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Dark

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Finais de grande sagas são delicadas. Quando uma franquia constrói durante um longo período de tempo seus personagens, suas histórias, os enredos e alegorias, conquistando fãs ao redor do mundo, é de se esperar que seu desfecho, por mais doloroso para fãs, seja tão grandioso quando a jornada. Senhor dos Anéis, Harry Potter, Breaking Bad, Game of Thrones, Jogos Vorazes, Star Trek, todos eles e muito mais moveram grandes públicos numa jornada memorável, onde o final pode mudar tudo, ou consolidar a franquia oi destruí-la. Dark, a primeira série alemã da Netflix estreou em dezembro de 2017 como quem não queria nada, não teve grande alarde, trailers saindo torto e a direito, posters, fotos de produção tomando conta dos noticiários de entretenimento, mas sua fama e sua presença foi-se tornando maior com a medida que pessoas descobriam seu conteúdo naquele final de ano, e indicavam para mais pessoas, e isso cresceu a ponto de ser uma das melhores séries da plataforma, que chega a seu fim – ou seria começo – no dia do Apocalipse definido pela sua história em seu terceiro ciclo, e entrega nada menos que um final muito satisfatório, sem a necessidade de ser grandioso.

Primeiro, uma opinião bem pessoal: viagem no tempo é um artificio narrativo bem delicado. São poucas histórias que conseguem desenvolver e construir narrativas com viagem no tempo sem cair nos erros paradoxais. Dark é um dos poucos destas histórias que consegue lidar com viagem no tempo sem criar divergências em suas histórias. A terceira temporada chega sem a necessidade de explicar diversos termos já conhecidos, uma vez que tivemos duas temporadas aprendendo na prática dos personagens, sobre causa e efeito através de pornôs na linha temporal; parece até que a série tinha mais duas temporadas para ser explorada, mas que em apenas oito episódios, a história tem uma conclusão satisfatória, não precisando ser tão grandiosa.

Até o momento do início deste ciclo, a história se galgou no tempo: quando as coisas aconteceram, sempre construindo as ações com causa e efeito ao longo dos períodos temporais. Com a chegada de uma nova Martha (Lisa Vicari), o questionamento da série rumou para em qual mundo, abrindo a possibilidade da discussão da própria narrativa sobre realidades paralelas. E sempre o questionamento de realidade paralelas, ou mundos paralelos surgem com viagem no tempo, e neste ponto, a série constrói uma base bem didática ao longos dos episódios desta temporada que não fica massante para o telespectador, nem complicada demais para leigos.

A temporada abriu neste final de temporada a possibilidade de ver uma outra possibilidade. Esse novo mundo, chamado de Mundo B, é construído de tal forma que rearrange os personagens conhecidos em um novo contexto, partindo do pressuposto que Jonas (Louis Hoffman) não seja o viajante principal a qual a história de todos circundam, mas sim Martha, seu interesse amoroso que é morta no Mundo A, para que o caminho que Jonas trilhe culmine em Adam (Dietrich Hollinderbäumer). Assim o roteiro reconta a história que conhecemos das duas primeiras temporadas sob uma nova perspectiva, que não é cansativa, pois ela é direta em abordar apenas o principal para desenvolver a série até seu clímax. Lógico que com um rearranjo de situações, personagens que já conhecemos tendem a novas características, mas que são apresentadas de forma efetiva, sem desperdiçar tempo construindo em diversos episódios, e alguns personagens neste novo mundo, acabam tendenciando aos mesmo erros que cometeram no Mundo A.

A série se mostrou em suas duas temporada pavimentada nos detalhes, enquanto o drama familiar ganha proporções novelísticas, e tem um desenvolvimento bom, o mistério fica guardado quando envolvemos a viagem no tempo, esses dois mundos são amarrados pelos detalhes. Seja uma foto, um colar, um gesto, uma fala, os detalhes são tão mais importantes quando a própria história de crescimento e desenvolvimento dos personagens e da trama. E na última temporada são os detalhes o principal elemento que nos levam ao clímax da história. Então se você acha que olhar as notificações do celular por apenas cinco segundos é o suficiente para não perder nada, neste ciclo se você perder um segundo de uma sequência de frames Sem áudio ou imagens que parecem desnecessárias, você perdeu toda a história. Até os fãs mais engajados da série precisam voltar cenas para dar atenção a pequenas situações e objetos que ficam no enquadramento pois isso muda completamente o entendimento da história.

Se já não bastasse a complexidade do que Dark aborda, ainda temos inúmeros personagens. São quatro famílias, fora personagens avulsos que aparecem, e uma coisa que se mantém desde a primeira temporada é a qualidade do roteiro conseguir gerenciar tantas histórias e arcos de personagens sem se tornar cansativa ou termos aquele personagem menos interessante que questionamos sua existência para o desenrolar da história. Mas como ao longo dos anos, a história soube gerenciar bem cada narrativa, dando a alguns personagens seu fim na segunda temporada, e deixando uma parte para ter sua conclusão na última temporada, usando personagens que já tinha sua conclusão apenas como um catalisador para outros fins.

A última temporada ainda guarda a surpresa de aprofundar mais a personagem Martha, que por ser o interesse amoro do até então protagonista da série, era vista mais como uma coadjuvante, sem grande papel dentro da história principal. A terceira temporada então abre espaço para construir a Martha como protagonista, utilizando o recurso do novo mundo, colocando-a como principal elemento para movimentar o apocalipse no seu mundo. Além disso, a química da atriz com o ator que faz Jonas é muito melhor sentida nesta temporada, deixando claro que a história deles ganha maior destaque e mais camadas quando temos uma Martha muito mais ativa dentro da história.

Dark encerra seu último ciclo por cima. Conclui história de personagens que estavam com o destino em aberto, instiga a curiosidade do telespectador em conhecer mais sobre paradoxos temporais, trás uma sensação de cria e teorias sob uma história seriada, que discute das coisas mais mundanas as mais acadêmicas, e ainda entrega uma jornada complexa sobre filosofia, física, ética, psicológia, entre outros. Com a revelação final da história, mesmo que não se sinta a grandiosidade como em outras franquias, ela é tão ou mais satisfatória por ser simples e muito tocante, e deixa na história das séries e filmes sua marca própria, abrindo os olhos do mundo para produções seriadas que fogem do circuito EUA-UK.

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Dark (3ª Temporada)

9.5

Conduzindo seu último ciclo, abrindo caminhos para mundos paralelos, Dark consegue administrar bem a construção, desenvolvimento e rearranjos deste novo mundo em poucos episódios, partindo do conhecimento básico que já se tem do mundo apresentado nas duas primeiras temporadas. Seu final ainda abre espaço para aprofundamento da personagem Martha, grande destaque desta temporada, que funciona tanto como um contraponto do protagonista Jonas, como uma personagem única em sua própria jornada

  • Final mais que satisfatório, sem precisar exagerar
  • Desenvolvimento construído nos detalhes em cena e falas
  • Destaque para Martha, que ganha camadas mais interessantes nesta temporada
  • Transição de mundos e períodos de tempo eficazes
  • Narrativa que prende a atenção segundo a segundo
  • Fechamento de ciclos e histórias de todos os personagens bem pontuados, beirando a finais poéticos
  • Continuidade nos detalhes (cicatrizes que se movimentam no rosto dos personagens)
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