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Primeiras Impressões | See

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Imaginarmos um mundo pós-apocalíptico está cada vez mais complexo, pois as produções literárias, televisivas e cinematográficas já fizeram este trabalho inúmeras vezes. Mas todas tem algo em comum: uma guerra que dizima bilhões e nos faz regredir para podermos ascender em um novo mundo. Umas das primeiras produções de drama pós-apocalíptico da recém lançada Apple TV+, See explora bem, nos três primeiros episódios lançados junto com a plataforma, a questão da sociedade privada de um dos sentidos, e que se vê as margens de tudo mudar quando uma nova geração nasce com o dom há muito perdido: o da visão.

A série original, que não é baseada em qualquer outro romance de outra mídia, See mostra uma aldeia de humanos que tenta se proteger da ameaça de uma elite de militares da rainha que está atrás de um foragido e das recém nascidas que tem a capacidade de ver, sentido perdido há centenas de anos após um vírus dizimar bilhões de vidas, e os sobreviventes perderem a visão, retrocedendo toda a evolução que se baseava no sentido, e considerando-se heresia dentro das novas sociedades.

Diferente de qualquer série que estejamos acostumados por outras plataformas de streaming, a Apple liberou apenas os três primeiros episódios da série no lançamento da plataforma, e até agora é especulado que os próximos episódios chegarão semanalmente. Mas esse modelo bem mais corriqueiro das emissoras de televisão é uma vantagem para essa série. Ela não é construída para ser assistida como maratona, mesmo os três episódios puxarem para o próximo em sequência, essa sensação da necessidade de ver o próximo é bem explorada em episódios semanais, que geram as famosas teorias e como a sociedade de Alkenny resolverá o próximo dilema.

Encabeçado por Jason Mamoa (Aquaman) como o líder dos Alkennys, Baba Voss, um guerreiro que protege a aldeia de Caçadores de Bruxas, militares de elite da rainha dos humanos (até onde se sabe), que caçam hereges que se dizem terem o dom da visão, as cenas de ação não são em nenhum momento reduzidas ou pouco exploradas. Conhecedor de muitas batalhas bem produzidas, nos três episódios apresentados, a série já apresenta em seus primeiros minutos o que já apelidamos como Batalha da Muralha de Pedras – bem Game of Thrones. Todas as cenas de combate são muito bem construídas e aproveitam muito bem o movimento. Mas a grande questão que fica é: como que as cenas de batalhas podem trazer a sensação de GoT se todos estão cegos? E a resposta é simples: a produção adaptou todos os movimentos para serem conduzidos pelo som, e isso se mantém válido para o telespectador.

A sociedade criada após o vírus tirar a visão, se baseou em compensar a falta da visão com os outros sentido – como já vimos centenas de vezes em outras produções. Assim como Toph de Avatar, todos os humanos ampliaram seus outros sentidos se transformando em farejadores (para aqueles que desenvolveram mais o olfato), ayuras (aqueles que tem uma audição meticulosa que podem dizer quando alguém está mentindo ou quantas pessoas estão ao redor e a qual distância), além de outros que desenvolverem o sexto sentido. A série aproveitou o fato de não ter a visão e explorou como seria uma luta utilizando apenas outro sentido, que se apresentam como uma dança mortal e bem coreografada.

Mas o intuito da série se divide em diversas camadas. O poder da visão é algo temido, muita vezes associada a grande destruição da humanidade, que se tornou mais e mais ambiciosa, e que a luz – termo para aqueles que vêem – algo relacionado ao demônio e bruxas, é punível a fogueira. Além disso, existe a camada do conhecimento e de sua perpetuação. Sem a visão, as histórias antigas são passadas boca a boca, e assim, todo o conhecimento é alterado pelo narrador. E a nova geração, filhos do único homem que se tem conhecimento que nasceu com a visão, começam a questionar as crenças da sociedade com o conhecimento adquiridos nas páginas dos poucos livros remanescentes, que lhes dão mais conhecimento. Um conhecimento que tem a dualidade de ser algo positivo ou negativo, dependendo de como aplicado.

A série tem um ponto muito forte focado na interpretação e atuação. Se você conhece Mamoa por seus personagens mais brutos, você continua tendo ele neste papel, mas nesta série podemos ver um pouco de sua dramaticidade, já que muitas cenas tem mais falas e interpretação sem expressões dos olhos, e temos ótimos momentos de interpretação. Além dele temos Alfre Woodard como a parteira dos Alkennys, e única com um conhecimento do papel dos filhos de Baba Voss, que despensa comentários; além da mãe dos gêmeos, e da rainha, que apresenta dualidade em sua caça atrás dos gêmeos.

Por mais irônico que seja, a produção esbanja um visual tão deslumbrante, que não lembro de qualquer outra série com uma fotografia tão impressionante, apenas um filme, O Regresso, que aproveitou o ambiente e a luz original para suas gravações, e todos cenários, replicando como era nos primórdios da civilização, num futuro sem o dom da visão. Além disso, muitos personagens secundários constroem uma trama bem equilibrada e que prende a atenção.

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