CríticaDestaqueFilmes

Histórias Assustadoras (Para Contar no Escuro)

0

O que define um terror de qualidade? Será às criaturas assustadoras e desumanas que perseguem nossos heróis? Será o jogo de luz e sombras que o diretor escolhe para suas cenas? Será a criação da tensão iminente para uma sequência de perseguição? Os vários parâmetros que definem o terror pode ser mais pessoal do que uma questão generalizada, mas o universo do medo, um dos gêneros cinematográficos mais populares da atualidade, está bem saturada e previsível com as inúmeras tentativas de repetir o sucesso de clássicos filmes do passado ou repetir a fórmula inovadora de James Wan. E é a primeira destes parâmetros que Histórias Assustadoras [para Contar no Escuro] aproveita muito bem e constrói uma narrativa saudosa e bem assustadora.

A história segue um grupo de jovens, que após invadirem uma casa abandonada, e de lá tiram um livro, são perseguidos, um por um, toda noite, por criaturas que mais temem, que vivem em seus pesadelos. A simplicidade da história esconde diversos elementos que são inovadores nos clássicos do terror, e ainda traz diversos elementos visuais e narrativos conhecidos e se baseia na nostalgia dos filmes mais icônicos de terror, e histórias de suspense para desenvolver sua própria história.

Por trás da produção está ninguém menos que o mestre dos monstros, Guillermo Del Toro (A Forma da Água). Junto com André Øvredal (A Autópsia), eles adaptam parte da coletânea de terror de Alvin Schwartz e usam de vários elementos que podem passar despercebidos e referências numa história bem construída. O visual bem característico que Del Toro dá a suas criaturas pode não estar tão aparente, mas, ainda assim, as criaturas carregam uma história por trás de seus visuais assustadores.

A narrativa se apropria bem de referências e inspirações. A partir da sinopse cogitamos que este será uma versão de terror de Goosebumps, mas a história acaba surpreendendo com uma amálgama de várias outras fontes: o objeto central da história é uma mistura bem homogênea entre Goosebumps, Death Note (o anime ou mangá), O Chamado e Hora do Pesadelo. Atrevo-me a ainda incluir o conceito de Harry Potter e a Câmara Secreta. O livro em questão, que traz a vida os monstros, segue uma lógica própria, que é perceptível suas inspirações.

O longa ainda usa e abusa de resgatar os principais terrores da década de ouro do terror, a década de 1980, além de construir uma narrativa bem clássica da época: um grupo de jovens, acaba “libertando” uma entidade, que agora os caça, e usa dos próprios medos de cada um contra eles mesmo. Além de trazer a nostalgia, a série conversa bem com o público que viveu o auge do terror, até aqueles filhos de Stranger Things que começaram a conhecer a época através da série da Netflix.

Os atores, mesmo desconhecidos por nós, conseguem criar empatia com o público, e conduzem bem seus personagens no desenvolvimento que aproveita deles o máximo que consegue, e tem grande potencial fora este longa. Alguns personagens, por mais irritantes que pareçam a primeira impressão, acabam ganhando um certo carinho por criar empatia com o telespectador. As criaturas – seja por ter assistido numa projeção que não valorizou os detalhes, deixando várias cenas bem escuras – se baseiam nos medos clássicos, como Espantalho, Zumbi e um Homem Torto; mas o grande destaque fica para a criatura do Quarto Vermelho, que usa a fotografia literal de luzes avermelhadas em um ambiente branco, para trazer uma tensão para o visual mais espírito demoníaco levemente inspirado no design de terror japonês, que surpreende e assusta pela simplicidade do visual.

Enquanto vários outros filmes saturam o mercado do terror, seja copiando literalmente outras histórias, ou tentando estender desnecessariamente uma mitologia, sem apresentar nada novo ou único, Histórias Assustadoras se apropria de referências e inspirações de vários outras fontes de terror – principalmente o visual dos contos japoneses de terror – para construir uma história sobre falar sobre trauma, e a importância de compartilhar sua história para se curar.

A história começa e finaliza com a frase “As histórias machucas. As histórias curam”, e a principal mensagem do filme – mesmo que superficialmente, e que conecta a entidade com a protagonista – é o fato de contar a história que mais nos atormenta, pois histórias podem machucar e danificar pessoas psicologicamente, mas elas tem o poder de cicatrizar a ferida emocional que é consumida com o tempo, e que em comparação das personagens, histórias que não são contadas geram a raiva e rancor.

Histórias Assustadoras consegue prender a atenção nos detalhes, e nas referências que ele pesca do panteão do terror mais clássico para brincar com a tensão do telespectador, que pode perceber a inspiração, ou não, mas que sabe que a forma de contar histórias assustadoras é uma forma conhecida, quase como histórias de fogueira, mas que se apresenta de forma mais contemporânea, e ainda coloca a mensagem de compartilhar seus medos ajuda no processo de cura pessoal.

produto-imagem

Histórias Assustadoras (Para Contar no Escuro)

8.5

Utilizando clássicos personagens do terror, tanto ocidental, quanto oriental, longa usa e abusa da referência e inspirações numa narrativa que resgata a fórmula do terror dos anos 1980, e ainda criar expectativas para explorar mais o universo criado por Alvin Schwartz nos livros

  • Visuais assustadores memoráveis
  • Mensagem de cura de trauma usado como correlação de protagonista e antagonista
  • Desenvolvimento de personagens que cria empatia crescente
  • Uso sútil de elementos de referência e outras mídias sem ser uma cópia
  • Monstros com um design que conta uma história sem precisar de um background explícito
  • Falta de aprofundamento na origem da antagonista
  • Um vinte minutos a mais para explorar mais os protagonistas e os coadjuvantes
0