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See (1ª Temporada)

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O feito que a Netflix fez nos últimos anos fez muitos estúdios e empresas de entretenimento observarem um novo modelo de negócio muito lucrativo. As plataformas de streaming são hoje o que há algum tempo o que era a TV por assinatura, mas com o plus de ser mais acessível e mais “em conta”. Mas o caminho da gigante do streaming foi árduo, de tentativas e erros, até chegar no grandioso catálogo de originais e licenciados que possui; hoje, para um streaming despontar precisa de, no mínimo, alguns títulos originais fortes e de peso para chamar a atenção. A Apple TV+ se lançou com alguns originais que englobam diversos gêneros e públicos, mas um dos maiores lançamentos, o que a empresa aposta em seu lançamento, acaba de encerrar a primeira temporada com um saldo mais que positivo: See é a distopia que guarda em seu cerne analogias e metáforas humanas tão bem trabalhadas, que seu visual deslumbrante, além de ser irônico, encanta aqueles que foram abençoados pelo Senhor da Luz.

Após uma pandemia, a raça humana acorda num mundo novo, onde os sobreviventes agora encontram-se cegos. Após anos se readaptando a nova condição, a humanidade toma como pecaminosa o dom da visão, e regride em seu estilo social, se tornando meio tribal e meio reinado. Neste meio, duas crianças nascem com o dom da visão, e a rainha então os vê (é um trocadilho bem infame) como grandes ameaças as crenças atuais e seus generais começam uma caçada para eliminar os hereges. Ao mesmo tempo, elas crescem e precisam entrar numa jornada deixada pelo seu pai biológico, que também possui o dom da visão, e os quer em seu refúgio quando atingirem certa idade.

A série parece ser algo que já vimos. Um Lugar Silencioso tem uma pegada parecida, e também Bird Box: mundo pós-apocalíptico que um dos sentidos é privado. Mas aqui está a diferença. Tanto num filme, quanto no outro, o sentido ainda existe na humanidade, e cabe cada um se privar dele, ou se limitar para não sofrer qualquer consequência de perigos externos. Uma privação passiva. Em See, o sentido é literalmente privado, de forma ativa, e nenhuma ameaça extra-humana está presente. Não existe um monstro que se oriente pelo som, ou que sua visão provoque ataques naqueles que os olham. Apenas o bom e velho vilão de poder e controle sobre determinado povo, provocado por algum governante. Bem ao estilo Game of Thrones.

A série tem em seus diálogos ótimas referências e metáforas sobre a importância da visão, do conhecimento adquirido, do conhecimento passado de geração em geração, e como a privação da um dos sentidos, basicamente o principal, provoca uma regressão na construção da sociedade. Uma vez que não somos mais tão dependentes da visão, vários outros temas que hoje lutamos por igualdade, são inexistentes, enquanto que sem a visão, o conhecimento imortalizado em livros são esquecidos, e o grande ponto para discussão da série.

A história ainda abusa de fotografias dignas de Oscar, utilizando locais deslumbrantes para aqueles que encheram, seja como uma ironia do roteiro em que quando não se tem visão, a beleza da natureza toma conta de todo o mundo. Seja uma cachoeira, uma floresta, um platô, as decisões da direção de fotografia colocam See num patamar muito alto de qualidade visual, que não espantaria se ele for indicado a alguma premiação técnica relacionada.

Assim como o visual, a trilha sonora e todo som dentro da série é de suma importância. A própria sociedade que conhecemos na série se baseia no som, assim como os deficientes visuais, toda a sonoridade das cenas são bem pensadas para ter certos momentos um silêncio total, ou apenas uma música suave ao fundo, sem atrapalhará a cena principal.

É importante ressaltar neste artigo que para você curtir a série você precisa acreditar que os atores são realmente cegos. E a produção consegue trazer veracidade, tantos os mais conhecidos atores, como Jason Mamoa, Alfre Woodard, ou os menos conhecidos, passam a verdade que são cegos, e além disso, as próprias lentes que servem para dar essa impressão ajudam na construção e na imersão desta realidade. Até as coreografias das cenas de ação foram pensadas milimetricamente para passar a veracidade de serem pessoas cegas que aprenderam a se defender e a lutar utilizando os outros sentidos.

See é uma história que se desenvolve mais pela jornada de uma família, para o derradeiro destino de paraíso, e que encontra no caminho perigos e pessoas que vão colocá-los em outras trajetórias. A série ainda fala sobre desigualdade social, evolução da sociedade, ódio de um determinado grupo. E você sente que a cegueira é real e mais um elemento dentro da narrativa que te submerge na história de poder bem conhecido em outras histórias de drama fantásticas, com diálogos muito interessantes, e um cuidado especial para a imersão da narrativa com uma trilha sonora e tratamento sonoro aliado ao fato da condição da humanidade. Ela pode perder um pouco a força da história no meio, mas finaliza de forma surpreendente que você deseja que a próxima temporada já chegue na semana que vem.

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See (1ª Temporada)

8.5

Por mais que seja uma mistura de diversos outras narrativas, See de destaque pela originalidade de se desenvolver numa narrativa carregada de discussões sociais e insere a importância da passagem do conhecimento para futuras gerações, com personagens encantadores, e que consegue fazer o telespectador acreditar nesse mundo novo, onde a visão é vista como bruxaria e heresia, com ótimas cenas de ação e imersão da narrativa

  • Visuais encantadores e dignos de premiações
  • Ótimos diálogos sobre empoderamento, desigualdade, ódio por uma raça, e perpetuação do conhecimento
  • Imersão da narrativa eficaz
  • Trilha sonora e edição de som que são bem trabalhados para auxiliar na imersão da narrativa
  • Personagens carismáticos e bem desenvolvidos
  • Traz a sensação de uma história de patchwork de outras série e filmes conhecidos
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