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O Mecanismo (2ª Temporada)

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Séries e filmes sempre tiveram um papel importante na sociedade. Não apenas uma ferramenta de entretenimento e diversão, as histórias contadas, seja uma biografia, uma ficção baseada em fatos, ou uma fantasia, a sétima arte é um reflexo da sociedade que se propõe a representar, utilizando metáforas e maneirismos exagerados para criticar tudo ou levar um ensinamento nas entrelinhas. E as histórias baseadas em fatos além de informar levanta muitas questões sociais, e por isso, muitas vezes atacada gratuitamente e muitas vezes erroneamente. O Mecanismo é uma prova viva de que por lidar com uma assunto delicado da sociedade brasileira mais atual e questionar ideologias e doutrinas políticas, é atacada de diversos lados, e sua segunda temporada já chega respondendo essas críticas e se preocupa continuar sua história de forma imparcial.

Sempre ouvimos que existem três lados da história: a sua, a minha e a verdadeira. Não desmerecendo a verdade das histórias pessoais, mas nada é preto no branco, e o primeiro episódio da segunda temporada de O Mecanismo reforça essa ideia de que “mexer com ideologias é complicado. Se criticar a esquerda, te chama de fascista; se criticar a direita, chamam de esquerdista” e este pensamento narrado por Ruffo (Selton Mello) não serve apenas como respostas as críticas duras que a série recebeu em sua primeira temporada, como estabelece que a série não possui ideologias, nem as defendem.

E esta ideia é reafirmada quando o próprio Ruffo narra a definição de “Formação de Quadrilha”, exemplificando o lado direito e logo em seguida o lado esquerdo, e como a linguagem da série focará na justiça. Cega e imparcial.

A história segue momentos após o final da primeira temporada e desenvolve vários núcleos ao mesmo tempo, e de forma mais orgânica, a história já estabelece a situação de todos os envolvidos que terão foco nesta temporada. Enquanto a primeira temporada o foco era na investigação até a prisão de todos os empreiteiros que alimentavam a dança das cadeiras políticas, a segunda temporada, como previsto, desenvolverá a caçada de Ruffo para provar o envolvimento do único empreiteiro que não fora preso, Ricardo Brecht (Emílio Orciolo Netto).

Não apenas define as duas frentes que a história se desenvolverá, como insere novos dilemas dos personagens. Verena (Carolina Abras) que teve uma força importante na primeira temporada, não destoa em nada agora, mas é inserido o fator mais humano em sua personagem, como uma consequência dos eventos finais da personagem na primeira temporada; mesmo debilitada, ela ainda exerce uma força para continuar lutando pela justiça, quando a própria está corrompida e a impede de fazer seu trabalho. Sendo a protagonista de seu núcleo, ela carrega a história para frente com muita destreza.

Rapidamente vemos a importância do juiz Rigo (Otto Jr), que se tornará uma importante peça no futuro desta história bem conhecida dos brasileiros, mas que começa a ter sua conduta e ações questionadas, enquanto isso chega a sua família; paralelamente, o némesis de Ruffo, Ibrahim (Enrique Diaz) se movimenta novamente para o ilícito, sem grandes novidades.

Mas a história que realmente precisa prestar atenção está no núcleo do Ruffo, do Brecht e dos políticos: sem o grande foco a busca por provas contra Brecht, Ruffo segue uma investigação clandestina, quando suas ações acabam afetando sua família diretamente. Vemos pouco de Ruffo logo no primeiro episódio, mas sendo o kamikaze da operação – mesmo que clandestina – essa ruptura na relação com sua família pode ser o gatilho para se dedicar totalmente na sua sede por justiça.

Em contrapartida, Brecht se mostra o personagem que prometeu ser no final da primeira temporada: esperto, calculista e detalhista, ele está por trás de todas as peças que impossibilitam o avanço da polícia e de Ruffo, mesmo que se considera intocável, ele percebe que não é tão imune as consequências de seus atos.

O mais interessante deste primeiro episódio é como eles apresentam – de forma menos caricata – o núcleo dos políticos, e como não importa qual ideologia cada um segue, o que mancha sua reputação é suas ações como ser humano. De uma lado, opositores do atual governo planeja a tirada deles deixando a situação e informação engolir o partido, enquanto os apoiadores tentam controlar a presidente, que não acatar os desejos de livrar os apoiadores financeiros de todos os políticos da prisão. Aliado a demonstração de como este mecanismo de desenvolve temos a narração bem estilizada de Ruffo e como a justiça vê uma situação apresenta.

O Mecanismo é uma série que acima de tudo é para informar sobre uma mancha em nossa história, mas além de tudo é um reflexo da sociedade que vivemos, e além de entreter, carrega a crítica social necessária para a sociedade. Sem partido, sem ideologias e sem lados, a segunda temporada mantém sua narrativa investigativa, adicionando mais profundidade nos personagens mais secundários, e faz da explicação explícita e metafórica um artifício que ajuda na narrativa que muitos consideram chata e de difíceis palavras, e que se contrapõe a tensão gerada com um certo humor, e com uma contação de história mais fluida que a primeira temporada.

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