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Little Fires Everywhere

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Edna Moda uma vez falou que “há poucas coisas mais heróicas do que ser pai, isso quando se faz direito”. Lógico que a personagem mais memorável de Os Incríveis mencionava o trabalho mais generalizado de seu pai/mãe, mas todos concordam que esse é o trabalho mais complexo da vida, e mesmo que a consequência seja algo positivo, o pai/mãe sempre vai se questionar se não poderia fazer melhor, fazer diferente. Little Fires Everywhere, minissérie da Hulu que chegou ao Brasil pela Prime Video, discute as implicações de ser mãe, e como pequenos segredos aqui e ali, levam a um grande incêndio, e mesmo com boas intenções, esse trabalho é complexo.

Baseado no livro de mesmo nome de Celeste Ng, a história segue a vida de duas mães: Elena (Reese Witherspoon), uma jornalista da pequena cidade de Shaker e uma mãe do subúrbio; e Mia (Kerry Washington), mãe solteira e uma artista fotográfica que vive como nômade com sua filha Pearl (Lexi Underwood). Ambas guardando seus segredos, que acabam sendo revelados quando as duas se conhecem, e assim levam a reviravoltas que questionam até que ponto uma mãe leva para proteger, cuidar e educar seu filho.

De início, a série começa com um ar de mistério, mostrando a casa de Elena em chamas, e nos perguntamos “quem é o incendiário?” mas logo está pergunta se perde ao acompanharmos todo o percurso da história até este ponto derradeiro. E a série entrega um drama familiar típico dos anos 1990, trazendo questões sobre racismo, posição social, privilégios, atrelado a mentiras e omissões. E todo o ambiente da série acaba sendo um ponto importante para compreendermos diversas tomadas de decisões, uma vez que a história se passa em 1997, e vários trechos no cold opening de passando meses ou anos antes, para nos integrarmos a história que está em desenvolvimento.

Até é engraçado assistir, pois o pensamento mais atual acaba colidindo com as ações das personagens, e toda a ambientação acaba não sendo tão sentida, se não fosse elementos bem pontuais, como computadores de tubo, carros mais antigos, vestes bem características, que nos transportam para essa época.

Como já mencionado por alto, a série lida com diversas questões sociais, sendo os privilégios de classes sociais o principal ponto de partida, uma vez que do lado da família de Elena, o privilégio de serem caucasianos, loiros de olhos claros faz com que eles ajam como se o mundo tivesse que dar-lhes o que tem; por outro lado, Mia tenta criar sua filha como a própria diz, como se a pobreza fosse uma virtude. E esses pensamentos bem extremistas são amenizados ao longo de descobrimos os segredos que as duas têm.

Ficaria repetido se mencionasse a atuação tanto de Reese quanto de Kerry, pois sabemos que ambas são incríveis atrizes, e elas entregam aquilo que já conhecemos, e por serem produtoras executivas da série conseguimos presenciar que mesmo comandando a história e protagonizando como duas forças opostas, elas abrem espaço para novos talentos, que vem os principais destaques: tanto a Isabelle “Izzy” (Megan Stott) e Pearl têm cada uma um arco bem clássico de jovem adolescente dos anos 1990, mas que elas se sobressai pela atuação, já que a primeira acaba enfrentando questões de bullying atrelado a sua sexualidade, e a segunda quer saber mais sobre suas origens, em foco saber quem é seu pai, e cada uma acaba criando uma amizade com a mãe da outra.

Um dos pontos negativos da série é a falta de um aprofundamento de outros personagens, principalmente nos outros filhos de Elena, mesmo que eles ganhem seu tempo de tela, ainda é um desenvolvimento bem superficial: Lexie (Jade Pettyjohn) está se formando e pretende ingressar na faculdade, mas os meios para isso não é moralmente aceitável, aliado a outros desvios no caminho, acaba se resumindo a rainha do baile egocêntrica, popular e mimada; Moody (Gavin Lewis) é o cara legal que se apaixona pela garota nova, mas por ser mais introvertido não passa da friendzone – termo que até ganhou uma brincadeira dentro do roteiro – e mais uma vez é o clichê do amigo que fica a sombra do popular, que neste caso é seu irmão mais velho; já Trip (Jordan Elsass) é o clichê do jogador do colegial, que ganha destaque mais pro meio da série, mas já é tarde para desenvolver algo relevante.

A falta de diversos desenvolvimentos dos personagens secundários, também afeta o clímax da série, e pode ser mais pessoal, mas existe o episódio de transição que acaba não fazendo seu papel direito, simplesmente é jogado diversos acontecimentos que precisavam acontecer tudo de uma vez para a trama passar para o próximo nível, o que parece ser feito apressado. Tanto a fotografia da minissérie quanto sua trilha sonora tem pouco destaque, já que é uma bucólica cidade de Ohio, e diversas músicas dos anos 1990.

Little Fires Everywhere usa e abusa de sua metáfora ao trabalhar como duas mães com erros e acertos tentam criar seus filhos, e que mesmo acreditando ser o melhor, sempre acreditam que não é o suficiente, e também acaba conversando em uma camada bem fina como os filhos lidam com a pressão e com as escolhas de seus pais como cria-los, mesmo que no clímax seja algo faça sentido, faltou um cuidado maior em adaptar ou criar um desenvolvimento maior para outros personagens; suas protagonistas, Reese e Kerry, são o grande destaque, e mesmo que sua torcida vá para uma, vemos que nenhuma é perfeita, que ambas tem diversos defeitos, muito perceptíveis, e até mais do que qualidades, mas o foco da série é mostrar como a maternidade é um processo longo, difícil, continuo e não existe um modo certo de como deve agir para cuidar de seu filho.

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Little Fires Everywhere

8

Com um roteiro bem linear - mas com diversas falhas em seu desenvolvimento - Pequenos Incêndios Por Toda Parte discute maternidade, vidas construídas em mentiras, privilégio de classes sociais, racismo, e em menor grau sexismo e omissão, com um drama bem ambientado que consegue conversar com várias épocas, mas que precisa haver uma recolocação para compreender diversas ações datadas

  • Ótimas atuações das protagonistas, Reese Witherspoon e Jerry Washington
  • Boas atuações das atrizes mirins Lexi Underwood e Megan Stott
  • Ambientação datada mas que consegue conversar com atualidade
  • Abordagem de temas atemporais e questões sociais importantes
  • Destaque para o episódio seis e episódio piloto
  • Personagens secundários mal aproveitados ou sem grande desenvolvimento
  • Clichês clássicos que não são relevantes para a trama
  • Transição da história no episódio três
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