CríticaDestaqueFilmes

O Pintassilgo

0

Essa provavelmente é uma das críticas mais difíceis que já tive que escrever. O próprio cinema é um ambiente de interpretação. Quando o filme não é mastigado, autoexplicativo para seu público, ele se permite ser aberto para ampla interpretação. E lá vem aqueles anos nas salas de aula com interpretação de texto: o que este filme quis dizer com isso? O que está cena representa para o enredo? O Pintassilgo, longa baseado no romance homônimo de Donna Tartt, é um caso de interpretação, mas um filme longo em sua construção e narrativa, e que começa frio, e vai se desenrolando numa jornada do protagonista relacionado a um quadro de um pequeno pássaro sobrevivente.

A história começa quando o pequeno Theo Decker (Oakes Fegley) sofre um trauma que muda sua vida: sobrevivente de um atentado de bomba no Museu Metropolitan, ele fica órfão e acaba trilhando um caminho de culpa, redenção, criar amizades e amores, tudo conectado a uma peça sobrevivente a explosão: um Pintassilgo, que sobreviveu a inúmeros incidentes antes.

A interpretação já começa logo no início. A primeira busca dentro de um filme é achar uma âncora que nos prenda para ser resolvida ou desvendada, geralmente uma missão, algo a ser protegido, ou até mesmo a própria jornada em si. Mas essa sensação é inexistente. Até mesmo ao apego mais sentimental ao quadro de Theo não é tão sentido assim, até chegar no terceiro ato. A construção narrativa é mais o amadurecimento do próprio Theo, criando laços, mas então logo os quebrando, mesmo que não voluntariamente.

Os primeiros minutos podem parecer bem lentos (extremamente lentos) e muitos podem desistir da história, mas ela engata uma jornada de ritos de passagem de um jovem que está passando pela puberdade. Um grande limitador de se conectar desta narrativa é justamente como o personagem principal é tratado, não apenas pelos adultos a sua volta, como o próprio roteiro coloca um peso de maturidade como se fosse mais experiente do que muitos outros personagens na trama. Mas estamos vendo um adolescente passando pelo trauma da perda.

Apesar da história não ter mexido tanto – pessoalmente falando – são as atuações que impressionam. Nicole Kidman (Big Little Lies) e Sarah Paulson (Vidro) são dois nomes que roubam a cena em momentos distintos, e de forma completamente divergentes. Enquanto a primeira encara um personalidade mais tenra, materna e de muita classe, a segunda surpreende ainda mais por ser o oposto: desgarrada, sexy symbol e bem dramática em muitos momentos, as duas atrizes entregam personalidades interessantes em tela. Mas o grande destaque está justamente na versão infantil de Theo, interpretado por Oakes Fegley (Meu Amigo, o Dragão). A carga emocional do protagonista é algo monumental, e Fegley traz com uma atuação que carrega esta carga, uma expressividade que surpreende, que diz mais do que as falas do roteiro.

O Pintassilgo é um filme 8 ou 80: vai depender da entrega do telespectador e principalmente se ele está aberto a receber uma carta de interpretações. É um filme complexo em se analisar, e que deixa de lado a relação do protagonista com a pintura, que só vem a ser o foco no clímax final com um desfecho anticlimático, com um discurso sobre se liberar da culpa, e deixar aquilo que deveria ser apreciado por todos livre da obsessão e apego emocional movido por uma tragédia.

produto-imagem

O Pintassilgo (The Goldfinch)

7

Com um enredo e desenvolvimento lento, o Pintassilgo tem uma difícil jornada de se conectar com o telespectador, com uma história sobre tragédia, preencher o sentimento de amor após a perda, que deixa a relação do protagonista com o quadro em segundo plano na maior parte do filme, mas que se destaca pela atuação mirim expressiva

  • Design de produção bem detalhado e bonito
  • Grande expressividade do ator mirim Oakes Fegley
  • Desenvolvimento bem lento
  • Desprendimento da realidade ao tratar como um adulto experiente uma criança
  • Enredo não linear que pode tanto ser um ponto negativo ou positivo
0