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Years & Years (1ª Temporada)

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O futuro sempre foi assunto para o entretenimento. Imaginar como seria daqui cinco, dez, vinte, cinquenta, cem anos é uma fonte ilimitada de possibilidades que a ficção adora explorar. Mas engana-se quem pensa atualmente que estarem vivemos num futuro imaginado em De Volta Para o Futuro, só com maravilhas que ajudem a sociedade. Mais e mais a ficção explora um elemento muito explorado em romances literários: a distopia. Apontar os erros ou pontos negativos da evolução social humana é tema recorrente de séries como Black Mirror e The Handmaid’s Tale, franquia de jogos como Being Human, até de diversas franquias cinematográficas. Mas nada foi tão real com seus exageros narrativos, do que a abordagem de Years & Years, nova série da HBO que imagina o caos político e social sob os olhos de uma família britânica.

A série acompanha a trajetória de mais de uma década, a partir do ano de 2019, da família britânica Lyons, em meio a mudanças sociais, políticas, econômicas e pessoais fomentada pela ascensão de uma figura “carismática” de uma personalidade da mídia que se torna popular pelas suas ideias radicais e falar o que pensa sem se limitar ao “socialmente correto”.

A série, muito comparada a Black Mirror, tem sua própria estética narrativa e marca, que se distancia mais e mais da outra série britânica. Em nenhum momento Years & Years se faz de uma cópia ou inspirada em Black Mirror – mesmo com atores bem conhecidos em seu elenco – mesmo nos momentos mais “Black Mirror”, quando o avanço tecnológico se torna mais evidente, ela desenvolve de forma única sua narrativa.

A história em desenvolvimento é também bem equilibrado entre os personagens principais, com eles interagindo entre si, e que rende ótimas cenas engraçadas, e com abordagem de assuntos pertinentes na sociedade polarizada que nos encontramos. Não há o que reclamar dos personagens e de seus atores, eles entregam um excelente trabalho, plausível com o contexto que estão, e mesmo com a distância da realidade, encontramos elementos de personalidade e carácter carismáticos e que se relacionam com todas as pessoas.

O grande destaque é, sem sombra de dúvidas, Emma Thompson. A multipremiada atriz tem o que categorizamos como “participação especial”, aquela que circunda a história e desenvolvendo o papel de catalisadora das ações dos protagonistas, que em todas as cenas – e reforço: TODAS AS CENAS – ela rouba a atenção, e entrega uma caricatura aos políticos populares com caráter duvidoso.

A série com a quantidade de personagens poderia se perder no desenvolvimento de alguns, inserir novas tramas e enredos, mas ela se mantém coesa em construção de personagens e de diversos temas que se interligam, e criam diversas discussões sociais e políticas. Pessoalmente, a série me lembrou a sensação de assistir The Handmaid’s Tale: precisava de um tempo para digerir a quantidade de informação e impacto que as mensagens apresentadas sejam processadas. Refletir sobre o que ela apresenta e ficar contemplativo fazendo referências a nossa própria realidade. Ao mesmo tempo, a sensação psicológica que Black Mirror traz fazendo a crítica social aos avanços tecnológicos e como ficamos dependentes dela se misturam quando vemos o plot do transhumanismo, ou toda vez que vemos os personagens interagindo com o Signor.

Apesar da distorção social apresentada, Years & Years cativa pelos personagens carismáticos que começam a ganhar a simpatia. Seja a Celeste (T’Nia Miller), mulher do irmão mais velho, que aparenta ser apática e azeda com a matriarca, Muriel (Anne Reid), se desenvolve numa representação de mulher forte e independente; Edith (Jessica Hynes), a segunda irmã, que é ligada a causas sociais e ambientais, e uma voz real daqueles que ainda tentam salvar o mundo dos ambiciosos e radicais; Bettany (Lydia West) que conquista você primeiro por parecer ser alguém deprimido com seu corpo, e se desenvolve como qualquer adolescente que amadurece com seus erros, e tem grande papel no clímax final; Daniel (Russell Tovey) e sua jornada para viver o amor que ele sempre quis, mesmo que seja impedido por governos autoritários.

Years & Years cria uma reflexão atual, sob o olhar de uma projeção do futuro próximo, quando o mundo entra num redemoinho caótico de crises sociais, econômicas e políticas, sob o olhar dos personagens mais importantes: a população como um todo. Os Lyons nada mais são do que uma representação amalgamada de pessoas comuns, que buscam uma vida digna, mas que tem em seu caminho pessoas ambiciosas, egocêntricas, imprevistos maquinados para criar caos para a população majoritária, e que tomam um choque de realidade quando percebem que o maior culpado pelos erros atuais serem eles mesmo, que permitiram que chegasse a esse ponto, com ótimos discursos sociais – em especial no último episódio – que ressalta que o caos, mesmo com as proporções gigantescas, são causa de nossa própria negligência e permissividade e que só serão solucionadas por nós mesmos, quando resolvermos lutar para consertar nossos próprios erros.

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Years & Years

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Discutindo sobre as mudanças sociais e políticas ao longo de um período caótico sob o olhar de euma simples família britânica, série conquista por abordar temas atuais com seus exageros, e que mesmo comparado com Black Mirror, consegue ser ainda mais incisiva e criar mais empatia pelos personagens e provar ainda mais discussão sobre assuntos pertinentes a sociedade atual

  • Elenco carismático
  • Discursos sociais incisivos e bem inseridos no contexto
  • Antagonista que rouba a cena nas poucas aparições
  • Desenvolvimento imprevisível
  • Utilização excelente dos exageros reais para compor a narrativa
  • Deixa a sensação de soco no estômago após cada episódio
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