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Primeiras Impressões | Dark (2ª Temporada)

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Uma das grandes – e gratas – surpresas do final de 2017 para o mundo das séries veio de uma inesperada produção alemã tão sombria quanto seu nome (ainda me arrependo do título click-bait que escrevi sobre a série, em 2017). Estávamos esperando ansiosos pela estreia da quarta temporada de Black Mirror no final daquele ano, mas Dark apareceu como quem não quer nada, e se tornou um dos assuntos mais comentados e criadores de teorias de séries daquele ano. Não é a toa que a confirmação para sua renovação deixou quem assistiu (entendeu) e gostou da série ansioso para ver mais da série sobre viagem no tempo e drama familiares que atravessam ciclos temporais, e uma coisa é certa para seus primeiros episódios: a série mantém sua atmosfera sombria, mas parece ter ouvido os fãs em deixar a série mais visível.

Dark não é uma série fácil. Falar de viagem no tempo pode ser um tiro de espingarda no próprio pé. Se a narrativa não fizer sentido violando diversos paradoxos e criado mais questionamentos sobre a coesão da narrativa e dos fatos apresentados, a história pode não passar de uma mera produção esquecível. Mas em sua primeira temporada, Dark apresentou bem do modo mais leve uma coesão do conceito de viagem no tempo que cria quase zero questionamentos de continuidade narrativa, quase sem lacunas sobre “como este personagem está aqui se ele morreu no passado?” ou “qual a lógica dos acontecimentos nas várias linhas temporais?”.

A segunda temporada, em termos bem casuais, já chega com os dois pés no peito. Ela não perde nenhum tempo relembrando fatos da primeira temporada, onde cada personagem está, e já parte para expandir a história, que precisa ser apressada no grande evento, já que é a penúltima temporada. Se em 2017 vimos a história de 2019, e então viajando para os outros três pontos da cidade de Winden, 1986 e 1953, começamos com um ano após os acontecimentos do ciclo da primeira temporada, em 2020, com algumas respostas, e mais períodos temporais que complementam a história deste ciclo. Um, bem conhecido pela última cena da primeira temporada, é em 2053, o futuro pós-apocalíptico que Jonas (Louis Hoffman) de 2019 é mandado para completar sua jornada, e a partir daí começamos a descobrir sobre o que os sobreviventes de Winden precisaram passar.

Outro período é ainda mais no passado, em 1921, onde descobrimos mais sobre o passado do que poderia ser o antagonista da série, Noah (Mark Waschke), e mais sobre o grupo que ele representa nesta “Guerra do Tempo”. E esta sociedade, se podemos chamar assim, ganha maior destaque ao longo dos primeiros episódios – ou até onde assistimos – e esse os segredos e mistérios que envolvem o vórtice do tempo da caverna de Winden começam a se revelar.

Mas como bem citei anteriormente, Dark não é uma série fácil. Desde sua compreensão (se você assim como eu assiste na língua original e não compreende nada de alemão), até mesmo os conceitos sobre viagem no tempo, paradoxos, buracos de minhoca e física quântica. Misture a essa mistura muitos dramas familiares para completar a complexidade da série. Mas isso não é a parte negativa da série, já que muitos conceitos e acontecimentos o próprio roteiro deixa em aberto para interpretação de seu telespectador, não apresentando respostas claras ou objetivas para simples toques ou escolhas dos personagens, deixando aberto a explicação para a vivência e experiências de cada telespectadores criar em sua cabeça.

Um ponto muito que positivo que a segunda temporada apresentou foi que deixou as cenas bem mais iluminadas e discerníveis. Uma grande reclamação – com grandes trocadilhos – da primeira temporada era a quantidade de cenas tão escuras que ficava impossível entender o que estava acontecendo na cena. Isso aliado a ambientação em um local onde metade do tempo está chovendo e a outra metade extremamente nublado, e com várias cenas noturnas, com pontos bem distintos de luz que não ajudavam muito a entender o que estava acontecendo. A segunda temporada ainda mantém vários elementos da Winden que conhecemos (chuva e neblina, com cenas noturnas e bem escuras), mas não está tão exagerada o Dark das cenas, cenas escuras mas distinguíveis, e que facilitam mais na atuação dos personagens.

Dark foi uma grande surpresa que tivemos, conduzir uma narrativa de ficção científica com um tema clássico e bem complexo de viagem no tempo, misturado com dramas familiares não é uma tarefa fácil, mas com uma primeira temporada quase pisando em ovos para construir uma mitologia e apresentar conceitos concretos do tema, a segunda temporada começa já engatando mais mistérios enquanto já começa a revela-los sem ser algo tão explícito e direto, deixando em aberto a interpretação várias questões narrativas e decisões dos personagens. Já conhecendo que a história só durará mais um ano, a segunda temporada começa a funcionar como uma história de transição misturado com uma história alarmista e de prelúdio para o fim, sem ter pressa em desenvolver todos os personagens de uma vez, enquanto amarra algumas pontas soltas e expande a ficção.

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