público, mesmo que seus arcos sejam com os dois pés na ficção.

Por ser uma série de ação, as cenas de luta são bem coreografadas, mesmo que a edição tenha muitos cortes, e isso acabe perdendo um pouco a emoção da cena, mas elas são muito bem dirigidas e são uma ótima fonte de adrenalina na trama. Já na parte técnica, a série sabe bem entregar visuais deslumbrantes, com uma fotografia bem criativa, seja nas cenas mais introspectivas, seja nas cenas de mais ação.

Ambientar a série na Espanha pode ser esquecível, até porque a maior parte do tempo ouvimos o inglês dos personagens, com vez ou outra ouvindo o espanhol, italiano, algo como português chegando até ao latin, não podendo faltar numa série que tem igreja católica como palco da trama. Somos colocados de volta a Espanha quando vemos mais das cidades provincianas, figurantes falando sua língua natal, ou algo que seja segredo entre personagens.

A série consegue trazer discussões clássicas que a religião está envolvida: já começando pela figura feminina como protagonista; a clássica discussão religião versus ciência; sexualidade; mas nenhuma pende para nenhum lado, e não prega o lado certo, ou o lado errado. Não chega nem a doutrinar os ensinamentos católicos à cerca deste assunto, mas apoia a necessidade da religião aliada a diversos assuntos. Um detalhe muito bom da série são os títulos, que são trechos da Bíblia, e esses trechos dão um spoiler leve do que esperar do episódio, sem revelar grandes viradas da história.

Quanto a construção de personagens a série ainda deixa algo bem superficial, não tendo um grande desenvolvimento, aprofundando o necessário para construir a história da série. Existe a conexão com a protagonista em primeiro plano, mas depois cria está conexão conhecendo melhor os personagens na segunda metade da temporada, e criamos também empatia com o Padre Vicent (Tristán Ulloa), Shotgun Mary (Toya Turner), e Lilith (Lorena Andreas), mas deixa outros personagens esquecidos, principalmente depois da metade da temporada.

Warrior Nun deixa um gosto amargo no final – se você assistiu, saberá o que é – mas esse gosto é porque ele constrói a história, cresce pouco a pouco, faz você se interessar pela história e apegar com as personagens, e quando chega no final o gosto é que se conclua essa fase, o que não chega da forma esperada, mas isso mantém o interesse na história. A primeira temporada apareceu como uma surpresa, que não era esperado ser uma história séria, pode do ser mais uma das inúmeras séries que chegam dia após dia na plataforma, mas se sobressai pela sua personalidade despretensiosa e leve.

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Warrior Nun (1ª Temporada)

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Criando um imaginário de guerreiras contra as formas do mal, Warrior Nun cria empatia com o telespectador aos poucos, com uma narrativa despretensiosa - e até despreocupada - mas que pela simplicidade e facilidade de se conectar com a protagonista e nos importamos com sua história faz acompanharmos até o fim, deixando um amargo na boca num final aberto, e numa história sem doutrinação sobre fé

  • Personagens relacionáveis
  • Belas ambientações
  • Alegorias católicas bem posicionadas na narrativa
  • Títulos criativos e cheios de spoilers leves
  • Levantar discussões sem doutrinar nenhum dos lados como o certo
  • Final aberto que deixa a sensação de indignação
  • Personagens facilmente descartáveis
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