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Cara Gente Branca (Dear White People)

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A mudança é uma necessidade social. A sociedade que conhecemos passou por diversas mudanças ao longo dos anos, tanto de pensamentos, paradigmas, e formas de agir e falar; a mudança é necessária, e a terceira temporada de Cara Gente Branca não apenas compreende a mudança necessária para continuar a ser uma série que toca na ferida e discute assuntos complexos mas importantes na sociedade. Não apenas compreende como brinca e aplica a mudança para evoluir sua narrativa.

Diferente de suas duas primeiras temporadas, Cara Gente Branca – ou o título original que mais se popularizou, Dear White People – elimina o fator mais pessoal em sua narrativa, abolindo a forma de contar a situação pela perspectiva de seus personagens, e lida mais com a situação linear. A primeira temporada focava na perspectiva dos personagens a polêmica Festa Blackface, e como cada um via a situação e as implicações na microsociedsde da universade; na segunda temporada continuávamos a observar a perspectiva dos personagens em relação as consequências dos atos da primeira. Mas toda a forma mais “pessoal” da narrativa se voltava para a situação e discutir o ocorrido. O que é quebrado pela mudança na terceira.

A série é categorizada como uma comédia de humor negro – sem trocadilhos – por abordar temas delicados e complexos que ainda perduram até hoje em muitas sociedades plurais em gênero e raça. Em outras palavras, a comédia é sarcástica e irônica, que aponta o erro com situações constrangedoras que forçam o riso pelo nervosismo de ser algo conhecido e bem corriqueiro, ainda mais na época que vivemos. E ela utiliza essa ironia ainda mais na nova temporada, e de forma mais presente, mas que não acaba gerando a comédia pelo nervosismo.

Logo no primeiro episódio todo o tom da nova temporada é estabelecido: a mudança é necessária, mas a mudança gradual e não a explosiva como as duas primeiras temporadas foram. A utilização de várias metalinguagens ainda reforçam a comédia mais sarcástica, desde sua autoreferência como uma forma de justiça e sua mudança de narrativa e construção do episódio, até da evolução dos personagens.

Um dos grandes “WTF” da segunda temporada foi a introdução da sociedade secreta que destoava da narrativa até então apresentada. Mas a questão da Ordem é plausível para o submundo das universidades estadunidenses – vide diversas histórias sobre sociedades secretas de universidades – mas sua abordagem ficou mais focada nesta temporada (mesmo que corriqueiramente).

Até metade da série ficamos nos perguntando se a história vai ter um centro onde ela se desenvolverá, até uma polêmica a surgir que moverá a história, mas esse pensamento é descartado pela própria justificativa inicial da série que pretende ser diferente, e até surge um acontecimento central que começa a mover todos os personagens, mas a forma como a história desta temporada é construída faz com que a sensação seja diferente do que estávamos acostumados com ela, e acaba sendo mais impactante toda a discussão da forma como a temporada de propõe.

A dissolução da “perspectiva” da situação ou das consequências acabava tornando a situação mais importantes – e para as primeiras temporada isso era importante – mas a terceira acabou ficando mais nos personagens e se tornando mais humana, já que contar diversas histórias paralelas de uma forma linear deixa o humano da situação mais em evidência. Os questionamentos e a busca da Sam (Logan Browning) por um motivo para continuar indo contra o sistema; o processo de cura psicológica de Reggie (Marque Richardson); a libertação de Lionel (DeRon Horton) para novas descobertas; o conflito de Coco (Antoinette Robertson) em sua empreitada ao sucesso acadêmico; todos os personagens se tornaram o foco de suas histórias e não mais a situação que eles estavam envolvidos. Isso ainda permitiu que personagens mais secundários ganhassem mais destaque e profundidade, principalmente no arco final, que toca num assunto delicado que ainda há resistência em discutir e continuar apontando a culpa para a vítima.

Todo o arco da Ordem não é literalmente jogado fora, mas ganha mais destaque e dinâmica dentro da série que parece continuar explorando o sombrio mundo das sociedades secretas em novas histórias – se renovada – e ainda tira sarro, mesmo o tom mais sombrio.

Dear White People evoluiu. Tanto em sua narrativa quanto em desenvolvimento de personagens. Abandonando sua forma de focar na situação ou na consequência e como a perspectiva de cada personagem principal ou colateral a eles via e lidava com ela, abraçando o lado mais humano para discutir um assunto mais humano, que, ironicamente, ao abandonar a narrativa pela perspectiva de cada personagem deixou a série mais humana e deu mais substância que justifique a luta por igualdade e justiça, e não apenas a raiva como combustível para lutar por seus direitos.

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Cara Gente Branca (Dear White People) - 3ª Temporada

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Mudando a forma como conta a história crítica da sociedade no microuniverso da faculdade, Dear White People explora mais a veia humana dos personagens, deixando de lado o foco da história na situação, e ainda abre espaço para personagens secundários terem maior destaque, e ainda explora uma veia cômica mais simples e universal: a sarcástica

  • Abordagem sarcástica que se relacionam mais com o telespectador
  • Uma abordagem mais humana dos personagens
  • Desenvolvimento da trama gradual
  • Forma delicada de abordar assuntos complexos e temas tabus
  • O tempo para se acostumar com a mudança de narrativa
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