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Charmed

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Falar sobre Charmed para mim não é algo fácil. Ela está longe de ser uma série excelente e memorável, mas ela não é também a pior série ou história seriada que existe. Ela foi a primeira série que eu assisti e acompanhei lá atrás, no final do século passado quando passava na extinta Rede 21. Ela me marcou, numa época onde a bruxaria era explorada não como um lado negativo, o vilão da história, mas era um artifício existente no mundo, e o que definia se era algo do bem ou do mal, era como era aplicado. E uma série que perdurou por longos oito anos, com altos e muitas baixas, passou pela revolução da tecnologia televisiva em seus primórdios, mas não deixou a breguice de suas escolhas de lado, Charmed foi ressuscitada na era dos reboots com diversas polêmicas, e a primeira temporada encerra com um misto de decepção e alegria por ser algo mais profundo que a série original foi.

Só reafirmando: é complicado eu vir falar sobre Charmed! Fiquei dividido entre o gostar e o sentimento de desrespeito, mas que profissionalmente preciso ver como olhos imparciais – só que nem tanto. A série escolheu recontar a história das Encantadas, irmãs bruxas que foram profetizadas serem os seres mágicos mais poderosos da Terra, e que juntas podiam evocar o Poder das Três. A escolha de contar com uma nova família que possui as Charmed Ones, pode ser visto como um tiro no pé, principalmente para os fãs da série clássica que tem um enorme carinho pelas irmãs Halliwell, e não aceitaram muito bem as irmãs Vera-Vaughn, enquanto que para aqueles que não conhecia a série clássica, pode ter sido satisfatória por explorar o melhor da mitologia e filosofia de Charmed.

Um ponto bem negativo de todo seu marketing foi ter dito que a nova versão seria mais “feministas” que a sua original, e para aqueles que assistiram sabem que a Charmed de 1998 foi uma série tão feminista que foi por muito tempo a série mais longa com apenas personagens principais femininas. Mas a nova versão mostrou o “mais” feminina que queria dizer: por ser uma série procedural, cada episódio era um caso, um demônio ou ser que colocavam as pessoas ou inocentes em risco, mas a cereja deste bolo vem da forte analogia que estes casos tentavam passar assuntos que muitas vezes são tabu ou são complexos para gerar uma discussão. E eles fizeram de forma tão afiada que vai ter episódios que você vai se identificar, ou compreender toda a dor do personagem.

Da questão racial que Macy (Madeleine Mantock) abre para suas irmãs por ser negra, e ter se afundado nos estudos para não ser alguém descartável; do caso de exploração sentimental no episódio da fada, que era obrigada a cometer crimes por estar “apaixonada” por um jovem homem branco. Questões de autoestima, preconceito de todos os gêneros e formas, a série consegue entregar a mensagem de luta pelas minorias ou pelos menos privilegiados, já colocando como protagonistas três mulheres não caucasianas. Outro ponto bem positivo que a série introduz é a diversidade dos estilos de magia, que não fica preso nas rimas inglesas, mas explora a magia de diversas culturas.

Mas apesar da narrativa entregar mensagens fortes e muito importantes para a sociedade, a parte mais “sensação Charmed” se perde como um todo. Partido das habilidades propriamente ditas, elas em nada lembram a base das habilidades originais, e mesmo com o excesso de elementos que referenciam-se com a série original, a sensação que fica é que eles quiseram inserir o máximo de elementos clássicos da mitologia, e não tiveram o cuidado de fazê-los coerentes nesta nova versão. O próprio Livro das Sombras é algo moderno e muito limpo, que não impõe o respeito do clássico velho Livro das Trevas que tinha personalidade, até em não dar a resposta a todas as perguntas e dúvidas em magia que as Charmed buscavam, sendo sim um personagem importante é quase central com muita personalidade.

Até mesmo tentar levar argumentos místicos da série para um lado mais científico destoa da imersão a mitologia e a história; a adaptação de colocar os Anciões como bruxas mais graduadas e não seres etéreos que comando as criaturas e bruxas; até a falta do preparo de poções, uma característica forte de Charmed Ficou reduzida ao clássico feitiço de Charming. Não existe um cuidado para apresentar a personalidade ou elementos situacionais para certos antagonistas, como tinha na série original.

Apesar do carisma dos personagens principais – que salva 50% o show – falta ainda uma lógica na mitologia que não pareça soluções forçadas e vindas do nada. As irmãs podem não parecer irmãs em seus primeiros episódios, mas ao longo da temporada, esse laço fraterno é melhor traduzido em tela, e você começa a acreditar de verdade da irmandade entres Melanie (Melonie Diaz), Maggie (Sarah Jeffrey) e Macy. O conceito dos Whitelighters, ou Luzes Brancas ganhou a famosa aparatação de outro universo bruxo, mas sem os dados orbes brilhantes que perderam o significado toda vez que eles usavam o termo Orbing quando se referiam ao teletransporte destes seres guias. Os efeitos especiais são bons – não podemos descartar que a série é produzida na mesma emissora do Arrowverse – mas ela não passa de uma série mais teen, que não é tão polida ou bem construída para criar maior empatia pelas personagens e ser crível a magia, e que força a introdução de inúmeros elementos clássicos da série de 1998, sem uma coesão na nova história.

Charmed não é a melhor série do universo – talvez na minha cabeça seja – mas a história das irmãs bruxas se apoia mais em representar assuntos tabu em uma sociedade caricatamente machista, com diversas mensagens positivas que são muito boas, mas que forçam a mitologia original e não insere de forma coesa diversos elementos que poderiam ter sido deixados para outras temporadas, e melhor trabalhados, mas que possui personagens muito carismáticos e mensagens mais incisivas sobre respeito a diferenças, e luta pelas minorias.

Charmed

6.5

Bebendo muitos os elementos do original, Charmed tents abraçar toda a mitologia construída por longos oito anos em apenas uma temporada, e explora diversas formas culturais da magia, e assuntos sobre racismo, preconceito e lida com o laço fraternal, que foge da série clássica, e aposta no carisma das personagens

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