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Era Uma Vez em… Hollywood (Once Upon a Time in Hollywood)

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Quentin Tarantino é um nome de peso na indústria cinematográfica. Sua visão para contar uma história surpreende seu público e encanta com um visual espetacular – condizente com a história que assistimos. Dosando uma comédia mais ácida, diálogos mais estendidos intercalado com cenas que constrói uma narrativa intrigante, o seu nono filme revisita um dos casos mais célebres de assassinatos de celebridades da história, o caso de Sharon Tate e o grupo de Charles Manson. Mas o filme, que pouco foi vendido como um filme sobre o caso, cria novas perspectivas ao narrar acontecimentos de uma amizade inexplicável de um ator em decadência com seu dublê, em Era Uma Vez em… Hollywood, e deixa o caso de Sharon em segundo plano.

Era Uma Vez em Hollywood se foca mais na história de amizade de Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu dublê Cliff Booth (Brad Pitt), e como essa amizade se mantém as adversidades que começam a aparecer já numa fase mais madura dos atores. Ator em decadência, vivendo como vilão de episódios de séries western, Rick vive uma jornada para entender como chegou até este ponto, e como retornar a ser um nome importante na indústria; enquanto que Cliff, que vive como uma sombra de Rick, acaba se metendo numa rota mais tensa, que é parte do grande ato final.

Ao longo dos dois primeiros atos conseguimos ver uma história mais desleixadas, mais despreocupada com a seriedade e que abraça exageros narrativos e atitudes dos personagens para apresentá-los para o público. Sentimos empatia por Rick, que está num redemoinho onde ele não consegue sentir confiança na sua habilidade, e após uma conversa bem franca com quase que a idealizadora do Método – exagero de quem vos escreve – encontra a fagulha para se entregar ao papel especial a qual foi escalado; começamos a querer Cliff como melhor amigo, sempre pronto para ajudar, e mesmo com um passado sombrio, sua simpatia exala por todos seus poros.

Enquanto o primeiro ato vemos mais ambos personagens como uma unidade, no segundo cada um segue uma linha da história, com tensão e comédia bem característica do diretor. Mas, o foco que todos tinha era do núcleo de Sharon Tate (Margot Robbie). E é neste arco que a história cruamente entrega uma coisa, e quem assisti e conhece a história, cria outra sensação.

O roteiro cria a maior simpatia para Sharon, uma atriz em ascensão que é visível seu amor pela profissão, e até comparece a uma sessão do seu filme em cartaz para sentir a reação do público. Essa simpatia amável criada meticulosamente tanto pelo roteiro quando pela própria Margot para Sharon cria o oposto para quem assisti. Sabendo do que aconteceu com ela, chega a ser triste vermos como a personagem foi retratada como uma pessoa cativante e apaixonante, contrastado pelo seu destino cruel. E é no último ato, como em vários outros títulos de Tarantino, que ele surpreende com um “E se…?”.

Sem soltar qualquer spoiler, Era Uma Vez em Hollywood ainda surpreende na fotografia impecável que busca um tom bem calorento e clássicas camisas estampadas dos últimos anos da década de 1960. Junto com a fotografia, a história é bem conduzida por uma trilha sonora bem marcante, e todo o roteiro ainda se abre para diversas referências clássicas do mundo dos bastidores do show business.

Pessoalmente, não sou um grande fã de Tarantino, e sinto que ele é um ótimo diretor mas que suas obras, por mais impecáveis tecnicamente, são okay. Nada que mude a perspectiva cinematográfica em algum âmbito, mas que com certeza apela pelo sentimento intrínseco da história, principalmente quando ela é baseada em fatos, e ainda neste longa, consegue trabalha a perspectiva e o sentimento contraditório ao apresentar de forma mais bela e singular, uma personagem que não tem um final feliz. Mas o longa, que não se foca na história de Tate, apresenta um dos melhores bromances do cinema. A química de amizade de Rick e Cliff – ou mais especificamente, Leo e Brad – por si só são suficientes para sustentar o filme, e entrega aventuras singulares que vão da comédia situacional até a comédia física, passando pelo thriller de serial killer.

Era Uma Vez em… Hollywood é mais um filme visualmente bonito, com um visual bem solar, que engana pela escolha da narrativa. Ela explora mais a amizade dos personagens de DiCaprio e Pitt para suprir a decisão narrativa de subverter a expectativa do ato final, não sendo uma história com uma tensão narrativa tão elevada, pois ela quebra qualquer expectativa pela sensação calorosa e uma depressão mais cômica, e que toda a tensão gerada vem do subconsciente de quem assisti que sabendo que acontece, e isso é quebrado na tela. A narrativa consegue envolver – mesmo que algumas sequências, mais iniciais, sejam cansativas – e com a tensão crescendo gradativamente com o passar da história, e envolve o telespectador para conhecer mais dos personagens masculinos, que apresentam grande profundidade de personalidade e trajetórias de autoconhecimento e mistério bem interessantes que prendem a atenção.

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Era Uma Vez em... Hollywood

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Explorando uma perspectiva para o caso de Charles Manson e Sharon Tate, longa ganha a atenção pela beleza impecável visual e sonora, que relembra uma época dourada na capital do cinema, mas que é sustentada pela dinâmica bem equilibrada de DiCaprio e Pitt, que explora a amizade e a busca de cada um em seu jornadas individuais como atores, num momento de decadência de suas carreiras

  • Visual técnico impecável e ótima escolha da paleta de cores
  • Trilha sonora e efeitos sonoros muito bem escolhidos e integrados a ação
  • Relacionamento de amizade bem construída tanto pelo roteiro quanto pelos atores
  • Sensação de tensão extrínseca ao roteiro que cresce gradativamente
  • Equilíbrio entre a ação mais despirocada e o drama mais inesperado
  • Um primeiro ato mais arrastado e de difícil adaptação numa narrativa clássica
  • Desenvolvimento mais alongados em algumas sequências que desequilibra a interação do telespectador com a trama
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