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As Panteras (2019)

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Desde antes da virada do século retratar uma figura feminina em posição de poder, controle e liderança, sem sexualiza-la era bem raro. A cultura do entretenimento sempre foi – e infelizmente, é – machista, que na maioria das vezes é bem tóxico. Mas temos que exaltar as produções que colocaram a figura feminina como a heroína da história sem tratá-la como objeto. As Panteras, ou as Anjos do Charlie foram uma das raras produções que exaltava o poder feminino e colocava a mulher como a heroína da história. A série dos anos 1970 ganhou uma versão cinematográfica no início dos anos 2000 que teve uma sequência, e que hoje ganha uma nova versão, inseridas numa época muito propícia, além de manter todo o legado construído nos últimos 40 anos.

O longa segue um padrão bem característico dos dois filmes: mulheres inseridas num mundo perigosamente machista, sempre tratadas como indefesas e inexperientes na vida, que acabam revelando ser agentes altamente treinadas em diversas artes, de luta corpo a corpo, armamentos, línguas, e conhecimentos dos mais diversos, para impedir criminosos que nunca seriam presos ou que ameaçam todos a seu redor. Até a chegada de uma delatora que teme que sua criação seja usada de forma indevida pela empresa que trabalha.

Um dos grandes medos ao assistir este filme, pessoalmente, era ver mais um reboot das Panteras, uma outra história de origem da agência Townsend e do trio de Angels, o que o filme surpreende não apenas em não ser um reboot, um novo filme de origem, mas que ele se baseia em todo o legado construído até então. Existe conexão direta tanto com a série dos anos 1970, quanto com o trio mais conhecido das Panteras dos filmes dos anos 2000, formado por Cameron Diaz, Drew Barrymore e Lucy Liu, fazendo com que o novo filme seja de fato uma sequência direta sem ser algo que seja influenciado diretamente pelos acontecimentos anteriores.

Tudo bem, existe momentos de referência que não apenas forçam você a relacionar a cena a algo já feito anteriormente, como existe menções direta sobre situações que aconteceram e está marcada na história das Panteras, fazendo com que tudo se conectasse de forma primordiosa. Além das inúmeras auto-referências, o filme não se leva a sério, sabendo que existe momentos bem vergonha alheia, mas que agora, principalmente no momento que este filme será lançado, ele presenteia com um excelente momento de girl power, sem exagerar.

Isso é bem pontuado na cena de abertura, que acontece no Brasil – o que fica claro a música de Anitta em sua trilha sonora – quando Sabina (Kristen Stewart) discursa sobre o fato dela poder fazer qualquer coisa que ela quiser, para o antagonista a sua frente. Tudo bem que a cena em si é bem característica da forma como As Panteras surgiram, colocando a mulher como uma isca sexual para atrair o vilão, mas a partir daí o filme foge desse paradigma e exalta o estilo ainda mais espião, mas que performado com mulheres, sem colocá-las como vítimas, iscas ou distrações.

Mas aqui separo o parágrafo todo para pontuar as atrizes, que TODAS estão muito bem: começar da que rouba a cena todas as vezes que aparece, Kristen Stewart sempre foi uma atriz que ficou marcada pelo seu papel na saga Crepúsculo, aqui ela mostra seu lado mais cômico que casou perfeitamente com a personalidade de Sabina, a agente sem filtro e, até certa perspectiva, destemida em qualquer situação que aparece. Stewart soube aproveitar e construir uma personagem que se destaca tanto quanto as outras. Já conhecemos um pouco mais do potencial vocal de Naomi Scott, principalmente de seu outro trabalho deste ano, vivendo a Princesa Jasmine em Aladdin, e agora ela vive a engenheira Elena, que desenvolveu um dispositivo que pode ser transformado numa arma, e acaba caindo de cabeça na missão das Panteras e se tornando uma – eventualmente.

Finalizando o trio de panteras, Ella Balinska completa o time, e foi uma boa surpresa conhecer seu trabalho, vivendo a mais militarizada das Panteras, Jane, é dela que vemos a parte mais séria do longa. Por fim, mas não menos importante, nossa primeira Bosley vivida por Elizabeth Banks: ela fica no meio termo entre a seriedade da posição, com uma ponta de comédia, e além disso, Banks também é a roteirista e diretora do longa, que faz majestosamente, com uma história com grande discurso de empoderamento e cheio de reviravoltas.

As Panteras ainda contém diversos outras participações especiais, algumas bem exageradas, outras bem esquecíveis, e outras que seria bons spoilers. Mas tudo é bem amarrado dentro da narrativa, dando As Panteras um ponto de partida para fazer com que essa franquia renascesse, que alinha todos os elementos característicos em um, assim como todas as histórias que já acompanhamos delas e de outras formações. Uma trilha sonora que mais uma vez se encaixa perfeitamente com a trama, vestuário bem característico do universo das Angels, e ainda uma narrativa leve, com um peso no discurso social, com personagens carismáticas, bem desenvolvidas, e com uma excelente química entre elas.

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As Panteras (2019)

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Sem jogar fora todo o legado da franquia, a nova As Panteras consegue expandir a agentes secretas, e entrega um novo trio encantador, carismático e com grande potencial, numa comédia recheada de referências, piadas da cultura pop, e consegue tirar sarro de si mesmo, sem esquecer o engajamento ao empoderamento feminino, e da um passo a mais para uma nova era das Angels

  • Um elenco muito carismático
  • Um discurso feminista bem inserido na narrativa
  • O Legado das Panteras é importante para as novas Panteras
  • Ótimas participações especiais
  • Ótimas piadas a cultura pop, a própria franquia e bem colocadas
  • Trilha sonora e design de produção que transborda a identidade das Panteras
  • Roubada de cenas de Kristen Stewart (nunca imaginaria falar isso)
  • Personagens descartáveis (Noah Centineo)
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