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Crítica | 3% (3ª Temporada)

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Após ganhar o mundo em suas duas primeiras temporadas, explorando o mundo bem conhecido do Continente e do Maralto, e seu Processo, a primeira série original brasileira da Netflix, 3% olhou mais para frente em sua terceira temporada, e aprofundou mais os personagens em suas trajetórias em busca de um novo meio para viverem sem depender de “benevolência” do Maralto, e intensifica a ideia de injustiça quando estamos falando de uma sociedade meritocrática.

Enquanto que a primeira e a segunda temporada nos apresentaram de forma bem satisfatória todo o conceito do mundo distópico do Continente e do Maralto, os mecanismos presentes no Processo e o conceito de meritocracia essencial para a sociedade atual, a terceira temporada se foca na apresentação na terceira sociedade como uma opção a desigualdade do Continente e do eletismo do Maralto, criado a partir da ideia da terceira fundadora do Maralto pelas mãos de Michelle (Bianca Comparato) e Fernando (Michel Gomez). Mas ao invés de mostrar sua construção, a história se permite desenvolver quando o novo sistema começa a falhar.

Após sofrerem pela baixa pós-tempestade de areia – e outros contratempos – Michelle se vê numa encruzilhada onde precisa manter a Concha viva e ainda se proteger das garras do Maralto, este personificado pela antagonista Marcela (Laila Garin), e instaura um novo Processo dentro da Concha, a fim de conseguir reergue-la. Mas toda a jornada mostrará que não existe justiça ou imparcialidade em qualquer tipo de processo.

A série, que já mostrou a força feminina dentro da história em sua segunda temporada, reforça a ideia que é a mulher o grande ponto da mudança e que faz a diferença neste mundo, e a terceira temporada não apenas aprofunda as que já conhecemos, como a própria Michelle e sua jornada de liderança, Joana (Vaneza Oliveira) e sua obsessão por destruir o Maralto, além de aprofundar as personagens introduzidas na segunda temporada e darem maior destaque para seu crescimento, como a anatagonista Marcela e sua motivação para ser tão implacável com no Processo e a ameaça que a Concha oferece a ela; a evolução de Glória (Cynthia Senek) junto a sua ligação com Michelle e a Concha; até a evolução de Elisa (Thais Lago), que ganha mais notoriedade e profundidade nesta temporada.

A história tem uma construção bem dividida em duas partes ao longo de seus oito episódios: O Processo da Concha em sua primeira metade, resgatando a sensação de desespero e medo por não ser tão merecedor quanto se imaginava, mesmo esquecendo que era um caminho paliativo e temporário; e a segunda metade que tem a maior importância de desenvolvimento de trama e personagens. Tudo isso é construído em um mundo que as próprias artes de divulgação mostravam: a beleza do deserto.

A direção de fotografia, que tinha melhorado e muito da primeira para a segunda, se distancia a uma velocidade tão grande na terceira, onde além da ambientação desértica ditar toda a temporada com a sensação de secura e um medo da escassez presente na temporada, a paleta de cores bem escolhida para todo o ambiente, vestuário reforçam e unificam a ideia da temporada de luta pela sobrevivência à escassez.

3% tem o peso de ser a primeira série brasileira original Netflix, mesmo conquistando o mundo a fora, nos brasileiros ainda conseguimos ver as nuances características da atuação brasileira, mas que melhorou na segunda temporada, e melhorou ainda mais, além de continuar surpreendendo visualmente e insere novos elementos de conspiração e a injustiça presente quando o fator humano está envolvido em um Processo que precisa ser imparcial. A série ainda deixa alguns pontos abertos ao final de sua temporada, que destoa um pouco do esperado, mas condiz com a sociedade que se viveu até então, mas que explora conceitos políticos e sociais que muitas vezes são tabus em nossa sociedade, e expande mais sua mitologia social para novas histórias de poder e controle em um mundo dividido, agora em três.

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3%

8

A terceira opção em um sistema social meritocrático é o palco da ambição e desejo de destruição, que leva a discussões sobre justiça quando a escolha para manter viva uma ideia de sociedade utópica é ameaçada pela sombra do processo, e coloca a força feminina em destaque de diversas vertentes em um exuberante visual desértico já visto em Mad Max e outras produções com escassez de recursos

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