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O Irlandês

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Scorsese sempre foi mestre em fazer filmes relacionados a Máfia desde o clássico os Bons Companheiros a Cassino. O diretor sempre mostrou uma vertente violenta e estilizada nesses filmes. Já em O Irlandês o caso é bem diferente, Scorsese trabalha sua nova obra como uma despedida aos filmes desse gênero, algo bem parecido com o que Clint Eastwood fez no clássico Os Imperdoáveis, ja que passou boa parte de sua carreira fazendo filmes de faroeste (ou, os clássicos Spaghettis Italianos) e com isso sua imagem ficou completamente associada a esse tipo de filme até os dias atuais. Em Os Imperdoáveis, Eastwood subverteu o próprio gênero que trabalhou durante décadas mostrando o lado mais sensível desse mundo, e em base a essa inspiração, já Scorsese trabalha um de seus prováveis últimos filmes sobre a Máfia.

Mas acima de tudo, O Irlandês é muito mais um filme sobre decisões e escolhas que tomamos em nossas vidas do que uma ode a violência de gangues organizadas ao redor do mundo, é impressionante como Scorsese envelhece junto com seu cinema; o mesmo envelhecimento do diretor traz uma visão já esperada de seu cinema, mas com um ritmo que consegue acompanhar a nova geração que procura ação e efeitos. Recentemente Scorsese criticou os filmes da Marvel por afirmar que os mesmos “Não transmitem lições” e se o objetivo do mesmo era transmitir uma mensagem, então Scorsese tem completa razão no que está dizendo.

O Irlandês é um filme completamente violento, porém extremamente sensível, a visão de Scorsese para seu protagonista, Frank Sheeran (Robert De Niro), sendo ao mesmo tempo caótica e doce, após acompanhar quatro décadas da vida de Frank, o espectador se conecta com esse personagem de forma duvidosa, mas mesmo assim torce por sua possível redenção ao mundo do crime. Dentre todas as ações tomadas pelo personagem chegamos a nos questionar se esse é realmente um cara que vale a pena o investimento emocional, mas ao passar do tempo estamos totalmente entregues ao personagem, e ao final do filme sentimos seu drama a flor da pele, e essa é a magia de Scorsese com seus personagens.

O diretor também tomou uma escolha completamente acertada: o grande elenco escolhido para o filme talvez seja um dos melhores e mais completos castings para um filme de Scorsese dentre ele temos Al Pacino que não foge de sua zona de conforto, mas essa mesma zona de conforto de Pacino é simplesmente incrível mesmo sem estar no ápice de suas atuações. O ator entrega um personagem completamente carismático e divertido que se envolve com outros personagens de uma forma estranha, porém completamente aceitável, junto com Pacino e De Niro temos o incrível Joe Pesci que foge do estereótipo de seus papéis anteriores e entrega uma atuação um tanto quanto serena, o que gera um pouco de estranheza para aqueles que acompanham a carreira do ator, afinal de contas, Joe Pesci sem gritaria é algo inédito em sua carreira, mas o novo Joe entrega uma atuação digna e a altura de seus outros dois companheiros de tela, o que pode gerar uma indicação de melhor atuação para o trio de lendas escolhidos por Scorsese.

Scorsese sabe muito bem conduzir uma câmera e contar uma história, e isso se mostra presente em O Irlandês, apesar do filme ter 3 Horas e 30 Minutos, esse tempo passa voando ao espectador, a narrativa de Scorsese é jovem e tem o toque sofisticado de um diretor que sempre batalhou para mudar os rumos do cinema, e hoje se inova mais uma vez entregando um projeto exclusivo para a Netflix, que dera total liberdade a Scorsese e esse talvez seja um dos maiores méritos desse projeto: Scorsese está sem amarras e com o orçamento desejado, após 170 dias de filmagem o diretor conseguiu criar uma de suas obras mais completas e autorais e esse tipo de projeto além de ousado promete trazer um ótimo reconhecimento para o diretor, como uma indicação e possível vitória na categoria de melhor direção do Oscar de 2020, mas até lá, podemos aproveitar um pouco mais de seu trabalho na Netflix no dia 27 de Novembro.

O Irlandês é um ótimo filme sobre a vida, decisões e fracassos que tomamos em nossa vida, amizades escolhidas, caminhos tomados e acima de tudo, um filme que trata da política de uma forma extremamente compressível até para os mais leigos no assunto, Scorsese ainda se consagra como um monstro do cinema em atividade, e esperamos que o mesmo possa continuar nessa jornada por mais alguns ótimos anos.

Artigo Autoral de Danilo Bertozzo do Lâmpada Nerd para o Geek Antenado
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